Um Selvagem Diferente

Capítulo 20 - Na Contramão


Quando abri preguiçosamente os olhos, a casa da árvore já estava parcialmente iluminada pelo dia que chegava de mansinho. Edward e eu ficamos de conchinha dentro do saco de dormir dele e cochilamos.

Era tão gostoso ficar entre seus braços e sentir sua respiração em minha nuca. Eu não queria sair dali, mas tinha que ajudar meus amigos e irmão a tocar o resort. Então, devagarzinho, me desvencilhei do selvagem e fui deslizando para fora do saco de dormir. Edward se mexeu um pouco, mas não acordou.

Na ponta dos pés, saí recolhendo minhas roupas do chão e vesti a blusa dele, fechando só alguns botões. Antes de abandonar o lugar, detive-me à soleira e fitei mais uma vez meu namorado. Ele dormia tão lindo e tranquilo que até me doeu deixá-lo, mesmo sendo por pouco tempo. No entanto, fiz um esforço e desci vagarosamente os gastos degraus.




Enquanto caminhava rumo à casa, enchia meus pulmões com o ar da manhã e sorria sem parar. Minha mente estava repleta de lembranças do que acontecera na madrugada e isso me fazia sentir incrivelmente viva e completa. Até me sentia do peso de uma pluma, como se meu ser estivesse em perfeito equilíbrio.


Perfeito equilíbrio? O pensamento fez meus pés travarem e meu sorriso esmorecer. Em súbito, larguei minhas roupas e calçados e simplesmente saí correndo.

Sabe quando chega um momento em que você precisa se testar? Necessita arrancar a venda da parte de si que às vezes sussurra “você não pode”? Por muitos anos ouvi esse meu pedaço falar e desanimei diante de situações em que eu podia ter vencido se ao menos tentasse.

Tentar era tudo que eu precisava. Sei que nem sempre podemos vencer, mas só tentar é o bastante para silenciar os excessos de insegurança que por vezes nos paralisam.

Diante da jaula do puma, decidi que eu estava pronta para tentar. Não cheguei a essa posição do dia para a noite, eu lutei por ela e agora me devia a chance de provar a mim mesma que todas as mudanças eram permanentes. Se Edward estivesse certo, o animal perceberia que havia algo de diferente e significativo em mim. Podia até ser um teste bobo, mas ao menos era palpável.

Sentido minha presença, o felino que antes dormia abriu seus grandes olhos amarelos e, segundos depois, se colocou de pé.


Sem saber o que esperar, levei a mão a um dos ferrolhos da jaula e puxei. Fiz o mesmo com os outros dois e, antes de abri-la, recordei as palavras de Edward da noite em que tentou me fazer tocar o animal.

“Te falta equilíbrio interior. O puma vê isso e tem dificuldade em confiar. Ele sente que está oscilando entre pavor e coragem, raiva e incerteza, conseqüentemente os instintos de autodefesa dele são acionados.”

Quando escancarei a jaula, assim como Ed havia alertado, o puma reagiu. Se esgueirando pela lateral esquerda da jaula, ele rosnou por entre suas presas pontiagudas. O som ameaçador fez os pelos da minha nuca eriçarem, ativando meus instintos de auto-preservação, os quais quase me fizeram fugir. No entanto, ignorando todos os riscos, dei um passo para dentro da jaula.

Imediatamente o felino transferiu seu peso para as patas dianteiras. Então projetou cabeça e os ombros para frente, contraindo as patas traseiras para o impulso do ataque. Mesmo lutando contra o medo, não pude deixar de pensar “e se eu sair daqui com o rosto deformado?”.

Rapidamente empurrei o mau pensamento para longe e, seguindo apenas minha intuição, dei outro passo à frente. Em resposta, o puma rugiu alto o suficiente para me fazer encolher os ombros. Com o coração martelando no peito, me ajoelhei fixando meus olhos no do animal. E, outra vez, a voz de Edward soou na minha cabeça:

“Não pode demonstrar medo. Tem que se impor, mas também precisa mostrar respeito... Bella, se ele te encarar, o encare de volta.”

E foi exatamente isso que fiz. Pela primeira vez não estava desviando o olhar ou gemendo de pavor. No fundo, eu sabia que devia manter o controle, pois tinha chegado num ponto sem volta. Nunca conseguiria ser rápida o suficiente para escapar da jaula caso o puma decidisse me atacar.

De repente, o ambiente ficou silencioso demais. O felino ainda estava em posição de ataque, mas tudo que podia ouvir era o som da minha própria respiração. Procurei me concentrar nela e no olhar defensivo do puma.

Aquele animal tinha uma importância para Edward que nem mesmo eu compreendia. Não era justo que até Jully conseguisse tocá-lo e eu não, pois eu também, do meu jeito, já era equilibrada e forte.

Convicta de que podia me impor, fiquei presa ao genuíno desejo de conquistar a confiança do puma. Só Deus sabe como era importante pra mim só tocar nele.

— Por favor... — Balbuciei esticando o braço com cautela.

Minha ação causou no animal um efeito inesperado. Ao poucos, seus músculos foram relaxando e ele saiu da posição de ataque. Motivada por isso, ainda sem desviar o olhar, rastejei para mais perto dele.

— Está tudo bem. — Sussurrei.

Mal acreditei quando puma desistiu de me ver como uma ameaça e simplesmente deitou sobre as patas. Perplexa, me aproximei um pouco mais; então, com os dedos trêmulos de empolgação, finalmente toquei a cabeça dele.

— Shh... Tudo bem. — Repeti com um sorriso que mal cabia no meu rosto. — Obrigada. Muito obrigada. — Fiz um carinho atrás da orelha do puma e, assim como um gato doméstico faria, ele fechou os olhos, totalmente descontraído.

Todo mundo tem uma maneira de se provar. A minha era derrubando mais um muro que separava o meu mundo do de Edward. Por isso, feliz da vida, apertei os olhos e ri baixinho, vibrando loucamente por dentro. Tinha conseguido exatamente o que queria: uma prova palpável de que eu era melhor agora do que jamais fui. E isso até um animal selvagem sentia.

— Estou impressionado.

Olhei para trás e lá estava Edward, do lado de fora da jaula. Só de calça e com o cabelo bagunçado, me parecia um tanto pasmo.

— Há quanto tempo está aí? — Perguntei confusa.

— Há quase um minuto. — Sorridente, entrou na jaula e se sentou ao lado do puma. — Como...? — Franziu o cenho sem abandonar o sorriso.

Entendia sua curiosidade, mas me limitei dando de ombros ao dizer:

— Acho que ele gosta de mim. — Cocei o pescoço do puma e ele bocejou tranquilamente.

O selvagem nada disse por alguns segundos, mas então murmurou:

— E quem não gosta? — Passou a mão pelas costas do animal, depois se deitou sobre a grama preguiçosamente. Fechou os olhos, recebendo os primeiros raios do sol sobre a face e o peito.

Edward e o puma, de certa forma, pareciam ser iguais. Ambos estavam fora de seu habitat natural, presos em uma terra que não lhes agradava. Como me sentia sortuda por ter driblado seus instintos de defesa e os alcançado.

(...)

Por volta das 7h da manhã, a primeira coisa que fiz quando Edward devolveu meu celular foi mandar a seguinte mensagem para Alice:

De: Bella

Para: Lice

[Quando vier para o resort, me traz a tal pílula do dia seguinte. E tire da cara essa expressão perva e apatetada que sei que está fazendo. Corre!]


Como era de se esperar, ela chegou à mansão em tempo recorde e invadiu meu quarto praticamente berrando:

— Como não usou camisinha?

— Hãm... Bom dia, Alice. — Quem respondeu foi Edward, sentado na minha cama só de toalha.

Minha amiga soltou uma risadinha envergonhada, então saiu e fechou a porta para começar do zero.

— Bom dia, danadinhos. — Disse escancarando a porta. — E aí? Quais as novidades?

Descarada...

— Com licença. — Sorri para Ed e puxei Lice para o corredor fechando a porta atrás de mim.

— Cadê sua educação? — Sussurrei só de roupão.

— Foi dar um passeio com seu juízo na casa do cacetete. — Deu-me um peteleco na testa. — Por que não usou proteção?

— Eu estava muito envolvida e queria dar a Edward uma experiência... — Suspirei, limitando as explicações. — Simplesmente aconteceu. Não vou repetir o erro. Trouxe as pílulas?

— Claro, né?! — Puxou uma caixinha do bolso do uniforme. — Mas antes me conte como foi. — Chacoalhou a embalagem mostrando que não ia entregá-la antes de conseguir o que queria.

— Foi... — Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e sorri meio sem jeito. — Perfeito. Foi muito mais do que eu esperava.

— Estou feliz por você, mas... — Revirou os olhos. — Ah cara, que merda! — Cruzou os braços, emburrada. — Sou a única que ainda não escangalhou o balacobaco nessas férias?! Até o Jasper, que é o Jasper, se lambuzou no melado.

— Ei, calma. — Abri os braços para dar ênfase. — Hoje ainda é quinta-feira. Temos o final de semana para nos divertirmos antes de ir para a faculdade. Os meninos estão preparando tudo pra festona de despedida na praia no domingo, meu pai chega na terça... Vai dar tempo de você enlouquecer também.

— É isso aí. — Ergueu a cabeça, determinada. — Vou sair “pegando” o primeiro sujeito que aparecer na minha frente.

Logo que Alice se calou, a porta da suíte à nossa frente se abriu.

— Pessoal, o papel higiênico acabou. — O pancinha estava só de samba-canção, e não era uma visão muito agradável.

— Sabe, eu quis dizer o segundo sujeito. — Lice fez uma careta de nojo e outra porta se abriu.

— Vamos trabalhar, malandragem? — Meu irmão apareceu vestindo a blusa do uniforme.

— Na verdade... — Ela fungou já choramingando dramaticamente. — O décimo quinto sujeito. — Se jogou nos meus braços.

— Estão economizando até papel higiênico nesse barraco? Onde é que esse mundo vai parar?! — Toby bateu sua porta violentamente.

(...)

Como dona Bogdanov não apareceu para trabalhar, Alice e eu ficamos encarregadas de limpar e cozinhar. Após lavar uma pilha de louça, nos arriscamos a preparar alguns pratos fáceis de um livro de culinária.

Sentada à mesa, picava cebola lacrimejando e Alice pilotava o fogão meio desajeitada. Foi aí que ouvimos murmúrios vindos da sala. Imediatamente minha curiosa amiga foi investigar e voltou correndo para fofocar.

— Parece que Emmett e Jazz estão tendo uma conversinha estranha com T-zed.

Larguei tudo que estava fazendo e corremos para entrada da cozinha, onde ficamos ouvindo escondidas atrás da parede. Abaixadas, demos uma espiada na sala e vimos os três sentados no sofá grande, distraídos demais para notar nossa presença.

— Será que eles brigaram? — Alice questionou aos sussurros, pois Emm e Jazz estavam muito carrancudos. Nem me lembrava da última vez que os vi tão sérios.

— Jasper vai ser mais direto. — Meu irmão se aproximou ainda mais de Ed e Emmett fez o mesmo, deixando o coitado do selvagem meio espremido no meio do sofá.

— Estou ouvindo. — Ele respondeu tão confuso quanto nós.

— Já sabemos tudo sobre o acordo de “namoro com dias contados”. — Emm não deixou de fazer as aspas com os dedos.

— Jasper está até feliz por vocês, mas a parada é a seguinte, parceiro: Se você comer a irmã de Jasper, o bicho vai pegar. — Ele até falou grosso.

— E vai pegar bonito! — Emm estalou os dedos da mão esquerda. — Vamos caçar você, serrar todinho com uma faca de pão, colocar em uma caixa grande e enviar para Malaita.

— E com remetente escrito com sangue. — Jazz completou, encarando enfurecido meu namorado. — O que tem a dizer em sua defesa?

Edward respirou bem fundo e comprimiu os lábios, sem saber o que responder. Ele até podia não estar com medo da ameaça, mas estava desnorteado por ter aquela conversa com meus irmãos, o de sangue e o de coração.

— Eu... — Coçou a testa. — E-eu acho...acho que...

Vendo o selvagem gaguejar, os meninos caíram em uma espalhafatosa gargalhada. Alice riu baixo e eu apenas revirei os olhos.

— Você é besta hein, T-zed?! — Emm deu um tapa nas costas dele, depois passou o braço pelos seus ombros. — Eita, colega, você finalmente furunfou. Jazz, nosso amigo não é mais zero quilômetro.

Boquiaberta, encarei Alice e sussurrei:

— Você contou pra eles?

— E era segredo? — Ela se fingiu de inocente.

Mostrei meu punho cerrado para Lice enquanto ouvia os meninos zoarem meu namorado.

— Jasper, pega a câmera. — Emm pediu em voz alta e voltei a espiá-los.

Tagarelando, meu irmão ergueu a Polaroid para enquadrar todos.

— É isso aí, véi! Sorria pra câmera, T-zed. Você agora é um homem.

Eles uivaram para tirar a foto e acabei rindo ao imaginar como Edward saiu nela.

Assim que os rapazes levantaram e vimos que se dirigiam à cozinha, Alice e eu corremos para o meio dela e tentamos disfarçar. Eu já nem lembrava o que estava fazendo antes.

— Pô, a esposa do Jazz ainda não apareceu? — Emmett foi o primeiro a chegar.

— A chupa-cabras não é esposa de Jasper! — Ele se irritou.

— Precisamos dela nesse final de semana, então vá buscá-la no hospício onde a encontrou. — Falei séria.

Jogando um pano de prato nele, Lice completou:

— A convença a vir. Diga a Bogdanov que você vai consumar o casamento de novo.

— Ah, meu Pai do céu... — Puxou os próprios cabelos. — Ela que se consuma sozinha! — Gritou antes de sair socando o ar.

Nós sabíamos que ele ia mesmo atrás da cozinheira.

— Vou junto com o desbravador de velhas. — Emmett correu para alcançá-lo.

(...)

Pouco depois que os rapazes saíram, Sarah chegou à mansão para se despedir do filho. Ela precisava ir para o Canadá começar as gravações de seu novo filme.

Eu quis lhe devolver o vestido que usei na festa, mas Sarah insistiu para que eu ficasse com ele. O mesmo aconteceu com Alice. Satisfeita com a visita, deixei mãe e filho a sós no escritório do meu pai para conversarem.

Antes de sair do escritório, não pude deixar de ouvir Edward falar que ia embora na quarta-feira. Ele o Dr. Carlisle certamente tinham seus motivos para não permanecerem no país mais do que consideravam extremamente necessário. Como eu podia questionar isso se meu tempo em Orlando também estava contado e a separação se tornava cada vez mais inevitável?

Edward e eu havíamos prometido que viveríamos um dia de cada vez para não tornarmos melancólicos nossos últimos momentos juntos, porém eu começava a sentir o peso de sua ausência.

Tentando lutar contra a tristeza, me juntei a Lice na cozinha e procurei me fazer útil. 20 minutos depois, Emmett e Jasper retornaram um tanto estranhos.

— E aí, cadê a estoniana? — Indaguei.

Meu irmão ajeitou o colarinho do uniforme e tomou a frente de Emm.

— Jasper tem uma notícia boa e outra ruim. Querem ouvir qual primeiro?

— A ruim? — Alice trocou um olhar comigo.

— A Bogdanov não vai trabalhar no final de semana.

— Ah, não... — Chateada, passei as mãos pelos cabelos. — E o que poderia ser a boa notícia?

Sorridente, ele respondeu:

— A véia morreu.

— O QUÊ? — Lice e eu falamos simultaneamente.

Boquiaberta, nem consegui piscar os olhos. Que coisa inacreditável!

— Isso é brincadeira? — Ela murmurou estarrecida.

— Sei que parece, mas eu estava lá e garanto que é verdade. — Emmett se aproximou. — Os vizinhos encontraram a mulher sentada na varanda de casa bem mortinha. Parece que enfartou. Até tirei uma foto. — Mostrou no celular.

O mais bizarro nem era a dona Bogdanov em um saco preto, e sim ver sua expressão quase sorridente. Logo me deu um baita arrepio que me fez tremelicar inteira.

— Credo, ela parece quase... feliz. — Alice comentou ainda perplexa.

Olhei para Jasper e me bateu uma revolta. O sangue me subiu à cabeça e imediatamente peguei o jornal que estava sobre a mesa e comecei a espancá-lo.

— Como você me fode a velha e a mata de felicidade? — Vociferei lhe “descendo a lenha”.

— Sai! Sai do pé de Jasper! — Se esquivou das jornaladas. — Não toca ni mim! Antes ela de felicidade do que Jasper de desespero.

— Chega dessa merda. — Emmett tomou meu jornal. — Vamos fazer um minuto de silêncio pela cozinheira e colocar uma pedra nesse assunto.

Vagarosamente, inspirei e expirei, recuperando o controle.

— O cara tem razão. Vamos mostrar um pouco de respeito. — Jazz cruzou as mãos atrás do corpo. — Em homenagem à estoniana, Jasper vai recitar um versinho.

Concentrados, baixamos a cabeça em luto.

— Por favor, seja sincero. — Alice balbuciou e ele precisou pigarrear antes de começar.

— Aí vai... Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão. Bogdanov me deu sua ximbimba e morreu do coração.

Abismados, o encaramos. Emmett reconheceu a fúria em meus olhos, então me devolveu o jornal.

— Pô, foi de coração! — E essas foram as últimas palavras do meu irmão.

(...)

Cerca de 40 minutos se passaram até Sarah e Edward abandonarem o escritório e me encontrarem sozinha no jardim. Me abordaram no momento exato, pois eu estava prestes a me perder num redemoinho de palpites tristes sobre o futuro.

— Já dei uma passadinha na cozinha e me despedi do pessoal. Espero que não esteja fugindo de mim. — Sarah brincou enquanto me estendia a mão. — Bella, estou feliz por vocês. — Trocou um olhar com o filho. — Muito feliz mesmo.

Apesar do sorriso, Sarah estava com as bordas dos olhos vermelhas e inchadas. Sua dor por se separar mais uma vez do filho chegou a mim. Quis falar algo reconfortante, mas naquele momento não era capaz.

— Agradeço por tudo. — Retribuí o sorriso.

— Nos veremos em breve. Se for a Los Angeles, não deixe de me procurar.

— Claro. — Infelizmente sabia que isso não ia acontecer.

Sarah continuou apertando minha mão e, pelo jeito que me olhava, ainda tinha algo a dizer.

— Com licença, Edward. — Ela me conduziu para longe dele e pôde falar abertamente. — Sei de tudo que fez pelo meu filho e como o aconselhou a me dar uma segunda chance. Bella, você tem minha eterna gratidão. — Tudo que dizia soava bastante sincero. — Quero que me veja como uma amiga que estará sempre a seu dispor.

Por não esperar aquele tipo de declaração, demorei alguns segundos para reagir. Afinal, não é todo dia que sua atriz favorita e sogra temporária demonstra tamanho carinho e consideração por você.

— Eu... — Balancei a cabeça sem saber o que responder. — Também sempre estarei a seu dispor, Sarah. Muito obrigada. — Por fim disse, dando-lhe um forte abraço.

— Desculpa, sou uma bobona emotiva. — Ao nos separarmos, limpou os cantos dos olhos.

— Entendo que tudo relacionado a seu filho te deixe assim.

— Deus, como vocês são corajosos... — Comentou já se recompondo e percebi que se referia ao nosso breve namoro. — A maioria das pessoas se esquiva de relações assim temendo a dor que vem com a separação.

Sem querer, desviei o olhar e engoli em seco. Na mesma hora tentei bloquear qualquer pensamento relacionado a essa tal dor. Sarah notou minha mudança de humor e tocou meu ombro.

— Vai dar tudo certo, Bella. De algum jeito.

— Posso te fazer uma pergunta pessoal? — A encarei esperançosa.

— Claro.

— Se arrepende de não ter ido com o Dr. Carlisle para Malaita?

Sarah olhou de relance para o filho, mas fui eu quem tomou a iniciativa de nos afastarmos um pouco mais. Após uma breve reflexão, ela respondeu baixo.

— Eu fui atrás dele, Bella. Meses depois de Carlisle ter se instalado na ilha, cruzei o mundo para encontrá-lo e levei Edward comigo. Odiava os ideais utópicos de Carlisle, mas o amava mesmo assim. — Passou a mão no rosto como se revivesse a época. — Não fui pra lá com a intenção de abandonar meu filho. Eu fui para ficar.

Fez uma pausa e finalmente percebi que a história que Ed me contara não estava completa. Ainda assim, tentei não pressionar Sarah, mas ela viu que eu precisava de respostas.

— Queria muito ter me adaptado, mas não vou mentir pra você... É outro universo, Bella.Tudo bem que é um lugar lindo, só que é como se todo o resto do mundo desaparecesse. — Havia certa melancolia em sua voz. — É como se surgisse um grande nada entre você e as florestas. Para encontrar humanos é necessário percorrer quilômetros e eles nem falam nossa língua. Tecnicamente nem existem e não deixam ninguém se aproximar.

— Edward descreve como se fosse o lugar mais perfeito do mundo. — Argumentei com pesar.

— E para ele é, pois se tornou parte de Malaita. Queria que o mesmo tivesse acontecido comigo, mas infelizmente... sufoquei. Entendi o verdadeiro significado da expressão “um peixe fora d´água”. Tentei com todas as minhas forças, mas eu não pertencia àquele lugar, entende?

— Entendo. — A compreendia mais do que ela imaginava.

— Na época eu era uma atriz sonhadora e desempregada. Estava com o coração partido e nem sabia o que fazer da vida. Deixar Edward com Carlisle, que sempre foi maduro e decidido, me pareceu a melhor opção.

— Por favor, não precisa se explicar. Não estou te julgando.

— Eu sei. — Sorriu tristonha. — Só queria que soubesse a verdade. — Sarah me analisou por um segundo. Tinha certeza que enxergava algo embutido em meus olhos que outros sequer percebiam. — Bella, desculpa, mas me sinto na obrigação de dizer... — Respirou fundo demonstrando cautela, depois prosseguiu com a voz suave. — Assim como Carlisle, Edward nunca vai deixar Malaita. Sei que parece uma grande bobagem esse apego à ilha, eu mesma passei anos tentando entender e até hoje não consigo completamente. — Mais uma vez, mediu as palavras. — Isso não significa que ele não gosta de você. Todos têm limitações, existem coisas que podemos fazer e oferecer, e outras que não. Não sei se existe uma explicação lógica... Talvez as mesmas forças que te impedem de ir e alimentam o sentido de que aqui é seu lar sejam as mesmas forças que mantém as raízes de Edward e Carlisle fincadas em Malaita.

— O que eu faço? — Cobri o rosto com uma mão, lutando para não parecer desesperada.

— Não sei. — Esfregou meu braço consolando-me — Ou melhor, dê continuidade à sua idéia. Vá em frente. Viva com desespero tudo que tem pra viver e deixe o resto pra depois. Não esmoreça justo agora.

— Estou tentando, mas especialmente hoje está difícil não pensar no futuro. — Arfei, voltando meu olhar para a rua a poucos metros de nós.

Sarah passou um braço por meus ombros buscando me confortar.

— Vou soar muito, muito estúpida, mas sugiro que não abra mão de agir feito uma verdadeira protagonista.

— Como assim?

— Com humor e otimismo, salve esses últimos dias. Tenha certeza de que sempre haverá um final feliz, mesmo que não seja o esperado. E se isso não acontecer, é porque a história ainda não chegou ao fim. — Ouvi o tilintar de sua risada baixa.

— Isso parece uma fala de seus filmes. — Sem mal perceber, já estava sorrindo.

— E é. — Afirmou com certo constrangimento. — E olha, eu escrevo alguns roteiros. Fazer o quê? Sou uma mulher de frases de outdoor.

— Você é uma estrela, independente de ser famosa ou não. E conseguiu levantar meu astral com sua fala de outdoor. — Meu sorriso se tornou maior e pleno. — Obrigada.

— Vamos, Edward deve estar achando que estou bancando a sogra bisbilhoteira.

Visivelmente satisfeita, Sarah deu mais um abraço no filho e se foi, já deixando saudades. Senti-me aliviada por ter tido aquela conversa com ela, pois foi honesta comigo quanto à ilha, sem tirar-me a esperança de que tudo acabaria bem.

Assim que ficamos sozinhos, Edward sem rodeios virou-se para mim e perguntou:

— O que tanto conversou com minha mãe?

Bancando a misteriosa, puxei-lhe pela camiseta até a casa, respondendo:

— Papo de mulher, Ed. Só papo de mulher.

(...)

Depois do almoço, fiz Edward me ajudar a levar vários edredons, almofadas e lençóis para a casa da árvore. Improvisei uma cama e ficou bastante confortável. Claro que me desculpei por não ter tomado aquela atitude antes, porém Ed me garantiu que não se importava.

Também descolei uma extensão elétrica para instalar um abajur antigo no lugar. Era um globo que ganhei de minha mãe no meu aniversário de 15 anos. Quando o girávamos, refletia nas paredes pequenas luas e estrelas.

O que não podia faltar? Música!

The Corrs - Breathless

Sequestrei o mini system de Jasper e coloquei um bom CD para tocar. O selvagem sentou sobre os edredons e ficou me observando.

— Ed, preciso te confessar uma coisa. — Ainda de pé, preparei o terreno.

— Estou ouvindo.

— Eu meio que... — Sorri embaraçada. — Encontrei de forma propositalmente... acidental... seus desenhos. — Torci para não deixá-lo chateado.

O cara ficou quieto por um instante, daí coçou a nuca ao responder:

— Sou só metade do maníaco que aparento ser.

— Não está bravo comigo? — Estranhei, ainda com o pé atrás.

— Hmm... Na verdade, não. Só é esquisito saber que viu os retratos. Pareço muito... obcecado? — Franziu o cenho, comprimindo os lábios.

Nem dava para responder, apenas sorri estudando sua expressão fofa de preocupação. Que tipo de louca reclamaria de tal “obsessão”? Então, meio contagiada pela música, fixei meus olhos nos dele e cantarolei baixinho:

— And if there's no tomorrow, and all we have is here and now, i'm happy just to have you... (E se não houver amanhã, e tudo o que temos for aqui e agora, eu estou feliz apenas por ter você...)


Edward não perdeu tempo e veio até mim. Seus olhos estreitinhos por causa do sorriso largo, combinado com o ar de despretensioso conquistador, literalmente me tiraram o fôlego.

...

Simples como tudo devia ser, demos continuidade a uma época que se tornava inesquecível.


Meus amigos, cientes da importância daquele tempo, nos presentearam com algo preciosíssimo: paz. Ninguém encheu o saco e não me deixaram trabalhar.

Edward e eu perdemo-nos nas muitas horas. Datas se tornaram imperceptíveis, e tudo se resumiu a momentos. Apenas momentos.


Provamos de uma vida... perfeita!



“Sai, sai, sai...”, berrei assustando Emmett, que se encolheu contra o corrimão para que eu disparasse escadaria abaixo.


Edward ficou na minha cola e, incansável, perseguiu-me até o escritório. Assim que invadi o cômodo, fechei a porta atrás de mim, mas não deu tempo de trancá-la e Ed me venceu pela força.


“Tudo bem...”, ergui as mãos me distanciando dele. “Sou fraca pra essas coisas. Tenha dó!”


O selvagem ficou parado em frente à porta, mostrando que não me deixaria fugir.


“Tem razão”, desarmou seu olhar ameaçado. “Vamos comer então” - deu de ombros.


“É melhor”, recuperei o fôlego caminhando até ele.


Ao colocar as mãos em minha cintura, o fingido de propósito caiu no chão e me levou junto. Habilmente me aprisionou e conseguiu exatamente o que queria: minha panturrilha.


Para o meu azar, descobrimos acidentalmente que nada no mundo me causava mais cócegas do que mordidas na panturrilha.


“Aaaah... Jaaaa....aaazz!”, me contorcia já com dor no estômago de tanto rir.


...


Escancarei a porta do banheiro e avistei Edward deitado na minha cama esperando-me. Totalmente caracterizada de Charlene Créu-Créu, enrolei o chiclete no dedo, falando:


“E aí, princeso?”, sacudi o cabelo, lançando-lhe meu olhar fatal.


O selvagem gargalhou super alto, em seguida respondeu:


“E aí, prínsapa?”


Pisquei o olho, depois teatralmente deslizei pela coluna da porta de modo apelativo e sensual, lhe provocando mais risadas de incredulidade.


“Uau, você sabe seduzir.” - Pois não é que o meu pedaço-de-mau-caminho tirou sarro de mim?!


“Tou te dando muita confiança, viu, neguinho?!”, puxei pra baixo a barra do vestido escandaloso. “Vou te contar, em época de guerra quando você pede chicletes leva bala.”


Me fingido de ofendida, marchei rumo à porta e Ed se colocou na frente dela. Bancando a difícil, continuei mascando o chiclete enquanto girava o colar de pérolas falsas.


“O que é aquilo?”, ele apontou e, confusa, olhei para trás.


Quando dei por mim, Edward já tinha me colocado em seu ombro como um verdadeiro homem da selva.


...


Sister Hazel - All for You


Todo mundo dormia, mas Ed estava na cozinha comigo pra descobrir como é um genuíno brigadeiro de panela.


“Tá quente! Tá quente!”. Com ajuda de panos de prato, corri para colocar a panela sobre a mesa. “Vamos esperar esfriar.”, sentei na ponta da mesa e o selvagem, que estava numa cadeira, me puxou para mais perto dele.


Só de shortinho e camiseta, usei um lápis para prender meu cabelo em um coque.


“Vai demorar?”, ele olhou pra panela.


“Não seja impaciente. Garanto que valerá a pena.”, peguei a colher de pau melada de brigadeiro e comecei a soprar nela.


Edward passou a tamborilar os dedos sobre a mesa e percebi que não estava agüentando esperar. Continuei soprando até que, de repente, ele me roubou a colher e enfiou parte dela na boca.


“Merda!”, falou após se queimar.


“Você xingou?”, embasbaquei legal. “Caraca, falou um palavrão de verdade!”, ri mal acreditando.


“Err...”, franziu o cenho, estranhando a si mesmo. “Devo ter passado tempo demais com Emmett e Jasper.”


“Vem cá.”, sem sair da mesa, abri as pernas me ajustando à posição em que ele estava na cadeira. “Parece tão malvadão xingando.”, brinquei e Ed riu. “Você é uma daquelas pessoas que às vezes até pensam em palavrões mas nunca verbalizam?”


“Sou.”, assentiu comicamente.


“Reafirmo: malvadão.”, ironizei me curvando para beijá-lo e, quando consegui, Edward gemeu. “Ai, desculpa, sua boca está doendo, né?!”


“Está.”, subiu as mãos por minhas coxas. “Mas me beije mesmo assim.”


Ele me abraçou forte e, empolgada com o pedido, fui com tudo pra cima dele. Não foi boa idéia, porque a cadeira simplesmente virou pra trás, nos derrubando no chão com estardalhaço.


Mesmo com os joelhos doloridos, assim que pude, rolei pro lado e fiquei estendida no chão morrendo de rir do coitado do selvagem. Suas costas foram a maior vítima de nossa peripécia.


“Isso foi castigo do universo pelo que fez com minhas panturrilhas. Ainda vai fazer de novo, bonitão?”, provoquei.


“Hãham...”, soltou uma encorpada e sexy gargalhada.


...


Tudo que eu sabia é que já era dia, mas Edward e eu nos escondemos do sol embaixo do edredom. Antes tínhamos feito amor apaixonadamente, e agora só conversávamos.


Erguendo o edredom para me olhar sob a falsa noite que criamos, ele explicava que seu rito de passagem não era tão ruim comparado aos de algumas tribos espalhadas pelo mundo.


“Na Etiópia tem a tribo Harmar, onde os jovens precisam saltar por cima de vacas enfileiradas quatro vezes sem cair. Isso ocorre com o jovem nu, como um símbolo da infância que ele deixa para trás.”


“Tá de onda?!”, escancarei a boca. “Isso é sério? Como faço pra mandar meu irmão pra lá?”


“É difícil imaginar Jasper pelado no meio de vacas.”


“Cala boca!”, implorei me acabando de rir, já que eu consegui imaginar.


Assim que me recuperei, tratei de mudar de assunto.


“Por que naquele dia no parque desistiu de me contar o significado do nome da sua puma?”


Ele sorriu mordendo o lábio e isso me deixou mais curiosa.


“Na época preferi não expor a coincidência.”


“Que coincidência?”


“Indonésio é um dos idiomas mais falados nas Ilhas Salomão. Quando ganhei Indah, uma das primeiras coisas que pensei foi: ela é bela.”


“Espera.”, precisei de um segundo. “‘Indah’ significa bela?”


“Sim.”


“Uau, que estranho.”, soltei uma risada me acostumando lentamente com a idéia.


“É só uma interessante coincidência, Bella.”


“Eu sei.”, deitei em cima dele e Edward começou a passar as pontas dos dedos por minhas costas. “Sabe o que também é interessante? Nós. A maioria dos casais primeiro só enxerga as qualidades da outra pessoa, bem depois é que conhecem os defeitos e geralmente se decepcionam. Conosco foi diferente, primeiro tivemos que lidar com os defeitos do outro, só então as qualidades vieram à tona.”


“É verdade.”, sussurrou.


Ficamos com os rostos bem próximos sem nos beijar. Encarávamo-nos sob a branda escuridão, envoltos no calor dos corpos momentaneamente saciados.


xxx


Diário de Bordo - Edward Cullen


Orlando, EUA.

Esses últimos três dias que passei com Bella foram incríveis. Nunca os esquecerei.


Na quinta-feira, depois que minha mãe foi embora, ela puxou-me para seu quarto e me fez ajudá-la a trazer vários edredons, lençóis e almofadas para a casa da árvore. Bella improvisou uma cama e ficou confortável.


Na hora do almoço, nos juntamos a Jasper, Emmett, Alice e os hóspedes. No final das contas a refeição ficou muito boa e Alice desatou a se vangloriar. Enquanto Bella obrigava Emmett e Jasper a lavar a louça, fiquei sentado na sala conversando com Bruce Jones, o pai do incorrigível Toby.


Minhas conversas com Bruce são sempre interessantes. Ele é um homem culto e com idéias inteligentes, infelizmente não tem muitas oportunidades na vida. Conhecê-lo só agora chega a ser irônico, pois meu antigo desejo de um criar vínculo com alguém dessa terra que tivesse pensamentos semelhantes aos meus acabou levando-me a deixar que Jully criasse falsas expectativas. Me arrependo de todos os mal-entendidos e espero que ela encontre o que procura. Quanto a Bruce, só posso lamentar não tê-lo conhecido antes.


Ainda assim, fiz amizades que me modificaram permanentemente. Emmett e Jasper aprenderam a confiar em mim e eu aprendi a confiar neles. Embora estejam sempre brincando, são homens de valor. Mostraram garra ao seguirem cegamente minhas instruções de Krav Magá. Acordaram cedo todos os dias para se exercitar sem que eu os pressionasse. Acho que Bella não sabe, mas houve momentos em que conversamos sério. Eles se mostraram abertos aos meus valores e, em contrapartida, me incentivaram a ser alguém mais descontraído. Até tiraram minhas dúvidas sobre assuntos em que meu conhecimento era superficial e teórico.


Já Alice, é uma mistura singular de boa vontade, otimismo e demência. É uma ótima pessoa e nota-se que, independentemente dos acontecimentos, estará sempre disposta a ajudar os amigos. Alice contribuiu muito para que Bella e eu nos tornássemos um casal. Aquela pequena e hilária garota tem minha gratidão.


Dentre as amizades que eu não esperava consolidar, está a de minha mãe. Em pouquíssimo tempo mostrou suas boas intenções e me ajudou em um momento decisivo. Meu conceito sobre ela mudou. Mesmo que hoje não consiga vê-la como parte fixa da minha vida, modificou as lembranças que carrego dela e obteve minha estima. Nossa última conversa foi agradável, não pareceu uma despedida, e sim um reencontro.


Quanto a Bella... O que mais posso escrever sobre ela? Foi a pessoa que mais citei neste diário. Agora está dormindo no emaranhado de edredons e almofadas que trouxe. Nua por baixo do lençol, deixa à mostra a perfumada pele de suas costas e pernas.


Acho que não consigo descrever corretamente como é fazer amor com Bella. Ao contrário do que eu imaginava, é bem mais sensorial, instintivo e emocional. Não se compara a nenhuma outra experiência que já tive. Todos os toques e beijos são tão prazerosos... Meu corpo ainda não está completamente acostumado com as diversas sensações. Boa parte das vezes, acabo cedendo ao impulso quase violento de tê-la.


Admito que Bella ainda me deixa um pouco nervoso, mas não por medo de eu fazer algo errado, e sim por provocar em mim uma inexplicável ansiedade, quase ganância. O jeito com que ela me olha, que atiça mesmo brincando... Eu fico completamente louco. Geralmente nem consigo pensar em nada, só a quero de todas as formas. Engraçado, uma das coisas mais interessantes que aprendi sobre sexo foi que ele sempre pode ficar melhor.


Foi como na madrugada em que corremos o risco de sermos flagrados mergulhando sem roupa na piscina. Bella estava tão linda sob a luz da lua que meu peito até pareceu crepitar. Por mais fria que a água estivesse, meu corpo cedia facilmente ao calor gerado pelo desejo.


Eu a tinha em meus braços... Ela era, e é tão minha, como se nunca tivesse sido de mais ninguém. E foi na parte rasa da piscina, entre beijos quentes e nada ponderados, que trocamos carícias inigualáveis. O que fizemos depois, e continuamos fazendo sempre que dá vontade, é algo tão natural e ao mesmo tempo especial. Com isso é possível?


Para ser honesto, não tenho uma resposta. E o bom é que não me importo. Já não sinto a necessidade de ter uma explicação para tudo. Muito menos o desejo de analisar o que se passa na minha vida. Nesse diário, levantei mil questões, agora só me resta concluir que não há conclusões exatas. Certas coisas são para serem vividas e não compreendidas. Assim como Bella e eu, indo na contramão de nossa realidade, sem nos importarmos com as consequências. Por isso tem sido fácil não pensar no futuro com tudo que tenho vivido. Quando estou com Bella, a única coisa que nos separa é o ar.


xxx


Mesmo não percebendo, o tempo passou e, quando dei por mim, já era sábado.

Por volta das nove da noite, meus amigos eu e nos reunimos na sala. Na formatura, combinamos de montar um álbum de recordações com as melhores fotos que tiramos no decorrer dos anos. Agora com tempo e disposição para finalmente realizar a tarefa, nos divertimos revendo as dezenas de fotos que ficaram esquecidas em caixas e envelopes no fundo do meu armário.

— Tenho certeza de que a foto de Jasper só de sunguinha e pochete está aqui. — Lice esvaziou mais um envelope sobre a mesa de centro, aumentando consideravelmente a bagunça.

— Nem vem, era moda na época. — Ele embaralhou as fotos para dificultar a busca dela.

Estávamos sentados em volta da mesinha e eu tratei de encher a taça do pessoal com vinho. Após uma breve insistência minha, o selvagem aceitou uma taça mesmo não esquecendo que da última vez que tomou vinho confessou até o que não devia.

— Jasper quer aproveitar a reuniãozinha pra dividir os lucros entre os brilhantes empreendedores. — Chacoalhou acima da cabeça quatro envelopes. — Claro que as despesas ultrapassaram o previsto e torrei uma grana pra enterrar a estoniana. E, cara, foi um dinheiro bem gasto! — Distribuiu os envelopes.

— Que empolgante. — Peguei minha parte e voltei a sentar entre as pernas de Edward, apoiando as contas em seu peitoral.

— Será que dá pra escutar o som da caixa registradora da loja dos meus sapatos novos? — Lice colocou seu envelope junto ao ouvido.

— Nem acredito que ralamos um mês inteiro por essa grana. — Emmett sorriu satisfeito, em seguida cheirou o envelope.

— Bora, galera, abre aí. — Meu irmão ficou impaciente.

— No três? — Sugeri ansiosa.

Abrimos os envelopes ao mesmo tempo, mas foi Emm que verbalizou o pensamento coletivo:

— Que foda!

Houve um momento de silêncio.

— Diz que é brincadeira... — Fulminei Jazz com o olhar. — Um vale pizza da pizzaria Irmãos Bolonhesa? Trabalhamos duro pra ganhar só esses vales?

— Tão pensando o quê? Jasper fez o que pôde. — Ranzinza, cruzou os braços. — Até parece que Jasper tem culpa. Bando de gentinha sem noção.

— Com licença. — O selvagem chamou a nossa atenção. — Alice está bem?

Só aí notamos que ela fitava o vazio, pálida e com o lábio inferior tremendo. Estaria catatônica?

— Lice? — Preocupada, a cutuquei.

A louca tomou fôlego, arregalou os olhos e então...

(...)

— Meu ouvido está sangrando? — Pedi a Edward para dar uma olhada.

— Não. Espero que o meu também não esteja. — O coitado ainda estava meio desorientado.

— Ai minha cabeça... — Emmett massageou a testa.

Alice soltou uma risadinha envergonhada, então começou a se desculpar.

— Acho que posso ter exagerado um tiquitinho de nada nos gritos de desespero e agonia. — Timidamente tamborilou os dedos sobre os lábios. — Minha mãe sempre disse que tenho uma garganta potente.

— Tudo bem, Jazz, respira. Já acabou. — Rastejei para afagar os cabelos do meu irmão, o qual ainda estava deitado encolhidinho no chão cobrindo os ouvidos com as mãos. — Agora está seguro, pense em coisas bonitas.

De repente, a campanhinha tocou.

— Pizza! — Alice levantou num pulo e foi correndo atender a porta.

Vários minutos se passaram até nos recuperarmos completamente. Sem alternativas, aceitamos o fato de que não lucramos nadica, mas que apesar dos pesares realizamos nosso sonho de infância de gerir um minúsculo resort. E quer saber? Não foi nada ruim. Nada mesmo!

— Vou te contar... — Limpei a boca após devorar outro pedaço de pizza. — Essa foi a pizza mais gostosa que já comi em toda minha vida. Eu juro!

— E a mais cara... Se é que me entendem. — Emm riu de boca cheia.

Ela quase tinha um gostinho de realização.

— Deixa Jasper provar da sua. — Meu irmão ousou meter a mão na pizza de Alice e levou um tremendo puxão de cabelo. — Aiiiêêê! Que diabo é isso, mulher?!

— Esse é o fruto do meu suor, não vou dividir justo com você. — Ergueu a caixa sem perceber que estava com o queixo sujo.

— Tem uma coisa que não entendo. Por que vão para universidades diferentes? — Edward se manifestou mudando o foco da conversa.

Involuntariamente suspiramos ao mesmo tempo. Aquele era um assusto que por bastante tempo nos torturou.

— Jasper vai para a Niagara University, porque sempre quis morar em Nova York. Sabe como é... Lutar pela sobrevivência na grande maçã. — Meu irmão bancou o tal e o corrigi.

— É que ele só foi aceito lá.

— Bella! — Me repreendeu.

— Só estou dizendo a verdade. — Zombei.

— Meu avô e meu pai estudaram em Northeastern. É meio que uma tradição familiar. Eu nem tive muita escolha. — Emm entornou o vinho.

— Logo estarei em Princeton. — Lice colou mais uma foto no nosso álbum. — Uma das minhas tias mora lá. Ficar com ela me fará economizar a grana que nem tenho.

Edward inclinou a cabeça para me fitar, esperando que eu me pronunciasse.

— Ah, você sabe que vou para Yale.

— E qual a justificativa? — Insistiu.

— Minha mãe está bancando, então ela que escolheu. Cavalo dado não se olha os dentes. — Dei de ombros. — E considere um milagre, porque minhas notas... — Gemi alto.

— Gente, notaram que essa pode ser a última vez que nos reunimos aqui, relaxando como pré-universitários? Quero dizer, depois tudo vai mudar. Nos veremos esporadicamente... — Lice viajou olhando para o teto. — Então um dia desses nos formamos e talvez casemos. Vamos colocar alguns pirralhos no mundo e...

— Engordar e morrer. — Jasper completou.

— Vocês animam legal, hein?! — Emm nos serviu mais vinho.

— Pelo menos já sabemos quem engordará primeiro. — Jazz encarou Alice e ele não estava brincando.

— Sua vontade de apanhar me impressiona. — Ela rosnou bastante ofendida.

— Tirando o desbravador, quem será que vai casar primeiro? — Emm levantou a questão.

— Talvez nunca nos casemos. — Brinquei para não ter que pensar em nossos desfechos. — Então quando tivermos uns 50 anos, largamos tudo para vir morar aqui.

— Tenho o forte pressentimento de que Jazz já terá batido as botas. — Alice não deixou passar. — Provavelmente overdose de viagra.

— Tem gente que leva tudo pro lado pessoal. — O idiota comentou com Edward, fazendo-o rir.

Ainda estava nos imaginando com 50 anos quando Emmett começou a zombar de mim.

— Woohoo... Que fotinha é essa, dona Bella? — Gargalhou olhando-a de perto.

— Do que está falando? — Me perdi.

— T-zed, você precisa dar uma olhada. Belita está sentada aqui com o cofrinho todo aparecendo. — Tentou passar a foto pra ele.

— É mentira! É mentira! — Claro que não era. Morrendo de vergonha, me esforcei para impedir que a foto chegasse a Ed, mas infelizmente ela rodou na mão de todo mundo até chegar às dele. — Odeio vocês. — Baixei a cabeça para não vê-lo analisando meu mico.

Só depois de alguns segundos foi que senti a ausência de sua risada. Resolvi lhe encarar e me surpreendi ao vê-lo sério, só que um tanto vermelho e comprimindo os lábios. Daí concluí que tinha gargalhado sim, só que em silêncio e ainda tentou disfarçar quando o fitei.

— Dissimulado. — Estreitei os olhos.

— Bem, como vocês dizem... — Enfiou a foto no bolso da coxa. — Altamente coisativo.

Não deu outra, rimos loucamente, pois nunca, nunca imaginamos que o “rei da floresta” falaria aquilo. Animados, abrimos outra garrafa de vinho e nos empenhamos na escolha das fotos para impedir que Lice colasse só as que ela queria por estar bonita nelas.

Mais uma vez, a campainha tocou, só que agora não podia ser entregador de pizza. Emmett foi intimado a atender a porta, mas nossa atenção se voltou para ela no momento em que a voz dele abafou nossa conversa.

— Rosalie? — Surpreso, ainda mantinha a mão na maçaneta.

— Oi. — A loira sorriu timidamente. — Tudo bem?

Não pude deixar de notar a mala ao pé da vagaba. Imediatamente Alice e eu trocamos um olhar de desgosto.

— O que aconteceu? — Emm não pareceu entender as intenções da mulher.

— Posso falar com você a sós?

Emmett virou o rosto, relanceando os olhos sobre nós. Ficamos quietos, dispostos a aceitar e apoiar suas decisões.

— Pode falar. Não tenho segredo com o pessoal.

Rosalie gemeu baixo, visivelmente insatisfeita com a exposição.

— Senti saudades, Pudim. — Sussurrou sensualmente. — Por isso decidi voltar.

Emmett balançou a cabeça mostrando que a entendia. No entanto, não deixou de perguntar:

— No bilhete que deixou disse que ia correr atrás de alguém que pudesse lhe abrir caminhos, achei que estaria...

— As coisas não acontecem como planejo. — O interrompeu, tocando-lhe o braço. — Sei que às vezes sou meio estúpida, mas a verdade é que gosto de você, querido. Seria uma boa ficarmos juntos.

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— Tem razão, Rosalie.

— Tenho? — Ela sorriu exibindo seus dentes perfeitos.

— Você é estúpida. — Emm riu sem humor, porém logo deu a sua voz e expressão a seriedade necessária. — Traiu minha confiança e a de meus amigos nos roubando. Mesmo depois de termos te dado um teto e comida. Me fez sentir um nada porque eu não tinha grana pra te bancar. Daí agora volta achando que é só estalar os dedos que vou lamber seus pés?

— Não, amor. Não está entendendo...

— Posso não ter dinheiro, mas tenho o meu valor. — Alinhou a postura.

— Eu sinto muito. — Tentou persuadi-lo com a voz chorosa.

— Não, Rosalie. Eu é que sinto muito por isso. — Emmett simplesmente bateu a porta na cara da interesseira. Ao virar-se para nós, salientou a decisão com um sorriso debochado. — Que se foda! Sou mais feliz solteiro.

Pink - Raise Your Glass

Esse era um daqueles momentos em que ninguém consegue esboçar reação devido ao espanto. Nosso amigo já não era o mesmo molecão carente de sexo do colégio. Emmett se tornara um homem consciente de que não é qualquer uma que o merece.

Explodindo de orgulho dele, rapidamente levantei e corri para dar-lhe um abraço apertado, claro que Alice imediatamente se juntou a nós. Estava feliz de vê-lo superar a mulherzinha que só nos trouxe desgraça.

— Aê, maneiro. — Jazz ficou de pé. Meio sem jeito, enfiou as mãos nos bolsos. — Jasper até te daria um abraço de apoio, irmão. Só que esse lance é muito gay.

Lice e eu encaramos o idiota lhe enviado ameaças silenciosas.

— Ah, tá bom... Que se dane! — Contente, ele chegou com tudo para o abraço coletivo.

Definitivamente éramos jovens dando seus primeiros passos no mundo dos adultos, porém ainda refletíamos as quatro crianças que construíram a casa da árvore. Éramos os sonhos do passado e as promessas do futuro.

— Vem, T-zed! Não é tão gay quanto parece. Além disso, a gente sempre precisou de um quinto Power Ranger. — Jazz tirou onda.

— Não se preocupe, entendo que é um momento de vocês. — Respondeu ainda sentado.

Meus amigos e eu trocamos um rápido olhar de cumplicidade, em seguida disparei pela sala e joguei-me em cima de Edward. Jasper veio e se lançou fatalmente sobre mim. Alice fez o mesmo, até que por fim Emmett chegou bancando o astro de luta livre e resolveu esmagar todo mundo. Houve risadas, xingamentos e empurrões.

Quando finalmente liberamos o coitado do selvagem do “esmagamento”, Alice propôs um brinde.

— Vem. — Gargalhando, ajudei meu namorado a ficar de pé. — Está vivo?

— Sobreviverei. — Rindo pôs a mão nas costelas.

Emm encheu rapidamente nossas taças e fechamos um circulo para brindar.

— Ao que brindaremos? — Edward indagou já recomposto.

Meio indecisos quanto a isso, outra vez trocamos olhares. Foi aí que tomei a frente para falar meia dúzia de palavras, erguendo minha taça com vontade.

— Um brinde a tudo! Às inúmeras mancadas que demos nessas semanas; às pessoas que hospedamos; aos que ficaram e aos que se foram... — Me referi respeitosamente a Bogdanov. — Aos acontecimentos absurdos que nos uniram ainda mais... — Sorri mordendo o lábio. — Enfim, a tudo que fez dessas férias as melhores e mais piradas de nossas vidas!

— Woohoo! — Alice agitou a cabeça, descontrolada. — Conseguimos!

A concordância foi unânime, estávamos enchendo nossas bagagens com boas recordações, e aquela se transformava em mais uma. Ainda que a grande comemoração estivesse marcada para o domingo, foi naquela hora, entre assobios de empolgação e risadas, que verdadeiramente brindamos ao encerramento das férias.

— Wooohoooo! — Jazz berrou também. — Agora bora todo mundo correr pelado por aí! — Enojados, o encaramos . — É, não soou legal. — Ele admitiu baixando a bola.

Seguindo mais uma sugestão de Lice, Emmett ligou o micro system e deixou o som rolar.

Nós sempre fomos muito bagunceiros e desavergonhados, então sair dançando pela sala era fichinha. Somente Edward mantinha certa timidez, por isso Alice me empurrou pro lado e abordou o cara, obrigando-o a dançar com ela.

Emmett e eu improvisamos um tango esquisito, fazendo caras e bocas, girando atrapalhadamente. Meu irmão mandou tudo às favas, dançando break como se fosse um robô. Trocamos os parceiros e Lice foi parar nos braços de Jasper, quanto a mim...

— Feliz fim de férias. — Desejei ao selvagem, pendurada em seu pescoço.

Após soltar sua charmosa risada, respondeu:

— Feliz fim de férias pra você também, Bella. — Colocou uma mão em minha nuca, envolvendo os dedos em meus cabelos.

Eu já sabia o que ele queria, então entreabri os lábios, permitindo que Edward sugasse sensualmente um deles.

(...)

O que começou entre mim e o selvagem na sala, “terminou” no escritório. Um pouco influenciados pelo vinho, nos beijamos e nos acariciamos deitados no sofá. Eu estava louca para voltar pra nossa caminha na casa da árvore, mas antes tinha que encontrar meu irmão e lhe pedir para me chamar quando estivesse reunindo os hóspedes para ir à praia.

Quando saí do escritório com o vestido todo amassado e as pernas bambas, não encontrei ninguém no cômodo. Meus amigos tinham evaporado. Olhei para o relógio digital no aparelho de som e só aí percebi que já era quase meia-noite.

Morrendo de preguiça, subi a escadaria e percorri o corredor até alcançar o quarto de Jasper. Sem bater na porta, invadi o lugar dizendo:

— Jazz, você precis... — Paralisei de olhos arregalados. Estava tendo um reboliço na cama, embaixo das cobertas.

Meu irmão colocou a cabeça pra fora, todo vermelho e descabelado.

— Sai fora, Bella!

— Quem está aí com você? — Temendo a resposta, engoli em seco.

Já imaginando Alice toda suada e bêbada escondida em baixo do edredom, me aproximei da cama a fim de pegá-la no flagra. Ignorando as ameaças de morte do meu irmão, puxei vagarosamente parte do edredom e acabei encontrando o que não devia.

— Oi. — Falou envergonhada uma das moças que hospedávamos.

— Com licença. — Pediu a outra moça, voltando a se cobrir com o edredom.

Abismada e constrangida até o último fio de cabelo, dei alguns passos atrás e tive que ouvir Jazz se explicar.

— Elas estão ajudando Jasper a superar a morte da estimada esposa. — Fingiu estar arrasado, atingindo altos níveis de dissimulação.

Não suportando mais, corri pro corredor e fechei a porta atrás de mim com muita força. Precisei de um minuto para digerir o que vi, e concluí que o mundo está mesmo perdido. Justo Jasper com duas mulheres?

Confesso que de certa forma foi um alívio não pegar Lice caindo na sacanagem. Às vezes sexo destrói amizades sólidas como a nossa. O pensamento de que nosso círculo de amizade continuava intacto me sorrir confortada. Consegui até esquecer parte da parada bizarra que acabara de presenciar. E foi exatamente nesse momento que a porta do meu quarto escancarou, fazendo com que o casal que estava escorado nela, caísse praticamente aos meus pés.

— AAAAAAAAAAHHHHHHHHHH! — Berrei histérica, com vontade de correr de um lado para o outro.

Alice estava só de lingerie em cima de um Emmett sem camisa. Extremamente bêbados, riam descontroladamente da minha cara.

— O que estão fazendo? — Vociferei sem saber se tapava os olhos, ou os ouvidos.

— Fala sério... — Emm ergueu o punho fechado. — Tamo “mandando ver”!

— AH, MEU DEUS! — Bati o pé no chão. — Mas são amigos!

— Amigos... com benefícios, Bella. — Lice piscou o olho, mais impossivelmente desavergonhada do que nunca.

(...)

Cheguei à casa da árvore mais parecendo um zumbi. Nem conseguia fechar a boca. Edward me perguntou o que houve, e contar-lhe os últimos e surreais acontecimentos me ajudou a sair do estado de choque.

Depois de um tempinho simplesmente aceitei que por serem nossos últimos dias em Orlando, meus amigos e irmão também tinham o direito de meter o pé na jaca. Com tanto que todo mundo sobrevivesse...

A noite não estava nada silenciosa. Certa hora o Link 69 chegou à mansão e eles se instalaram no jardim falando alto, tocando violão e bebendo. Da janela conseguia vê-los em volta da piscina. Quis ir até lá e reclamar, mas Edward insistiu para que eu os ignorasse. Por fim, concordei com ele. Não valia a pena bater boca com Brad e os outros parasitas. Graças a Deus, pretendiam ir embora depois da festa na praia.

Coloquei um CD com músicas românticas no mini system e isso foi o suficiente para esquecermos as inconveniências. Na madrugada adentro, nuvens densas surgiram para encobrir a lua e a temperatura caiu. Ventos mais intensos do que os de costume fizeram as copas das árvores chacoalharem. O farfalhar das folhas se misturou à melodia suave da música, e assim fomos nocauteados pelo sono. Afinal, dormimos quase nada nas últimas noites.

Ao contrário de mim, Edward ficou um pouco inquieto. Mesmo entorpecida pelo sono, sempre que ele se movia eu percebia. Era como se algo em seu subconsciente o incomodasse.

Não sei dizer quanto tempo dormi, mas quando abri os olhos ainda nem era dia. Devia ser entre 4h e 5h da manhã. Por causa da festa de despedida, tinha que estar 100% ativa dentro de algumas horas, então levantei para tomar um banho demorado e repor as energias com algo nutritivo. Antes de sair da casa da árvore, dei um suave beijo na testa de Edward e o deixei com seus sonhos misteriosos.

Após descer o último degrau, há uns dez metros de distância, avistei entre as sombras azuladas o Link 69 em torno da jaula do puma. Embriagados, riam apoiando-se uns nos outros.

Em uma reação instintiva, corri até lá irada por estarem perturbando o animal. Mesmo antes de alcançá-los, vociferei exigindo explicações.

— Que merda estão fazendo?

— Ei, Bella... — Com sarcasmo, o baixista virou-se para mim erguendo as mãos em rendição. — Já chega com quatro pedras na mão.

Arfando e com frio, parei a alguns passos deles.

— Estamos só olhando. — Brad lançou fora uma garrafa vazia de whisky e passou a bloquear minha visão do puma.

— É. Só olhando, garota. — Tom, o baterista, gargalhou me filmando com seu Iphone.

— Vou dizer só uma vez: vocês têm três segundos para dar o fora daqui. — Me impus de modo ríspido.

McFadden balançou a cabeça com deboche. As bordas de seus olhos estavam vermelhas e ele exalava um asqueroso cheiro de álcool misturado a suor. O cruzar de braços com a arrogância de quem estava se lixando para as minhas ordens, tirou-me o resto da paciência.

— Espera, vamos dar um closezinho nela. — Tom aproximou o Iphone do meu rosto e com um tapa derrubei o aparelho no chão.

Por conta do impacto, o Iphone começou a reproduzir um vídeo do puma cambaleando devagar dentro da jaula, chegando a cair sobre as próprias patas. Alarmada, soltei um palavrão ao empurrar Brad para alcançar a jaula.

— Calminha aí, Bells. — Ele se afastou o suficiente, rindo como se tudo fosse uma piada.

Confusa e enraivecida, cheguei a me atrapalhar ao destravar os ferrolhos da jaula. O mais rápido que pude, me aproximei do animal. O encontrei deitado de lado, respirando debilmente. Meu primeiro palpite foi de que tinham dado whisky a ele.

Reprimi as ofensas contra o Link 69 e apenas me ajoelhei ao lado do puma para me certificar de que ele ficaria bem. Esquecendo-me de que um dia já tive pavor dele, passei a mão suavemente por sua barriga.

— Vai ficar tudo bem. — Disse-lhe em um fio de voz.

Surpresa por senti-lo extremamente quente, deslizei as mãos por suas patas, constatando que os músculos estavam impossivelmente rígidos. Havia algo de muito errado ali.

— O que deram a ele? — Perguntei em voz alta, sem conseguir tirar os olhos do puma.

— Ué... Nada, Bells. — McFadden tentou falar num tom sério, mas seus amigos o delataram com risadas abafadas.

— Brad, por favor, isso não é brincadeira. — Fitei-lhe angustiada.

Por breves segundos ele sustentou o meu olhar, então sua expressão de deboche foi esmorecendo. Ao recobrar parte do senso de realidade, McFadden começou a se justificar.

— Tudo bem. — Bufou contrariado. — A gente tava zoando, cara. Queríamos só fazer o bicho ficar doidão pra gravar um vídeo engraçado pro youtube. — Deu de ombros.

— O que deram a ele? — Perguntei ainda mais alto.

— Colocamos umas cápsulazinhas de Ice num bife grande. — Respondeu o baixista fazendo pouco caso. — Esse bicho é muito viadinho, fala sério! Até um gato aguentaria o tranco.

Até onde eu sabia, Ice era só mais um apelido para metanfetamina, que é dez vezes mais potente do que a cocaína.

Nos primeiros três segundos, gelei inteira sem nem conseguir fazer a saliva descer pela garganta. Mas foi quando o felino começou a expelir sangue pelas narinas que o desespero de fato abateu-se sobre mim.

Desequilibrei-me ao tentar ficar de pé, mas consegui fazer minhas pernas destravarem. Rompi jaula afora e Brad tentou me deter, porém fui mais ágil ao me desvencilhar. Sem ter certeza do que fazer, disparei com todas as minhas forças rumo à casa. O jardim nunca pareceu tão grande, meus pés nunca pareceram tão lentos.

Minha única convicção naquele momento era de que precisávamos tirar o puma da mansão, pois em algum lugar tinha que existir um veterinário que pudesse ajudá-lo.

Abri a porta da frente com violência, depois corri para o pé da escadaria gritando a ponto de minha garganta arder.

— Emmett! Emmett tira o carro da garagem agora! É uma emergência, rápido!

Incapaz de raciocinar devidamente, coloquei as mãos na cabeça, relanceando os olhos pela sala, tentando me lembrar onde estavam as chaves do carro do meu pai. Enquanto ouvia a correria vinda do andar superior, lancei-me em uma busca descontrolada por elas.

Na mesinha do telefone, dentro de um velho cinzeiro, encontrei o molho de chaves, mas infelizmente minhas mãos trêmulas o deixaram cair no tapete. Rapidamente lancei a mão novamente sobre o molho de chaves e meus amigos surgiram, apavorados com minhas ações.

— O que foi, Bella? — Alice ficou pálida.

— É o puma... — Joguei as chaves para Emmett. — Pega o carro!

Outra vez atravessei a porta correndo. Agora torcia pra que me restasse fôlego para gritar por Edward. Emm disparou para a garagem e Jasper junto com Alice tentaram me acompanhar.

Não demorei a perceber que não seria necessário chamar Edward, pois ele já estava lá, dentro da jaula com o puma. Forcei meus pés um pouco mais para eliminar os metros que nos separavam. O problema é que essa distância, ao invés de diminuir, só parecia aumentar.

Quando finalmente consegui alcançar a jaula, Brad e os outros já estavam mais afastados, só observando a merda que fizeram. Sem fôlego, me agarrei às barras da jaula com o coração martelando perigosamente no peito.

— Edward... vamos.... — Balbuciei o mais alto que pude.

Ele não moveu um músculo. Continuou apoiado em um joelho só, com a mão na cabeça do felino e o rosto virado para o outro lado. Imediatamente senti um desagradável arrepio na espinha.

— Não fica aí parado... Rápido! — Gritei, odiando minha impotência. Não entendia por que ele não reagia.

Alice pousou a palma sobre o meu ombro e com delicadeza me apresentou a realidade que eu tanto rejeitava. O puma já estava morto.

Olhando fixamente para o animal, comecei a sentir a atmosfera à minha volta mudar. Meu coração se encheu de pesar, meus amigos ainda se perguntavam o que tinha acontecido, mas era Edward, com seu gélido silêncio, quem carregava a maior parte da dor. Vê-lo tão quieto me afligiu profundamente, pois não havia palavras em mim para consolá-lo, principalmente porque me sentia indiretamente culpada por Brad existir em nossas vidas.

Quando Emmett chegou, não conseguiu arrancar da banda mais do que as justificativas ridículas que me deram. Continuavam insistindo que tinha sido só uma brincadeira e não mostraram remorso algum.

— Que merda, Brad. Tu passou dos limites. — Jasper também se indignou com a falta de caráter dele.

— Foi mal... Paciência. — Ele revirou os olhos, acreditando que estávamos exagerando.

— Esse escroto fez isso de propósito. — Lice não conseguiu ficar calada e partiu para enfrentá-lo. — Todo mundo aqui sabe que decidiu atingir Edward por Bella ter escolhido ficar com ele e não com você. — Deu-lhe um empurrão e o maldito riu junto com os amigos.

— Calma aê... Claro que não foi por causa da Bells. Foi acidente, pô. Falam como se ela valesse o trabalho de matar qualquer coisa. Vamos parar com esse drama, já está virando palhaçada. — McFadden ajeitou a gola da jaqueta fechando a cara.

Quando pensei em abrir a boca para revidar, Edward ficou de pé, roubando a nossa atenção. Sem erguer a cabeça, se inclinou sobre o puma e o colocou em seus braços. Talvez alheio ao que se passava à sua volta, respirou fundo antes de dar o primeiro dos vários passos que o levaram para fora da jaula.

Observá-lo abatido, nos dando as costas para se isolar no final do jardim me fez derramar as lágrimas que McFadden não merecia ver. Meus amigos também não conseguiram reagir, pois, assim como eu, não sabiam como lidar com aquele Edward parcialmente ausente.

— Já chega. Vamos embora. — Brad fez um sinal para a sua banda e eles se direcionaram para os portões. Ainda a uns três metros de mim, McFadden comentou em voz alta, para sair com última palavra. — Sério, agora estou até com pena desse cara. — Pigarreou escarnecendo. — Principalmente porque pegou a Bella já bem usadinha.

30 Seconds To Mars - This Is War

O que não podia acontecer de modo algum aconteceu: Edward, que ainda não tinha chegado ao final do jardim, também ouviu o insulto e imediatamente largou o puma. Vagarosamente voltou-se para nós, com os olhos vermelhos, mergulhados numa ira que o deixou irreconhecível. Seu peito e narinas inflaram com a respiração descontrolada e, despido de seus valores morais, disparou rápido demais na direção de Brad.

Tentamos detê-lo quando passou por nós. Os rapazes se esforçaram, meus dedos chegaram a deslizar por seu braço direito, só que não fomos capazes de segurá-lo, pois habilmente desviou de nossas mãos. Corremos atrás dele, mas Edward alcançou McFadden no momento em que ele olhou para trás. Com um forte soco o derrubou no chão e os caras do Link 69 revidaram, abatendo-lhe com semelhante violência. Foi preciso Emmett e Jasper interferirem, agravando a situação ao transformar uma briga em três.

Com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, só consegui acompanhar McFadden erguendo-se do chão e Edward fez o mesmo.

— Isso não foi muito esperto, meu amigo. — Brad massageou o canto da boca extremamente irritado. — Se você quer brigar, vamos brigar.

— Brad, cala essa boca! — Vociferei a ponto de quase partir pra cima dele, então Alice segurou-me pela cintura.

O selvagem esperou o idiota se aproximar e desferir um soco para só então barrar o antebraço dele com as duas mãos e lhe chutar no joelho. Brad logo despencou e com um rápido movimento Edward o imobilizou, mantendo o braço dele colado às costas. Ignorando meus apelos, enfiou o rosto de McFadden na terra e com fúria esmurrou-lhe incontáveis vezes nas costelas.

Tremendo de tão nervosa, olhei para os lados e vi meu irmão e Emm rolando no chão entre socos com os imbecis do Link. Jazz mesmo com o lábio cortado conseguiu imobilizar o baixista e Emmett acabara de dar um chute em Tom. Intimamente agradeci a Edward por ter ensinado aos dois a se defenderem.

O gemido alto que ouvimos veio de Brad, que pareceu ter o pulso deslocado quando tentou se desvencilhar. Edward manteve um dos joelhos sobre as costas dele e lhe socou na nuca. Comecei a acreditar que meu namorado não via ou escutava nada além de McFadden.

O Sr. Jones despontou na entrada da casa e, para o meu alívio, rapidamente veio em nosso socorro. Ele agarrou Edward por trás, mantendo um braço em volta do pescoço e o outro no peito. O homem usou toda a sua força para tirar Edward de cima de Brad. Eles tombaram porque Edward debatia-se violentamente, não aceitando ser contido. Nesse meio tempo, Brad conseguiu rastejar para longe, cuspindo uma grande quantidade de sangue.

A expressão retorcida de Edward só não era mais assustadora do que seus rosnados altos e enraivecidos. Aquilo chegou a me dar calafrios. Mais uma vez, clamei por ele na esperança de que minha voz o trouxesse à racionalidade, mas isso de nada adiantou. Não podendo mais só assistir, corri e joguei-me de joelhos no gramado junto a ele.

No segundo em que segurei seu rosto, os braços do Sr. Jones falharam e já não foram capazes de deter totalmente Edward. Ele girou o corpo, se debruçando no solo. O pai de Toby tentou retardá-lo segurando-lhe pelo cós do jeans e eu fiz o mesmo. Edward cravou firmemente as unhas na terra, deixando escapar por entre os dentes mais rosnados de fúria. Ele focava unicamente Brad, o qual finalmente se conscientizou do risco que corria.

Definitivamente aquele não era o meu Edward. Nem mesmo parecia um homem. Em suas ações ferozes não havia vestígios de humanidade.

Projetando-se para frente, ele se soltou com extrema truculência. Ao ficar de pé, partiu novamente pra cima de McFadden, que já nem tinha condições de revidar por causa das costelas fraturadas. Edward o pegou pelos cabelos, obrigando-o a ficar de joelhos. A impetuosidade com que lhe esmurrou o rosto me fez chorar por não saber como fazê-lo parar. O punho ensangüentado de Edward começou a deixar o rosto de Brad desfigurado. Aquilo estava sendo a coisa mais horrível que já presenciei na vida.

— Alguém faça alguma coisa! — Gritei para os rapazes em pura aflição. Eles se separaram ao notar que a estúpida briga ultrapassara todos os limites. — Por favor, façam alguma coisa! — Minha voz ecoou no silêncio produzido pelos segundos de inércia.

Em um impulso, forcei minhas pernas. Ergui-me, correndo na direção de Edward, cujo punho no ritmo de marteladas castigava a face de Brad. Não havia tempo para pensar, apenas agir. Eu precisava deter Edward antes que fosse tarde demais. Meu senso de responsabilidade sobre ele era maior do que a cautela, por isso fingi não ouvir os gritos de alerta dos meus amigos.

Determinada a salvar Edward de si mesmo, lhe agarrei por trás como o Sr. Jones fez. Imediatamente ele reagiu, golpeando minha face com o cotovelo.

A dor alucinante fez-me cambalear para trás. Parecia que minha cabeça ia explodir. Desorientada, perdi completamente o equilíbrio. Depois disso, só houve escuridão e um zunido fraco em meus ouvidos.

(...)

Meus olhos pesavam feito chumbo. Só foi possível mantê-los abertos após algumas piscadelas. Tinha dificuldade até para respirar.

— Ah, graças a Deus. — Lice afagou minha testa. — Você está bem? — Ela parecia demasiadamente tensa.

— Apaguei? — Percebi que estava deitada no sofá da sala. — Por quanto tempo?

— Não tenho certeza. Por vários minutos.

Quando me sentei, comecei a sentir o lado esquerdo do meu rosto inchado e gelado. A dor horrível me fez soltar um gemido entrecortado.

— Me deixa continuar pondo compressa. — Alice encostou a bolsa de gelo no meu rosto e reprimi outro gemido.

— O que aconteceu? — Murmurei vasculhando minhas lembranças.

— Depois que Edward te atingiu, ele finalmente voltou a si. Brad ficou um bagaço e os caras da banda o colocaram no carro e o levaram pro hospital. Emmett foi junto pra saber se o otário vai ficar bem.

— E Edward?

Lice suspirou ruidosamente.

— Está lá no fundo do jardim com o puma e não deixa ninguém chegar perto. Não se preocupe, Jazz está de olho nele. — Ao afastar a compressa, continuou. — Bella, foi uma tremenda burrice o que você fez.

— O importante é que serviu para deter Edward. Se fosse preciso, eu faria tudo novamente. — Coloquei uma mão na testa que não parava de latejar. — Me passa o telefone, preciso falar com Emm.

Assim que peguei o aparelho, disquei o número do celular de Emmett e ele atendeu ao primeiro toque.

— Fala.

— Sou eu. Como está o Brad?

Ele demorou a responder e deduzi que se afastava do Link.

— Mal. — Falou baixo. — Até agora o que tenho certeza é de que está com duas costelas fraturadas e o nariz quebrado em dois lugares. O rosto dele ficou medonho.

— Acha que ficará bem? — McFadden pediu por aquilo, mas, sinceramente, eu não queria que a situação tivesse chegado àquele ponto.

— É... Depois de um tempo ele vai ficar bem. Agora o nosso problema é outro.

— Do que está falando? — Fiquei confusa.

— Os caras aqui estão só esperando um laudo para ir ao distrito mais próximo dar queixa de Edward. Bella, eu não entendo muito dessas coisas, mas estamos falando de lesão corporal grave. Sei lá, acho que isso dá de um a cinco anos de reclusão.

— Merda! — Xinguei com minha cabeça pesando toneladas.

— Olha, eu acho melhor ligar pro pai do T-zed.

— Farei isso. — Fechei os olhos, bufando de desgosto. — Se tiver novidades me telefona.

— Ok. — Desligou.

Ao me levantar a fim de ir para o escritório, tive vertigem. Foi preciso Alice me ajudar a recobrar o equilíbrio. Trancada no escritório, necessitei de alguns minutos para pensar em como contar ao Dr. Carlisle o que aconteceu. Sem sucesso, tive que aceitar que nada poderia amenizar as más notícias.

Liguei para o meu pai e ele prontamente atendeu. Sem ânimo para responder suas habituais perguntas, apenas lhe pedi que passasse o celular para o Dr. Carlisle. Obviamente ele estranhou, mas parou de me questionar quando ressaltei que Edward era o motivo do telefonema.

Esperei uns três minutos até meu pai cruzar o corredor do hotel em que estavam hospedados e bater na porta da suíte do Dr. Carlisle, o qual logo me cumprimentou parecendo sonolento.

No início minha língua travou, mas a gravidade da situação exigiu de mim um pouco mais de coragem. Comecei contando que Edward se envolveu em uma briga e perdeu totalmente o controle, depois acrescentei que o homem que o provocou ficou muito machucado e pretendia dar queixa por lesão corporal grave.

O silêncio do outro lado da linha me deixou ainda mais tensa. Tinha certeza de que a frase “perdeu o controle” foi suficiente para fazê-lo entender a complexidade do incidente. Por conhecer Edward melhor do que ninguém, o Doutor conseguiu ouvir até o que não cheguei a pronunciar.

— Bella, ele está ferido?

— Não.

— Estou em Daytona, alugarei um carro e estarei aí em no máximo três horas. Por favor, peça a Edward para arrumar a mochila dele. Pegaremos um avião ainda hoje.

— Tem certeza? — Falei sem querer.

— Para evitar maiores complicações, acho melhor partirmos logo para Malaita. Acredite, ele vai ficar bem quando chegar lá. — Claro que o Doutor sabia como seu filho se sentia por dentro.

— Está certo. — Não consegui disfarçar minha tristeza. — Até daqui a pouco.

(...)


The Fray - Never Say Never

Quando saí do escritório, a primeira coisa que fiz foi ir ao banheiro ver como meu rosto ficou. Diante do espelho, me deparei com a meia lua rosada, quase atingindo tons azulados, que ia do canto do olho esquerdo até perto da boca. Não havia maquiagem no mundo capaz de disfarçar aquilo.

Dispensando qualquer tipo de auto-piedade, saí do cômodo determinada a fazer o que o Dr.Carlisle me pediu. Fui direto para o jardim em busca de Edward. No trajeto, dei-me conta de que meu pai também retornaria e os hóspedes só iam embora na segunda-feira. Ou seja, tudo que podia dar errado deu errado.

Encontrei Edward no canto mais afastado do jardim. Um local úmido aonde o sol não chegava e a grama era mais vasta. Ele estava sentado cabisbaixo, com a calça suja de sangue por ter limpado as mãos nela. A seu lado ficou largada a pá que usou para enterrar o puma a um metro dali. Não pude deixar de notar que alguns nós de seus dedos estavam em carne viva.

Com o coração entalado na garganta, me aproximei devagar. Letárgica, simplesmente caí de joelhos a centímetros dele. Então, com o fôlego que tinha, balbuciei:

— Seu pai está vindo te buscar.

Relutante, Edward ergueu a cabeça lentamente e me encarou. O conjunto de traços que o fazia tão belo estava totalmente sem vida. A palidez de sua pele contrastava com a vermelhidão de seus olhos. Incapaz de continuar me encarando, ele baixou a vista.

— Você... está bem? — Perguntei entrecortadamente. Esperei um minuto e não obtive resposta. — Por favor... Fala alguma coisa. Não faz isso comigo. — Seu silêncio me magoava.

De repente, Edward puxando-me para si e com um forte abraço, enterrou o rosto no meu peito. O envolvi em meus braços querendo protegê-lo de tudo que lhe afligia. Lutei desesperadamente para ser forte, mas então ele começou a tremer chorando silenciosamente.

Edward não estava conseguindo lidar com tudo ao mesmo tempo. Eu sabia que sobre ele havia o peso esmagador gerado pelo abandono do autocontrole exigido pelo rito de passagem, a indignação pela morte do puma, a repulsa pelo que fez com o meu rosto... E a tristeza pela volta prematura para a ilha.

Parecia que meu coração ia parar de bater por vê-lo naquele estado. Clamei a Deus para me manter firme ali. Se eu começasse a chorar também, só agravaria a culpa que Edward carregava. Angustiada, pousei meu rosto no topo da cabeça dele sem conseguir esquecer que em poucas horas nos separaríamos definitivamente.

— Bella... Bella, preciso de você... — Ele murmurou com a voz embargada. — Preciso que me diga o que fazer. Achei que eu sabia de tudo... — Gemeu se torturando. — Por favor, só me diga...

— Está tudo bem. — Sussurrei sem nenhuma convicção. — Você deve ir... Deve ir para casa, Edward. Vai ficar bem quando chegar lá. — Repeti as palavras de seu pai.

Com delicadeza, ergui a cabeça de Edward para lhe fitar e deslizei os dedos pelas laterais do seu rosto. Ele então fechou os olhos, deixando escapar mais uma lágrima.

Buscando se redimir, passou a roçar os lábios em meu rosto machucado. Entreguei-me ao carinho, esperando que aliviasse todas as minhas dores, mas intimamente não parava de me perguntar o que tínhamos feito para merecer o infortúnio de sermos obrigados a romper antes do esperado.

De onde eu ia tirar forças para suportar o que estava por vir?


(Continua...)

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