Um Selvagem Diferente-Capitulo 21*-*

Capítulo 21 - Encruzilhadas - Parte 2

Na arejada sala, sentada em um sofá de vime estofado, escutei com grande frustração o Doutor explicar a ausência de Edward.

Já fazia quatro dias que ele se isolara no centro da ilha, junto com a tribo Waibirir. Carlisle deixou claro que seria impossível nos levar até lá. Era um percurso extremamente difícil em mata fechada e duraria bem mais do que 24h.

Mesmo procurando ser forte, não consegui falar nada por vários minutos. O Doutor foi solidário, nos serviu um lanche e ofereceu hospedagem por tempo indeterminado.




— Isso é tão injusto. — Jasper comentou devorando um sanduíche. — Viajamos tanto pra nada.

— É mesmo uma infelicidade. Se tivessem mais tempo... — Carlisle estalava os dedos das mãos, exatamente como seu filho fazia quando estava nervoso.

— Bella não pode ficar e depois voltar pra casa num vôo comercial? — Lice sugeriu.

— Será complicado explicar como ela chegou aqui. Pode até sujar pro lado da Sra.Ryan. — Não havia com negar que Emmett tinha razão.

— Talvez... — Sarah coçou a testa, ainda procurando uma solução. — Quem sabe não consigo convencer os pilotos a esperarem mais um tempinho? — Voltou-se para o ex-marido. — Quantos dias Edward costuma ficar com essa tribo?

— Em torno de duas semanas. — Via-se que o Doutor não acreditava na possibilidade dele retornar antes disso.

— Por favor. — Não consegui mais me abster. — Vamos apenas aceitar que não há como reverter o desencontro. — Engoli em seco, lutando para não expor minha aflição. — Obrigada por estarem sendo tão bons e compreensivos comigo, mas o melhor é partimos amanhã para evitar qualquer problema. Sarah, me desculpe. Não sei onde estava com a cabeça quando permiti que se envolvesse nessa loucura. — A culpa me impediu de encará-la.

— Fui voluntária. — Ela sorriu timidamente. — Na verdade, você não estaria tão decepcionada agora se não fosse por minha insistência. Achei que ia ser mais fácil, então sou eu quem te deve desculpas.

Neguei fervorosamente, desejando um dia retribuir seus favores. Por hora, o mínimo que podia fazer era voltar o quanto antes para os Estados Unidos. Evitar que Sarah e seus funcionários fossem legalmente prejudicados se tornou minha prioridade.

(...)

A noite chegou e junto com ela veio um conhecimento maior de como era a rotina de Edward. Sua casa era modesta, entretanto possuía um inteligente mecanismo de água encanada extraída de poço artesiano. Assim como também um sistema de fossa séptica e sumidouro. Já a energia elétrica provinha de painéis solares instalados nos fundos da casa. O anexo que vi antes se tratava do laboratório de pesquisa do doutor e tive que implorar para os rapazes não o invadirem.

Alguns móveis eram de vime e outros de cedro. A decoração rústica combinava com o lugar. Nas paredes da sala admirei alguns belos quadros, porém aquele cômodo realmente precisava de um toque feminino. O banheiro era absolutamente convencional. A cozinha era simples e organizada: fogão, geladeira, mesa e cadeiras, armários e utensílios básicos. Não pude deixar de notar a falta deliberada de tecnologia, essa provavelmente usada somente no laboratório.

No todo, era um bom lugar de se viver. A esplêndida paisagem que podia ser admirada pelas muitas janelas, compensava a ausência de elementos modernos.

Bem antes do jantar, Carlisle cedeu seu quarto a Sarah. Ele se juntou aos rapazes na sala, onde distribuiu sacos de dormir. Alice e eu ficamos com o quarto de Edward, local que nos fez rir assim que o adentramos. Tudo ali gritava o nome dele.

Os principais móveis como o roupeiro e a cama grande foram feitos com o mesmo tipo de madeira usada na construção da casa. Havia dezenas e dezenas de livros enfileirados em prateleiras no lado direito do cômodo. Elas ocupavam quase toda a parede, deixando apenas um espaço para uma antiga escrivaninha. Na prateleira mais baixa, vimos uma tigela tribal repleta de pedras semipreciosas.

A cama ficava no meio do quarto, abaixo de uma janela que tinha o dobro do tamanho das janelas convencionais. A vista dava para a floresta a poucos metros dali. Como criado mudo, Edward usava parte de uma grossa tora de madeira. Essa possuía várias inscrições talhadas em uma língua que eu não conhecia. Perto do criado mudo, estavam jogados no chão dois rolos de corda próprios para escalada, capacete, mosquetões, luvas e outras coisas das quais eu não sabia o nome.

No lado esquerdo do cômodo, admirei uma espécie de mural com muitos desenhos dele. Lá estavam retratados a puma Indah e outros animais nativos. Em destaque, estavam alguns desenhos de lugares lindos, certamente localizados na ilha. Ingenuamente acreditei que meus retratos estariam expostos com os demais, porém não tinha nada ali que me representasse.

— Que coisitu nindu de viver. — Alice veio correndo me mostrar um porta-retrato.

Assim que o peguei também sorri, pois era uma foto de Edward com seus pais. Ele devia ter uns 5 ou 6 anos de idade. O cabelo loiro claro caía sobre os olhos muito azuis em contraste com a pele rosada.

— T-zed tem ótimos genes. — Com um sorrisão, Lice me tomou o porta-retrato. — Podíamos fazer fortuna vendendo o sêmen dele para inseminações artificiais.

— Tem certeza que é uma boa hora pra falar suas esquisitices? — Coloquei as mãos na cintura, meio sem paciência. O que me incomodava era a bizarra pontinha de vontade de ceder à idéia. Ainda bem que logo caí na real e voltei a me concentrar na foto. — Sarah não mudou quase nada. — Isso me impressionou.

— Só o cabelo. Era compridão. E o pai do Ed, hein?! — A inconveniente fez uma cara sacana. — Esse galo é velho, mas ainda dá um caldo de sustância.

— Sem comentários. — Pressionei os lábios para não rir. — Mas vai rolar mesmo um namoro entre você e o Emmett? — Tudo que eu estava vivendo nas últimas quarenta e oito horas parecia um estranho sonho.

— O que posso fazer se eu amo aquele vagabundo desmiolado? — Confessou suspirando.

— Vagabundo desmiolado? É, parece que esse namoro vai ser animado... —Cocei a cabeça imaginando as muitas brigas e as reconciliações despudoradas.

(...)

No jantar o Doutor nos serviu risoto de camarão. Fiquei surpresa, pois achava que ele também era vegetariano. Acabei descobrindo que aquela era uma opção somente de seu filho, e apenas durante o rito de passagem dos Waibirir. Procurei ser uma companhia agradável, mas intimamente sofria por estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe do que buscava.

Durante boa parte da noite, observei Sarah e Carlisle. Duas pessoas muito diferentes, com interesses ainda mais opostos. O intrigante é que qualquer um podia perceber que existia um magnetismo entre eles. Era engraçado como passavam a mão pelos cabelos quase ao mesmo tempo, ou como demonstravam ansiedade em pequenos gestos.

Eles viveram uma história de amor, tiveram um filho... Acho que esse é o tipo de passado difícil de esquecer. Provavelmente o inesperado reencontro trouxe à tona várias recordações.

Depois do jantar, Lice me pressionou a interrogar o Doutor a respeito de Ed, só que me recusei a fazer isso. As questões não podiam ser esclarecidas através de um intermediário. Eu precisava olhar nos olhos de Edward e saber se ele ainda sentia algo por mim. Queria ouvir da boca dele o porquê de ter me evitado por quatro meses, e como pôde me ignorar na estação de trem.

Durante a madrugada, a temperatura despencou. Sem pensar muito, vesti um blusão de Edward que encontrei pendurado atrás da porta do quarto. Até parecia que ele tinha acabado de largar ali.

Meu grande erro foi não ter previsto o quanto aquilo me afetaria. A saudade que o cheiro dele trouxe ardeu como brasa no meu peito. Não tive forças para permanecer no cômodo, então atravessei a sala na ponta dos pés e cheguei silenciosamente à varanda.

A lua que encontrei radiante no céu iluminava toda a clareira. Sem tirar os olhos dela, me arrastei pela varanda brincando com o zíper do moletom. Ao me aproximar dos fundos da casa, ouvi sussurros. Assim que percebi que eram os pais de Edward conversando, dei a volta antes que me vissem. Logo me convenci de que falavam sobre ele, embora meu lado romântico quisesse acreditar que o assunto era mais íntimo.

Afastei-me o máximo que pude deles e me acomodei em uma das espreguiçadeiras de vime. Não encontrei um modo de driblar a melancolia, já que cada suspiro vinha carregado de ansiedade e frustração.

— Seus passos me acordaram. — Jasper sussurrou, vindo sentar no chão perto de mim. — Brincadeira. Não consegui dormir porque queria te dizer uma parada.

— O que foi? Não gostou da ilha?

— Não é isso. — Respondeu num tom sério. — Sabe, estava pensando com meus suspensórios... É muito “chão” daqui pra Orlando. Se eu atravessasse o planeta por uma garota e a encontrasse enroscada com outro cara, ia fica muito, muito irado. Está entendendo? Talvez Ed só esteja ressentido.

— Como vou saber? — Dei de ombros. — Estou completamente perdida entre a sua teoria e a de Sarah. — Gemendo de desgosto me encolhi na espreguiçadeira. — Não dá mais pra mim, Jazz. Tenho estado sempre correndo atrás de Edward. Vir aqui foi minha última tentativa. — Voltei meus olhos para a lua. — Até quando vou forçar o que não está destinado a acontecer?

Meu irmão afagou-me o braço, sem saber o que dizer.

(...)


Fisher - I Will Love You

Como um prêmio de consolo, no início da manhã o Doutor levou o pessoal para um passeio na cachoeira há trinta minutos dali. Completamente sem ânimo, me recusei a deixar a casa. Fiquei esperando na varanda para o caso de Edward milagrosamente regressar.

Nas primeiras horas, travei uma difícil batalha contra insistente esperança. Algumas vezes, parecia que Edward ia surgir por entre as árvores e correr para os meus braços. Quase sempre essa ilusão era seguida de uma revolta contra mim mesma. Como eu podia me enganar tanto?

Não tinha jeito. Logo que Sarah e meus amigos retornassem, iríamos para a praia embarcar no maldito pesqueiro. Meu tempo se esgotava com tanta rapidez que quase podia senti-lo escorrer por entre meus dedos.

Encolhendo-me na espreguiçadeira, abracei os joelhos sem conseguir tirar os olhos da floresta. Recusava-me a acreditar que depois de tudo que vivemos nossa história ia se perder ali. Em meio a mal-entendidos, mágoas e desencontros. Melhor teria sido jamais quebrar a promessa de nunca olhar para trás. Perdemos a chance de deixar intacto um sentimento... único.

— Por favor... Por favor... — Aos sussurros fechei os olhos, implorando por um milagre. Em contrapartida, o medo de descobrir no que os sentimentos de Edward se transformaram me debilitava. — Eu preciso tanto, por favor... — Desejei vê-lo nem que fosse só mais uma vez.

Contradizendo o que falei antes a Jasper, corri até o quarto de Edward e peguei algumas folhas de papel e lápis. Sentei novamente na espreguiçadeira e fitei uma folha em branco, pensando em como traduzir em palavras aquela última tentativa. Precisava transcrevê-la em uma linguagem que cruzasse o abismo que nosso rompimento criou. Então, com a mão hesitante, comecei a moldar uma ponte.

“Edward, tenho medo de perguntar por que não me procurou quando pôde. Sei que fizemos um acordo de não olharmos para trás quando nos despedimos naquela noite e, além disso, ainda estou tentando negar que era você na estação de trem.

Mas sei que o vi, e naquele instante tudo renasceu em mim com tal força que acabei por descumprir outra vez o acordo... Assim sendo, por tudo que foi e pelo que poderia ter sido, percorri mais quilômetros do que consigo calcular só pra te dizer que...”


Não consegui ir adiante. Por meses elaborei frases para o caso de um dia revê-lo e agora nenhuma parecia significativa o bastante. Não sabia como me concentrar com o choro preso na garganta me sufocando.

Tanto que procurei ser forte e equilibrada para não sofrer. Tanto que lutei para assumir o controle de minhas ações. Mas lá estavam elas, sendo outra vez norteadas pela minha insistente vontade de ser feliz. Então do que adiantava ser evasiva? Não era hora de ser orgulhosa, pois, dependendo dos sentimentos de Edward, talvez eu nunca mais tivesse a oportunidade de ser tão honesta com ele.

Motivada por isso, bloqueei todos os pensamentos confusos e me entreguei somente à essência da razão de estar ali. E essa entrega veio junto com lágrimas eu que vinha reprimindo desde Orlando. Com extrema convicção, continuei a mensagem em outro parágrafo sem me importar com os primeiros.

“Edward, eu te amo. Não sei por que demorei tanto tempo pra dizer, mas eu te amo! Estava enganada quando disse que não conseguiríamos manter um relacionamento. Mesmo antes de descobrir o que eu sentia, já enfrentava tudo por você, lembra?


Só quero que tenha certeza disso.


Com amor, Bella Swan.”


Dobrei a carta com cuidado e lentamente enxuguei as lágrimas. Depois, me obriguei a encher os pulmões de ar, levantando-me preguiçosamente. Nesse mesmo instante, ouvi um estranho barulho na mata.

Apreensiva, relanceei os olhos pelo local procurando a origem do som. Foi então que avistei alguns arbustos trepidando há uns dez metros da casa. Meu pensamento foi um só e, em reflexo, meu coração disparou na expectativa.

— Edward? — O chamei em voz alta, prestes a correr a seu encontro.

Engolindo em seco, dei um passo à frente. Mas para a minha infelicidade, quem apareceu na clareira foi Indah. De imediato lembrei que Carlisle falara dela durante o jantar. Segundo ele, sempre que Edward planejava se ausentar, soltava Indah na floresta. Depois de um tempo, ela curiosamente retornava por vontade própria. Exatamente como um felino doméstico faria.

A fêmea me pareceu maior do que o puma que fugiu do zoológico. Estimei que pesasse em torno de 70 quilos, e talvez tivesse uns dois metros de comprimento do focinho até a calda. Conforme ela se aproximava da casa, o sol iluminava sua pelagem castanha amarelada.

Por estupidez, só me dei conta dos riscos quando Indah subiu os degraus da varanda. Considerei a idéia de correr para dentro da casa, mas temi que isso a estimulasse a me caçar. Sem alternativas, continuei parada, procurando desesperadamente não demonstrar medo. Aquele era um péssimo momento para lidar com a felina.

Atraída pela minha figura, Indah primeiro me estudou com seus olhos âmbar. Usando a experiência que tive com o outro puma, sustentei seu olhar não me deixando intimidar. Não pensei muito em um ataque iminente, só tentei não provocá-la.

Não parecendo muito ameaçada por minha presença, a felina começou a se aproximar lambendo o focinho. Admito, era possível que eu estivesse ficando louca, porque sorri achando Indah muito bela.

Com o nível de adrenalina subindo, prendi a respiração por segundos enquanto ela farejava meu braço. O intrigante foi que inclinou a cabeça, como se esperasse um afago. De repente, me lembrei que ainda estava com o blusão de Edward. Talvez o odor de estranhos tenha lhe confundido no início, mas o cheiro do seu dono em mim não permitiu que me visse como uma intrusa. Pelo contrário, deixou-a mansa a ponto de deitar junto aos meus pés.

— Que incrível. — Balbuciei admirada.

Sem dúvida, desde muito cedo Edward amestrara Indah para ser equilibrada. Suas técnicas deviam ser muito boas, por isso me questionei se não usara algumas delas comigo.

(...)

Quando Carlisle retornou, conduziu Indah para um abrigo atrás da casa. Os rapazes não perderam tempo e tiraram fotos dela para juntar com as que tiraram da ilha.

Como ninguém aceitou almoçar com medo de vomitar no barco, pegamos as mochilas e voltamos para a praia, guiados pelo Doutor. Percorrer a trilha foi difícil, porque a cada trinta segundos eu olhava para trás, frustrada com o desfecho da viagem.

Assim como combinado, o pescador nos aguardava no píer. Ele saiu do barco e trocou rápidas palavras com Carlisle. Em seguida, nos apressou alegando que seria melhor partimos antes do entardecer.

Sarah foi a primeira a se despedir do Doutor. Apertou sua mão e deu-lhe um beijo na bochecha que fez Alice virar o rosto pra não rir. Os meninos também mostraram gratidão dando um tapinha nas costas do cientista. Não deixaram de dizer o quanto apreciaram Malaita.

Lice, sempre muito “dada”, abraçou o homem, depois me cutucou para que eu fizesse o mesmo. Carlisle então sorriu pra mim, colocando uma mão em meu ombro. Como não consegui retribuir a gentileza, apenas puxei do bolso a carta que escrevi.

— Por favor, pode entregar isso a Edward? — Fiquei olhando o papel passar da minha mão para a dele.

— Claro. Tenha uma boa viagem, Bella. Mande lembranças minhas a seu pai e... — Por educação não riu. — Pode ficar com o blusão.

— Ah, meu Deus... — Bufei constrangida por ainda estar metida nele. — Obrigada. — Meu sorriso tímido revelou que não ia conseguir devolver mesmo. — Obrigada por tudo.

O pescador voltou a nos apressar e o pessoal logo subiu no barco. Fui a última a embarcar, tentando retardar o momento. O problema é que eu nada podia fazer além de me acomodar na popa.

I Think God Can Explain - Splender

De volta ao mar, assisti o pesqueiro se distanciar metro a metro de Malaita... E da tola esperança de rever o selvagem. Durante os vinte primeiros minutos ninguém falou nada, cientes de que eu preferia assim.

Por causa da amargura, a paisagem perdera parte do encanto. Desbotada, como um sonho antigo que mal se consegue lembrar. Nesse sonho, Edward teria chegado a tempo, mas ele não apareceu. Não surgiu acenando da praia.

O que eu podia fazer além de me conformar? Nem todas as peças se encaixam. Nem sempre há aplausos ao final do show. E raramente conseguimos tudo que queremos. Agora só me restava seguir com a maré...

Muitos outros minutos se passaram e eu já não conseguia enxergar a praia, somente as montanhas. Fatigada, baixei a vista e, por consequência, dei as costas a Malaita.

Juntei-me a Sarah perto da cabine e me sentei bem ao seu lado. Alice também se aproximou e ficamos as três enfileiradas na lateral esquerda da embarcação. Jasper e Emmett preferiram continuar no outro lado do convés, observando a paisagem com o binóculo do pescador.

Sem vontade de conversar, inclinei a cabeça para trás, deixando o sol queimar meu rosto. Sarah então ligou o Iphone para checar sua agenda, enquanto Alice apelava para um tipo de meditação a fim de não vomitar. O silêncio perdurou por cerca de meia hora, até que não consegui mais mantê-lo.

— Desculpem-me. — Engoli em seco, tentando desfazer o nó na garganta. — Eu tenho que... — Hesitei, com dificuldade em completar a frase. — Não precisam explicar nada, só concordem ou discordem. — Fitei um ponto no chão e não ergui mais os olhos. — Quando Edward foi para Orlando eu estava doente por Brad. Então ele passou a sentir algo por mim, mas eu o menosprezava. Daí se envolveu com Jully na mesma época que comecei a querê-lo. Insistimos em ficar juntos sabendo que tínhamos pouco tempo, e poxa... O Link69 ainda conseguiu diminuir esse tempo. — Gemi de desgosto. — Meses atrás, Edward regressou aos EUA e não me procurou. Depois, me viu com um amigo e me deu as costas. Agora, mesmo com tudo isso, venho aqui e não encontro ele. — O final da declaração me deixou muda por segundos. Quando a palavra voltou à minha boca, soou muito mais autêntica do eu esperava. — Entre mim e Edward... Nunca dará certo. Do contrário, não teríamos que forçar, forçar e forçar. Não é? — Ansiosa encarei minhas amigas. — Não é? — Insisti, pois não responderam. — Mundos diferentes, índoles distintas e caminhos opostos. Parte de mim acreditou que ele apareceria na praia, mas não é pra ser. Nem hoje,... — Arqueei as sobrancelhas, afetada pela conclusão. — Nem nunca.

Esperei por comentários, repreensões e discursos de consolo. Porém, esperei em vão, pois Sarah e Alice não conseguiram dizer nada. A explícita verdade as impediu de me persuadirem do contrário. Nem suas melhores intenções eram páreas para a constatação.

— Tudo bem. — Suspirei me arrependendo de tê-las importunado. — É melhor eu ficar sozinha um pouco.

Sem dúvida, eu estava arrasada, mas não pretendia sofrer para sempre.

Junto à proa, fechei os olhos, sonhando com o futuro. Um futuro que definitivamente não incluía Edward, mas ainda seria cheio de realizações e momentos especiais... E por que não? E quanto ao ditado: Deus fecha uma porta, mas abre uma janela? Existe uma boa chance de a minha felicidade estar guardada atrás de uma delas. O que posso fazer se o meu vício é sonhar? Ultimamente, só um “talvez”, quase sempre me basta.


Find Your Way Back - Michelle Branch


Para amenizar o calor, me livrei dos tênis e subi as pernas da calça até a panturrilha. Em seguida, desci o zíper do blusão deixando-o aberto. Voltando a fechar os olhos, me encolhi enfiando as mãos nos bolsos do moletom. De repente, franzi o cenho apalpando algo bem no fundo do bolso direito.

Intrigada, puxei o achado deparando-me com um saquinho de veludo azul marinho. Não pensei duas vezes, despejei o conteúdo na palma da mão.

— Mas o que... — Balbuciei espantada.

Deixei o saquinho de lado para contemplar o anel de prata. Na superfície estava gravada em minúsculas letras itálicas a seguinte frase:

Eu não desisto, Você não desiste.

De olhos arregalados notei que o anel era pequeno demais para caber nos dedos de Edward. Foi então que, por instinto e algo mais, vagarosamente coloquei o anel no meu anular esquerdo e coube perfeitamente.

Ergui a mão admirando a jóia e o sol reluziu sobre ela, ressaltando a inscrição. Não consegui pensar em nada. Fiquei completamente absorta pelo anel.

— BELLA! BELLA, VEM AQUI! — Alice começou a berrar do final do pesqueiro.

Sobressaltei-me como se ela tivesse me dado um choque. Por sorte, me recuperei num instante. Atravessei correndo o convés e a alcancei em segundos. Todos os meus amigos estavam amontoados na popa, olhando na mesma direção.

— O que foi? — Perguntei atordoada.

De imediato Emmett me entregou o binóculo explicando:

— Ou estamos vendo um Óvni no horizonte, ou uma lancha vem vindo muito, muito rápido. — Sorriu.

— É sério? — Pegando o binóculo, dei um passo à frente.

Olhei na direção que indicavam e consegui avistar a embarcação. De fato parecia uma lancha, mas por causa da grande distância não dava para saber quem a conduzia.

— Será po-possível? — Gaguejei embasbacada.

— Por que não estamos parando? — Jasper levantou a questão.

— Ah, meu Deus! Temos que parar! — Esbravejei olhando para trás.

— PÁRA ESSA BANHEIRA! — Chacoalhando as mãos no ar, Alice saiu correndo para a cabine do pescador.

Ela falou com o homem e tivemos que esperar o resultado. Sentimos o pesqueiro diminuir a velocidade lentamente, só que a meu ver estava demorando muito pra parar. Continuei esquadrinhando o horizonte e bem aos poucos a visão da lancha foi ficando mais nítida.

— Não acredito. — Murmurei.

— NO QUÊ? — O pessoal berrou ao mesmo tempo, numa aflição só.

— É ele. — Anunciei boquiaberta.

A silhueta de Edward era inconfundível e a lancha vinha na nossa direção em uma velocidade espantosa. Minhas mãos logo ficaram gélidas, enquanto meu peito doía pela adrenalina inesperada.

— Sabia que T-zed não ia me decepcionar. — Jazz sorriu ficando sentimental.

— Estamos quase parando. — Sarah avisou entusiasmada.

— Espera... — Confusa afastei o binóculo do rosto. — Ele também. Mas por quê?

— Droga! Quem é que aguenta essa montanha-russa emocional?! — Meu irmão se chateou.

— E agora? O que deu nesse homem? — Alice também se revoltou.

— Eu... Não sei. — Pouco depois que paramos, a lancha empacou a cerca de quase setecentos metros.

— Me deixa ver. — Sarah estendeu a mão e passei-lhe o binóculo.

Junto com os demais forcei a vista, esperando entender o que se passava com Edward. Suas ações não faziam sentido!

— Ele desistiu? — Emm rosnou querendo matá-lo.

Antes mesmo que a pergunta me afetasse, Sarah se manifestou estupefata.

— Deus do céu... Ele pulou no mar!

— O quê? — Em um ímpeto, me inclinei sobre o corrimão e meus amigos fizeram o mesmo.

Coloquei a mão acima das sobrancelhas para bloquear a luz solar e, com extrema dificuldade, consegui enxergar Edward vindo a nado. Sua iniciativa me fez entontecer.

— Acho que a lancha ficou sem combustível. — Sarah presumiu um pouco preocupada. — Que loucura, ele poderia ter ficado à deriva se não tivesse nos encontrado.

Impressionada, olhei de relance para ela. Nenhuma de nós tinha “estômago” para imaginar a situação.


For You I Will - Teddy Geiger

Corroendo-me de ansiedade, observei com esforço o progresso de Edward. Subitamente, o falatório à minha volta se tornou um murmúrio abafado.

De modo inesperado, comecei a ter uma crise estranha que não pude conter. Fui acometida pelas piores lembranças dos últimos meses. Aquela sensação vívida da decepção, angústia e solidão só precederam a recordação do que falei a minhas amigas. De fato, Edward e eu estávamos sempre forçando e, como resultado, a vida tratava de se reprogramar para nos distanciar.

Pelo Edward que conheci, o do diário, eu estava disposta a enfrentar tudo como sempre fiz. Como escrevi na carta. Entretanto, seria o homem frio da estação de trem que vinha ao meu encontro? O mesmo que fez questão de me evitar por meses? Temi não reconhecê-lo quando o confrontasse.

Assistindo a cada braçada de Edward, o qual ainda estava a uns seiscentos metros, comecei a transpirar de nervosismo. Então meus olhos automaticamente se fecharam, reagindo à resolução do coração. Este, por sua vez, já não aguentava mais ser remendado.

— Não tem jeito. — Concluí tirando o blusão. Até mesmo os tais remendos pertenciam àquele homem que, finalmente, “corria” atrás de mim.

O anel no meu dedo, contendo a frase da qual somente nós conhecíamos o real significado, teve o poder de liberar a genuína Bella por quem sei que o selvagem se apaixonou. Decidi ali que nem a distância criada por quilômetros, metros ou ações me impediria de ficar com ele.

Surpreendendo a todos, subi no corrimão e me joguei no mar. Afundei imediatamente, mas ao emergir tomei o fôlego necessário para dar as primeiras braçadas.

— Bella, sua louca! Não morra! — Alice vociferou jogando uma bóia na água e fui ao encontro dela.

Apoiando-me na bóia, nadei com toda energia. Meus membros que antes estavam letárgicos recobraram as funções. Lúcida e determinada, avancei para realizar a decisiva tarefa de chegar a Edward.

Ele vinha como se nada importasse além da longa reta que nos separava. Como um ótimo nadador, não parou nem por um segundo. Eu podia não ter a mesma desenvoltura ou velocidade, mas meus esforços contaram muito, pois encorajaram seus braços cansados a persistirem.

Excedendo aos próprios limites, Edward conseguiu ser ainda mais rápido.

Já pra mim, foi difícil manter a respiração regular. Teve um momento em que cheguei a engolir um pouco de água. Mas embora as complicações não cedessem, continuamos a nadar e a nadar. Estávamos totalmente conscientes de que cada braçada significava um obstáculo a menos...

E mais cedo do que esperávamos, todos esses obstáculos ficaram para trás. Daí nada mais pôde evitar que nos reencontrássemos no meio do Pacífico.

Ofegando muito, intencionei falar, mas então Edward chegou agarrando minha nuca. Ele pressionou avidamente os lábios contra os meus, respirando fortemente apenas pelo nariz. Enlouquecida pelo contato, soltei a bóia jogando os braços em volta do seu pescoço. No mesmo instante começamos a afundar e nem me importei, porque a sensação da boca dele na minha foi a melhor coisa do mundo!

Embaixo d’água, trocamos um beijo desajeitado, cujo desespero em continuar ultrapassou a necessidade de respirar. Naqueles segundos não precisei de nenhuma palavra. Só o toque de Edward foi suficiente para me dar certeza de que ele era meu. Sim, dava para sentir pelo modo com que me segurava.

Para que o oceano não nos engolisse, Edward lutou para emergir e me levou junto. Ao chegarmos à superfície, minha visão se encheu de manchas por causa da tontura. Em compensação, o oxigênio invadiu meus pulmões, trazendo alívio às dores no peito.

Recuperando o fôlego mais rápido do que eu, Edward nadou para alcançar a bóia que flutuava a dois metros de nós. Num piscar de olhos retornou e nos apoiamos nela.

Estávamos a centímetros de distância, primeiro só partilhando o mesmo ar. Depois, ficamos nos encarando como se tivesse passado um século desde a última vez que nos vimos.

A fisionomia dele não mudara muito. Claro que estava mais bronzeado e um pouco barbado, porém os olhos azuis com pintinhas cinzas eram os mesmos. A única diferença relevante era a tatuagem tribal no braço direito. Ela parecia ter sido feita havia poucos dias já que ainda estava avermelhada.

Imaginei que suas primeiras palavras fossem ser a respeito do pesqueiro que vinha nos buscar, entretanto ouvi:

— Por que está indo embora sem mim?

A frase me deixou completamente abobalhada de tão feliz. Sua voz rouca me trouxe ainda mais convicção de que eu não estava sonhando. Entre uma arfada e outra, respondi com um sorriso trêmulo:

— Parece que recebeu minha carta.

— Sim, mas... — Franziu o cenho, um pouco inquisitivo. — Que história é essa de estação de trem?

— O quê? — Arqueei uma sobrancelha, bastante surpresa. Edward esperou por uma explicação e me perdi nela. — Está dizendo que não me viu na estação?

— Não. Estou dizendo que, pra mim, você não está falando coisa com coisa. Não estive em estação nenhuma.

— Há quanto tempo está na ilha? — O questionei sem saber que maluquice era aquela.

— Há mais de duas semanas.

— Espera aí... — Chequei mentalmente as datas e realmente não coincidiam. Edward já estava em Malaita quando o incidente aconteceu. Então, como eu não podia ter criado aquela ilusão tão real... — Fala sério! — Minha voz saiu esganiçada, tamanho foi o espanto. A epifania demorou, mas enfim chegou. — Pelo amor do meu azar! — Meus olhos quase saltaram pra fora. — Então existe mesmo um sujeito chamado Duke Doidão da Favela que é a sua cara!

— É, tudo indica que sim. — Sorrindo, maneou a cabeça entendo o porquê da confusão.

— Só. Podia. Ser! — Estapeei minha testa chateada por não ter pensando naquilo antes. De repente, me toquei de que ainda tinham coisas mal explicadas. — Se não foi por minha causa, então por que voltou pra Malaita?

Edward suspirou recobrando a seriedade.

— Primeiro preciso esclarecer por que não te procurei meses atrás. — Fixou os olhos nos meus.

— Seria ótimo.

— Sabe, Bella... Quando nos separamos fiquei me sentido péssimo. Um dos principais motivos disso foi ter me descontrolado com tanta violência. Nunca pensei que explodiria daquela forma com Brad. Parecia que eu tinha perdido minha identidade. — Balançou a cabeça repudiando a recordação. — Assim que coloquei os pés em Malaita, quis retomar minha rotina. Recomecei o rito de passagem para tentar me reencontrar, mas isso não foi suficiente pra me trazer paz. — Afastou a mecha de cabelo que estava colada na minha bochecha. — Eu tinha uma boa vida antes de te conhecer, não queria outra coisa. Só que não imaginava que podia existir uma vida ainda melhor. — Havia transparência nas declarações e expressões faciais dele. — Malaita faz parte de mim, sempre fará. Às vezes, me sinto uma extensão daquele pedaço de terra, mas ainda assim não é meu lar.

— É sim, Edward. — Respondi baixinho porque agora entendia o magnetismo da ilha.

— Um lar te traz paz independente das circunstâncias. É por isso que meu lar não é um local. — Suavemente encostou a testa na minha, em seguida, sussurrou — É uma pessoa. Onde você estiver, lá estarei também.

Tive vontade de chorar e sorrir ao mesmo tempo, porém só fechei os olhos e levei uma mão à nuca dele, pressionando ainda mais sua testa contra minha. Um gemido de emoção escapou dos meus lábios e Edward suspirou, satisfeito por ter desabafado.

— Me deixa explicar por que não te procurei. — Ele se distanciou o suficiente para voltar a me encarar. Sinceramente, eu já nem me importava com esses detalhes. — Imagino que já saiba sobre o Instinto Radical.

— Sim, um pouco.

— Não queria chegar até você de mãos abanando sem um plano. Sabia que se sentiria culpada por eu estar deixando Malaita. Também não queria ficar à toa no seu país, já que nenhum emprego convencional me atrai. Então lembrei do projeto de Bruce Jones. Pra falar a verdade... — Soltou uma risada acanhada. — Estou adorando o programa. Fiquei reinventando ele durante os meses que passei na ilha me dedicando ao rito de passagem. — Deu de ombros e lhe sorri de volta. — Enfim, nos meses seguintes tive que viajar bastante e isso me ajudou a driblar a tentação de te ver. O motivo disso foi que me pareceu mais sensato esperar até que tudo desse certo. Mas assim que Bruce vendeu a primeira temporada, retornei à ilha só para concluir o rito de passagem. — Indicou a tatuagem no braço direito. Fiquei feliz em descobrir a real causa do regresso dele. — Bella, meu próximo passo era te procurar. — Falou num tom divertido. — Não vê que tudo isso foi pra não te dar a chance de fugir? Quis garantir que não houvesse mais razões para não ficarmos juntos. — Sorridente, indagou confiante. — Então, qual vai ser o seu pretexto?

White Dress - Parachute

Contente, entrei na brincadeira.

— Não sei. Quanto tempo ficará ausente por causa do programa?

— Viajarei só nas duas primeiras semanas de cada mês, depois vai ter que me aturar. — Lançou-me um olhar provocativo.

— É, não tenho pretexto. Você me pegou... — Respondi deixando minha boca a milímetros da dele. — O pessoal vai mesmo nos largar à deriva a tarde toda. Acho que estão nos punindo pela montanha-russa emocional. Já que é assim, quer aproveitar?

Ele respondeu com um beijo. Esse novo beijo foi incrível, pois nossas línguas se encontraram em uma carícia deliciosa. Outra vez larguei a bóia e me segurei nele, desejando intensificar a sensação singular de tê-lo novamente. Nada se comparava ao roçar da barba na minha pele, ao calor dos lábios esfomeados, ou ao rosnado baixinho tipicamente “Edward”.

— Bella... — Ele interrompeu o beijo serenamente. No mesmo instante, enfiou a mão no bolso da calça procurando algo. — Ainda preciso te dar uma coisa.

Por ele não ter encontrado, tive total certeza de que se referia ao anel que já estava no meu dedo.

— Não tem... — Sorrindo, levantei brevemente a mão esquerda mostrando-lhe o anel em meu dedo. Depois olhei em seus olhos. Emocionada, lembrei-me de como chegamos até ali. Uma encruzilhada que sempre levava a outra; momentos de azar que só precediam a estranha sorte; mas, principalmente, a força interior para nunca, nunca desistir de nós mesmos..., ou do outro. — Acredite, Edward... Você já me deu tudo.

***





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