Um Selvagem Diferente-Capitulo 21

Capítulo 21 - Encruzilhadas - Parte 1

Tão tarde me apaixonei por Edward... E tão cedo irei vê-lo partir.

Entregues ao momento de vulnerabilidade, permitimos que o pouco tempo que nos restava se esvaísse. Depois, acompanhei Edward até a casa da árvore, onde ele preferiu ficar sozinho por alguns minutos.

Não sei dizer o que se passava por sua cabeça, mas agora parecia que ele tinha ainda mais certeza de que o mundo onde eu vivia não era o seu lugar. O que doía é que isso estava certo.

Emmett retornou do hospital sem nenhuma novidade, então se uniu a Jasper e Alice no sofá da sala. Eu preferi aguardar junto a uma das janelas que davam para o jardim. As nuvens que surgiram na madrugada agora encobriam totalmente o sol e, mesmo assim, o senhor que hospedávamos ficou perto da piscina, alimentando seu pássaro.



A todo o instante eu implorava a mim mesma para ser forte, no entanto minhas mãos já tremiam levemente e parecia que um buraco se formava no meu estômago.

Antes do que esperávamos, avistei meu pai acompanhado pelo Dr.Carlisle atravessando os portões da mansão. Somente meu pai trazia sua bagagem, fazendo-me entender que o Doutor não havia desistido de ir embora.

No meio do caminho, o Doutor foi abordado por seu filho e eles seguiram na direção da casa da árvore, onde minha vista não alcançava. Já meu pai não deixou de notar a presença do hóspede. Não se detendo, veio para a casa com a expressão carregada de dúvida e chateação.

— Aí vem ele. — Anunciei, me juntando ao pessoal.

Ficamos de pé enfileirados, parecendo confiantes, só que nenhum de nós sabia o que dizer. Assim que meu pai abriu a portar, foi logo perguntando:

— O que aquele senhor está fazendo no jardim? — Diante do nosso silêncio, analisou rapidamente a sala e notou o que acreditamos que nunca notaria. — Pintaram as paredes? — Jogou a mala em uma das poltronas, mais boquiaberto do que chateado.

Eu, que estava de cabeça baixa, tomei a frente dizendo:

— É o seguinte, pai...

— Meu Deus, o que aconteceu com o seu rosto? — Me interrompeu e, em reflexo, dei um passo atrás sem saber o que responder.

De repente, Toby apareceu no topo da escadaria, gritando:

— Aê?! Não vai ter mais festa na praia?

Meus amigos gemeram de desgosto e eu cobri a face com uma mão, xingando-o mentalmente.

— Quem é esse garoto? — Meu pai apontou para Toby, que desceu as escadas e saiu pela porta da frente sem esquentar com nada.

Mais uma vez o silêncio desconcertante se fez presente. Alice e Emmett ficaram por demais constrangidos e sentaram no sofá. Já eu estava com a cabeça latejando e não tinha a mínima condição de lidar com as cobranças do meu pai. Justo nessa hora, ultrapassando nossas expectativas, Jazz interferiu.

— A culpa é minha. Fui eu quem ofereceu hospedagem a essas pessoas. — Segurou o braço do nosso pai. — Por favor, vamos ao escritório que eu explico tudo.

Espantados, o fitamos ao mesmo tempo.

— Deixou de falar na terceira pessoa? — Meu pai murmurou com uma sobrancelha arqueada de incredulidade.

Pasma até o último fio de cabelo, assisti Jasper distrair nosso pai e conduzi-lo até o escritório para assumir a responsabilidade pelo projeto de férias.

— Eu. Tou. Besta. — Disse Alice, sem nem conseguir piscar os olhos.

Os últimos acontecimentos, sem dúvida, obrigaram meu irmão a deixar as infantilidades um pouco de lado. Ainda estávamos sensibilizados com a morte do puma e suas drásticas consequências. Tudo estava ruindo e, pela primeira vez, Jasper não quis se acovardar. Ele sabia que precisava mostrar pulso firme e “segurar as pontas”, pois estávamos completamente desorientados.

Cerca de dez minutos se passaram até o Dr.Carlisle aparecer para se despedir. Chamou por meu pai e ele saiu do escritório junto com Jasper. O Doutor cordialmente apertou nossas mãos e agradeceu por tudo que fizemos por seu filho. As poucas palavras trocadas ali fugiram do meu entendimento. Permaneci com os olhos fixos na porta aberta esperando ansiosamente que Edward a atravessasse, mas isso não aconteceu.

— E Edward? — Perguntei rouca.

— Está esperando lá fora. — Senti os olhos do Doutor sobre mim e confusa o encarei de volta. — Sinto muito pelo machucado. — Apertou novamente minha mão. — Edward ficará bem.

Jasper e os outros, que não tinham feito o pacto de “sem despedida”, rapidamente foram para o jardim dar adeus ao selvagem. Em seguida, o Doutor me lançou um sorriso fraco e, acompanhado por meu pai, também se dirigiu para o jardim. Antes de deixar a sala, meu pai avisou:

— Bella, vou levar Carlisle e Edward ao aeroporto. Não demoro.

O quanto eles sabiam sobre o nosso romance? Concluí que a resposta era irrelevante, tendo em vista que na hora que o selvagem atravessasse os portões da mansão deixaríamos de ser um casal.

Plantada no meio da sala, pude ouvir os murmúrios vindos do jardim. Eu sabia que trocavam abraços, sorrisos melancólicos e certamente Alice deixava cair algumas lágrimas de pesar e saudade.

Fechei os olhos e quase consegui ver Edward apenas maneando a cabeça, enquanto os rapazes agradeciam-lhe pelas instruções de Krav Magá e desejavam muitas felicidades.

Em nenhum momento ouvi a voz dele, por isso automaticamente levei as mãos à cabeça, já sendo torturada pelo vazio que ele deixava. Naquele instante, pensei em abandonar tudo para segui-lo aonde quer que fosse. Até podia me ver sendo mais uma vez impulsiva. Conseguia me imaginar lançando fora minhas expectativas de vida para aderir as dele. Mas daí, lembrei-me de Sarah.

Deus do céu, e se eu não conseguisse?

Covardemente magoaria Edward, rompendo o acordo que eu mesma impus só para ir a Malaita com ele. E talvez depois, ridiculamente cederia a saudade do meu “antigo mundo” e acabaria abandonando o lugar como sua mãe fez. Eu não podia arriscar... Não tinha o direito fazê-lo reviver a história de seus pais.

Quando meus olhos começaram a arder e senti meus pés firmemente fincados no chão, ouvi Alice gritar:

— Tchau, Ed! Não se esquece da gente!

This Ain't Goodbye - Train

Estava acontecendo mesmo, não era um pesadelo. Edward de fato ia embora sem se despedir de mim. Subitamente, um gemido causado por uma dor que jamais senti antes, levou embora o resto das minhas forças. Em um só fôlego, disparei para a porta e o avistei já chegando aos portões.

Carregando somente a mochila nas costas, não olhou para trás na hora em que meu pai empurrou o portão para que ele passasse. Com total lucidez, finalmente percebi que a despedida antecipada tinha sido uma estúpida ilusão. Do que ela adiantou se nunca o amei tão sinceramente quanto naquele momento?

Cansada de tentar fugir do inevitável sofrimento, corri com todas as minhas energias na direção dos portões. Cheguei a esbarrar em meus amigos quando passei por eles. Com a garganta seca, não fui incapaz de gritar por Edward. Em compensação, antes que ele deixasse os limites da mansão, seu pai sussurrou algo que o fez, enfim, olhar para trás.

Continuei correndo com o rosto já coberto de lágrimas e a pulsação a mil. De longe, vi Edward pronunciar vagarosamente meu nome para si mesmo ao se apressar para me alcançar. Ele veio pra mim com expressão torturada. Quase no meio do jardim, choquei-me contra ele, sendo imediatamente acolhida com um abraço apertado. Senti a respiração acelerada de Edward em meus cabelos, assim como também senti horríveis pontadas no peito.

— Desculpa... — Lutei por ar, tropeçando nas palavras. — Eu não consegui... Sinto muito... não... — Meu choro se tornou mais intenso. — Não podia deixá-lo ir sem falar nada...

— Eu sei, Bella. — Sussurrou igualmente angustiado.

Edward ergueu meu rosto e tentou limpar minhas lágrimas com os polegares, mas eu não conseguia parar de chorar. Precisei de alguns segundos para fixar bem meus olhos nos dele e finalmente dizer:

— Você tem que saber que foi a melhor coisa que já me aconteceu. — Com os dedos trêmulos, toquei seus lábios. — Eu juro...

Ainda que sua respiração desregular denunciasse um conflito interior, nada falou. Fechou os olhos por um breve momento e quando os abriu, tirou a mochila das costas e de lá puxou sua agenda. Ele então olhou rapidamente para ela, em seguida entregou-me.

— Por favor. — Esperou que eu a pegasse. — Quero que fique com isso.

Não entendia por que Edward estava me dando aquilo, mas não o questionei. Não havia tempo para perguntas. Consciente disso, ele voltou a segurar meu rosto e passou a sussurrar tão perto que quase sentia sua boca na minha.

— Sonhei com você noite passada. — Forçou um sorriso. — E você estava feliz. — Encostou a testa na minha, como na vez que saltamos do penhasco. Eu bem conhecia os significados ocultos daquela ação. — Feliz como eu sei que será. — Respirou fundo. — E talvez um dia... — Ele tentou, mas não conseguiu terminar a frase. A pouca crença nela travou sua língua.

Coloquei a mão esquerda em seu peito, temendo esquecer como era tocá-lo.

— Só me beije, Edward. — Sussurrei fechando os olhos.

Com delicadeza ele encostou os lábios nos meus. Diferente de todos os beijos que já trocamos, esse tinha um sabor único. Sabor de lágrimas e adeus. Não foi um beijo desesperador, pelo contrário, foi gentil, doce e quente. Exatamente como foram as melhores partes do meu verão.

Parecia que eu tinha dormido a maior parte da minha vida e agora estava de fato acordada. Sentia absolutamente tudo, desde a forte pulsação na garganta e o roçar da barba de Edward em meu queixo à pressão asfixiante no peito. No entanto, a maior constatação de que eu estava acordada era a certeza de que minha vida nunca mais seria a mesma.

É incrível quando você pensa que já passou por tudo, então um dia alguém surge e modifica sua forma de enxergar o mundo. Ainda que essa pessoa se vá, sua visão permanece clara, até para enxergar melhor a si mesma.

Edward parou de me beijar e continuei de olhos fechados sem me mover. Senti então a ponta de seus dedos deslizando lentamente pelos meus, até que se distanciaram definitivamente. Depois disso, senti apenas o vento da manhã soprando no meu rosto e a esmagadora ausência de Edward.

— Por favor, não vá. — Sussurrei mesmo sem ele poder ouvir. — Não vá.


...


§ OUTONO §


...

§ INVERNO §


...

§ PRIMAVERA §


...

Diário de Bordo - Bella Swan

Orlando, EUA


Sober - Kelly Clarkson

O verão já está chegando e faz um pouco mais de oito meses que Edward se foi.


Essa é a primeira vez que escrevo no diário dele. Depois de muitas lágrimas resolvi preencher as últimas páginas, mas até chegar a esse ponto, muita coisa me aconteceu.

No dia em que Edward foi embora fiquei completamente desolada. Por sorte, meus amigos permaneceram ao meu lado, não me deixando enlouquecer. Naquela noite descobri finalmente que essa agenda era seu diário.


É até difícil descrever como me senti em relação a isso. Fiquei surpresa, cativada e, em vários momentos, terrivelmente triste. Em contrapartida, foi como conseguir entrar na mente de Edward e assim obter algum consolo por não tê-lo mais comigo. Também consegui compreender muitas de suas ações e me surpreendi ao concordar com seus pensamentos. Alguns são tão belos que eu poderia me apaixonar por ele outra vez... E mais mil vezes!


Na manhã seguinte à sua partida, vesti meu uniforme como de costume. Arrastei-me pelo corredor, desci as escadas e somente quando cheguei à sala foi que o silêncio incomum chamou minha atenção. Não havia ninguém passando para tomar o café da manhã na sala de jantar; do jardim não vinham os típicos murmúrios dos rapazes se exercitando; não ouvia nenhum ruído vindo do andar de cima. A mansão estava completamente vazia, exceto por meu pai, que ainda dormia.


Nos primeiros cinco minutos fiquei parada, apenas digerindo muito lentamente o fato de que o resort oficialmente acabara. Sem minha ajuda, meu irmão e amigos levaram os hóspedes para o aeroporto. Optaram por me resguardar e fiquei grata por isso.


Eu não tinha a menor condição de lidar com outras despedidas, estava fragilizada, por isso aproveitei que estavam todos fora e coloquei minhas coisas em uma mala pequena. Arrastei-a para fora da mansão só com alguns dólares no bolso e muita vontade de dar logo início à nova etapa da minha vida. Naquela hora foi difícil pensar em como minha família e amigos reagiriam à “fuga”, mas tinha esperança de que me entendessem.


Minhas primeiras semanas em New Haven, Connecticut, foram mais difíceis do que imaginei. Yale não se resume a festas, bebedeiras e azaração. É uma universidade que exige muito dos seus alunos, os quais parecem sempre atrasados para alguma coisa.


Minha colega de quarto foi uma esnobe chamada Jéssica. Quase não a via. Às vezes, ela aparecia para trocar de roupa, mas quase sempre passava a noite no apartamento do namorado e eu ficava completamente sozinha.


Infelizmente, não fiz muitos amigos no campus. Agora entendo que o problema era comigo. Ficava suspensa no ar, dentro de uma espécie de bolha invisível. O único que, algumas vezes, atravessava essa bolha era Eric Yorkie, também de Orlando. Muito inteligente, porém, gago. Assim como eu, era um recluso e sua falta de jeito me lembrava Jasper. Compadecendo-me dele, procurei ser como uma temporária irmã mais velha.


Durante o dia eu tentava acompanhar o ritmo frenético da vida universitária, mas durante a maior parte do tempo sentia-me perdida. Constantemente me arrependia de ter deixado minha mãe me convencer a cursar Agronomia.


Já durante a noite, ficava no quarto relendo incansavelmente este diário. Nessas horas não me sentia tão sozinha, pois quase conseguia sentir Edward me olhando. Por vezes, me pegava imaginando se ele também estaria pensando em mim naquele exato momento. Certas noites eu chorava até dormir, outras esperava o dia amanhecer, consolando-me com a idéia de que o tempo ia trazer o beneficio do esquecimento.


Os meses foram passando e se tornou cada vez mais difícil manter contato com meus amigos. No início fazíamos vídeo-conferência três vezes por semana, depois passamos a trocar uns dois e-mails por semana. Eles me perdoaram por ter ido embora sem me despedir, mas evitavam falar de nossas últimas férias para que eu não lembrasse de Edward.


Todos estavam aparentemente bem e se empenhavam em tocar suas vidas da melhor forma possível. Daí quando entramos no período de provas, mais nenhum e-mail chegou à minha caixa de mensagem. Meus pais ligavam quando podiam, no entanto nossas conversas eram rápidas e superficiais. Decidi poupá-los das minhas frustrações, fingindo estar perfeitamente feliz.


Todos os dias eu lutava contra a vontade de voltar pra casa. Minha mãe frequentemente ressaltava que o primeiro semestre é difícil para todos, mas que se eu insistisse iria acabar me adaptando. Eu segui seu conselho e continuei me esforçando para suportar a solidão e falta de ânimo dia após dia.


Não passei os feriados de final de ano com a família. Inventei vários pretextos para ficar em New Haven, porque temia que quando retornasse à faculdade eu tivesse que passar novamente pelas dolorosas etapas de adaptação. Preferi tentar vencer meu primeiro ano longe de casa antes de encarar meus amigos e todo o cenário do meu rápido romance com Edward.


Nesse período, recebi um e-mail de Jully. Com poucas frases se desculpou pelo incidente na festa de Sarah e disse que estava bem. Contou-me também que conseguiu um bom estágio e estava feliz, pois lá conheceu um homem à altura do que sonhava. Por fim, me desejou boas festas e muitas felicidades.


Naquele dia sorri com vontade. Respondi seu e-mail e também me desculpei, pois já não importava quem errou mais. Nós duas tínhamos seguido em frente, passamos por cima do desentendimento. Isso nos bastava.


Durante a primavera, numa sexta-feira nublada, peguei minha mochila cheia de livros e fui para uma lanchonete afastada do campus. Moondance era um lugar pouco movimentado, onde eu sempre sentava à última mesa e tomava café observando a rua através das vidraças. Como vinha fazendo há semanas, deixei o livro de biologia aberto em cima da mesa mesmo sem conseguir olhar pra ele. Eu só gostava de ficar ali, sentido o cheiro de panquecas e ouvindo as músicas melancólicas que tocavam na rádio.


Nesse dia em especial, tocou uma música que até aquele momento nunca tinha ouvido. Uma canção simples, porém significativa, que mexeu profundamente comigo.


A letra é mais ou menos assim:


Kate Voegele - Lift Me Up


Essa estrada é tudo, menos simples

Confusa como um enigma, estive em cima e estive embaixo

Tão altas, as vozes de todas as minhas dúvidas

Me dizendo pra desistir, fazer as malas e ir embora da cidade


E mesmo assim, eu tive que acreditar

Impossível não significa nada pra mim,


Então, será que você pode me levantar?

Transformar as cinzas em chamas

Porque eu tenho superado

Muito mais do que as palavras jamais irão dizer

E me deram a esperança

De que há uma luz no fim do túnel

E de que chegará o dia

Em que a luta estará vencida

E eu acho que esse dia acabou de começar


Algum lugar, todo mundo começa por aí

Eu estou contando com uma pequena oração

Perdida em um pesadelo

Mas eu estou aqui, e de repente é tão claro

A luta durante os longos anos

Me ensinou a andar mais rápido que os meus medos


Tudo vale a pena ter

Vem com trilhas que vale a pena suportar


Oh, me levante

Me levante


Para baixo e para fora é superestimado,

E eu preciso ser elevada

Olhar pra cima não é o suficiente

Não, prefiro subir acima


Essa música fala de tropeções, quedas e marcas. Fala de ter que lidar diariamente com as consequências de suas más escolhas, mas nela também há a esperança e a força que surge do coração de quem continua resistindo. E como a letra diz: vem com trilhas que vale a pena suportar.


Continuei refletindo sobre a mensagem passada através da canção. Logo me peguei observando as poucas pessoas dentro da lanchonete.


Havia um homem grande que parecia ser um camioneiro de 50 anos, esperando sua refeição no balcão enquanto lia o jornal. A jovem garçonete que limpava o mesmo balcão enviava mensagens de texto pelo celular. Do outro lado da lanchonete, uma senhora com mais de 70 anos tomava sua sopa sozinha e parecia alheia ao que se passava à sua volta. Então uma mulher com cerca de 30 anos trajando um terninho e segurando uma maleta entrou na lanchonete para comprar cigarros. Ela parecia estressada e cansada. E entre esses desconhecidos estava eu...


Lembro-me de que não conseguia parar de me perguntar como aquelas pessoas chegaram ali. Quais eram suas histórias? Que caminhos errados tomaram? Que boas oportunidades agarraram? Teriam partido o coração de alguém? Já tiveram que dizer adeus? Quais eram seus sonhos e quantos deles foram desperdiçados?


Foi então que percebi que o tempo passa igual pra todo mundo. Acaba rápido. É como um breve suspiro de Deus. E se não soubermos o que fazer com o tempo que nos é dado, talvez não valha a pena viver.


Eu estava definitivamente desperdiçando meu tempo Connecticut. Odiava Agronomia, odiava as aulas que não me despertavam interesse, mas acima de tudo odiava meu comodismo.


No colégio fui uma garota fútil e estúpida. Gastei minhas energias sofrendo por Brad ao invés de fazer bons planos para o futuro. Na época, foi fácil assentir para as decisões de minha mãe, que almejava o melhor para mim, mas agora é diferente. Hoje sou uma mulher mais completa e minhas ambições estão mais ligadas à superação e satisfação pessoal do que a uma carreira para a qual não tenho a menor vocação.


Naquela sexta-feira eu decidi que não ia desperdiçar mais nenhum minuto tentando ser o que não quero ser. Absolutamente convicta, abandonei os livros sobre a mesa e, respirando bem fundo, saí da lanchonete... Caminhei para longe de tudo aquilo, sem nem olhar pra trás.


Eu voltei a Orlando, mas voltei com um plano. Faz quatro semanas que me dedico completamente a ele. É algo que deu um vigor diferente à minha vida e me faz acordar todas as manhãs pronta pra fazer os sacrifícios necessários.


Logo que cheguei em casa, tive uma conversa franca com meu pai. Expliquei-lhe os motivos que me levaram a largar a faculdade, e pedi com esperança que me deixasse transformar a mansão em uma pousada.


No início ele foi totalmente contra, achou que eu tinha ficado louca, mas eu continuei insistindo por cinco dias seguidos. No sexto dia ele argumentou, dizendo que eu não tinha capital para realizar tal projeto, mas acontece que eu tinha. O coitado do meu pai ficou perplexo quando lhe mostrei o diamante que Edward me deu. Ele se deu conta de que não vou parar até alcançar meus objetivos.


Não foi fácil decidir vender a pedra por causa de seu valor sentimental pra mim. Mas depois de passar um bom tempo a observando, cheguei à conclusão de que talvez Edward tivesse pressentido o quanto ela mudaria meu destino, já que primeiro mudou o dele. Como hoje o conheço mais profundamente por causa deste diário, posso garantir que ele aprovaria minha decisão. Afinal, antes mesmo de simpatizar-se comigo deu-me algo que ninguém jamais deu: um meio de realizar meus sonhos.


Enquanto minha mãe pirava no Texas por eu ter largado Yale, meu pai ficou ao meu lado e se colocou à frente das negociações da venda do diamante. Ele tem sido o máximo, não deixou que eu fosse ludibriada por compradores gananciosos e acabou vendendo a pedra para um bilionário Geólogo. Este a inseriu em sua coleção de minerais.


Uma semana depois, eu tinha em uma conta bancária mais dinheiro do que jamais imaginei possuir na vida. É mais do que suficiente para pôr em prática minha idéia de construir um terceiro andar na mansão. Também mobilhar os novos cômodos, comprar uma Van Topic e cobrir todas as despesas da pousada por um ano. Claro que não descobri isso tudo sozinha, meu pai me indicou um contador que cuidou também da abertura da empresa e conseguiu a licença necessária para dar início às obras.


Essas duas últimas semanas têm sido exaustivas, mas comecei a me sentir viva outra vez. Passei a acordar todos os dias às 5h da manhã para trabalhar num projeto e apresentá-lo para algumas agências de viagens. A fim de economizar, comprei livros de decoração e fico horas estudando e pesquisando. Minha intenção é decorar a pousada de forma requintada e aconchegante.


Com o projeto finalmente pronto, comecei a bater na porta das agências. Obviamente levei muitos “NÃOs”, mas não me dei por vencida. Consegui convencer a Anne Owens, gerente da agência Laxtur, a fechar uma parceria. A idéia central do projeto é oferecer pacotes acessíveis de hospedagem a jovens de outros países que vêm para a Flórida conhecer os parques temáticos. O diferencial da pousada será o ambiente descontraído e a fácil interação dos hóspedes com os funcionários, que terão entre 16 e 25 anos. Foi um passo arriscado, confesso, pois as obras na mansão ainda nem começaram. Contudo, minha confiança absoluta no projeto fez com que a Anne me desse um voto de confiança.


Logo que descolei a parceria, comecei a visitar lojas de móveis comparando orçamentos e intimidando os vendedores com minhas exigências. Em um desses dias, parei numa loja de conveniência para comprar água. Enquanto esperava na fila do caixa, uma silhueta conhecida adentrou a loja.


Com a cabeça coberta pelo capuz do blusão escuro, Brad McFadden demorou a notar-me. Estava cabisbaixo contando moedas para comprar cigarros. Segundos se passaram até seu olhar enfim encontrar o meu.


Brad se recuperou, porém algumas marcas indisfarçáveis o deixaram diferente. A base do seu nariz ficou um pouco torta. E também agora possui uma encorpada cicatriz, que vai do final da sobrancelha esquerda, à têmpora. O homem já não tem o rosto perfeito de que tanto se orgulhava.


McFadden sempre se considerou muito especial por ser belo e por possuir algum talento. Ele costumava acreditar que vivia em um playground e que o mundo girava em torno do seu umbigo. Brad não é diferente de tantas outras pessoas que constroem suas vidas com base nesse equivoco. Talvez, só talvez, agora enxergue algo além do próprio reflexo no espelho.


Honestamente, não sei se Brad chegou a prestar queixa contra Edward. Meu palpite é que temeu uma retaliação. Ou descobriu que também teria que responder um processo pela morte do puma. Pensando bem, isso é mesmo bem a cara dele. Sempre covarde.


Eu fiquei lá, parada, esperando alguma piadinha arrogante, mas ele nada disse. Devolveu o maço de cigarros lançando-o sobre o balcão e foi-se embora. Naquele momento, senti que nunca mais o veria outra vez...


Também segui meu caminho. Nele estou apostando todas as minhas fichas. Assumindo todos os riscos. Não podia exigir o mesmo de meu irmão e amigos. Por isso, somente ontem enviei uma mensagem um tanto exagerada implorando que me encontrassem na nossa casa da árvore esta tarde.


Agora estou aqui, nesse lugar que me traz tantas recordações, esperando por eles e me perguntando se seguirei sozinha com os planos.


Quanto a Edward...


Eu não tenho chorado mais. Não é que eu tenha “superado”, pelo contrário, todos os dias eu me lembro dele com carinho, admiração e saudade. É só que comecei a aceitar que não tenho motivos para ficar lamentando. Nosso romance de poucos dias se tornou “o momento da minha vida”. O momento que separa o antes do depois.


Encerro então esse diário, que me ajudou na época em que fiquei mais solitária e impotente, citando Edward Cullen:


“Agora só me resta concluir que não há conclusões exatas. Certas coisas são para ser vividas e não compreendidas.”



xxx


Fechei o diário suavemente. Depois, o guardei dentro de uma pequena caixa de madeira. Coloquei a caixa no cantinho da casa da árvore, onde Edward costumava dormir.

Eu já não podia ficar dependente do diário como fiquei em New Haven. Minha obsessão foi tamanha, que me arrisco a dizer que alguns traços de sua personalidade começavam marcar a minha. Agora precisava manter uma relação saudável com o diário, embora tenha decorado a maior parte dele.

Cerca de 20 minutos se passaram até Alice invadir a casa da árvore acompanhada por Emmett. Assim que me viu, correu ao meu encontro e abri os braços para recebê-la.

— Que saudades. — Anunciei feliz.

— Deixa de ser tonga, sua monga! — Sem nenhuma piedade, segurou-me pelos cabelos. Tentei reagir, mas a louca “soltou os cachorros”. — Se mata agora que eu quero ver. Se afogue aí no próprio cuspe. Não existe homem que valha isso, Bella!

— Aiiii... — Desvencilhei-me chateada. — Não vou me matar. Vira essa boca pra lá. — Esfreguei o couro cabeludo. — Exagerei um pouquinho no e-mail porque foi o único jeito que encontrei de trazê-los aqui no mesmo dia e horário.

— Ah é? — Ela sorriu desconcertada e trocou um rápido olhar com Emmett. — Ufa... — Fingiu enxugar o suor da testa. — Eu já tinha até ensaiado um discurso, que coisa. Mas agora me abraça que tou rachando de saudade.

Agarramo-nos soltando gritinhos. Serelepes feito crianças entupidas de açúcar.

— Olha aí, gritos desnecessários... Agora sim estamos em casa. — Emm veio me abraçar também.

— Quando o Mundo está em perigo, a liga dos vadios se reúne outra vez. — Jasper despontou na entrada da casa, roubando nossa atenção.

Ele usava óculos de grau redondos, que qualquer um pensaria que roubara do túmulo do John Lennon. E para completar, suspensórios e um chapeuzinho de brechó, bem estilo anos 40.

— Lindo... — Emmett não aguentou e lhe provocou batendo palmas. — Eu sabia. Esse Frajola sempre foi Piu Piu.

Lice e eu gargalhamos enquanto meu irmão procurava se justificar.

— Podem zoar, eu não ligo. Agora faço a linha intelectual, as universitárias adoram isso. Na verdade, algumas me acham bem parecido com o Johnny Depp. — Brincou com as alças dos suspensórios. — Não é querendo me gabar, mas virei o rei da sapecação na borrachuda. Se é que os ultrapassados aí me entendem. — Piscou o olho sensualmente para Alice.

— Desculpa, Piu Piu, meu santo é forte. — Ela o dispensou sem dó.

— Espera, parou mesmo de falar de si de mesmo na terceira pessoa? — Embasbaquei.

— Aquilo ficou para trás, junto com os meus dias de hippie. — Se aproximou me analisando. — Estamos aqui para um suicídio coletivo? Porque não gosto do T-zed tanto assim.

Gemi alto antes de recuperar o foco.

— Vamos parar de brincadeira. O assunto é sério. Por favor, vamos sentar. — Ansiosa, peguei minha pasta executiva do chão.

(...)

Por mais de 1 hora, não só expliquei a essência do meu plano, como também lhes mostrei o projeto de reforma da mansão, o extrato da minha conta bancária, todos os orçamentos, as licenças para o início das obras, uma cópia do contrato de parceria com a Laxtur e minhas idéias para a decoração.

Absolutamente perplexos, não deixaram de checar nada. Tiraram pequenas dúvidas, fizeram alguns comentários superficiais e, por razões que temi descobrir, não demonstraram o entusiasmo que eu esperava.

— Isso é incrível, Bella. — Emm falou, passando o contrato para Jazz.

— Nem acredito que fez tudo praticamente sozinha. — Alice começou a juntar os papéis que espalhamos pelo chão.

Com esforço fiquei de pé, disposta a pressioná-los para saber a verdade.

— Qual o problema? — Com a confiança abalada chacoalhei a cabeça. — Certo, sei que foram pegos de surpresa, entendo. Mas, pessoal, o que temos aqui é... é...tudo! É o que sempre sonhamos. — Odiei não conseguir pensar em mais argumentos. — Não estão vendo? Por que não estão felizes?

— Estamos felizes por você. Disso não tenha dúvida. — Jazz quis destacar em vão.

Tive que multiplicar minhas forças para não me deixar ser engolida pela frustração.

— Não é sendo pessimista... — Emmett coçou a nuca, procurando palavras. — É que, Bella, talvez a gente não sirva pra isso. Da última vez deu tudo errado. Nem sei como sobrevivemos. E, sinceramente, não posso largar a faculdade.

Boquiaberta, não fui capaz de contradizê-lo. Então fitei Alice, esperando que ela o fizesse.

— Odeio Princeton, só que adoro as aulas de teatro. — Ela encolheu os ombros, envergonhada demais para me encarar.

— Podem se transferir para uma universidade na região. Sei que não tenho o direito de pedir isso, mas se me derem um ano verão esse projeto se tornar um sucesso. — Inconformada, cerrei o punho em convicção. — Acredito com todas as minhas forças nisso. Por favor, gente. Só um ano.

Meus amigos trocaram olhares, lamentando silenciosamente. Nem a culpa estampada em seus rostos os impeliu a me darem o que eu pedia.

— Quem sabe podemos ajudar nas férias. — Alice propôs com um fraco sorriso.

Imensamente triste, cobri o rosto com uma mão e fechei os olhos por um minuto. Nesse tempo, lembranças de nossa infância e adolescência encheram minha mente. As muitas fases, as brincadeiras, brigas e a antiga certeza de que ficaríamos sempre juntos. Ao abrir os olhos, sufoquei qualquer sentimento de abandono com o carinho incondicional que possuía por cada um. Entretanto, precisava desabafar:

— Algo se perdeu... — Minha voz tremeu um pouco. — Se tudo que mostrei não foi suficiente para mudarem de idéia, qualquer outra tentativa será perda de tempo. Só que, com ou sem a parceria de vocês, irei gerir essa pousada. Mas sempre, sempre, serão bem vindos nela. — Firmei a fachada de compreensão com um sorriso. — Passaremos um tempo juntos esse mês, certo?! Não vamos deixar que meus projetos abalem nossa amizade.

A demora na resposta fez com que ela soasse um pouco forçada.

— Claro. — Lice fitou os rapazes com cobrança.

— Só preciso cancelar uma parada que tinha planejado. — Jasper mostrou o polegar, não parecendo assim tão animado.

— Vamos sim. — Emm foi o último a concordar. — É o que sempre fazemos nas férias.

(...)

O final de semana passou rápido e nesse meio tempo procurei entender o lado de meu irmão e amigos. Estava sendo uma tarefa amarga e não sabia se teria sucesso.

Na tarde de segunda-feira, levei Eric à estação ferroviária. Ele fez uma visita rápida à sua mãe e já estava partindo para encontrar-se com a irmã em Daytona.


Plumb - Stranded

A estação estava movimentada por causa da alta temporada. Ficamos em pé no começo da plataforma, conversando enquanto o trem não chegava.

Coloquei-lhe a par dos motivos que me levaram a abandonar Yale. Como ficou triste, o incentivei a se socializar no campus, pois tinha certeza que encontraria uma nova companhia.

— De qual-qualquer forma, senti-ti-tirei sua falta, Bella. Ééé...umm...umm uma boa amiga. — Eric gaguejou como de costume.

— Também sentirei a sua. — Ri abrindo os braços. — Agora vem cá e me dá um abraço porque seu trem chegou.

Eric apertou-me gentilmente contra si e com carinho pousei a cabeça em seu ombro. No fundo, eu sabia que aquela era outra pessoa que nunca mais veria. A distância tende a danificar até os melhores relacionamentos.

Saudosamente fechei os olhos, despedindo-me do único que me consolou em New Haven. Quando dei por mim, já estava sorrindo por me sentir grata em tê-lo conhecido. Com a intenção de lhe desejar boa viagem, fui abrindo os olhos bem devagar.

Um segundo. Apenas um segundo foi preciso para meu sorriso congelar e logo depois morrer. Meu estômago então se contraiu, reagindo a brusca mudança de humor. Há vários metros, entre a barulhenta multidão, avistei uma figura conhecida. De óculos escuros e com o cabelo um pouco crescido, o homem que nunca saiu do meu pensamento estava voltado para mim. Tive a impressão de que me observava já havia algum tempo.

No início o choque deixou-me inerte. Duvidei dos meus próprios olhos, mas necessidade de garantir que não estava sonhando destravou-me os membros, impulsionando os movimentos seguintes.

Deixando Eric confuso, saí serpenteando debilmente por entre os desconhecidos sem perder Edward de vista. Vê-lo novamente foi tão bom que acendeu dentro de mim algo que superou a emoção.

Quando o trem anunciou partida, Edward olhou na direção oposta, mexeu nos bolsos do casaco e depois simplesmente me deu as costas. Sua atitude me despertou com a intensidade de um tapa.

— Edward! — Gritei erguendo a mão. — Edward, aqui! Edward!

Ignorando os incomodados à minha volta, continuei esbarrando nas pessoas para poder avançar. A aflição tomou conta de mim ao perceber que ele não estava interessado em me alcançar. Pelo contrário, começou a se afastar sem nem olhar para trás. Tive que me espremer pra passar por entre um casal de meia idade. Causei alvoroço suficiente para que muitos abrissem caminho e, finalmente, disparei na direção de Edward. Contudo, isso não foi o bastante, porque ele entrou no trem e o perdi de vista.

Raciocinando com dificuldade, empaquei no meio da plataforma sem saber o que fazer. Absolutamente transtornada, coloquei as mãos na cabeça, me negando a acreditar que era Edward. O problema é que todos os meus sentidos alegavam que era.

Desesperada por respostas, saí feito louca tentando enxergá-lo através das janelas do trem. Por coincidência, o avistei a uns cinco metros, com a cabeça encostada na janela olhando para a plataforma. Pensei comigo mesma: é a minha chance!

Corri para a porta mais próxima, mas o trem já estava em movimento. Foi impossível alcançá-la e amaldiçoei meus joelhos trêmulos e minha falta de fôlego. Apesar de tudo, eu não podia desistir. Então continuei correndo na esperança de induzir Edward a vir ao meu encontro. Ele precisava voltar! Era tudo que eu queria.

Driblando todos que atravessavam meu caminho, continuei perseguindo inutilmente o trem por não conseguir lidar com a surreal rejeição. Minhas pernas deliberadamente levaram-me até o final da plataforma, onde fui obrigada a parar e assistir, inconformada, Edward partir outra vez.

Quis gritar de frustração! E não só isso, desejei também dissolver toda a angústia e confusão e expelir tudo em forma de lágrimas. Mas me perguntei do que adiantaria se não fazia idéia do que tinha acontecido? Eu vi Edward, todavia ele mais parecia uma miragem.

(...)

Cheguei em casa um caco. Contei tudo para meus amigos e eles discutiram entre si, procurando uma razão para o incidente.

— Eu não entendo. — Jazz sentou na ponta da minha cama, onde eu estava estendida com o travesseiro enfiado no rosto. — Será que T-zed ficou com ciúmes?

— Na boa, isso não é a cara dele. — Lice respondeu. Imediatamente apontei para ela, mostrando partilhar da mesma opinião.

— Tem certeza de que ele te viu? — Emm indagou e eu gemi confirmando.

— Bella, se Ed estivesse no país já teria vindo aqui. — Jasper apertou meu tornozelo. — Talvez... — Suspirou, medindo as palavras. — Talvez você tenha se enganado.

Joguei o travesseiro longe.

— Eu o vi, gente. Não sei explicar, mas vi. Isso é tão... tão... — Enraivecida, sentei lutando para me expressar, só que era impossível fazer isso quando não conseguia alinhar os pensamentos. — Só se agora eu estiver fantasiando. — Ironizei.

— E quando foi que não esteve? — Lice indagou em tom de brincadeira. — Tá, foi mal. Mas você tem motivos pra isso?

— Pior que tenho. — Murmurei lembrando-me do diário. — Isso vai soar estranho, mas fiquei obcecada pelo diário do Edward. Algumas vezes em New Haven, fechava os olhos e conseguia vê-lo tão nitidamente. — Comprimi os lábios, refletindo. — Será que minha mente está reagindo à abstinência do diário? — A hipótese não pareceu tão absurda.

— É possível que seu subconsciente tenha criado a ilusão. Sei lá, como um modo desesperado de te manter conectada a Edward. Esse tipo de coisa é mais comum do que se pensa. — Alice estava inclinada a acreditar na própria teoria. — Desculpa, queria ter uma resposta melhor, mas só consigo pensar nisso.

— E aí, o que fazemos? — Emmett se dispôs a ajudar mesmo sem saber como.

— Bella, você tem certeza? — Jazz insistiu.

— Não. — Revelei com pesar. — Ando tão cansada. Nesses meses dormi pouco, comi pouco... — Esfreguei os olhos com força a fim de fugir da insanidade. Precisava me focar no projeto da pousada, e ser considerada louca não ajudaria em nada. — O Edward que conhecemos não teria me abandonado na estação. Acho que o estresse e a saudade me pregaram uma peça. Por favor, vamos esquecer esse assunto. Só está me fazendo mal.

(...)

Uma semana se passou e minha relação com meus amigos continuou estranha. Conversávamos, saíamos juntos, mas já não tínhamos a mesma dinâmica de espontaneidade e união.

Ficava me perguntando a causa dessa ruptura e as possibilidades eram muitas: culpa por não terem aceitado a parceria no projeto; saudade dos novos amigos da faculdade; frustração por cancelarem seus planos de férias para ficar comigo... Especular sempre me deixava pra baixo e isso refletia no meu modo de tratá-los.

Por volta das 15h, nos encontramos em uma lanchonete perto de casa. Alice e eu fomos ao banheiro enquanto Jazz esperava sozinho em uma mesa. Emm não ligou justificando o atraso e consideramos isso um “fora”.

— Desculpa ter passado uns meses “offline”. Acabei nunca perguntando o que rolou realmente entre você e o Emmett. — Falei enxugando as mãos com papel tolha.

— Transamos naquela noite porque estávamos bêbados. — Entediada sentou na ponta da pia. — Como ele não tocou mais no assunto também fiquei na minha.

— Como conseguem fingir que nada aconteceu? — Balancei a cabeça sem entendê-los.

— Sei lá. — Cruzou os braços com estranha indiferença.

Desconfiada estudei seu rosto por um momento.

— Alice?

— Eu. — Fitou-me toda esquisita.

— Sente alguma coisa pelo Emmett? — Estreitei os olhos sentindo que tinha “trêta naquela mutrêta”.

— Defina “coisa”. — Desconcertada, começou a arrumar o cabelo.

— “Coisa” número um: brincou de sete minutos no paraíso com ele quando tínhamos 13 anos. “Coisa” número dois: odiava acidamente Rosalie. “Coisa” número três...

— Bella, vai lamber uma tomada! — Mostrou-me o dedo do meio.

— Eu não acreditoooo! — Chacoalhei as mãos, extasiada. — Pirei quando vi vocês juntos porque achei que fosse só depravação. Mas quem diria... É amor! — Rasguei uma folha de papel ao meio e joguei para cima como se fosse confete. Sem poder me conter, comecei a provocá-la como a peste sempre fazia comigo. Caprichei na voz melosa. — Tão lindinha você. Que menina mais meiga... Bella quer apertar suas bochechinhas. — Pisquei os olhos teatralmente.

— Que desinfetante poderoso foi esse que você cheirou? — Rosnou por entre dentes. — Sabe de uma coisa? Estou deletando esse momento agora. — Apertou uma tecla imaginária. — Fui! — Lice saiu do banheiro e a acompanhei, saltitando de alegria.

Havia pouquíssimos clientes na lanchonete e eu sorri para vários, quase declarando em voz alta que “o amor é lindo”.

— Demoraram muito no banheiro. Credo, esse tipo de necessidade se faz em casa. — Jazz reclamou quando sentamos à mesa.

— Deixa de ser estúpido. — Não conseguia mais parar de sorrir. Minha amiga deslizou pelo estofado de couro fugindo de mim, mas fiquei na sua cola. — Lice tem uma coisa pra contar.

— Tenho? — Espantada, arregalou os olhos.

— Alice está apaixonada pelo Emmett. — Anunciei com a cara mais deslavada do planeta.

— Sua putenga! — Enfezada, bateu a mão na mesa com força. — Quer levar uma surra, égua do meu nojo?

— O que foi? — Exatamente como um dia ela fez comigo, fingi surpresa ao murmurar. — Era segredo?

Meu irmão nos encarava embasbacado. O coitado estranhava a súbita inversão de personalidades. E, claro, ficou enojado ao imaginar Alice e Emmett juntos. Por conta disso, ainda digerindo a idéia, balbuciou:

— Ma ei usu.

— Tu usa o quê? — Arqueei a sobrancelha sem entender.

— Que língua é essa, meu filho?! — Lice continuou soltando fumaça pelo nariz.

— Falei “não acredito” em estoniano. — Ele revirou os olhos bastante impaciente. — Vamos ser um povo mais culto, né?

— Tou com medo. — Sussurrei fitando o vazio, imaginando por que raios o estoniano voltara pras nossas vidas.

— Alguém me situa: O Emmett? Como? Quando? E o mais importante: por quê? — Jasper balançou a cabeça mais perdido que a Bogdanov no inferno.

— Tá bom. — Alice chacoalhou as mãos no ar, querendo apagar o início da conversa. — A verdade é que sempre tive uma queda picototinha pelo Emm. Ou seja, se essa história vazar, vão acordar no hospital se alimentando por uma sonda.

— Querida, você apaixonada chega a níveis diabéticos de doçura. — Ironizei adorando pegar no pé dela.

— Detalhes. — Jazz exigiu inclinando-se sobre a mesa. — O danado sabe?

— Claro que não! Somos praticamente irmãos, seria um incesto torto. — Alice esfregou o braço fingindo se arrepiar.

— Torto é esse seu cérebro, porque vocês já transaram. — Retruquei revoltada.

— Não acredito que ele desceu o sabugo em você! — Jazz esbravejou fazendo uma cena. — Por que sou sempre o último saber das coisas? — Escancarou os braços exageradamente.

Imediatamente Lice e eu afundamos no assento, escondendo nossos rostos atrás de um cardápio. Percebendo o vexame, meu ridículo irmão soltou uma risadinha nervosa e começou a se justificar com os clientes.

— O que eu disse foi no sentido literal. — Em voz alta passou a assassinar o bom senso. — Sabugo não foi uma metáfora para pinto. — Pigarreou. — Aliás, ninguém aqui está pensando em pintos.

— Fale por você, meu querido. — Alice suspirou com um sorriso.

Pela visão periférica, vi uma mãe tapando os ouvidos da filha pequena.

— Ai... Nosso bom e velho costume de lançar merda no ventilador. — Considerei a idéia de meter um saco de papel na cabeça.

Meu irmão esperou por trinta segundos a poeira baixar e voltou a falar besteira.

— Alice, quando for jogar a bomba na cabeça do Emm posso assistir? — Seus olhos cresceram com a vontade de ver o circo pegar fogo.

— Isso não vai acontecer. — Ela se recompôs empinando o nariz. — O que pensam que eu sou?

— Hipócrita. — Minha resposta categórica deixou-lhe muda. — Me fez rolar por uma ladeira de confusões até eu me acertar com Edward, mas quando o lance é com você...

— Shhhh! — Deu com o cardápio na minha cabeça. — Vocês nem sabem comer de colher e querem me ensinar a comer de garfo?! — Seu mau humor voltou com tudo.

— Perfeito. — Bufei cabisbaixa. — Mais metáforas com talheres.

— Mudemos de assunto, aí vem o Emmett. — Alice quase surtou com medo de darmos com a língua nos dentes.

— Foi mal pelo atraso, meu pneu furou. — Emm sentou ao lado de Jasper. — O que estão bebendo? — Estranhou a mesa vazia. A frase seguinte não soou sarcástica. — Estamos doentes?

— Deixa. Eu pago essa rodada. — Levantei pouco disposta.

Fui até o balcão e pedi ao atendente quatro chopes. Enquanto ele enchia as tulipas, distraí-me com um comercial de carro que passava no televisor fixado na parede, acima de sua cabeça. Após a propaganda, o telelocutor do Discovery Channel começou a anunciar a programação. Desinteressada, desviei o olhar e me foquei nos chopes que já estavam no balcão.

Com dificuldade, juntei as tulipas e as ergui, morrendo de medo de deixar tudo cair. Bem devagar, me virei e na velocidade de uma lesma comecei a me mover. Olhei para meus amigos e os encontrei encarando-me de forma estranha, com se eu fosse um fantasma. Confusa, parei e percebi que não era a mim que encaravam. Foi aí que a voz grave e encorpada do telelocutor da TV me chamou a atenção. Sem me mexer, atentamente ouvi:

...

A aventura agora tem um rosto. E um nome legal também. Acompanhe esse cara enfrentando sozinho a mãe natureza. Em qualquer lugar, e em qualquer hora. Destinos e desafios inusitados.


Virei-me vagarosamente e olhei para o televisor.

“Quando eu era garoto, tudo que eu queria era viver aventuras. Acampar, me sujar de lama, subir em árvores... Só me divertir...”

Quem disse isso foi Edward. Podia até sentir o humor na sua voz ao lembrar dessa fase. Na tela apareceram trechos de vídeos caseiros da sua infância, nos quais ele fazia os mais diversos tipos de estripulias em Malaita. Em estado de choque, deixei os copos caírem no chão, me transformando numa estátua de cera.

“Quando se é criança, nunca se pensa nas consequências. Hoje eu penso, mas me arrisco do mesmo jeito.”

Havia uma empolgação genuína na sua entonação. De repente, ao som de Runnin' Wild do Airbourne, Edward surgiu no vídeo.

Na edição de imagens ele aparecia descendo um rio numa balsa improvisada; chegava ao topo de uma montanha carregando um equipamento nas costas; tentava abrir caminho por uma mata fechada; sentava exausto numa duna no meio do deserto; e corria por uma planície branca, em algum lugar gélido. Eclodiam na tela títulos como: Panamá, Namíbia, Guatemala, Tanzânia e Sibéria.

O rosto que eu nunca esqueci, enfim, ficou suficientemente visível. Suas feições revigoradas delatavam o entusiasmo em conhecer tantos lugares e poder desafiar os próprios limites. A visão, junto com a voz dele, fez com que um turbilhão de sentimentos tomasse conta de mim. Em compensação, continuei estranhamente imóvel.

Quando ampliaram o close, pude ver Edward de pé, em um estúdio com o nome do programa no plano de fundo. Absolutamente lindo, usava jeans, camisa de mangas compridas cinza e por cima uma echarpe listrada. Sem dúvida, estavam usando a ótima aparência dele para atrair o público feminino para o programa que era voltado para o público masculino.

“Há circunstâncias onde só é possível sobreviver com os conhecimentos certos e algumas habilidades. Eu sou Edward Cullen e os levarei aos lugares mais inóspitos e incríveis do planeta."


Acompanhado da narração, apareceu em letras grandes na tela:


Algum lugar no mapa entre o perigo e a diversão: INSTINTO RADICAL. Estréia sábado, às 21:00h. Só no Discovery Channel.

...

Meus amigos me rodearam num piscar de olhos. Desnorteada como nunca, passei a gesticular freneticamente, sem conseguir respirar, muito menos falar. Parecia que meu coração tinha entalado na garganta e meus membros recebido uma forte descarga elétrica. Entrei em parafuso!

— Eu sei! Eu sei! — Alice me abanou com as mãos. — Extravase, pode ser que ajude.

Sem alternativa, foi isso que fiz:

— AAAAAAAAAHHHHHHHHH! MEU CRISTINHO SERENO! — Definitivamente não conhecia a potência da minha própria garganta. — O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — Despejei o desespero em cima da infeliz, chacoalhando-lhe pelos ombros magrinhos. Até me esqueci que estava em público.

— Agora deu. T-zed no Discovery é mais chocante que Lice apaixonada por Emm. — Jazz murmurou sem pensar.

— Como? — Emmett inclinou a cabeça de queixo caído.

Por um momento ninguém se mexeu ou falou. Porém minha atordoada amiga alcançou vários tons de vermelho-morte enquanto seu lábio inferior tremia.

— Extravase. — Com pena dela sugeri seu próprio conselho.

Alice não perdeu tempo:

— AAAAAAAAAAAHHHHHHHHH! — Porém esse grito estridente veio de Jasper, que levou um chute num lugar bem inapropriado e que não fará falta nenhuma pra humanidade.

O coitado desabou para o lado feito um tronco velho.

(...)

— Como? Como assim? Não entendo! Como? — Fiquei repetindo, andando de um lado para o outro na sala de casa.

— Fica fria. Vou achar alguma coisa. — Meu irmão falou fino, com uma bolsa de gelo no local machucado. Ele estava acessando de seu novo notebook o portal do Discovery Channel.

Nós entramos em uma caçada atrapalhada por qualquer informação sobre o paradeiro de Edward. Levantamos algumas hipóteses, mas nada explicava satisfatoriamente o que vimos na TV.

— Achei! — Minha amiga ergueu uma conta de telefone. Foi ela quem teve a idéia de procurar na pasta de contas do meu pai a conta do mês em que o resort funcionou. Segundo Alice, Edward ligou para Sarah uma ou duas vezes. — Até que foi fácil. Só tem um número de celular com o DDD de Los Angeles aqui.

— Ótimo. — Corri e arranquei a conta de sua mão. Imediatamente peguei o telefone sem fio e comecei a discar os primeiros números.

— Espera. — Emmett me tomou o aparelho. — Respira e pensa. Ed deve ter passado muitas semanas gravando o tal programa, então por que não te procurou?

Engoli em seco, incomodada com os olhares analistas e protetores.

— Eu não sei. — Respondi baixo. — Mas vou ficar louca se não descobrir. — Estendi a mão, exigindo o telefone. — Por favor. — A contragosto, Emm cedeu. Nervosa, voltei a discar os números. Depois do terceiro toque alguém atendeu. — Sarah Ryan? Aqui é Bella Swan.

— Olá, Bella! Como vai você? — Sua voz era de puro contentamento.

— Estou bem, acho... — Tomei fôlego e fui direto ao ponto, sem me importar com o que ela pensaria. — Edward está com você?

O silêncio no outro lado da linha deixou-me intrigada.

— Não. Por que estaria?

— Não? — Confusa, fitei o pessoal. Alice não suportou a curiosidade, foi até a base do telefone e o colocou no viva-voz. — Vimos seu filho na televisão. Ao que tudo indica, ele tem um programa no Discovery Channel.

— Está falando sério? — Espantou-se mais do que esperávamos.

— Estou. Tem qualquer notícia dele?

— A última vez que o vi foi na sua casa. — Fez uma pausa pra pensar. — Ele está no país?

— Não faço idéia. — Suspirei frustradíssima.

— Vocês não vão acreditar! — Jasper exclamou de olho na tela do notebook.

— O que foi? — Sarah conseguiu ouvi-lo.

— Adivinhem quem é o diretor e produtor do Instinto Radical?! — Ele gargalhou. — Bruce Jones.

— O pai do Toby? — Espantados, Emmett e Alice perguntaram ao mesmo tempo.

Fiquei muda por segundos, presa à idéia de que aquilo era impossível.

— Bem, isso explica alguma coisa, mas não esclarece tudo. — Alice ressaltou.

— Talvez Edward esteja com esse senhor. — Pude notar que Sarah ficou interessada em encontrá-lo.

— Mas como o acharemos? — Com a cabeça latejando, se tornou ainda mais difícil pensar.

— Não se preocupe, Bella. Darei um jeito. Entrarei em contato com minha assistente e te ligo de volta em breve. — Minha ex-sogra mostrou muita boa vontade.

— Obrigada. — Esperei ela desligar.

— Então é isso? Vamos sentar e esperar? — Lice se jogou no sofá, perto de Jasper.

— Parece que sim. — Impaciente, gemi esfregando a testa.

— Bella, aqui tem o vídeo promocional do Instinto Radical. Quer assistir, tipo, umas mil vezes? — Jazz debochou erguendo o notebook.

— Ai... — Bufei cansada. — Me dá isso. — Fui até ele e tomei o computador. Enquanto sentava na poltrona mais larga, voltaram a me encher o saco.

— Vai mesmo ver isso mil vezes? — Emm começou.

— Não seja estúpido! Dããã... Não sou nenhuma mongó obcecada. — Pra dar ênfase, forcei a voz para sair arrastada como de doente mental. Depois, afastei as mechas de cabelo do rosto só pra disfarçadamente beijar a imagem de Ed na tela.

— Mentalmente saudável você, hein?! — Lice zombou com um sorriso de orelha a orelha.

— Quer saber, chupa meu cotovelo! — Rebati erguendo o cotovelo. — Sua hipócrita. — Revirei os olhos.

— Falando em hipocrisia... Alice, por que nunca me contou sobre sua “despencada” por mim? — Emmett cruzou os braços bastante convencido. O estranho é que você nunca foi assim.

— Eu já disse um milhão de vezes que é mentira desse tripão da boca arregaçada! — Ela esbravejou jogando uma almofada no meu irmão.

— Se eu fingir que sou esse sofá vocês me ignoram? — Jazz implorou ainda com dor nas particularidades.

— Isso tudo é por conta dos amassos que te dei quando tínhamos 13 anos? Hmmm... — Impressionado, Emm coçou o queixo, refletindo. — Cara, eu era tão jovem e já tinha o dom.

— Pelo amor de Deus! — Ela já estava a ponto de explodir. — Tu nem é meu tipo!

— Mas eu sou o tipo de todo mundo. — O cara afirmou com uma patética arrogância.

— Prove. — Enraivecida, Lice foi curta e grossa.

Emmett não hesitou. Encarou-me arqueando a sobrancelha esquerda enquanto fazia sua melhor cara sexy.

— Rola? — Piscou o olho sensualmente.

— Gostoso. — Lancei-lhe um beijo de apoio.

O convencido voltou a encarar Alice, apontando pra mim como se eu fosse seu selo de garantia.

— Tá bom ou quer mais, malandra? Infelizmente até os marmanjos me querem. Dá uma olhada. — Voltou-se para Jasper. — Rola? — Piscou o olho outra vez.

Meu irmão fechou a cara, inflando as narinas de raiva.

— Eu tou contundido, não confundido. Sai pra lá, mano véi, esse corpinho aqui... — Passou as mãos pelo peito. — Você nunca terá!

Pois é, ele não quis colaborar.

— Santa paciência, Lice. Confessa logo. — Coloquei pressão.

Ela se levantou e transtornada desatou a falar:

— Leiam meus lábios. — Apontou para eles. — Vocês são todos loucos! Isso aqui é um manicômio e eu vou escapar daqui rapidinho. Nunca mais nem vou olhar pra suas caras feias, pálidas e remeladas.

Em silêncio a estudamos por quase meio minuto. Dando-se por satisfeito, Emmett anunciou com muita simplicidade:

— Que coisa... Ela me ama. — Boiando na própria reflexão, ficou cutucando o dente com a língua.

Jasper eu apenas maneamos a cabeça em concordância.

O chilique de minha amiga a delatou. Era evidente que se zangava facilmente por ter vergonha dos próprios sentimentos. Revoltada com nossa reação, estrebuchou rosnando feito um cão raivoso. Por sorte, antes que pudesse nos matar com sua cólera radioativa, o telefone tocou e corri para atender.

Para descontrair o ambiente, coloquei no viva-voz.

— Alô?

— Oi, Bella. Consegui falar com Jones. — Sarah disse calmamente.

— Edward está com ele? — Foi impossível reprimir a curiosidade.

— Não.

— Não? — Precisei de um segundo pra administrar a decepção. Sentei no braço do sofá e respirei com dificuldade pela boca.

— Escuta, a ligação estava ruim, mas obtive algumas respostas.

— Estou ouvindo. — Balbuciei.

— Jones tem uma pequena produtora. Já fazia algum tempo que trabalhava no projeto Instinto Radical. O problema é que ele não tinha recursos para avançar. Claro que não perguntei, mas subentendi que estava meio falido. Ele partilhou suas idéias com Edward quando eles estavam aí, mas o assunto morreu por um tempo. Segundo Jones, foi o próprio Edward quem o procurou há cerca de quatro meses atrás, se oferecendo para ser o produtor executivo. — Troquei um olhar de incredulidade com meus amigos. — Depois de negociarem algumas mudanças no formato do programa, gravaram cinco episódios. Jones ofereceu os episódios à rede do National Geographic, mas foi o Discovery quem comprou os direitos de exibição.

— Chega a ser difícil acreditar. — Confessei tentando compactar as informações. — Então Edward está agora em algum lugar do mundo gravando esse tal programa?

— Não.

— Me perdi de novo. — Emm resmungou no meu lugar.

— Jones disse que já faz vários dias que ele voltou pra Malaita.

— O quê? — Levantei rápido demais e tive vertigem. — Como é? Ele não pode ter ido! — Voltei a sentar porque o mal estar não estava passando.

— Espera aí. — Alice se aproximou intervindo. — Está dizendo que Ed gravou os episódios e depois simplesmente foi embora?

— É o que parece. E Jones nem sabe por que.

Todos se calaram por não compreenderem a decisão de Edward.

— Ah, não. Isso não está acontecendo. — Com lentidão comecei a encaixar os acontecimentos. — Era mesmo ele na estação de trem. — Minha voz soou um pouco mais alta que um sussurrou. — Era ele. — Tanto que rejeitei a verdade. — Era Edward.

— Estação de trem? — Sarah ficou confusa.

Alice vendo que eu estava imersa na conclusão, se dispôs a explicar:

— Semana passada Bella foi se despedir de um amigo e Ed os viu abraçados. Ela ainda correu atrás dele, mas o cara entrou no trem e se mandou. Nós pensamos que a coitada estava vendo coisas.

— Que situação estúpida. — Jasper se colocou de pé. — E daí que Bel estava abraçando outro homem? Desde quando isso é atestado de namoro?

— Por favor, entendam que Edward tem um jeito diferente de pensar. Talvez... — Sarah não soube como argumentar.

— Com todo respeito senhora Ryan. — Emm se aproximou do telefone. — Mas Jazz tem razão. Além disso, Ed teve quatro meses pra procurar Bella. Qual a dele afinal?

— Parem. — Implorei erguendo a mão.

Ouvir os questionamentos me magoava, pois a única resposta lógica seria de que ele não se importava tanto comigo quanto acreditei. Mas aí essa idéia entrava em conflito com meus conhecimentos sobre os sentimentos mais íntimos dele. Aqueles que desvendei através do diário.

— Bella, me desculpe por insistir. — Sarah aumentou um pouco o tom de voz. — Mas preciso te lembrar que vocês não prometeram fidelidade eterna. O acordo foi que seguiriam suas vidas. É possível que Edward tenha te visto feliz e achou que não tinha o direito de interferir.

— Eu... Eu não sei. — As palavras de Sarah pesaram na balança. — Não consigo imaginar um Edward que não lutaria pelo que quer. — Angustiada, resolvi revelar o que martelava na minha cabeça. — Mas pode ser que ele tenha mudado.

— Mudado? Fala sério, está exagerando. — Alice quase riu de mim.

— Minha experiência diz que as pessoas podem mudar em pouco tempo. — O ressentimento me impediu de segurar a língua. — Olha só pra vocês, são meus melhores amigos e quase não os reconheço. Tenho que aceitar que o mesmo pode ter acontecido com Edward.

Parecendo ofendida, Alice ergueu as mãos, desistindo da conversa e se afastou. Imediatamente me arrependi do que falei e quase engasguei com o remorso.

— Chega de rodeios. A questão é que Ed foi embora. O que se pode fazer agora? — Jazz lançou sobre nós a dura verdade.

Exausta, apoiei os cotovelos nos joelhos, deixando os cabelos cobrirem meu rosto. Por vários e vários segundos nada ouvi, tampouco falei. Meu coração voltou a ser torturado pelo sentimento de perda, que se renovou devido às circunstâncias.

— Bella? — A voz de Sarah rompeu o silêncio.

— Sim? — Ergui a cabeça para ouvi-la.

— Só há um jeito de esclarecer toda essa confusão. Mas você precisa realmente, realmente querer.

— Que jeito?

— Eu tenho um jato e sei como chegar a Malaita. — Seu tom não era de brincadeira. — O que me diz, quer ir lá e confrontar Edward?

Eu não estava preparada para a proposta. Na hora só consegui pensar na frieza com que ele me tratou; na falta de consideração em não me avisar que estava no país; no jeito que me deu as costas... Não havia justificativas que amenizassem essas atitudes. Ainda que não me quisesse como namorada, nossa amizade era sólida e especial. Ao menos costumava ser...

Tive que lidar com as expectativas quase palpáveis de todos. Ninguém ousou interferir, mas notei que torciam por um “sim”. Tentando não me deixar influenciar, lembrei-me apenas de um trecho do diário que se referia ao dia em que quase morremos ao saltarmos do penhasco.

“‘Atados’ é uma boa palavra para definir nossa situação, pois agora tenho uma dívida de gratidão com Bella e farei até o impossível para honrá-la... Mesmo que os anos passem, e que a lembrança do que aconteceu evapore de sua memória, se Bella precisar de mim, eu retornarei a essa terra por ela.”

Edward esteve no meu mundo por tempo suficiente para conhecer a maldade, o preconceito e a injustiça. Não podia descartar a hipótese do incidente com Brad tê-lo transformado. Entretanto, valia a pena atravessar o mundo pelo homem do diário, pelo amigo que me ajudou no passado. Mas, principalmente, pelo selvagem por quem me apaixonei. Eu merecia a verdade, seja ela qual fosse.

— Eu vou, Sarah. — Anunciei convicta.

O ambiente mudou da água pro vinho. Da apreensão para o entusiasmo contido.

— Ótimo. — Ela não conseguiu esconder o repentino bom humor. — Mas preciso de pelo menos 48h para planejar a viagem.

— Com licença. Não é querendo ser uma pentelha-metida-de-uma-figa... — Alice chegou junto da mesa do telefone. — Mas já sendo uma pentelha-metida-de-uma-figa, tem como irmos também? Sabe, pra darmos um apoio moral à Bella.

Não sei como ainda fico chocada com a falta de “simancol” dela.

— Tudo bem, o jato tem poltronas suficientes. — Sarah devia ser canonizada!

Imediatamente os rapazes comemoram erguendo os punhos fechados. Edward tinha falado muito sobre Malaita e o pessoal não queria perder a chance de conhecer... Mesmo que isso significasse me matar de vergonha.

— Muito obrigada, Sarah. — Tinha a impressão de que iria passar o vôo todo repetindo isso.

— De nada. Daqui a pouco ligo pra pegar o número do passaporte de vocês, mas antes irei pedir um plano de vôo aos meus pilotos. Até mais.

Logo que ela desligou, meus amigos saíram pulando de empolgação.

— Inacreditável! — Emm mordeu as mãos, em ato esquisito de contentamento. — Vamos pra Malaita, hôhô-hôhoooo. — Cantarolou dançando o hula-hula, crente de que lá era igual ao Havaí.

— Senhoras e senhores: a liga dos vadios se prepara para decolar. — Jasper enfiou o chapéu na cabeça, se achando o Indiana Jones.

— E que ninguém morra... — Murmurei pelo canto da boca. — De vergonha.

(...)

Sarah cumpriu a palavra. Na tarde de quarta-feira, pegamos nossas mochilas e a encontramos em um hangar alugado no aeroporto executivo perto de Azalea Park.

Ela explicou que a rota de viagem mais prática seria cruzando o México e fazendo uma escala no Havaí. Depois sobrevoando a Micronésia até chegar a Papua Nova Guiné. Mas como havia alerta de tufões no Oceano Pacífico, bem nas proximidades das ilhas havaianas, isso não ia ser possível. Então nosso plano de vôo era cruzar o Atlântico e fazer a escala na Nigéria.

Paris foi o lugar mais longe de casa em que já estive. E olha que foi só uma excursão escolar com a turma do curso de francês. Por esse motivo e outros, só acreditei que estava indo para Malaita quando a aeronave decolou.

Acomodados nas largas poltronas de couro bege, estavam meus amigos, a mãe de Edward e sua assistente pessoal. Além de banheiros, o jato executivo também possuía uma prática cozinha, bar completo e uma pequena sala de estar. Tudo requintado o bastante para me fazer enxergar quão abastada era a Sra. Ryan.

As primeiras nove horas de vôo foram tranquilas. Sarah cochilou, Alice e a assistente conversaram e os rapazes ficaram assistindo filmes. Quanto a mim, fiquei praticamente imóvel na poltrona. Não tirei os olhos da janela, observando o dia ir embora lentamente. O único momento em que interagi com os demais foi quando ajudei a servir o jantar.

Durante a madrugada, enquanto sobrevoávamos o Oceano Atlântico rumo à Nigéria, decidi me desculpar com meus amigos. Aproveitei que Sarah foi à cabine dos pilotos e me dirigi até a salinha onde jogavam cartas.

— Preciso dizer uma coisa. — Sentei em uma das cadeiras ovais. Ninguém se manifestou, pelo contrário, continuaram a jogar como se eu não estivesse ali. Sem me deixar levar por isso, prossegui para aliviar a pressão no peito. — Desculpem pelo que falei na segunda-feira. Vocês sabem... Sobre aquele lance de terem mudado.

Tínhamos evitado o assunto por um tempo, mas ao abordá-lo, os deixei introspectivos.

— Só não é justo ficar magoada por não querermos tocar a pousada com você. — Jasper se pronunciou primeiro, me repreendendo como irmão.

— Eu sei. — Admiti cabisbaixa. — Só preciso de mais um tempinho pra me acostumar com a situação.

— Podemos ter mudado um pouco, mas você também mudou. — Alice alfinetou sem me olhar. — Tem sido estúpida comigo, por isso não quero conversar agora. — Se referiu ao meu erro de ter contato sobre sua paixão platônica a Jazz.

— Não acredito. O que deu em você? — Sorri sem humor para engolir a afronta. — Quantas vezes me meteu em situações embaraçosas ou falou barbaridades? Te desprezei por isso? Acho que não.

— Qual é?! Tudo que faço é pra te ajudar. Deixa de ser ingrata. — Ela se indignou sem motivo.

— Mas não estou sendo! Alice, repito mil vezes se for preciso, está bancando a hipócrita. Que merda, não dá pra aguentar isso! — Passei as mãos pelos cabelos, muitíssimo inconformada.

— De certa forma, Bella tem razão. — Emmett tomou partido.

— Cala a boca que não quero ouvir a sua voz moribunda. — Lice ainda estava irritada por ele brincar com os sentimentos que ela mesma se recusava a confessar.

— Você é quem devia se calar. Ou pelo menos ser mais corajosa e aceitar quem é. E inclua no pacote seus sentimentos estranhos e tudo mais. — Emm odiou a forma como foi tratado.

— Show, então vai ser assim agora? — Jasper se levantou e desembuchou estranhamente alterado. — Vamos discutir por qualquer droga? O sujo falando do mal lavado? Inacreditável! Está todo mundo sendo idiota. Bella ficou egoísta, Alice hipócrita e Emmett se transformou num verdadeiro mentiroso.

— Mentiroso? — Emm também ficou de pé, cobrando o que nem entendia. — Do que está falando?

— Sei que seu pneu não furou naquele dia. — Meu irmão acusou convicto. — Falou pra Alice ser corajosa, mas é você quem devia tomar coragem e confessar que não queria se encontrar com a gente. — Sarcástico, peitou Emmett como nunca o vi fazer. — Aliás, aproveita e diz também que só ficou em Orlando porque Bella não parou de choramingar.

— Isso é verdade? — Perplexa, encarei Emmett, que por sua vez desviou o olhar, se recusando a responder. — Meu Deus. — Decepcionada me ergui lentamente. — Não quero que fiquem comigo por pena. Acho que mereço mais do que isso. De qualquer forma, garanto que não me ouvirão mais choramingar.

— Típico! — Alice se colocou na minha frente e passou a destilar palavras tão corrosivas quanto ácido. — Está levando tudo pro lado pessoal, Bella. Sempre leva. Seguimos caminhos diferentes, isso ia acontecer de qualquer jeito. Estava previsto! Mas apesar de gostarmos de você, só consegue pensar que te rejeitamos. E digo mais, tem uma verdadeira paranóia com isso.

Não consegui protestar por ficar absolutamente boquiaberta.

— Ah, vai se danar, Alice! — Jazz praguejou. — Você também está levando tudo para o lado pessoal desde que colocou os pés na Flórida. Bella tem razão, está se afogando em hipocrisia.

— Como é?! Dane-se você e esse suspensório horroroso! — Ela lhe mostrou o dedo do meio. — E já que é pra encarar a verdade, saiba que seu novo visual é cadavérico! Parece o meu tio-avô Agudim. — Enraivecida bateu o pé no chão. — E o coitado nem é tão esclerosado quanto você!

— Que foda... Essas são as piores férias da minha vida. — Emmett jogou na nossa cara rispidamente. — Não vejo a hora de voltar pra faculdade e me livrar dessa babaquice. “Esses” definitivamente não somos nós.

— Pra mim chega. — Ergui as mãos desistindo da discussão, porém perdi o controle das palavras. — Fiz de tudo pra ficarmos juntos. Dei tudo de mim na merda do projeto e só me provaram que não dão à mínima. Quando voltarmos pra Orlando, por favor, cada um que siga seu maldito rumo.

Fervendo por dentro, voltei quase correndo para a poltrona. Encolhi-me nela e me cobri inteira com o cobertor. Não sabia se Sarah tinha ouvido nossa discussão, mas se ouviu, preferiu não interferir.

Parecia que o dia não ia amanhecer nunca. Os ponteiros do relógio se moviam, mas lá fora a densa escuridão afugentava a luz. Dentro da cabine havia um outro tipo de escuridão alimentada pelo silêncio, mágoa e pesados julgamentos.


Perguntava-me quando os conflitos iam acabar. Sentia-me como um vaso velho que foi muitas vezes quebrado e consertado. Pedaços se soltavam com frequência e era preciso colar de novo, de novo... E de novo.

O cansaço foi deixando meu corpo mole. A dor de cabeça me obrigou a manter os olhos fechados e tapei os ouvidos para abafar o som das turbinas. Então quando o sono ameaçou chegar, um forte solavanco me deixou alerta. Foi estranho, pois até aquele momento quase não houve turbulência. Olhei para o corredor e não ouvi comentários. Procurei relaxar, mas segundos depois a cabine voltou a chacoalhar e dessa vez mais forte. Quase no mesmo instante ouvimos o piloto pelos alto-falantes.

— Aqui é o Comandante Waite, lamento informá-los de que teremos que atravessar um trecho de tempestade com fortes turbulências. Por favor, coloquem os cintos de segurança. Faremos o possível para sair dessa zona o quanto antes.

Nervosa, rapidamente afivelei o cinto e baixei a cortina da janela, não querendo mais olhar através dela. Com a pulsação disparando, ouvi a louça que estava na sala ali perto espatifar no chão. O tremor continuou nos sacudindo e espalhando tensão pela cabine.

— Acho que vou vomitar. — Alice avisou, retraída na poltrona atrás da minha.

Tomando fôlego, voltei-me para Sarah, que estava do outro lado do jato.

— Sarah... Sarah me responda. — Precisei chamá-la mais de uma vez, pois mantinha os olhos fechados. Nessa hora lutei para me fazer ouvir, porque minha voz tremia devido a forte turbulência. — Nossa situação é pior do que o piloto diz ser, não é? — Indaguei assim que tive sua atenção.

— É claro que é, Bella! Acorda! — Emmett vociferou descontrolado. — Acha que ele vai dizer: enfrentaremos uma tempestade no meio do oceano, se preparem pra morrer?!

Por um segundo achei que era exagero dele, mas aí notei que Sarah não o corrigiu. Ela tinha experiência de vôo, conhecia os pilotos e ainda assim não conseguia falar, somente cravava as unhas nos braços da poltrona.

Completamente aterrorizada, me recostei no acento e imediatamente pensei no meu pai. Conforme sentia a instabilidade do avião, a ânsia de vomito crescia e meus músculos enrijeceram. Assim como Sarah, também me agarrei aos braços da poltrona. A impotência e o pavor tomaram conta de mim de tal forma, que parecia que meu coração ia explodir dentro do peito. Pisquei os olhos com força algumas vezes até conseguir elevar a voz.

— Só quero que saibam... — Arfei com a visão embaçada. — que, aconteça o que acontecer..., amo muito todos vocês.

— Ah, meu Deus, vamos morrer! — Jasper tomou minha declaração como uma despedida, desencadeando um novo nível de histeria.

Mesmo incapacitada, quis acalmar os ânimos. O problema é que minha língua travou quando considerei as palavras de meu irmão.

— EU ADMITO! ADMITO! — Alice berrou. Olhei para trás e a vi com as mãos no peito. — Sempre fui apaixonada pelo Emmett. — Começou a chorar de desespero e culpa. — Sempre! Não vou morrer com isso entalado na garganta.

— Quando planejava me contar? — Ele gritou de volta, bastante transtornado. — No meu leito de morte? Então se dê por satisfeita!

— Sou tão hipócrita... — Lice assumiu em prantos.

— EU PAREÇO UM TIO-AVÔ! — Impelido pelas confissões dela, o coitado do Jasper entrou em parafuso e se entregou às lágrimas. — Não é justo, eu pareço um tio-avô... — Ficou repetindo desnecessariamente. — Um tio-avô!

— Me desculpa, Bella. — Alice estendeu a mão e não consegui tocar nem na ponta de seus dedos, pois o tremor e o meu cinto de segurança impediam o contado.

— AAAAAAHHHHHHHH! — Jasper continuou preso na sua bolha de terror.

— Queria mais do que tudo te ajudar na pousada. É o nosso sonho, mas me acovardei. — A coitada parecia de fato arrependida. — Depois que dormi com Emm tudo ficou estranho. Tive medo de que descobrissem o que sinto. Eu já não conseguia ser a mesma perto dele, então achei melhor ir me afastando aos poucos.

— Está tudo bem, minha amiga. — Me obriguei a sorrir para tranquilizá-la. —Nada do que foi dito ou feito antes importa. Vamos esquecer tudo.

— Não acredito! Não acredito! — Emmett voltou a se indignar com ela. — Não vê que me obrigou a fazer o mesmo? — O encaramos sem ação, enquanto ele balbuciava incompreensíveis palavrões. — Pensei que eu tinha estragado nossa amizade ao te agarrar. Como não dava pra consertar as coisas, decidi me distanciar até que ninguém mais lembrasse do que aconteceu na noite da despedida do resort. Tem idéia do quanto foi difícil eu dizer não ao projeto da Bella? Você é demente, Alice. Demente!

— Essas são as causas da nossa droga de situação? — Vociferei voltando a ficar brava. — Por que são tão absurdos?! — Puxei o saco de vomito preso nas costas da poltrona à minha frente e enfiei o rosto dentro.

— Porque eu a amo! — Espiei Emmett chacoalhar o dedo indicador na direção de Alice. — É isso mesmo! — Desafivelou o cinto e ficou de pé. — EU. AMO. ALICE! É praticamente um suicídio, mas EU. AMO. ALICE!

A “romântica” declaração foi seguida pelos sons horríveis de Jasper vomitando dentro do próprio chapéu.

— Hã? Ama? — Alice ainda conseguiu se emocionar.

— Sim. Há anos. — A raiva de Emm sumiu, dando lugar a um misto de melancolia e ternura. — Você é a garota mais descolada e engraçada que conheço. Achei que nunca ia me querer. — Franziu o cenho com remorso. — Jazz e eu éramos muito babacas e covardes... — Olhou de relance para meu irmão, o qual ameaçava vomitar de novo. — Corrigindo, eu era muito babaca e covarde. Foi preciso um cara da selva aparecer pra abrir meus olhos. — Encarou Alice com honestidade e carinho. — Fiquei empolgado quando Rosalie surgiu porque eu nunca pegava ninguém, mas foi pura perda de tempo. Queria ter feito tudo diferente, Alice. Desculpa.

— Também queria ter feito tudo diferente, Emmett. — Ela se levantou para abraçá-lo.

Emm tomou Alice nos braços com a intenção de beijá-la, mas então meu irmão berrou do nada:

— EU COMI A BOGDANOV!

— NÃÃÃOOO! — Gritamos simultaneamente, temendo ser a última coisa que ouviríamos em vida.

— Falei que não lembrava, mas lembro de tudo. E ela nem precisou forçar a barra. Foi por isso que morreu feliz. — Meu irmão voltou a choramingar. — Não quero ir pro inferno por causa disso. Gente, eu odeio calor.

— Como pôde? — Alice o repreendeu, esticando o braço numa frustrada tentativa de agredi-lo.

— O que posso fazer?! — Meu irmão também queria ficar em paz com sua consciência. — Eu sou o Jasper... — Inconsolável, baixou a cabeça. — Tenho o dom da esquisitice.

— Não se cobre tanto, rapaz. Quase todo mundo faz besteira na sua idade. — Para a nossa total surpresa quem disse isso foi o comandante, de pé no início do corredor.

A voz do homem nos paralisou. A sensação foi semelhante à de sermos flagrados cometendo indecências. Lavar roupa suja na frente de estranhos e de uma celebridade em um jato de luxo, o qual já nem chacoalhava mais, nos deixou com a cara lá no chão.

— Me situa. — Suando frio, sorri amarelo para Sarah.

— Faz uns minutinhos que a turbulência cessou. Estavam envolvidos demais em suas confissões para notar. Foi... — Ela fitou o vazio pensando em uma palavra para descrever o momento e não encontrou. — Alguém quer uma bebida? — Rapidamente mudou de assunto.

— Veneno com gelo, por favor. — Murmurei, ironicamente desejando morrer.

— Em quatro copos. — Jazz completou com a voz embargada.

(...)

De fato os pilotos nos tiraram da zona de risco. Seguimos então para o Lagos, na Nigéria, onde aterrissamos em uma pista alugada com antecedência.

Ficamos mais tempo em terra do que o previsto, para fazer uma rápida revisão além de reabastecer. Horas depois decolamos novamente, dessa vez rumo a Porto Moresby, na Papua Nova Guiné.

Passado o susto, o incidente pôde ser mais bem digerido. As desavenças foram rapidamente esquecidas e o constrangimento amenizado. Era evidente que a alegria por termos atravessado a tempestade sem maiores danos revigorou o ambiente.

Alice e Emmett finalmente abriram mão de suas teimosias, trazendo de volta equilíbrio à nossa amizade. O disfuncional casal assumiu a culpa pelos mal-entendidos que quase arruinaram nossa relação. E sem mais nada a esconder, expressaram suas verdadeiras opiniões sobre o meu projeto. Estavam dispostos a batalhar nele comigo.

Jasper, contagiado pelo otimismo dos dois, voltou atrás em sua decisão. Meu irmão se deu conta de que era mesmo uma oportunidade única e não queria mais ficar de fora.

Aqueles minutos de incerteza sobre a morte ampliaram nossas visões. Acredito que teria ampliado a de qualquer um, pois esses momentos nos obrigam a repensar nossas atitudes. Para quem estava dentro do jato, não importava se as reações tinham sido exageradas, cômicas ou imaturas. Só pensávamos no quanto tudo foi real, no quanto o desfecho poderia ter sido diferente. Pensei comigo várias vezes: foi por pouco.

Sentindo o círculo de confiança entre meus amigos e eu restaurado, mudei de poltrona e me aconcheguei perto de Jasper. Mantive minha fé de que mais nada nos assolaria e dessa forma pude relaxar.

Minutos depois, as noites mal dormidas começaram a pesar em minhas pestanas. Apaguei completamente. Não tive sonhos e acho que nem me mexi. Só acordei quando Jazz me cutucou, pedindo para que eu afivelasse o cinto de segurança pra pousarmos.

Enfim, chegamos a Porto Moresby. A pista clandestina era ainda menor que a do Lagos. Contudo, os experientes pilotos não encontraram dificuldades para aterrissar. Ao todo, foram mais de 30 horas de viagem. Nunca pensei que demoraria tanto. O piloto Waite nos informou o horário local, mas não me importei, só queria pôr meus pés no solo novamente.

Sem perda de tempo, fomos direcionados para um hangar, onde a assistente de Sarah já tinha nos reservado um transporte. Para não ofender o motorista papuásio, contemos o riso ao entrar na Kombi assustadoramente parecida com a Monstrenga. O motor até fazia o mesmo barulho.

O forte sol do meio-dia me obrigou a colocar os óculos escuros, e através dele vislumbrei uma cidade diferente da que imaginava. Porto Moresby era urbanizada, mas em alguns pontos parecia que a vegetação intencionava engolir o concreto. As ruas estavam cheias naquele horário e o calor era sufocante. Apesar de tudo, a cidade se mostrava tão singular e cheia de energia que a considerei bela.

Não demorou muito para chegarmos ao porto. Minha primeira ação foi respirar fundo, na tentativa de conter a ansiedade que voltara com força total. Já meus amigos conseguiram manter a crescente empolgação.

Admirando a paisagem, seguimos Sarah até onde ela pensou que encontraria o mesmo barco que a levou à ilha anos atrás. Como era de se esperar, Sarah não o encontrou.

Claro que ali havia muitos outros barcos, o problema era achar quem soubesse exatamente em que parte de Malaita devíamos atracar. Foi então que Emmett sugeriu que perguntássemos aos pescadores. Sem outra opção, saímos numa busca às cegas.

Em todo o país são falados 850 idiomas, em grande parte línguas tribais ou provincianas, mas por causa da influência primeiro britânica, depois australiana, o idioma oficial é o Inglês. Claro que sentimos diferenças na pronúncia, mas não tivemos problemas na comunicação.

Fracassamos nas três primeiras tentativas, embora o último homem com quem falamos nos indicou um quarto homem. Seguimos as instruções dele e encontramos o tal pescador.

Foi ótimo ouvi-lo dizer que conhecia o cientista da ilha por, às vezes, transportar cargas que ele não conseguia levar em sua lancha. No início, o pescador hesitou em nos conduzir até lá. Foi aí que o apelo de uma boa oferta em dinheiro o fez mudar de idéia.

A assistente de Sarah ficou para trás, a fim de agilizar a volta para casa. Quanto ao resto de nós, seguimos no velho pesqueiro de médio porte para o arquipélago denominado Ilhas Salomão.

Logo na nossa primeira hora no mar, passamos por um enjoou coletivo. Felizmente fui a única a não vomitar, simplesmente por estar com o estômago vazio. O pessoal entornou as garrafas de água que levamos, só que isso não ajudou muito. O pior é que a viagem ainda ia durar mais três horas.

Sentada junto à proa, mantive os olhos no amplo horizonte. O sol queimava impiedosamente minha pele, mas o vento constante e os salpicos do mar amenizavam o incômodo. Nesse meio tempo, não consegui tirar Edward da cabeça.

Ali percebi que sempre tive uma visão deturpada do imenso mundo que nos separava. O longo trajeto fez-me entender que eu via nossa situação através de uma janela, enquanto Edward a via através de portões. Por muito tempo só ele conheceu a reais dificuldades.

Quando Sarah se aproximou da proa, comecei a me questionar se ela estava voltando a Malaita só por minha causa. Talvez houvesse um propósito oculto em seus esforços, como reencontrar o Dr.Carlisle depois 16 anos. Bem, eu no lugar dela também não resistiria à oportunidade.

— Bella, preciso esclarecer uma questão com você. — Sarah retirou os óculos escuros e esfregou os olhos cansados.

— Estou ouvindo.

— Tecnicamente não deveríamos estar aqui. A licença de vôo que minha assistente conseguiu se estende somente até a Nigéria. Não tínhamos permissão para pousar em Porto Moresby.

— Eu já desconfiava. Você sabe... Por causa pista clandestina.

— Mas não se preocupe. Por sorte, contamos com uma lei que permite que a aeronave fique em terra por até 48h no caso de necessidade de reparo. Sinceramente, acredito que não precisaremos apelar para esse artifício. Meus pilotos são muito bons em passarem despercebidos. E também Nova Guiné é um país um tanto... — Sarah procurou a palavra certa, para não soar preconceituosa.

— Eu entendi. — Tentei poupá-la do esforço.

— Só estou tentando dizer que é melhor não passarmos mais do que 24h nessa região. O quanto antes voltarmos para o espaço aéreo internacional melhor. Tudo bem pra você?

— Claro, eu compreendo. — Assenti imediatamente. — Eu só preciso de uma hora com ele, Sarah. — Apertei sua mão com muita gratidão. — Só uma hora.

— Têm sido uma viagem bem atrapalhada. — Ela sorriu mesmo enjoada. — Mas acho que se tivéssemos parado pra pensar em tudo, certamente teríamos desistido por falta de coragem.

— Concordo. — Retribuí o sorriso.

Passamos perto de algumas pequenas ilhas, mas infelizmente Malaita ainda se escondia nas entranhas do Pacífico. Procurando amenizar os enjôos, deitei minha cabeça no colo de Jasper, fechei os olhos e esperei.

Ainda tivemos que percorrer várias milhas náuticas até Sarah finalmente anunciar Malaita. Imediatamente fique de pé e meus amigos se aproximaram, atraídos pela surpreendente visão.

Mesmo a uma considerável distância, a ilha tropical rompia no horizonte, imponente com suas grandiosas montanhas vulcânicas. Por alguma razão, sempre imaginei que Malaita fosse só um pedacinho de terra no meio do oceano, no entanto, estávamos diante de algo monumental.

Tentando não rir das nossas caras abobalhadas, Sarah comentou que a ilha tinha 171 quilômetros de comprimento e 50 de largura. Naquela hora, não tive dúvidas de que era o lugar mais impressionante que eu já vira.

Tão logo o pesqueiro começou a se aproximar da costa, os quilômetros de areia branca, água azul turquesa e enormes palmeiras animaram meus amigos. Quanto a mim, já nem sentia as pernas de tão nervosa que estava.

Os minutos se arrastaram dolorosamente, mas a tortura acabou quando o barco atracou em um pequeno píer. Lá só havia a lancha do Doutor, coberta por uma lona.

Desembarcamos o mais rápido possível, desejando esquecer totalmente o mal estar provocado pelo fétido pesqueiro. Sarah deu apenas metade do valor combinado ao pescador, para garantir que ele retornaria para nos buscar dentro de vinte horas.

Assim que recuperamos o fôlego, seguimos as instruções dele. Primeiro atravessamos a extensa faixa de areia, ficando diante de um paredão de vegetação quase impenetrável. Depois, procuramos por uma trilha, que o pescador garantiu que estava logo ali. Por sorte, Sarah forçou a memória e encontrou a trilha. Essa não media mais do que um metro de largura.

A umidade, os sons incomuns de pássaros e insetos e a diversidade de plantas produziram em mim uma sensação estranha. Certamente consciência de estar mesmo em outro mundo.

Caminhamos por cerca de quinze minutos, sempre fazendo observações sobre o lugar. O pouco, porém útil conhecimento de Sarah nos manteve interessados, evitando que o percurso consumisse o resto de nossas energias.

No fim da trilha, o esforço foi compensado ao encontrarmos uma enorme clareira. Estimei que fosse maior do que um campo de futebol. A casa no meio dela era composta de grandes toras de madeira envernizada, com a base em pedra e telhas de barro escuro. Uma ampla e atrativa varanda circundava a moradia, que mais parecia uma casa de campo do que o reduto de um cientista. O anexo do lado esquerdo era um pouco menor que a casa, mas feito com o mesmo material. Enquanto no lado direito, quase no final da clareira, ficava a mediana estufa agrícola.

— Já chega... Eu vou falar. — Jasper apoiou as mãos nos joelhos, quase caindo de cansaço. — Da próxima vez, vê se arruma um namorado menos difícil, Bella.

— E agora, a gente bate na porta? — Alice fitou Sarah.

— Acho que não vai ser preciso. — Ela disfarçadamente indicou o Doutor, que aparecera na entrada da casa.

O pai de Ed mostrou-se tão surpreso que nem veio ao nosso encontro. Nessa hora imaginei que ele estivesse pensando: meu Deus do céu, o que essa gente louca está fazendo aqui?


— Emmett, me reboca. — Morrendo de vergonha, murmurei pelo canto da boca.

Sem mais delongas, cruzamos a clareira determinados a encontrar Edward. Emm de fato precisou me empurrar até o primeiro degrau da varanda.

— Olá, sejam bem vindos. — Carlisle sorriu, afinal, o que mais podia fazer?

Nós o cumprimentamos educadamente. Em seguida, fui intimada pelos olhares a perguntar por Edward. Lembrando-me de que tinha pouco tempo para conversar com ele, não hesitei.

— Posso falar com seu filho?

O Doutor me analisou por mais segundos do que eu gostaria. Trocou um rápido olhar com Sarah, então respondeu com pesar:

— Ele não está aqui. Sinto muito.

(Continua na parte 2...)

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