Um Selvagem Diferente - Capitulo 19

Diário de Bordo - Edward Cullen


Orlando, EUA.

Minha vida deu uma guinada inesperada. Eu me apaixonei.

Ficarei devendo a esse diário algumas linhas sobre Jully e até mesmo sobre minha mãe, pois hoje só consigo pensar em mim e em Bella.

Já é um novo dia e meus olhos ainda não tiveram descanso. Isolado na casa da árvore, não consigo me importar com a exaustão muscular. Nem mesmo com os raios de sol que passam pelas frestas no teto e atingem diretamente o meu rosto. O que mais me importa nesse momento é deixar registrado como me sinto. Talvez eu nunca mais sinta algo semelhante e não quero esquecer como é.

Nunca fui tão emotivo quanto estou sendo hoje. Claro que me sinto um bobo, mas não consigo evitar. A razão disso talvez seja o fato de que só tenho poucos dias com a garota que desafiou todo o meu conceito sobre “certo e errado”. Quando estou com ela, ainda que reconheça o caminho errado, ele parece certo. Decidirmos ficar juntos com data marcada para nos separamos foi definitivamente errado, mas, com Bella, se torna irresistivelmente certo.

Despedir-me dela foi muito difícil. Ainda bem que não terei que fazer isso uma segunda vez, porque se tivesse que dizer “adeus” nesse minuto, provavelmente não conseguiria. Sei que essa situação é como estar em uma areia movediça. Os segundos, os minutos, as horas tornam tudo pior... Mas, para ser sincero, eu não me importo.

Aqui estou eu, tenso, ansioso e estupidamente risonho. Não me lembro quantas vezes na vida me senti assim, mas é tão bom quanto estar em Malaita, deitado sobre o telhado de casa, ouvindo o som das ondas batendo contra as rochas nos dias de maré alta. É tão empolgante quanto conquistar a confiança dos Waibirir. É tão agradável quanto levar Indah para correr nas planícies ao norte da ilha. Embora essas comparações sejam compreensíveis apenas para mim, gostaria que Bella soubesse. Ela provavelmente não tem noção de como realmente me senti com o beijo que trocamos no meio da rua. Por sorte, e alguma ajuda de minha mãe, ela entendeu por que não pude lhe corresponder quando expôs seus sentimentos em Miami.

Aquela noite eu entendi a metáfora dos talheres, mas não enxergava completamente os meus sentimentos. Era como se minha visão estivesse embaçada pela idéia de que ficar com Jully me garantiria uma volta quase tranquila para casa. Não demorei a perceber que a engrenagem dessa ilusão era apenas o medo do desconhecido, porque, pela primeira vez, encontrava alguém capaz de me fazer perder o foco a ponto de não mais saber a onde pertenço.

Confesso que esse medo ainda me rodeia, no entanto, Bella o tem mantido longe com ações que só me fazem admirá-la mais. Não esperava vê-la na festa de minha mãe. Eu estava no salão presente só de corpo, pois minha mente se mantinha ligada à conversa em Miami. Então, de repente, a garota simplesmente apareceu lá... Linda, desde o olhar tímido ao vestido que não lhe deixava respirar..., nem a mim.

Bella e eu pertencemos a mundos diferentes, temos planos distintos e consciência de nossas limitações, mas hoje, nessa quarta-feira, temos um objetivo em comum: viver o “agora”.



Capítulo 19 - Namorado de Novo


A festa de Sarah, mesmo com alguns contratempos, foi espetacular. Infelizmente, depois de “acertar os ponteiros” com o selvagem, voltamos para casa. O dia já tinha amanhecido e precisávamos pegar no batente.

Achei que bateria de frente com Jully novamente, porém o que encontrei foi um bilhete dela pregado na porta. Minha prima arrumou suas coisas e foi se hospedar na casa de uma amiga.

— Eu nem acredito... — Alice assoou o nariz em um lenço de papel enquanto eu vestia meu uniforme.

Logo que chegamos a meu quarto, coloquei-a a par dos últimos acontecimentos. Ela pareceu se emocionar com os detalhes de minha conversa com Edward e o maravilhoso beijo.

— Lice... — Sentando ao seu lado na cama, lhe analisei. — Que choro fingido é esse? Não estou vendo nenhuma lágrima.

— É que estou chorando por dentro, tá legal?! — Se aborreceu.

Peguei um lencinho e inexplicavelmente entrei na onda do choro sem lágrimas.

— Desculpa, eu sei como é... — Nem eu me entendi.

— O único consolo é que você vai “dar um trato” legal no princeso antes de ele voltar pro mato, né? — Ela ergueu uma palma e nosso choro interior sumiu com a mesma rapidez com que surgiu.

— Ah, pode crer! — Sorridente, choquei minha palma contra a dela.

Claro que zoar com Alice era uma coisa e ficar juntinho de Ed era outra. Na nossa relação, não cabia essa expressão “dar um trato”. Não éramos dois pirralhos só querendo se esfregar.

— Mas tem uma coisa com que eu não me conformo. — Se colocou de pé. — De que mundo de merda tua prima pensa que veio? Não estou dizendo que ela é uma sacana, só estou dizendo que, na minha opinião, ela está bancando a vítima de besta.

— É que você não a conhece como eu. — Suspirei de preocupação com Jully.

— Uma pinóia, Bella. Se Jully pediu sua permissão para se aproximar do T-zed é porque até ela já tinha sacado que rolava um lance entre vocês. Não adianta sua prima choramingar agora, pois foi ela quem quis arriscar entrar na partida no segundo tempo. Minha amiga, me desculpe, mas ninguém tira da minha cabeça que ela foi para o Me Azare já ciente de que existia uma grande possibilidade de Ed não dar um fora nela em rede nacional apenas por consideração a você. — Alice revirou os olhos. — Pra mim, Jully não tem direito de cobrar nada de você. Odeio mulher tapada que não entende que ou o cara gosta da gente, ou não gosta. Não adianta forçar a barra. Enquanto ela não compreender isso, vai quebrar a cara nessa vida até aprender. — Cruzou os braços, carrancuda. — Igualzinho a você.

— Cruz credo, você fica uma chata quando tem razão.

— Eu sei, né?! — Abriu um sorriso convencido.

— Vou esperar a poeira baixar. Ontem aconteceu muita coisa, tudo foi muito confuso, mas acredito que em breve poderemos sentar e conversar.

— Que seja, ela já levou mesmo o que merecia. Afinal, perder um homem como Edward é pior do que cair com a cara na merda. — Alice empinou o nariz e eu sabia que a maluca tinha razão.

Pretendia pedir a ela para levar os vestidos de Sarah pra lavanderia, mas antes que eu pudesse abrir a boca, ouvimos:

— AAAAAAAAAHHHH!

O inconfundível berro de Jasper ecoou por toda a mansão. Alice e eu rompemos porta afora e corremos pelo corredor até alcançarmos o quarto do histérico. Preocupadas, invadimos o lugar e...

 — AAAAAAHHHHHH! — Dessa vez quem gritou fomos nós.

E, poxa, não era pra menos. Jazz estava na cama com a dona Bogdanov.

— Hea päev. — A mulher sorriu, parecendo estar pelada por debaixo das cobertas.

Meu irmão estava sentado ao seu lado, pálido, fitando o vazio de olhos arregalados e todo descabelado.

— Pelo amor do meu desgastado juízo, diz pra mim que não ficou de saliência com essa maluca. — Balbuciei sem esperanças, pois ele também parecia estar pelado por debaixo das cobertas.

— Jasper... não... lembra. — Com a voz trêmula, abraçou um travesseiro.

— Como não lembra? — Vociferei.

— Jasper bebeu demais ontem. Jasper não sabe o que aconteceu. — Afundou o rosto no travesseiro e a cozinheira alisou suas costas causando-lhe um tremelique de repulsa.

— Cara, essas férias estão sendo o bicho! — Lice começou a rir compulsivamente da desgraça alheia. — Está todo mundo barbarizando!

(...)

Cerca de uma hora depois do embaraçoso flagra, meus amigos eu e nos reunimos no escritório do meu pai com a finalidade de manter nosso ambicioso projeto de férias na linha.

Sentada na ponta da escrivaninha, pedi atenção ao pessoal. Estavam muito dispersos. Alice quase cochilava em uma poltrona e Emm ainda estava de baixo astral por causa de Rosalie. Já meu irmão “pegador”, ficou deitado no sofá com uma tolha quente cobrindo o rosto.

— Ânimo, pessoal. A gente precisa se concentrar. — Insisti.

— Perguntinha. — Emmett ergueu a mão. — Por que o aspirante a Free Willy está aqui? — Apontou para Toby.

— É assim? A boiolagem já vai começar? — O garoto se levantou da cadeira fulinho da vida.

— O Sr.Jones me pagou pra ficar de olho nele novamente. — Suspirei de desgosto. — Falei pra você ficar quieto, Toby. Senta aí. — Ordenei com altivez.

— Manda ele pra sala. — Alice pediu.

— Não posso. Da última vez que banquei a babá vacilei um minuto e essa criatura... — Trinquei os dentes. — Quase enterrou um papagaio vivo.

— Que merdinha é essa? Isso agora vai ficar no meu currículo? — O pancinha retrucou e eu perdi a paciência.

— Alguém aqui quer ter a boquinha fechada com um grampeador de papel? — Lancei-lhe um olhar ameaçador e o garoto se deu por vencido.

— Começa logo essa reunião. — Jasper murmurou por debaixo da toalha.

— Quais os tópicos? — Lice deu um tapinha no próprio rosto pra despertar.

Antes que eu abrisse a boca, Emmett respondeu:

— Tópico 1: mitos e verdades sobre o desbravador de véias. 

— Se alguém fizer mais uma piadinha com isso, o pau vai quebrar! — Meu irmão se contorceu.

— Gente, sem brincadeiras. — Pedi, me esforçando pra ficar séria. — O que aconteceu com ele podia ter acontecido com... — Tentei dizer “qualquer um”, só que não saía, então Jazz tirou a toalha do rosto e me encarou. — Com qualquer... — Pressionei os lábios, mas não adiantou. — Garanhão de asilo.

A toalha voou direto pra minha cara.

O problema nem era tanto a idade da Bogdanov, mas sim o preocupante estado mental da mulher. Será que eles tinham mesmo transado?

— Que gente chata... Que tédio. — Toby murmurou para si mesmo lutando para abrir um pacote de M&M´s.

— Como é, garoto? — Lice puxou para o lado pessoal.

— Hã? — Ele se fez de desentendido.

— É isso aí que está me preocupando. Os hóspedes não estão se divertindo. — Esclareci.

— Verdade. Ouvi as moças da suíte seis reclamando. — Emmett bufou. — Só temos alguns dólares, poucos dias e até eu estou achando esse resort um pé no saco.

— Idéias? — Jasper finalmente se concentrou na questão.

— Sem grana não dá pra fazer nada. Essa é a dura verdade. — Alice lamentou.

Não consegui me conformar com os segundos de silêncio que se seguiram. Mal reconhecia meus amigos.

— Não acredito. — Me coloquei de pé. — É impressão minha ou todos nesse cômodo estão se afogando em pessimismo? Sei que temos problemas, mas poxa... — Abri os braços. — O dia está super ensolarado, estamos esbanjando saúde e temos poucos dias para ficarmos juntos. Vocês são as pessoas mais animadas e divertidas que conheço, então tratem de reagir. — Bati palmas para que saíssem da letargia. — Tudo bem que a gente está no vermelho, mas temos criatividade. Vamos usá-la!

— Falou tudo. Vamos nos jogar, meus lindos. A Bella tem razão. — Alice se levantou recuperando o bom humor.

— Lice, ligue agora para umas cinco conhecidas suas. Vamos colocar umas meninas bonitinhas aqui dentro dessa casa pra tirar Emm e Jazz dessa fossa.

— Agora sim estão falando Jaspanglês. — Meu irmão se animou.

— O que vai rolar? — Emmett perguntou.

— Devia perguntar o que não vai rolar. Despache sua dor de cotovelo pras Arábias, porque nós vamos arrepiar hoje. — Minha resposta foi categórica.

— Ai, ai... — Alice suspirou orgulhosa do meu otimismo. — O que um homem gostoso da selva não faz com uma pessoa, né? — Pôs a mão no meu ombro.

— O que quis dizer com isso? — Meu irmão cruzou os braços, todo ranzinza. — Bella, o T-zed está “pegando” você? Cuidado com o que vai falar, porque o tempo vai fechar. — Vociferou.

— Hãmm... — Como eu ia explicar?

— Ah, pelo amor de Deus. — Emm deu um tapa na nuca de Jazz. — Pára de fingir.

— Fingir? — Arqueei uma sobrancelha e sua pose de machão ciumento foi pro espaço.

— Pois é... — Jasper caiu mole no sofá. — Já faz um tempo que sacamos essa “paradinha” de vocês. — Sorriu debochado.

— Como assim? — Franzi o cenho.

— Qualé, T-zed não consegue disfarçar. — Emm revirou os olhos. — O cara te olha como se ele fosse um mendigo morto de fome e você o último Big Mac da Terra.

Sorri ruborizando um pouquinho.

— Deixando a “fome” do T-zed de lado, vamos acelerar a bagaça. Vou ligar pra uns coleguinhas do bem, enquanto o Emmett vai pagar o agiota junto com Ed. — Alice pegou o telefone.

— Se o anão perguntar por mim, por favor, digam que virei uma mulher bomba e explodi. — Fiz uma careta ao imaginá-lo me agarrando.

— Arnold não vai deixar por menos. O cara pode ser um “meio-quilo”, mas tem uns capangas enormes. — Emmett alertou de boa vontade.

— Espera, tive uma idéia. Emm, fala pro pequetitito vir buscar Bella às 18:00h.

 Lice só podia estar de sacanagem!

— Essa eu não quero perder. — Toby nos assistia devorando os M&M´s.

— Afinal, o que está tramando, Bella? O que quis dizer com “usar a criatividade”? — Meu irmão estalou os dedos pedindo atenção.

— Ah, isso você já vai saber. — Pisquei o olho esquerdo.

(...)

Vesti meu biquíni junto com um shortinho jeans. Calcei as velhas botas de cowgirl que usei em Miami e enfiei meu boné na cabeça.

Com Emm e Edward fora de casa, Alice, Jazz e eu tratamos de colocar “a mão na massa”. Resgatamos da garagem a empoeirada churrasqueira do meu pai e a colocamos perto da piscina. Meu irmão ficou encarregado de limpá-la e fazê-la funcionar.

Lice me ajudou a arrastar a mesa da cozinha até o jardim, onde colocamos uma fruteira, copos e pratos descartáveis e o maior isopor que possuíamos. Da dispensa, pegamos todas as latinhas de cerveja, refrigerante, suco e energético que havíamos estocado no inicio do mês, depois foi só enfiar as latas no gelo.

Alice pegou os 100 dólares que Sr.Jones me pagou para aturar seu filho e foi ao supermercado com duas garotas que estudaram conosco. Minutos depois, chegaram mais três conhecidos de Lice. Um deles era o filho do novo namorado de sua mãe. Já as duas moças a conheciam da academia, a qual ela largou quando as férias começaram.

Vendo a movimentação no jardim, as jovens hóspedes tomaram café na sala de jantar e, em seguida, foram para a piscina. Os caras do Link 69 sempre acordavam tarde e dessa vez não foi diferente. No entanto, ao verem mulheres de biquíni andando pela casa, desistiram de sair como quase sempre faziam e se juntaram à galera.

A verdade é que eu não estava fazendo tudo àquilo pelos hóspedes, mas sim por meus amigos. Era impossível estar feliz e vê-los desanimados. Como eu não podia quebrar minha felicidade em vários pedacinhos e partilhá-la com eles, sentia-me impelida a fazer qualquer coisa para deixá-los contentes e com ótimas recordações de nossos últimos dias juntos.

Quando Lice retornou, suas colegas lhe ajudaram a preparar espetos de carne com legumes e eu sugeri alguns de queijo. Também tive ajuda ao arrumar a mesa com muitos pães e uma tigela enorme com batatas Ruffles. Quanto a meu irmão, se aventurou em colocar algumas salsichas e hambúrgueres na churrasqueira.

Quando fui à sala trocar o CD, percebi que seria mais prático colocar o aparelho de som no jardim, então comecei a desconectar os fios.

— Quer ajuda, Bells? — Brad se aproximou segurando um copo de cerveja.

— Quero. — A banda era um peso morto. Já passava da hora de se fazerem úteis. — Recolhe tudo e leva o aparelho para o jardim. — Ordenei dando-lhe as costas.

— Espera. Ainda está brava comigo?

Após um longo suspiro, me virei para ele, dizendo:

— Não. Claro que não.

Para mim McFadden “nem cheirava, nem fedia”. Já não existia mágoa, muito menos paixão. Agora ele era só um carinha como outro qualquer. Só mais um membro do Link que não estava nos dando lucro algum.

— Bells, me deixa só dizer uma coisa. — Colocou a cerveja de lado e manteve a expressão séria. — Quando falei que te amava não estava mentindo.

As lembranças do nosso namoro pareciam tão distantes, como se fossem de uma vida passada.

— Brad, se é isso que tem a dizer, desculpa, mas eu tenho mais o que fazer. — Simplesmente não me importava.

— Estou deixando a banda. — Anunciou com firmeza.

Na noite em que dormimos juntos, intoxicada pelo vinho e sua influência negativa sobre mim, foi isso que exigi como sacrifício para lhe dar outra chance.

— Estou falando muito sério. — Ele caminhou em minha direção.

— Parado aí. — Ordenei em voz alta e ele parou.

O estranho é que pensei que não me obedeceria, mas ao notar que não era a mim que ele encarava, vagarosamente olhei para trás e avistei Edward na porta da frente. Não consegui ler seus olhos, pois usava os óculos escuros que lhe dei de presente. De jeans surrado e camiseta preta, ergueu um pouco o queixo ao indagar:

— Está tudo bem?

— Sim. — Respondi imediatamente.

— Vamos conversar em outro lugar. — Brad teve a ousadia de agarrar meu braço.

Talvez estivesse ficando louca, mas podia jurar que ouvi um rosnado muito baixo escapar do selvagem.

— Resumindo... — Desvencilhei-me. — Esquece. Só esquece, tá?

Referia-me ao que ele acabara de contar, as reações que achou que eu teria e todo o resto. E foi nesse momento que Edward disse o inacreditável:

— Ela é minha namorada agora.

Pense numa pessoa com cara de boba. Se pensou, me visualizou.

Ouvir o selvagem falar aquilo era tão estranho, mas de um jeito bom. Eu precisava me acostumar logo ou corria o risco de parecer mais doida do que já me consideravam.

— Te perguntei alguma coisa? — Brad retrucou não aceitando muito bem a novidade. Aproximando-se de Edward, continuou a falar com desprezo e arrogância. — Não te conheço. Não vou com a tua cara. Então agora, malandro, a gente vai bater de frente.

— Ei! — Coloquei-me entre os dois. — Ficou maluco, McFadden? Toma teu rumo! — Me aborreci.

Ed não se abalou com a provocação do meu ex. Permaneceu quieto, mas intimidador.

Alice ouviu as vozes alteradas e veio da cozinha já vociferando.

— Casca-de-Ferida, não cutuque o T-zed com vara curta. Rápa lá pra fora!

Brad encarou o selvagem por mais dois segundos. Quando viu que ele não entraria no seu jogo estúpido, saiu pela porta da frente esguichando mais provocações.




A impressão que tive foi de que Edward estava bastante seguro com relação a nós. Se impôs, mas também não se mostrou ameaçado o suficiente para discutir com Brad, o qual só estava com dor de cotovelo.

— McFadden é só um imaturo. — Expus minha opinião.

— Eu sei. — Deu de ombros. — Temos pouco tempo, não vamos ficar desperdiçando com ele.

— Concordo. — Sorri.

Quando o selvagem tirou os óculos, coloquei as mãos nos bolsos do short. Havia uma distância de dois palmos entre nós e logo comecei a sentir um sutil, porém incomum nervosismo. Uma ansiedade difícil de explicar.

Já não existiam dúvidas, Ed sabia que eu era louquinha por ele, assim como eu também sabia que era sua musa. Não conseguíamos fugir da sensação de que tudo era novo e excitante.

Quando Edward falou que eu era sua namorada, elevou nossa relação a um outro patamar. Talvez por isso, decidiu vagarosamente eliminar os centímetros que nos separavam pra agora poder me tocar como meu namorado. Não como amigo, companheiro ou hóspede. Simplesmente como o meu selvagem, e essa idéia fazia meu estômago gelar.

Senti sua mão esquerda em meu ombro e, logo em seguida, seus dedos deslizaram por meu braço até chegarem ao cotovelo. Ele me fez tirar a mão do bolso para pousar sua palma em minha cintura. Ao apertá-la um pouco,
meus olhos, que até aquele momento estavam fixos em seu pescoço, subiram por seu rosto até serem aprisionados pelo azul dos seus olhos.

Segundos se passaram até Edward aproximar os lábios da minha bochecha esquerda. Automaticamente fechei os olhos, ficando meio mole por causa do cheiro dele e do calor de sua face tão juntinha à minha.

Sempre confundi o selvagem com minhas investidas, meus beijos inesperados e meu jeito de ser. De fato, ele chegou a Orlando bastante ingênuo e despreparado, mas agora eu sentia que ele estava querendo deixar algumas coisas para trás. Percebi que lentamente assumia seu papel de “o homem da relação”. Por esse motivo não lhe agarrei com desespero, pelo contrário, fiquei bem quietinha para Edward ir se soltando aos poucos. Em circunstâncias passadas, ele havia sido guiado por seus instintos, porém agora se tratavam de sentimentos.

O selvagem afastou o rosto e, em contrapartida, me pressionou com delicadeza contra si. Não foi exatamente fácil vê-lo inclinar a cabeça para a esquerda com a intenção de encaixar a boca na minha, só que eu me segurei. Na verdade, nesse caso, me conter intensificava o prazer do momento.

Edward engoliu em seco e, em resposta, entreabri os lábios. Quando ele veio pra mim, a sensação gélida se espalhou do estômago até o peito, no entanto ele hesitou. Sim, o selvagem parou no meio do caminho. Minha respiração oscilou e tive certeza de que ele queria mesmo me matar. Eu nem podia ficar chateada, o selvagem só queria prolongar a excitação da preliminar.

Então, como se ele mesmo já não suportasse, tirou meu boné e fitou minha boca ao dizer:

— É bom poder fazer isso.

Com delicadeza e extrema sensualidade, pôs a ponta da língua entre os meus lábios, umedecendo o local, e ao mesmo tempo propondo um beijo que prometia ser delicioso.

Eu sucumbi. Não podia ser diferente, já que toda a expectativa foi compensada por uma entrega mútua. Estávamos vivenciando um momento em que parecia não existirem empecilhos ou incertezas. Coisa rara quando se trata de nós.

Embora o tempo não estivesse “do nosso lado”, estávamos do dele. Não tivemos pressa alguma, pois o que valia era aquela sensação de que cada beijo seria lembrado com carinho e saudade futuramente, ao invés de sairmos “nos pegando” feito animais no cio.

Edward possuía o que poucos homens possuem: uma sensualidade natural. Ele não precisava pronunciar frases feitas e manjadas para me envolver e atiçar. O selvagem, com suas crescentes descobertas sobre a fantástica relação “homem x mulher”, puxava-me aos poucos para o seu mundo e eu começava a sentir-me ainda mais conectada à sua personalidade. Poderia até arriscar alguns palpites sobre o que ele estava sentindo naquele momento.

Ele pretendia estender o beijo por vários minutos, dava para sentir isso, principalmente pela forma com que roçava a língua na minha. Infelizmente, uma risadinha ecoando pela sala o fez parar. Sem alternativa, nos afastamos e encaramos Alice.

— Aí, gente, desculpa não ter saído, é que eu precisava ver com meus próprios olhos. — Colocou as mãos na barriga morrendo de rir. — Danadinhos... — Fez biquinho ao tirar sarro.

De repente, Emmett chegou “soltando os cachorros”.

— Pô, Bella. Vai lá fora ver o que o Toby está aprontando dessa vez.

Precisei recuperar o ar, pois ainda estava sob efeito do Rei-da-Selva.

(...)

— Socorroooooo! — O pancinha berrava, sentado numa fenda entre dois largos galhos da maior árvore do jardim. — Alguém me tira daqui!

Meus amigos e eu nos reunimos em baixo do carvalho, ainda nos perguntando como o moleque fora parar no topo daquela porcaria. Edward preferiu ir alimentar o puma, pouco ciente da gravidade do problema.

— Por que esse desmamado faz isso justo comigo? — Coloquei as mãos na cabeça, perdidinha. — Tomara que o pai dele não volte pra mansão agora. — Fiquei com medo de ser responsabilizada.

— Toby, desce daí! — Lice vociferou, batendo o pé no chão.

— Olha, que boa idéia... Por que não pensei nisso antes? — Ele teve a coragem de ironizar. — Tive o maior trabalho pra subir, mas agora não sei como descer.

— Vou te contar, esse puto é doidinho. — Emmett gargalhou.

Tentando manter a calma, respirei fundo e pedi:

— Toby, por favor, desce o suficiente para saltar. Jazz e Emm vão te segurar.

— É O QUÊ? — Meu irmão quase explodiu meus tímpanos. — Esse moleque é muito pesado. Jasper preza a coluna dele. Jasper já sofreu demais.

— Na boa, eu não tenho braços de aço, Bella. — Emm também reclamou.

— Se deixarmos ele aí, será que o pai dele vai sentir falta? — Alice refletiu e não parecia estar brincando.

Os galhos do velho carvalho eram fortes, porém minha preocupação era a altura em que o garoto se encontrava. Uma queda daquela magnitude poderia ser fatal. Eu não sabia o que fazer.

— Hô, pessoal... — Toby começou a chorar com a voz arrastada. — Me tirem daqui, tou ficando deprimido. Eu tou com fome. Juro que vou me comportar.

— Do mesmo jeito que jurou quando ficou entalado na bóia? — Emmett retruco.

Toby parou para pensar, então deu um sorrisinho safado ao dizer:

— Ali foi diferente...

— Não queria ser a pessoa a dar a má notícia, mas olha o pai do garoto vindo ali. — Lice apontou para o portão da mansão.

Ficamos tensos ao avistarmos o homem caminhando apressado em nossa direção por causa dos gritos histéricos de seu filho. Realmente temi ser processada ou coisa do tipo.

— O que aconteceu? — O coroa olhou para o topo da árvore e logo percebeu o merdelê que o gordinho fez. — Toby, desce agora! — Se chateou.

— Eu não consigo... — Ele voltou a choramingar.

— Me desculpe, senhor. Nem sei como ele chegou lá em cima. — Torci para não ter que devolver as 100 pratas.

O Sr. Jones me encarou com seus olhos altivos e fronte enrugada. Imediatamente me preparei para levar uma bronca, mas, para minha surpresa, ele enxugou o suor da testa e balançou a cabeça com pesar. 

— Conheço o filho que tenho. Sempre que tiramos férias em Orlando ele nos faz ser expulsos de algum hotel. Já estamos até sem opções. — Bufou com desgosto.

— Ah, então o “normal” dele é isso? — Alice interrompeu.

— Mais ou menos. — O homem não soube como responder. — Desculpem, estou trabalhando em um projeto e acabei por deixá-lo muito só. Vou tentar colocar Toby na linha.

— A conversinha aí já acabou? Vou ficar aqui até formar um ninho? — O moleque audacioso estava pedindo para levar na fuça.

— Vou ligar para os bombeiros. — Sr. Jones pegou o celular do bolso.

— Por que ele ainda não desceu? — Edward perguntou, finalmente chegando perto.

— Não sabe como, mas o pai dele está chamando os bombeiros. — Respondi.

— Não é preciso. — O selvagem franziu o cenho como se a idéia fosse absurda.

— O que disse? — O hóspede afastou o celular do ouvido.

Sem prestar explicações, Edward deu três passos atrás e, com uma corridinha, pegou o impulso necessário para saltar e escalar o tronco agilmente. Galgando rapidamente os tortuosos galhos, fez em cerca de um minuto o que Toby deve ter demorado no mínimo uma hora pra fazer. Não estávamos exatamente habituados com as habilidades do selvagem, por isso ficamos um tanto boquiabertos.

Alcançando o moleque no topo do carvalho, ele o segurou pelo braço e passou a lhe dizer onde devia pisar e se agarrar. Limitados a observar, torcemos para que ninguém despencasse lá de cima, mas Edward permaneceu seguro e despreocupado.

O resgate demorou vários minutos porque Toby era desajeitado e choramingão. Por sorte, Edward esbanjou paciência e não reclamou nem uma vez. Ao chegarem perto do solo, o Sr. Jones estendeu os braços para auxiliar o filho e o drama finalmente acabou.

Ed saltou da árvore, limpou as mãos nas calças jeans e recebeu elogios dos rapazes. Grata e aliviada, sem produzir som algum, apenas movi os lábios pronunciando um “obrigada”. Ele, por sua vez, só deu um carismático sorriso.

Depois que o Sr. Jones viu que seu filho estava bem, apertou a mão de Edward com uma gratidão bem maior que a minha.

— Isso foi impressionante. — O homem sorriu. — E olha que estou acostumado a ver coisas impressionantes.

— Não foi nada. — Edward não considerou aquilo um grande feito, talvez por estar acostumado com desafios bem maiores. 

— T-zed é o rei de Malaita. — Jazz bancou o intrometido, colocando orgulhosamente a mão no ombro do novo cunhadinho. Edward ficou pouco confortável com o comentário, mas nada falou.

— Malaita? — Sr.Jones pronunciou o nome da ilha como se a conhecesse.

Fala sério, meus amigos e eu nem sabíamos se ela constava no mapa.

— Temos muito a fazer. — Alice me rebocou para a cozinha sem nenhuma educação.

Com auxilio da Vishimideuz, coloquei o aparelho de som no jardim, terminei de preparar os espetos e juntei alguns copos que voaram pelo gramado por causa do vento. Demorei uma meia hora para realizar essas tarefas. Nesse tempo, Edward ficou de papo com o Sr. Jones. O mais estranho é que ele parecia estar gostando da conversa. A forma como gesticulava e às vezes sorria denunciava isso. Não era típico do selvagem ficar tão à vontade com estranhos.

Brad não me aporrinhou mais, ao invés disso, se reuniu com os caras da banda no lado direito do jardim e eles monopolizaram a atenção do mulheril. Confesso que isso me irritou, pois eu tinha armado a festinha para Emm e Jazz se divertirem. Foi impossível não me sentir frustrada, já que eles ficaram largados “às moscas” à beira da piscina. Tudo bem que nunca tiveram muita sorte com garotas, mas dessa vez realmente acreditei que seria diferente.

Quando Alice e eu agilizamos o que faltava para o churrasco, ela foi correndo ao meu quarto pôr um biquíni e eu fui para a cozinha lavar as mãos. Após secá-las com um pano de prato, me virei para a entrada do cômodo e encontrei Edward junto à soleira.

— Seu irmão e Emmett estão de mau humor? — Indagou se importando.

— É o que parece. — Resmunguei sem conseguir esconder a raiva. — Acho que estão se sentido meio rejeitados. Tudo culpa daqueles babacas do Link 69. — Limitei a explicação, Ed sabia do que eu estava falando.

— Mas eles são tão melhores do que Brad e os demais.

— Infelizmente as peruas lá fora não percebem isso. Estou a ponto de mandá-las embora. A vassouradas se for preciso. — Cruzei os braços feito uma criança contrariada e Edward soltou uma risadinha.

A temperatura não parava de aumentar e gotículas de suor começaram a se formar em minha testa. Edward também sentiu os efeitos do verão e tirou a camiseta. Precisei me conter para não ficar “secando” demais aquele torso queimadinho do sol, com pequenas cicatrizes e suavemente definido.

— O que podemos fazer?

— Não sei... — Encurtei calmamente a distância entre nós, parando a centímetros dele. — Você podia assustar todo mundo dizendo que é o Duke doidão da favela. — Ri um pouquinho.

— Será que alguém acreditaria? — Entrou na brincadeira.

— Talvez. Faz cara de mau.

Primeiro Edward riu, mas logo depois franziu o cenho e cerrou os lábios, ficando o mais carrancudo possível.

— Eu conheço essa expressão. Você a fez quando te esqueci no supermercado. — Gargalhei.

— Dia memorável. — Murmurou voltando a sorrir.

— O que pensou a meu respeito?

— Não vai querer saber. — Balançou a cabeça.

— Foi tão ruim assim?

Apenas assentiu e o compreendi.

— Acreditei que me mataria. — Fiz uma careta cômica.

— Confesso que na época tive um pouco de vontade. — Ficou sério ao roçar as costas da mão na minha.

De repente, senti novamente aquela eletricidade crescente entre nós. Era até difícil nomear a sensação. Parecia que tinha voltado a ter 12 anos, quando se espera que o garoto de quem gosta pegue na sua mão como sinal de que ele também sente algo por você.

Eu julgava conhecer tudo sobre o amor e seus tentáculos, então “um dia acordo” e sinto-me vagando por um terreno totalmente desconhecido e surpreendente. Era uma confusão boa de se estar.

Edward vagarosamente entrelaçou os dedos nos meus. Aquele era um gesto tão simples, mas, dentro do contexto em que vivíamos, se tornou algo significativo e romântico. Ele queria ficar de mãos dadas, queria dar mais um passo no nosso relacionamento incomum. Talvez por termos uma data marcada para rompermos, tudo, absolutamente tudo, ganhava importância e eu jamais tinha presenciado ou vivido algo semelhante. Era empolgante!

— Vamos para o jardim, talvez encontremos um jeito de animar Emmett e Jasper. — Disse Ed.

— Ok.

O selvagem não largou minha mão. Atravessamos a sala e, sem pressa, caminhamos pelo jardim de mãos dadas até alcançarmos os rapazes. Eu não conseguia parar de “pontuar” a situações. O primeiro beijo como namorados. O primeiro passeiozinho de mãos dadas...

O que viria a seguir?

(...)

Quando Edward foi pôr em prática uma idéia que teve para ajudar os rapazes, fiquei ao lado de Alice junto à churrasqueira.

O selvagem trouxe o puma para perto da piscina e isso automaticamente atraiu a atenção dos convidados. Emm e Jazz mostraram intimidade com o animal e logo se transformaram em alvos de perguntas.

Para a nossa satisfação, o Link 69 se deu mal. Ficaram meio isolados do outro lado da piscina. Eles fingiam não se importar com nada, mas a realidade era outra.

— Incrível. Parecem formigas em volta do açúcar. — Lice se referia às garotas ridiculamente interessadas nos nossos meninos.

— É, estou vendo.

Ed mantinha o animal calmo, lhe acariciando a cabeça e tentando ficar fora das conversas. No entanto, o que eu mais ouvia eram os gemidinhos de “oowwnnn” vindo das moças que o assistiam interagir com o felino.

— Sabe o que é massa?

— O quê? — Perguntei interessada.

— T-zed pensa mesmo que as meninas estão ali só por causa do puma.

Alice e eu trocamos um olhar, em seguida caímos na gargalhada.

— Acho melhor ele continuar pensando assim — Brinquei, cruzando os braços. Por tolice, fitei a entrada da casa e avistei Toby saindo de lá e correndo na nossa direção. — Ah, não... O meu carma ambulante está vindo aí.

O pancinha, todo vermelho e suado, nos abordou tagarelando:

— Eu acabei de ler a coisa mais doida de toda a minha vida.

— Não diga, sua certidão de nascimento? — Lice mandou a ofensa na lata.

O garoto estreitou os olhos e inflou as bochechas de raiva.

— O que você quer? — Gemi impaciente.

— Lê aqui. — Puxou de debaixo do braço algumas folhas de papel e as ergueu acima da cabeça.

— A garra... — Comecei a ler em voz alta e logo ele trocou a página. — Romeu... — Li a terceira — Peitinho.

— Tá bom. — Não é que as mãos do moleque vieram direto para os meus seios? Minha sorte foi que Lice o impediu, puxando-lhe pela camiseta.

— Meu Deus, me segura... — Coloquei as mãos na cabeça para não espancar o garoto. — Vou contar tudo para o seu pai! Por que não volta pra droga de latrina de onde você veio?

— Ah não, gente. Eu já estou de castigo. — Ele se tocou do perigo.

— Calma, Bella. Tenho uma idéia melhor. — Alice sorriu matreira.

(...)

Foi perto da casa da árvore que nos vingamos.

— Faz pose. — Ordenei a Toby.

— Não me sinto muito à vontade... — Ele resmungou só de calção, com a parte de cima de um biquíni florido.

— Não temos o dia todo. — Lice segurava a câmera Polaroid.

— Mãozinha na cintura, moleque lazarento. — Vociferei.

— Ah, cara... — Fungando, ele obedeceu.

Alice começou a tirar as fotos e eu as recolhi tentando ficar séria.

— Agora coloca uma mão no quadril e a outra no queixo. — Fui implacável.

— E faz um biquinho. — Minha amiga não teve dó.

— Não vou ficar nesse bundalêlê. Vocês estão brincando com a morte, hein?! — Apontou o dedo gordinho para nós.

— Alice, que tal ele dar uma dançadinha? — Provoquei, coçando o queixo.

— Uma dançadinha caía bem. — Ela comentou, ignorando os palavrões que o menino soltava.

— O que é isso? — Edward se aproximou indicando Toby.

— Hoje é o dia universal do óbvio e essa figura aí ainda pergunta “o que é isso?” — Mais uma vez, o pancinha ficou fulinho da vida.

— É que esse boca-de-fossa merece um castigo. — Esclareci. — Cadê o puma? — Sobressaltada, olhei para trás e avistei Emm ajoelhado perto do animal. Os rapazes continuavam rodeados por garotas e agora o papinho parecia mais animado. — Não é perigoso deixar o puma com os meninos?

— Não. Quero dizer, não muito. Ele está tranqüilo hoje e já se habituou com Emmett.

— Tem certeza? Não gosto da idéia. — Eu não confiava no animal.

— Tudo bem. — Ele decidiu atender meu apelo. — Vou colocá-lo de volta na jaula.

Edward virou-se para a piscina, levou dois dedos à boca e assobiou alto. O animal rapidamente se levantou e, alerta, disparou em nossa direção. Seus olhos amarelados sempre me amedrontaram, mas naquele momento eram suas patas ágeis e seu porte de caçador que me deixavam tensa.

Edward olhou-me de relance e, logo em seguida, se direcionou para o fundo do jardim onde ficava a jaula. O puma desviou o caminho e seguiu fielmente seu dono. Observando-os, percebi que Ed havia se ligado ao animal muito mais do que eu e meus amigos podíamos imaginar. A conexão entre eles era quase incompreensível. Será que o selvagem também o deixaria para trás?

— Muito bem, lindão, vamos tirar mais uma fotinha. — A voz melódica de Lice afastou a questões sem resposta da minha cabeça.

— Toby, uma mão no quadril e a outra no queixo. Preciso lhe ameaçar novamente? — Fui durona e ele merecia. — Quero você todo sexy nessa foto.

— Estão praticamente rasgando o estatuto da criança e do adolescente! — A criatura resmungou pela milésima vez.

— TOBY! — Alice gritou perdendo a paciência, então o garoto finalmente fez a pose que exigimos.



Depois de dar algumas risadas às custas do pancinha, fiquei à espera de Edward retornar. Quando o avistei a alguns metros de mim, tomei a câmera das mãos de Lice e passei a correia em volta do meu pescoço. Brincando, girei o braço direito no ar fingindo laçar o selvagem, então comecei a puxar a corda imaginária e fui dando alguns passos para trás enquanto ele vinha pra mim.

Ao nos afastarmos o suficiente da galera, amarrei a corda invisível à cintura e o selvagem enfim me alcançou.
                                                                                                                                             
— Eu quero um sorriso caprichado para essa foto. — Tirei meu boné e o coloquei na cabeça de Ed.

— Claro. — Comprimiu os lábios, arregalando os olhos.

Rindo de sua expressão amalucada, dei três passos pra trás e tirei a foto.

— Outra. — Pedi pousando a foto recém tirada no gramado.

O selvagem coçou o maxilar meio sem jeito e dá-lhe “clique” nele.

— Minha vez. — Estendeu a mão querendo a Polaroid, então passei a alça pela cabeça e lhe entreguei.

Voltando a me distanciar, arranquei uma boa risada dele ao colocar os dedos entrelaçados junto ao queixo, fazendo um biquinho bem exagerado e ridículo. Assim que Edward tirou a foto, fiz com a mão um chifrinho “a la” rock 'n' roll e até coloquei a língua pra fora.

— Espera, essa aqui é a boa. — Piscando o olho, mordi a ponta do dedo indicador, quase encarnando novamente a Charlene Créu Créu. — Pronto, minhas caras e bocas de arrasar acabaram.

— Só mais uma.

Edward veio até mim e passou o braço em volta dos meus ombros. Quando ele ergueu a câmera para nos focalizar, tasquei-lhe um beijão na bochecha e saímos bonitinhos na foto.

Juntei todas as fotografias e as coloquei no bolso traseiro do selvagem. Se eu disser que não apalpei disfarçadamente a região, estarei mentindo.

— Posso te perguntar uma coisa? — Edward pôs uma mão na minha cintura.

— Fale.

— Lembra quando tomei analgésicos por causa do meu tornozelo?

— Sim.

— Lembra quando Alice falou a todos que eu tinha te “desrespeitado”, mas você a desmentiu?

— Sim... — Não sabia onde ele queria chegar.

— Em fim, pensando melhor agora, tenho quase certeza de que dei um tapa na sua... — Fitou o meu quadril. — Dei? — Franziu o cenho ansioso por uma resposta.

— Deu. — Murmurei prendendo o riso.

Edward inclinou a cabeça para o lado e refletiu.

— Hmm... — Mordeu o lábio.

— “Hmm”? O que isso quer dizer?

Ele suspirou e meus olhos cresceram de curiosidade.

— Quer dizer que eu... — Colocou a outra mão em minha cintura. — Que eu...

Fomos interrompidos por jatos de água. Alice, Jazz e Emm descarregaram sobre nós as metralhadoras de água que animaram nossas brincadeiras de infância.

Ensopada, carbonizei meus amigos com o olhar. Eles tinham que interromper justo na hora que Ed ia soltar o verbo?

— Vou matar todo mundo. — Anunciei com frieza.

Jazz, sem noção do perigo, molhou o selvagem, resmungando:

— Se Jasper soubesse que T-zed ia encoxar a irmã dele, não tinha explicado como se... — Emmett tapou a boca do meu irmão e soltou uma risada abafada.

— Explicado o quê? — Lice e eu perguntamos simultaneamente.

Quem eu ia ter que trucidar pra saber o final das frases?

— Então... — Ed revirou os olhos, tomando a metralhadora de Jazz. — Você não ia matar todo mundo? — Entregou-me o brinquedo.

— Corram, porque tou fervendo feito água na chaleira. — Me preparei pra chacina e eles se espalharam sabendo que naquela brincadeira sempre fui fera.

Apesar de meus amigos e irmão não saberem a hora de se mancar, nossa manhã foi perfeita. Desfrutamos do que me arrisco a chamar de paz.
As últimas semanas tinham sido conturbadas e cheias de altos e baixos. Eu mal conseguia acompanhar os acontecimentos que sempre me levavam a extremos. Agora, com o peso de meio mundo longe dos meus ombros, podia respirar sem a constante dor no peito causada pelo que vivi com Brad. Assim como também podia ficar à vontade com Edward sem enlouquecer tentando evitar o inevitável. Mas, acima de tudo, podia relaxar totalmente, pois finalmente aceitava que nem sempre a vida é justa. Nem sempre as coisas acontecem exatamente como queremos. Mas quer saber? O importante é que elas aconteçam!

As horas em volta da piscina renovaram a alegria natural de Jasper e Emmett, deram a Lice um belo bronzeado e me proporcionaram momentos agradáveis com o selvagem.

Nunca o vi tão aberto, tão disposto a explorar as sensações que despertávamos um no outro. O homem que às vezes deslizava suavemente os dedos por minha coluna, que ria das bobagens que falávamos, que ignorava com elegância as infantilidades do Link 69, era o mesmo cara de Malaita. Edward não perdera sua essência, mas, assim como eu, ele evoluiu. Parecia que seus rígidos ideais se expandiram, liberando uma parte dele mais despreocupada, carismática e jovial.

Não conseguia me arrepender do tempo que desperdiçamos, pois talvez tivesse que ser assim mesmo. Acabamos nos rendendo um ao outro quando alcançamos o ápice de nossas evoluções pessoais. Agora Edward tinha o melhor de mim e eu tinha o melhor dele.

Quando a tarde caiu, Alice me lembrou que o agiota passaria na mansão para tentar se dar bem comigo. Ela tinha um plano e, claro, era pra lá de louco.

Exatamente às 18:00h, a campainha tocou. Imediatamente, corri para a porta, respirei fundo e escancarei a bagaça. Fui logo dando de cara com capangas grandalhões do anão.

— Olá, pessoas bonitas. — Meio que cantarolei essa mentira.

— E aí? Mandando? — Olhei para baixo e lá estava o anão sorrindo com o dente de ouro à mostra.

— Mandando o quê? — Você pro inferno? Completei mentalmente.

— Mandando ver no visual? Quero você bem bonita, mulher. — O pigmeu ficou carrancudo.

— Pode deixar. — Pisque o olho pra ele. — Entra aí meu lindo tamborete. — Arnold atravessou a porta e bati com ela na cara dos seguranças.

— Vou logo avisando que não irá sair comigo com essa camiseta velha e esse short encardido. — O homenzinho ascendeu um charuto.

— Amor, farei tudo que quiser, mas antes por que não cumprimenta minha família?

Arnold deu uma boa tragada no charuto relanceando os olhos sobre a sala lotada. Além dos meus amigos, lá estavam também alguns convidadozinhos de Alice.

— Seus parentes se multiplicam sozinhos?

— Mais ou menos. — Sorri.

— Tem muitos irmãos. — Ajeitou o nó da gravata azul berrante.

— Não. — Gargalhei colocando a mão em seu minúsculo ombro. — São meus filhos.

O anão encarou perplexo as crianças amontoadas no sofá. Com a grana de Ed, Lice pagou a molecada da vizinhança pra se passarem por meus filhos.

Aproveitando a mudez do meu Umpa Lumpa, corri até o sofá e comecei a apresentar meus falsos filhotes.

— Esse é o pequeno Aldercy. — Indiquei o ruivinho sardento de 7 anos que nada fez além de continuar mascando seu chiclete.

— Quem é o pai? — O agiota perguntou, preocupado com concorrência.

— Sou eu. — Emmett ergueu a mão, permanecendo perto da escadaria.

— Continuando. — Fui para trás do sofá. — Essa linda loirinha é a Carmina. Não é uma fofa? — A garotinha de 6 anos acenou para o anão. — O pai dela é o Jasper. — Apontei para meu irmão ciente de que Arnold não sabia de nossa ligação sangüínea. 

— E aí? — Jazz continuou comendo seu sanduíche bem sentado em uma das poltronas.

— Não podemos esquecer do meu moreninho. — Fiz um cafuné no garoto que mais parecia um clone do filho do Will Smith.

— E quem é o pai desse? — O agiota já estava confuso.

— Oras, o Duke Doidão. — Indiquei o selvagem que estava a alguns metros de mim.

— Nota-se imediatamente a semelhança. — Ed revirou os olhos e eu quase gargalhei.

— E, por último, mas não menos importante... Toby. — Dei um tapa na nuca do gordinho.

— E o meu pai é aquele ali. — Ele apontou para o velhote surdo que passava para cozinha com sua inseparável ave.

— O papagaio entrou juntou e misturado na bagaça, se é que você me entende... — Alice se intrometeu só para me tirar do sério.


2 Minutos Depois...


— NÃO SE VÁ, MEU TAMBORETE! EU QUERO TER UM FILHO COM VOCÊ! — Berrei da calçada.

O carro do agiota cantou pneu, subiu a rua e desapareceu ao dobrar a esquina.

— Valeu meninada. — Lice começou a distribuir notas de 10 dólares.

— Pois é, estou traçando todo mundo. — Rindo soltei um beijo pros rapazes.

(...)

Após servir o jantar dos hóspedes, Alice me arrastou pelo braço até meu quarto como se fosse uma emergência. Ela bateu a porta com violência e começou a balbuciar ofegante e elétrica:

— Eu ouvi... Eu ouvi... Meu Deus do céu, eu ouvi!

— Ouviu o quê, mulher? — Vociferei confusa.

— T-zed garantiu a Emmett que não vai transar com você.

— É O QUÊ? — Berrei desafinando.

— Ouvi eles conversando lá no jardim. — Uniu as mãos junto ao queixo com pena de mim

— Ele só pode estar brincando... — Choraminguei esperneando.

— Parece que é por causa de algum tipo de voto de castidade.

— Que merda de voto é esse que ele nunca me contou? — Fiquei apavorada com a idéia de não tê-lo completamente.

— Eu não sei. — Escancarou a porta do meu armário. — Mas você precisa fazê-lo mudar de idéia. — Começou a jogar alguns vestidos na cama.

— Isso tudo me soa tão estranho. — Tamborilei os dedos na testa.

Alice largou algumas roupas no chão e correu até mim.

— Vai ficar aí perdendo tempo? — Me chacoalhou pelos ombros. — O que vocês precisam é de uma noite de namorados.

— Defina “noite de namorados”. — Arqueei uma sobrancelha.

— Um passeio romântico com direito a beijos e muitos amassos.

— Até que não é má idéia. — Mordi o lábio imaginando onde poderia levá-lo.

— Ándale! Ándale, Belita! — Me empurrou para o banheiro, mas logo me puxou de volta pela parte de trás da blusa. — Tem uma coisa que pode ajudar. — Soou misteriosa.

— E o que é? — Desvencilhei-me.

— Uma das minhas tias me contou uma vez que existe uma frase infalível para essas situações. É algo que deixa os homens completamente loucos. Se usar ela, é tiro e queda.

— Sério? — Me perguntei como ainda não sabia sobre essa frase. — E qual é?

— Ah, poxa, eu não tenho coragem de falar. Fico com vergonha. — Riu colocando uma mão no rosto. — Enquanto você toma banho vou escrever num papel. — Voltou a me empurrar.

— Hãm... Tá bom.

Arrastei-me para o banheiro temendo ter que apelar para a tal frase. Para falar a verdade, ainda estava perdida na notícia de que Ed não queria dormir comigo.

(...)

Tive que me arrumar às pressas e mesmo assim consegui ficar bonitona. Meu vestido branco e preto era bem marcado no busto e em parte da cintura, valorizando meus seios de uma forma sexy, mas moderada. Por ser bem solto a partir do quadril, me dava mobilidade e charme. As alças finíssimas, junto com o comprimento na altura do joelho, o deixavam com um ar quase inocente. Para garantir um “pacote” completo, passei um pouquinho de maquiagem e usei os brincos mais delicados que possuía.

— Não gosto de ficar me elogiando, mas estou uma gata. Se Ed não quiser apalpar o material, merece um soco no meio daquela fuça linda. — Indignada, coloquei as mãos na cintura.

— Falou e disse. — Alice concordou me empurrando para a porta. — Não esqueça da frase matadora. — Enfiou um pedaço de papel no meu decote.

— Pode deixar, Lice. — Determinada, girei a maçaneta e abri a porta dizendo: — Vou mostrar a ele a minha matadora.

De repente, meu peito inflou de susto porque dei de cara com o selvagem. Ele ainda estava com o punho erguido para bater na porta. Constrangida até o último fio de cabelo, tive que aturar Alice se escondendo atrás de mim para rir da minha mancada.

— Oi. — Edward baixou a mão.

Não me lembrava de tê-lo convidado pra sair, mas o cara estava diante de mim todo bonitão e despojado. Reconheci a calça preta, mas a blusa da mesma cor talvez fosse de Emmett. Ficou bem nele por usá-la com as mangas desabotoadas e a gola um pouco aberta.

— Oi. — Respondi empurrando a vergonha pra longe.

— Tomei a liberdade de avisar ao T-zed que vocês vão dar uma voltinha. — Lice fingiu seriedade ao sair do esconderijo. — Tenham uma noite mata... — Comprimiu os lábios. — Maravilhosa. — Corrigiu empinando o nariz.

Quase grunhi de ódio dela.

(...)

Peguei o recém recuperado carro de meu pai e levei o selvagem para o Centro Cultural de Orlando. O local já havia fechado, mas o calçadão ao lado dele nos atraiu.

O calçadão sempre foi conhecido por seus cafés aconchegantes, por seus artistas de rua que davam cor e beleza ao espaço. Sempre foi muito visitado por turistas que apreciavam a diversidade de eventos acontecendo ao mesmo tempo. Aqueles metros quadrados transpiravam vida e nos encaixávamos muito bem ali.

Foi fácil esquecer tudo que Alice me falara. As preocupações foram varridas da minha mente quando Edward voltou a segurar minha mão. Caminhamos errantes por entre bancos de madeira e postes de luz que pareciam do início do século XIX.

Por um tempo, Ed e eu permanecemos calados, apenas deixando que chegassem aos nossos ouvidos melodias e sons que brotavam de todos os lados. Um violino sendo tocado por um homem solitário sentado em um banco à espera de alguns trocados; sussurros apaixonados de casais que atravessavam nosso caminho; o tilintar das risadas infantis despertadas por um mímico.

Quando avistei uma boa mesa em um dos cafés, puxei o selvagem até lá e pedimos dois cappuccinos. Sentada de frente para ele, não me cansava de estudar o seu rosto. Era como observar alguém que chegou ao mundo agora. Ed relanceava seus olhos curiosos sobre tudo.

— Como é ser você? — Perguntei brincado.

Ele me analisou tentando encontrar o sentido da pergunta.

— Não sei como responder isso. — Sorriu torto. — Por quê?

— Adoraria saber como sua mente fervilhante funciona.

Edward maneou a cabeça como se sua mente não fosse tão fascinante como de fato era.

— E como é ser você? — Voltou a me fitar.

— Olha, é difícil explicar, mas posso te dizer como um dia serei.

— Por favor. — Me incentivou.

— Eu serei como uma daquelas pessoas que todos criticam porque trabalham por vocação e não só por dinheiro. Alguém que ficará acordada algumas madrugadas só para pensar em como tornar sua própria vida mais útil. — Fiz uma pausa e passei os dedos pela xícara quente. — Serei como aqueles persistentes que mesmo aos 70 anos fazem planos a longo prazo. Sei que estou soando como uma estúpida e que todo mundo está sujeito a mudar de opinião com o tempo, mas quem me garante que eu não serei exatamente assim? — Após um suspiro, encarei Edward.

Passaram-se segundos até ele encontrar algo em meu olhar que o fez dizer:

— Você será, Bella. — Sorriu. — Eu tenho certeza. — Completou com a voz macia.

A maioria das pessoas que eu conhecia me recriminaria por ter objetivos tão utópicos. Tentariam jogar na minha cara que futuras circunstâncias retalhariam meus pensamentos juvenis, só que Edward não. Ele simplesmente acreditava em mim.

— Que louco. Se pararmos pra pensar, veremos que nunca mais seremos tão jovens e apaixonados como hoje. Quer dizer... — Ri de vergonha das bobagens que dizia. — Nunca mais estaremos sentados aqui, nos olhando com essa intensidade. Acho que sempre fui meio paranóica com o tempo. Aquele sentimento de que ele se vai e não volta mais. Ah, poxa. Por favor, me mande calar a boca. — Cobri o rosto com uma mão.

— Eu entendo você. — Edward me obrigou a tirar a mão do rosto. — É como ver um filme, certo? Um filme que não dá pra pausar ou voltar. Se perder uma parte, você pode não conseguir entender corretamente o restante da história e ficar perdido nela.

— Exato. — Fiquei impressionada com a explicação de Ed. — É assim que sinto. — Me bateu um alivio. — Em que parte do filme está?

Edward se levantou e colocou a cadeira junto à minha. Quando se sentou, passou um braço em volta dos meus ombros e o calor que exalava involuntariamente fez-me relaxar.

— Estou na parte em que o protagonista descobre como é namorar. — Afundou o rosto em meus cabelos.

— E ele está gostando? — Sorri mordendo o lábio.

— Ele está adorando. — Murmurou.

(...)

Edward e eu voltamos para o Centro Cultural porque lá estava quase deserto. Subimos parte da extensa rampa que dava acesso ao prédio. O lugar pouco iluminado parecia ideal para abordar o assunto do voto de castidade.

— Sabe, você está tão... — Me encostei no corrimão da rampa e o selvagem pôs as mãos nela me aprisionando entre seus braços. — À vontade. — Completei ofegante.

— É impressão sua. — Brincou fitando minha boca como fizera na mansão.

— Então por que não... — Pigarreei sem saber como lhe convencer a largar o voto. — Exploramos... — Eu devia ter incluído a palavra “tudo”, mas ela não saiu.

Edward me encarou franzindo o cenho e só aí percebi que não entendeu nada.

— Espera. — O afastei com delicadeza e Ed deu um passo atrás.

— Qual o problema, Bella? Fiz algo errado?

— Claro que não. Só me dá um minuto. — Me distanciei um metro dele e resolvi dar uma chance à “frase matadora”.

De costas para o selvagem, puxei o papel do decote e o desdobrei. Ao ler a frase, gemi alto de desgosto e chacoalhei o corpo, inconformada.

— Está tudo bem? — Ed estranhou e eu apenas ergui a mão pedindo mais um minuto.

De olhos fechados, colei os punhos na testa, pois ouvia nitidamente Alice tagarelando na minha cabeça. Queria arrancar a voz de lá, mas era impossível.

“Vai fundo, o que você tem a perder?”

“Lembra que você já fez coisa pior.”

“PORRA, BELLA, ABRE A BOCA E FALA!”

Em um súbito, me virei para Edward e falei de uma vez:

— Não faça manha, eu quero o seu taco-taco no meu balacobaco.

— Err... O quê? — Ficou completamente perdido.

Nunca desejei tanto estar a sete palmos de terra. O silêncio que se seguiu só não foi mais constrangedor do que Edward me encarando com se eu tivesse falado em uma língua alienígena, mas pouco tempo se passou até sua expressão se suavizar e ele dizer:

— Alice esperava que eu lesse isso pra você. — Puxou um bilhete do bolso e o estendeu para mim.

Corri para pegar o bilhete e advinha o que tinha escrito lá?

“Não faça manha, eu quero o meu taco-taco no seu balacobaco.”

O sangue me subiu à cabeça, precisei contar de um a dez pra não gritar de raiva.

— Perguntinha. — Estreitei os olhos. — Você não fez nenhum voto de castidade, fez?

— Não. Por quê?

— Filha de uma égua! — Vociferei amassando os bilhetes. — Nesse momento ela deve estar rolando no chão de rir da nossa cara.

— Agora entendo porque Alice disse que você tinha medo do... — Ed revirou os olhos. — “Meu lado primitivo”.

Totalmente boquiaberta e revoltada, pedi meu celular que estava no bolso dele liguei para a sacana. Claro que ela não atendeu, mas me mandou uma mensagem.

De Alice:
Para Bella:

[A idéia nem foi minha ¬¬ foi do Emm Kkkkkkk]

— Nem acredito. — Resmunguei, e um segundo depois chegou outra mensagem.

De Emmett:
Para Bella:

[É mentira da Alice. A idéia foi do Jazz. Ei, me traz um sanduíche? ;D]

— Eu vou estropiar todos eles. — Rosnei e mais uma mensagem apareceu na tela do celular.

De Jasper:
Para Bella:

[Quais as chances de vc colocar $10 de crédito no celular do seu mano?]

— O que é deles tá guardado. — Desliguei o celular para não receber mais nenhuma mensagem.

— Acho que estou começando a entender o sentido da frase que Alice te fez falar. — Edward fitou o céu, refletindo.

— Não. Não está nada. — Aflita de vergonha, fiquei pulando para conseguir estalar os dedos perto de seu rosto na esperança de que aquilo atrapalhasse seu raciocínio.

— Ah, estou sim. — Respondeu só para me torturar.

— Shhh! Não está. Não está. — Bati palmas feito louca, depois chacoalhei as mãos em frente aos seus olhos. — Não pense.

— Pensando bem... — Arqueou uma sobrancelha.

Não agüentei mais. Fiquei na ponta dos pés e o puxei pelo colarinho da blusa até conseguir beijá-lo.

(...)



Quando retornamos à mansão, já passava de uma da manhã. Quase todas as luzes estavam apagadas e o raro silêncio era praticamente um presente. 



Eu não subi imediatamente para o meu quarto, fiquei deitada no gramado junto com Edward. Com a cabeça pousada em seu braço, ouvia ele me explicar por que havia um anel luminoso e multicor em volta da lua.

— É um fenômeno raro. O halo lunar se forma por causa da refração e dispersão da luz nos cristais de gelo de nuvens do tipo cirros. A luz, ao passar pelos cristais, se separa nas cores que vão do violeta ao vermelho, está vendo? — Apontou para a lua.

— Sim. É incrível. — Ergui a mão e com o indicador lentamente contornei o anel como se pudesse tocá-lo.

Sentia tanta paz...

As brisas frias da madrugada começaram eriçar minha pele e quando dei por mim, já estava de olhos fechados. Por um momento, nada pude ouvir além do suave chacoalhar das folhas das árvores.

— Bella... — Edward deitou de lado e o movimento fez-me abrir os olhos.

— Fala. — O encarei tocando seu maxilar.

Primeiro ele deu um meio sorriso nervoso, depois seus lábios tremularam sutilmente por conta das palavras que não chegaram a sair. Somente após um suspiro, Edward finalmente disse com a voz rouca:

— Faz amor comigo?

Meu estômago gelou como se fosse a primeira vez que ouvia tal proposta. Analisando bem, feita dessa forma, era sim a primeira vez. Embora a resposta estivesse estampada em minha face, Edward esperou eu recuperar a voz.

— Sim. — Uma onda de ansiedade me atingiu.

Edward relanceou os olhos sobre o meu corpo deixando visível que não sabia exatamente por onde começar. Confesso que naquele momento até eu estava meio perdida por causa do nervosismo.

— Me beija. — Sussurrei tão baixo quando o vento.

O selvagem se inclinou um pouco sobre mim e colou a testa na minha. Automaticamente minha mão alcançou sua nuca e esperei que ele juntasse nossos lábios. Primeiro senti seu nariz tocando o meu, depois seu hálito morno invadindo minha boca, então minha súplica foi atendida com um beijo que revelava exatamente o que ele sentia.

Conseguia enxergar seu nervosismo, insegurança e desejo. Tentei impor minha pouca experiência, mas Edward me embebedou com seus sentimentos tão transparentes.

Enquanto aprofundávamos o beijo, senti os dedos dele correrem delicadamente do meu joelho até a coxa, arrastando a barra do vestido pra cima para que minhas pernas ficassem à mostra. De repente, ele interrompeu o beijo para olhá-las e apalpá-las com carinho.

Com medo de que suas próximas investidas me roubassem o discernimento, falei com a voz mole:

— Precisamos sair daqui.

(...)

De pé no meio da casa da árvore, não conseguíamos parar de nos encarar. A única luz ali provinha do luar que adentrava o local pelas janelas e algumas frestas no teto.

Antes de subirmos na casa, tiramos os itens mais fáceis, os sapatos. Agora Edward começava a desabotoar sua blusa vagarosamente sem conseguir disfarçar o insistente nervosismo. Depois que ele se livrou dela, puxei o zíper do meu vestido que ficava na lateral do corpo. O selvagem me assistiu deslizar as alças pelos braços e, em seguida, o vestido inteiro pela cintura, quadril e, por fim, pernas.

Eu estava usando uma lingerie branca com detalhes em renda preta. Não era a primeira vez que Edward me via com pouca ou nenhuma roupa, mas as circunstâncias agora eram outras. Seus olhos não estavam só cheios de curiosidade, mas também de paixão.

Ele encurtou a pouca distância que havia entre nós e pôs as mãos em minha cintura, erguendo-me para que eu alcançasse sem dificuldade seus lábios. Em um impulso, envolvi seu quadril com minhas pernas e pressionei sua boca ávida contra a minha.  

Senti novamente aquela eletricidade desenfreada percorrer meu corpo e me agarrei ainda mais a Edward. Ele, por sua vez, ficou de joelhos e, logo depois, sentou sobre as pernas.

Suas palmas começaram a subir e descer por minhas costas sem deixar de devorar meus lábios compulsivamente. Quase como se a expectativa do que estava por vir me causasse dor, soltei um gemido entrecortado. Imediatamente a boca dele derrapou para o meu queixo, me dando a chance de respirar.




Faltava-me fôlego, mas a Edward parecia sobrar, pois começou a inspirar junto ao meu pescoço, absorvendo meu cheiro como nunca ninguém fez.

Fechei os olhos e pendi a cabeça para trás. A ponta do nariz dele roçava minha pele me causando amenas e prazerosas cócegas. O selvagem continuou enchendo seus pulmões com meu perfume, até que sua atenção se voltou para o fecho do meu sutiã. Como era de se esperar, ele não conseguiu abrir.

Sem dizer nada, eu mesma abri o fecho e retirei a peça com meus olhos vidrados nos dele. Edward então baixou a vista para fitar a região despida e suas mãos, que estavam na minha cintura, subiram lentamente para os meus seios.

Seu primeiro toque foi tímido, mas logo se transformou em uma carícia cálida e boa demais para eu continuar de olhos abertos. Acabei arqueando o corpo e o selvagem passou a inspirar a fragrância concentrada em meu tórax. Não demorou muito para eu começar sentir os lábios, dentes e língua de Edward por todo o meu busto.

Quando ele se deu parcialmente por satisfeito, buscou por minha boca e balbuciou contra ela:

— Seu coração está batendo tão rápido...

— Eu sei. — Murmurei, desfazendo com os dedos a ruga de preocupação que se formou entre as sobrancelhas dele.

Edward passou um braço em volta das minhas costas e projetou-se para frente, deitando-me com calma no chão. Ele não se colocou imediatamente em cima de mim, primeiro se despiu completamente sem nenhum constrangimento, mesmo estando de um jeito que nunca vi.

As sombras da noite não foram capazes de esconder a beleza daquele homem. E nem o frio aplacou o calor que emanava do meu corpo inteiro por desejá-lo tanto. Desistindo de ficar apenas deitada, terminei de me despir para ele e me coloquei de joelhos para retribuir algumas carícias.

O selvagem passou uma mão pelos cabelos quando sentiu pela primeira vez o prazer do toque feminino. Ele tentou reprimir um gemido, mas o som rouco e sexy que deixou escapar só fez ficar mais evidente o quanto aquela experiência ultrapassava suas expectativas.

Almejando lhe proporcionar todas as sensações possíveis, fui mais ousada e beijei-lhe em lugares que ele nunca imaginou. De maneira alguma Ed foi o único a delirar com aquilo, pois foi maravilhoso para mim também.

Então, conforme o prazer ia esmiuçando os alicerces de seu extraordinário autocontrole, um Edward diferente começou a se sobressair. Seu peito inflou por causa do pesado arfar e quando se deitou no chão, puxou-me para cima dele. Seus dedos imediatamente afundaram em meus cabelos e assim manteve meu rosto a poucos centímetros do seu.




— Você é tão linda. — O elogiou soou aveludado.

O olhar de Edward continha um forte magnetismo que deixava meus músculos moles e entregues. Não tem nem como explicar, você simplesmente se sente tentada a deixá-lo te dominar.

Sem muito esforço, ele rolou nossos corpos, se colocando em cima de mim. Naturalmente o abriguei entre minhas pernas e Edward correu sua palma áspera por toda a minha coxa.

Cedendo a seus instintos, ele foi deslizando o rosto pelo o meu corpo e, mais uma vez, aspirou profundamente o aroma da minha pele inflamada. Sofrendo com a expectativa, mordi o lábio ao sentir sua respiração acelerada em minha barriga. Então, liberando sobre mim seus impulsos sexuais a tanto reprimidos, Edward passou a aplacar seu feroz desejo onde eu mais ansiava.

Parecia que várias partes de mim formigavam e apertei os olhos lutando para acompanhar às milhares de sensações provocadas por Edward e seu súbito descontrole. Depois de uns minutos, desisti da luta e apenas arqueei o corpo para sentir tudo que ele queria que eu sentisse.

Gotículas de suor já haviam se formado em minha testa e várias partes de mim se contraíram, me obrigando a clamar por Edward com urgência. Meio que contra vontade, ele me atendeu e voltou a se encaixar no lugar que já lhe pertencia.

Nossos olhares outra vez se encontraram e estavam carregados de convicção e vida. Norteado pela força primitiva que impele um homem a possuir uma mulher, Edward, ainda que inexperiente, me tomou por sua com um movimento vigoroso.

De imediato ambos sentimos o poder do ato de amar em sua forma mais crua, onde o prazer anda de mãos dadas com a dor. Nesse momento, levei meus dedos ao rosto dele e observei as sutis linhas de sua testa franzirem quando se movimentou com mais suavidade. O gemido que me escapou, foi só o prenúncio dos muitos sons entrecortados que ainda brotariam de meus lábios.

O homem que era meu por tão pouco tempo nunca esteve tão lindo. Suas pálpebras tremulavam e um rosnado gutural emergia da boca entreaberta. Suspirando com o roçar delicioso de nossos corpos, o puxei para mais perto de mim e lhe envolvi com os braços.

Aconcheguei meu rosto no vão entre a cabeça e ombro de Edward. Quase que automaticamente seu corpo respondeu, aumentando a intensidade dos movimentos que se tornaram impetuosos.

De olhos bem fechados, desfrutei do prazer que o selvagem me proporcionava, apertando-lhe as costas úmidas de suor. Eu mal conseguia acreditar no que estava acontecendo. Aquele momento superava tudo que já vivi. Desbancava meu entendimento sobre amor e sexo, pois não sabia que podia ser tão incandescente, desesperador, celestial...

Definitivamente Edward também fora pego de surpresa pela total consciência da magnitude do que vivíamos. Podia senti-lo enlouquecendo em cima de mim, com suas características mais selvagens me consumindo gradativamente.

Esbaforindo, já não conseguia parar de roçar a parte interna das minhas coxas no quadril dele. Edward então passou a gemer junto ao meu ouvido, me deixando todinha arrepiada.

Feito uma tola, julguei ter conhecido o prazer com Brad, mas agora percebia que intitulei errado o que vivenciei com ele. O que estava sentido com o meu selvagem nem se comparava!

Existia uma chama fervilhando pelas minhas pernas, me fazendo contrair os dedos dos pés. Um suave e prolongado choque no ventre; uma pressão no peito que me impedia completamente de respirar. Essas tais sensações cresciam desordenadamente. E nesse mesmo instante, Edward encostou a testa quente na minha e os rosnados dele se tornaram mais audíveis. Seu corpo perfeito entrou em frenesi e o emaranhado de sensações meio que explodiu, sugando-me para um vácuo de semiconsciência em que nunca estive antes.

(...)

O luar que invadia a casa da árvore banhava nossos corpos imóveis no chão.

Deitada de bruços, eu mantinha a lateral do meu rosto pousada no braço de Edward. Ele estava de barriga pra cima, mas me encarava intensamente com a face perto o bastante para que sua respiração branda ditasse o ritmo da minha.

Não havia palavras no mundo que se encaixassem com o momento. Somente o mais puro silêncio era bem-vindo.

Meus olhos pesavam de sono, só que eu não queria dormir. Não queria perder nenhum segundo da minha vida com Edward. Nunca desejei tanto um “para sempre”, assim como também nunca tive tanta certeza de que esse sonho, de algum jeito, ficaria preso na casa da árvore em forma de uma perpétua lembrança.

Então, sem que eu esperasse, uma única lágrima se formou no canto do meu olho. Permiti que ela seguisse o curso que desejasse, não só pela melancolia do pensamento que acabara de concluir, mas também pela enorme e singular felicidade que a noite me trouxe.


(Continua...)

***
Diário de Bordo - Edward Cullen


Orlando, EUA.

Minha vida deu uma guinada inesperada. Eu me apaixonei.

Ficarei devendo a esse diário algumas linhas sobre Jully e até mesmo sobre minha mãe, pois hoje só consigo pensar em mim e em Bella.

Já é um novo dia e meus olhos ainda não tiveram descanso. Isolado na casa da árvore, não consigo me importar com a exaustão muscular. Nem mesmo com os raios de sol que passam pelas frestas no teto e atingem diretamente o meu rosto. O que mais me importa nesse momento é deixar registrado como me sinto. Talvez eu nunca mais sinta algo semelhante e não quero esquecer como é.

Nunca fui tão emotivo quanto estou sendo hoje. Claro que me sinto um bobo, mas não consigo evitar. A razão disso talvez seja o fato de que só tenho poucos dias com a garota que desafiou todo o meu conceito sobre “certo e errado”. Quando estou com ela, ainda que reconheça o caminho errado, ele parece certo. Decidirmos ficar juntos com data marcada para nos separamos foi definitivamente errado, mas, com Bella, se torna irresistivelmente certo.

Despedir-me dela foi muito difícil. Ainda bem que não terei que fazer isso uma segunda vez, porque se tivesse que dizer “adeus” nesse minuto, provavelmente não conseguiria. Sei que essa situação é como estar em uma areia movediça. Os segundos, os minutos, as horas tornam tudo pior... Mas, para ser sincero, eu não me importo.

Aqui estou eu, tenso, ansioso e estupidamente risonho. Não me lembro quantas vezes na vida me senti assim, mas é tão bom quanto estar em Malaita, deitado sobre o telhado de casa, ouvindo o som das ondas batendo contra as rochas nos dias de maré alta. É tão empolgante quanto conquistar a confiança dos Waibirir. É tão agradável quanto levar Indah para correr nas planícies ao norte da ilha. Embora essas comparações sejam compreensíveis apenas para mim, gostaria que Bella soubesse. Ela provavelmente não tem noção de como realmente me senti com o beijo que trocamos no meio da rua. Por sorte, e alguma ajuda de minha mãe, ela entendeu por que não pude lhe corresponder quando expôs seus sentimentos em Miami.

Aquela noite eu entendi a metáfora dos talheres, mas não enxergava completamente os meus sentimentos. Era como se minha visão estivesse embaçada pela idéia de que ficar com Jully me garantiria uma volta quase tranquila para casa. Não demorei a perceber que a engrenagem dessa ilusão era apenas o medo do desconhecido, porque, pela primeira vez, encontrava alguém capaz de me fazer perder o foco a ponto de não mais saber a onde pertenço.

Confesso que esse medo ainda me rodeia, no entanto, Bella o tem mantido longe com ações que só me fazem admirá-la mais. Não esperava vê-la na festa de minha mãe. Eu estava no salão presente só de corpo, pois minha mente se mantinha ligada à conversa em Miami. Então, de repente, a garota simplesmente apareceu lá... Linda, desde o olhar tímido ao vestido que não lhe deixava respirar..., nem a mim.

Bella e eu pertencemos a mundos diferentes, temos planos distintos e consciência de nossas limitações, mas hoje, nessa quarta-feira, temos um objetivo em comum: viver o “agora”.



Capítulo 19 - Namorado de Novo


A festa de Sarah, mesmo com alguns contratempos, foi espetacular. Infelizmente, depois de “acertar os ponteiros” com o selvagem, voltamos para casa. O dia já tinha amanhecido e precisávamos pegar no batente.

Achei que bateria de frente com Jully novamente, porém o que encontrei foi um bilhete dela pregado na porta. Minha prima arrumou suas coisas e foi se hospedar na casa de uma amiga.

— Eu nem acredito... — Alice assoou o nariz em um lenço de papel enquanto eu vestia meu uniforme.

Logo que chegamos a meu quarto, coloquei-a a par dos últimos acontecimentos. Ela pareceu se emocionar com os detalhes de minha conversa com Edward e o maravilhoso beijo.

— Lice... — Sentando ao seu lado na cama, lhe analisei. — Que choro fingido é esse? Não estou vendo nenhuma lágrima.

— É que estou chorando por dentro, tá legal?! — Se aborreceu.

Peguei um lencinho e inexplicavelmente entrei na onda do choro sem lágrimas.

— Desculpa, eu sei como é... — Nem eu me entendi.

— O único consolo é que você vai “dar um trato” legal no princeso antes de ele voltar pro mato, né? — Ela ergueu uma palma e nosso choro interior sumiu com a mesma rapidez com que surgiu.

— Ah, pode crer! — Sorridente, choquei minha palma contra a dela.

Claro que zoar com Alice era uma coisa e ficar juntinho de Ed era outra. Na nossa relação, não cabia essa expressão “dar um trato”. Não éramos dois pirralhos só querendo se esfregar.

— Mas tem uma coisa com que eu não me conformo. — Se colocou de pé. — De que mundo de merda tua prima pensa que veio? Não estou dizendo que ela é uma sacana, só estou dizendo que, na minha opinião, ela está bancando a vítima de besta.

— É que você não a conhece como eu. — Suspirei de preocupação com Jully.

— Uma pinóia, Bella. Se Jully pediu sua permissão para se aproximar do T-zed é porque até ela já tinha sacado que rolava um lance entre vocês. Não adianta sua prima choramingar agora, pois foi ela quem quis arriscar entrar na partida no segundo tempo. Minha amiga, me desculpe, mas ninguém tira da minha cabeça que ela foi para o Me Azare já ciente de que existia uma grande possibilidade de Ed não dar um fora nela em rede nacional apenas por consideração a você. — Alice revirou os olhos. — Pra mim, Jully não tem direito de cobrar nada de você. Odeio mulher tapada que não entende que ou o cara gosta da gente, ou não gosta. Não adianta forçar a barra. Enquanto ela não compreender isso, vai quebrar a cara nessa vida até aprender. — Cruzou os braços, carrancuda. — Igualzinho a você.

— Cruz credo, você fica uma chata quando tem razão.

— Eu sei, né?! — Abriu um sorriso convencido.

— Vou esperar a poeira baixar. Ontem aconteceu muita coisa, tudo foi muito confuso, mas acredito que em breve poderemos sentar e conversar.

— Que seja, ela já levou mesmo o que merecia. Afinal, perder um homem como Edward é pior do que cair com a cara na merda. — Alice empinou o nariz e eu sabia que a maluca tinha razão.

Pretendia pedir a ela para levar os vestidos de Sarah pra lavanderia, mas antes que eu pudesse abrir a boca, ouvimos:

— AAAAAAAAAHHHH!

O inconfundível berro de Jasper ecoou por toda a mansão. Alice e eu rompemos porta afora e corremos pelo corredor até alcançarmos o quarto do histérico. Preocupadas, invadimos o lugar e...

 — AAAAAAHHHHHH! — Dessa vez quem gritou fomos nós.

E, poxa, não era pra menos. Jazz estava na cama com a dona Bogdanov.

— Hea päev. — A mulher sorriu, parecendo estar pelada por debaixo das cobertas.

Meu irmão estava sentado ao seu lado, pálido, fitando o vazio de olhos arregalados e todo descabelado.

— Pelo amor do meu desgastado juízo, diz pra mim que não ficou de saliência com essa maluca. — Balbuciei sem esperanças, pois ele também parecia estar pelado por debaixo das cobertas.

— Jasper... não... lembra. — Com a voz trêmula, abraçou um travesseiro.

— Como não lembra? — Vociferei.

— Jasper bebeu demais ontem. Jasper não sabe o que aconteceu. — Afundou o rosto no travesseiro e a cozinheira alisou suas costas causando-lhe um tremelique de repulsa.

— Cara, essas férias estão sendo o bicho! — Lice começou a rir compulsivamente da desgraça alheia. — Está todo mundo barbarizando!

(...)

Cerca de uma hora depois do embaraçoso flagra, meus amigos eu e nos reunimos no escritório do meu pai com a finalidade de manter nosso ambicioso projeto de férias na linha.

Sentada na ponta da escrivaninha, pedi atenção ao pessoal. Estavam muito dispersos. Alice quase cochilava em uma poltrona e Emm ainda estava de baixo astral por causa de Rosalie. Já meu irmão “pegador”, ficou deitado no sofá com uma tolha quente cobrindo o rosto.

— Ânimo, pessoal. A gente precisa se concentrar. — Insisti.

— Perguntinha. — Emmett ergueu a mão. — Por que o aspirante a Free Willy está aqui? — Apontou para Toby.

— É assim? A boiolagem já vai começar? — O garoto se levantou da cadeira fulinho da vida.

— O Sr.Jones me pagou pra ficar de olho nele novamente. — Suspirei de desgosto. — Falei pra você ficar quieto, Toby. Senta aí. — Ordenei com altivez.

— Manda ele pra sala. — Alice pediu.

— Não posso. Da última vez que banquei a babá vacilei um minuto e essa criatura... — Trinquei os dentes. — Quase enterrou um papagaio vivo.

— Que merdinha é essa? Isso agora vai ficar no meu currículo? — O pancinha retrucou e eu perdi a paciência.

— Alguém aqui quer ter a boquinha fechada com um grampeador de papel? — Lancei-lhe um olhar ameaçador e o garoto se deu por vencido.

— Começa logo essa reunião. — Jasper murmurou por debaixo da toalha.

— Quais os tópicos? — Lice deu um tapinha no próprio rosto pra despertar.

Antes que eu abrisse a boca, Emmett respondeu:

— Tópico 1: mitos e verdades sobre o desbravador de véias. 

— Se alguém fizer mais uma piadinha com isso, o pau vai quebrar! — Meu irmão se contorceu.

— Gente, sem brincadeiras. — Pedi, me esforçando pra ficar séria. — O que aconteceu com ele podia ter acontecido com... — Tentei dizer “qualquer um”, só que não saía, então Jazz tirou a toalha do rosto e me encarou. — Com qualquer... — Pressionei os lábios, mas não adiantou. — Garanhão de asilo.

A toalha voou direto pra minha cara.

O problema nem era tanto a idade da Bogdanov, mas sim o preocupante estado mental da mulher. Será que eles tinham mesmo transado?

— Que gente chata... Que tédio. — Toby murmurou para si mesmo lutando para abrir um pacote de M&M´s.

— Como é, garoto? — Lice puxou para o lado pessoal.

— Hã? — Ele se fez de desentendido.

— É isso aí que está me preocupando. Os hóspedes não estão se divertindo. — Esclareci.

— Verdade. Ouvi as moças da suíte seis reclamando. — Emmett bufou. — Só temos alguns dólares, poucos dias e até eu estou achando esse resort um pé no saco.

— Idéias? — Jasper finalmente se concentrou na questão.

— Sem grana não dá pra fazer nada. Essa é a dura verdade. — Alice lamentou.

Não consegui me conformar com os segundos de silêncio que se seguiram. Mal reconhecia meus amigos.

— Não acredito. — Me coloquei de pé. — É impressão minha ou todos nesse cômodo estão se afogando em pessimismo? Sei que temos problemas, mas poxa... — Abri os braços. — O dia está super ensolarado, estamos esbanjando saúde e temos poucos dias para ficarmos juntos. Vocês são as pessoas mais animadas e divertidas que conheço, então tratem de reagir. — Bati palmas para que saíssem da letargia. — Tudo bem que a gente está no vermelho, mas temos criatividade. Vamos usá-la!

— Falou tudo. Vamos nos jogar, meus lindos. A Bella tem razão. — Alice se levantou recuperando o bom humor.

— Lice, ligue agora para umas cinco conhecidas suas. Vamos colocar umas meninas bonitinhas aqui dentro dessa casa pra tirar Emm e Jazz dessa fossa.

— Agora sim estão falando Jaspanglês. — Meu irmão se animou.

— O que vai rolar? — Emmett perguntou.

— Devia perguntar o que não vai rolar. Despache sua dor de cotovelo pras Arábias, porque nós vamos arrepiar hoje. — Minha resposta foi categórica.

— Ai, ai... — Alice suspirou orgulhosa do meu otimismo. — O que um homem gostoso da selva não faz com uma pessoa, né? — Pôs a mão no meu ombro.

— O que quis dizer com isso? — Meu irmão cruzou os braços, todo ranzinza. — Bella, o T-zed está “pegando” você? Cuidado com o que vai falar, porque o tempo vai fechar. — Vociferou.

— Hãmm... — Como eu ia explicar?

— Ah, pelo amor de Deus. — Emm deu um tapa na nuca de Jazz. — Pára de fingir.

— Fingir? — Arqueei uma sobrancelha e sua pose de machão ciumento foi pro espaço.

— Pois é... — Jasper caiu mole no sofá. — Já faz um tempo que sacamos essa “paradinha” de vocês. — Sorriu debochado.

— Como assim? — Franzi o cenho.

— Qualé, T-zed não consegue disfarçar. — Emm revirou os olhos. — O cara te olha como se ele fosse um mendigo morto de fome e você o último Big Mac da Terra.

Sorri ruborizando um pouquinho.

— Deixando a “fome” do T-zed de lado, vamos acelerar a bagaça. Vou ligar pra uns coleguinhas do bem, enquanto o Emmett vai pagar o agiota junto com Ed. — Alice pegou o telefone.

— Se o anão perguntar por mim, por favor, digam que virei uma mulher bomba e explodi. — Fiz uma careta ao imaginá-lo me agarrando.

— Arnold não vai deixar por menos. O cara pode ser um “meio-quilo”, mas tem uns capangas enormes. — Emmett alertou de boa vontade.

— Espera, tive uma idéia. Emm, fala pro pequetitito vir buscar Bella às 18:00h.

 Lice só podia estar de sacanagem!

— Essa eu não quero perder. — Toby nos assistia devorando os M&M´s.

— Afinal, o que está tramando, Bella? O que quis dizer com “usar a criatividade”? — Meu irmão estalou os dedos pedindo atenção.

— Ah, isso você já vai saber. — Pisquei o olho esquerdo.

(...)

Vesti meu biquíni junto com um shortinho jeans. Calcei as velhas botas de cowgirl que usei em Miami e enfiei meu boné na cabeça.

Com Emm e Edward fora de casa, Alice, Jazz e eu tratamos de colocar “a mão na massa”. Resgatamos da garagem a empoeirada churrasqueira do meu pai e a colocamos perto da piscina. Meu irmão ficou encarregado de limpá-la e fazê-la funcionar.

Lice me ajudou a arrastar a mesa da cozinha até o jardim, onde colocamos uma fruteira, copos e pratos descartáveis e o maior isopor que possuíamos. Da dispensa, pegamos todas as latinhas de cerveja, refrigerante, suco e energético que havíamos estocado no inicio do mês, depois foi só enfiar as latas no gelo.

Alice pegou os 100 dólares que Sr.Jones me pagou para aturar seu filho e foi ao supermercado com duas garotas que estudaram conosco. Minutos depois, chegaram mais três conhecidos de Lice. Um deles era o filho do novo namorado de sua mãe. Já as duas moças a conheciam da academia, a qual ela largou quando as férias começaram.

Vendo a movimentação no jardim, as jovens hóspedes tomaram café na sala de jantar e, em seguida, foram para a piscina. Os caras do Link 69 sempre acordavam tarde e dessa vez não foi diferente. No entanto, ao verem mulheres de biquíni andando pela casa, desistiram de sair como quase sempre faziam e se juntaram à galera.

A verdade é que eu não estava fazendo tudo àquilo pelos hóspedes, mas sim por meus amigos. Era impossível estar feliz e vê-los desanimados. Como eu não podia quebrar minha felicidade em vários pedacinhos e partilhá-la com eles, sentia-me impelida a fazer qualquer coisa para deixá-los contentes e com ótimas recordações de nossos últimos dias juntos.

Quando Lice retornou, suas colegas lhe ajudaram a preparar espetos de carne com legumes e eu sugeri alguns de queijo. Também tive ajuda ao arrumar a mesa com muitos pães e uma tigela enorme com batatas Ruffles. Quanto a meu irmão, se aventurou em colocar algumas salsichas e hambúrgueres na churrasqueira.

Quando fui à sala trocar o CD, percebi que seria mais prático colocar o aparelho de som no jardim, então comecei a desconectar os fios.

— Quer ajuda, Bells? — Brad se aproximou segurando um copo de cerveja.

— Quero. — A banda era um peso morto. Já passava da hora de se fazerem úteis. — Recolhe tudo e leva o aparelho para o jardim. — Ordenei dando-lhe as costas.

— Espera. Ainda está brava comigo?

Após um longo suspiro, me virei para ele, dizendo:

— Não. Claro que não.

Para mim McFadden “nem cheirava, nem fedia”. Já não existia mágoa, muito menos paixão. Agora ele era só um carinha como outro qualquer. Só mais um membro do Link que não estava nos dando lucro algum.

— Bells, me deixa só dizer uma coisa. — Colocou a cerveja de lado e manteve a expressão séria. — Quando falei que te amava não estava mentindo.

As lembranças do nosso namoro pareciam tão distantes, como se fossem de uma vida passada.

— Brad, se é isso que tem a dizer, desculpa, mas eu tenho mais o que fazer. — Simplesmente não me importava.

— Estou deixando a banda. — Anunciou com firmeza.

Na noite em que dormimos juntos, intoxicada pelo vinho e sua influência negativa sobre mim, foi isso que exigi como sacrifício para lhe dar outra chance.

— Estou falando muito sério. — Ele caminhou em minha direção.

— Parado aí. — Ordenei em voz alta e ele parou.

O estranho é que pensei que não me obedeceria, mas ao notar que não era a mim que ele encarava, vagarosamente olhei para trás e avistei Edward na porta da frente. Não consegui ler seus olhos, pois usava os óculos escuros que lhe dei de presente. De jeans surrado e camiseta preta, ergueu um pouco o queixo ao indagar:

— Está tudo bem?

— Sim. — Respondi imediatamente.

— Vamos conversar em outro lugar. — Brad teve a ousadia de agarrar meu braço.

Talvez estivesse ficando louca, mas podia jurar que ouvi um rosnado muito baixo escapar do selvagem.

— Resumindo... — Desvencilhei-me. — Esquece. Só esquece, tá?

Referia-me ao que ele acabara de contar, as reações que achou que eu teria e todo o resto. E foi nesse momento que Edward disse o inacreditável:

— Ela é minha namorada agora.

Pense numa pessoa com cara de boba. Se pensou, me visualizou.

Ouvir o selvagem falar aquilo era tão estranho, mas de um jeito bom. Eu precisava me acostumar logo ou corria o risco de parecer mais doida do que já me consideravam.

— Te perguntei alguma coisa? — Brad retrucou não aceitando muito bem a novidade. Aproximando-se de Edward, continuou a falar com desprezo e arrogância. — Não te conheço. Não vou com a tua cara. Então agora, malandro, a gente vai bater de frente.

— Ei! — Coloquei-me entre os dois. — Ficou maluco, McFadden? Toma teu rumo! — Me aborreci.

Ed não se abalou com a provocação do meu ex. Permaneceu quieto, mas intimidador.

Alice ouviu as vozes alteradas e veio da cozinha já vociferando.

— Casca-de-Ferida, não cutuque o T-zed com vara curta. Rápa lá pra fora!

Brad encarou o selvagem por mais dois segundos. Quando viu que ele não entraria no seu jogo estúpido, saiu pela porta da frente esguichando mais provocações.




A impressão que tive foi de que Edward estava bastante seguro com relação a nós. Se impôs, mas também não se mostrou ameaçado o suficiente para discutir com Brad, o qual só estava com dor de cotovelo.

— McFadden é só um imaturo. — Expus minha opinião.

— Eu sei. — Deu de ombros. — Temos pouco tempo, não vamos ficar desperdiçando com ele.

— Concordo. — Sorri.

Quando o selvagem tirou os óculos, coloquei as mãos nos bolsos do short. Havia uma distância de dois palmos entre nós e logo comecei a sentir um sutil, porém incomum nervosismo. Uma ansiedade difícil de explicar.

Já não existiam dúvidas, Ed sabia que eu era louquinha por ele, assim como eu também sabia que era sua musa. Não conseguíamos fugir da sensação de que tudo era novo e excitante.

Quando Edward falou que eu era sua namorada, elevou nossa relação a um outro patamar. Talvez por isso, decidiu vagarosamente eliminar os centímetros que nos separavam pra agora poder me tocar como meu namorado. Não como amigo, companheiro ou hóspede. Simplesmente como o meu selvagem, e essa idéia fazia meu estômago gelar.

Senti sua mão esquerda em meu ombro e, logo em seguida, seus dedos deslizaram por meu braço até chegarem ao cotovelo. Ele me fez tirar a mão do bolso para pousar sua palma em minha cintura. Ao apertá-la um pouco,
meus olhos, que até aquele momento estavam fixos em seu pescoço, subiram por seu rosto até serem aprisionados pelo azul dos seus olhos.

Segundos se passaram até Edward aproximar os lábios da minha bochecha esquerda. Automaticamente fechei os olhos, ficando meio mole por causa do cheiro dele e do calor de sua face tão juntinha à minha.

Sempre confundi o selvagem com minhas investidas, meus beijos inesperados e meu jeito de ser. De fato, ele chegou a Orlando bastante ingênuo e despreparado, mas agora eu sentia que ele estava querendo deixar algumas coisas para trás. Percebi que lentamente assumia seu papel de “o homem da relação”. Por esse motivo não lhe agarrei com desespero, pelo contrário, fiquei bem quietinha para Edward ir se soltando aos poucos. Em circunstâncias passadas, ele havia sido guiado por seus instintos, porém agora se tratavam de sentimentos.

O selvagem afastou o rosto e, em contrapartida, me pressionou com delicadeza contra si. Não foi exatamente fácil vê-lo inclinar a cabeça para a esquerda com a intenção de encaixar a boca na minha, só que eu me segurei. Na verdade, nesse caso, me conter intensificava o prazer do momento.

Edward engoliu em seco e, em resposta, entreabri os lábios. Quando ele veio pra mim, a sensação gélida se espalhou do estômago até o peito, no entanto ele hesitou. Sim, o selvagem parou no meio do caminho. Minha respiração oscilou e tive certeza de que ele queria mesmo me matar. Eu nem podia ficar chateada, o selvagem só queria prolongar a excitação da preliminar.

Então, como se ele mesmo já não suportasse, tirou meu boné e fitou minha boca ao dizer:

— É bom poder fazer isso.

Com delicadeza e extrema sensualidade, pôs a ponta da língua entre os meus lábios, umedecendo o local, e ao mesmo tempo propondo um beijo que prometia ser delicioso.

Eu sucumbi. Não podia ser diferente, já que toda a expectativa foi compensada por uma entrega mútua. Estávamos vivenciando um momento em que parecia não existirem empecilhos ou incertezas. Coisa rara quando se trata de nós.

Embora o tempo não estivesse “do nosso lado”, estávamos do dele. Não tivemos pressa alguma, pois o que valia era aquela sensação de que cada beijo seria lembrado com carinho e saudade futuramente, ao invés de sairmos “nos pegando” feito animais no cio.

Edward possuía o que poucos homens possuem: uma sensualidade natural. Ele não precisava pronunciar frases feitas e manjadas para me envolver e atiçar. O selvagem, com suas crescentes descobertas sobre a fantástica relação “homem x mulher”, puxava-me aos poucos para o seu mundo e eu começava a sentir-me ainda mais conectada à sua personalidade. Poderia até arriscar alguns palpites sobre o que ele estava sentindo naquele momento.

Ele pretendia estender o beijo por vários minutos, dava para sentir isso, principalmente pela forma com que roçava a língua na minha. Infelizmente, uma risadinha ecoando pela sala o fez parar. Sem alternativa, nos afastamos e encaramos Alice.

— Aí, gente, desculpa não ter saído, é que eu precisava ver com meus próprios olhos. — Colocou as mãos na barriga morrendo de rir. — Danadinhos... — Fez biquinho ao tirar sarro.

De repente, Emmett chegou “soltando os cachorros”.

— Pô, Bella. Vai lá fora ver o que o Toby está aprontando dessa vez.

Precisei recuperar o ar, pois ainda estava sob efeito do Rei-da-Selva.

(...)

— Socorroooooo! — O pancinha berrava, sentado numa fenda entre dois largos galhos da maior árvore do jardim. — Alguém me tira daqui!

Meus amigos e eu nos reunimos em baixo do carvalho, ainda nos perguntando como o moleque fora parar no topo daquela porcaria. Edward preferiu ir alimentar o puma, pouco ciente da gravidade do problema.

— Por que esse desmamado faz isso justo comigo? — Coloquei as mãos na cabeça, perdidinha. — Tomara que o pai dele não volte pra mansão agora. — Fiquei com medo de ser responsabilizada.

— Toby, desce daí! — Lice vociferou, batendo o pé no chão.

— Olha, que boa idéia... Por que não pensei nisso antes? — Ele teve a coragem de ironizar. — Tive o maior trabalho pra subir, mas agora não sei como descer.

— Vou te contar, esse puto é doidinho. — Emmett gargalhou.

Tentando manter a calma, respirei fundo e pedi:

— Toby, por favor, desce o suficiente para saltar. Jazz e Emm vão te segurar.

— É O QUÊ? — Meu irmão quase explodiu meus tímpanos. — Esse moleque é muito pesado. Jasper preza a coluna dele. Jasper já sofreu demais.

— Na boa, eu não tenho braços de aço, Bella. — Emm também reclamou.

— Se deixarmos ele aí, será que o pai dele vai sentir falta? — Alice refletiu e não parecia estar brincando.

Os galhos do velho carvalho eram fortes, porém minha preocupação era a altura em que o garoto se encontrava. Uma queda daquela magnitude poderia ser fatal. Eu não sabia o que fazer.

— Hô, pessoal... — Toby começou a chorar com a voz arrastada. — Me tirem daqui, tou ficando deprimido. Eu tou com fome. Juro que vou me comportar.

— Do mesmo jeito que jurou quando ficou entalado na bóia? — Emmett retruco.

Toby parou para pensar, então deu um sorrisinho safado ao dizer:

— Ali foi diferente...

— Não queria ser a pessoa a dar a má notícia, mas olha o pai do garoto vindo ali. — Lice apontou para o portão da mansão.

Ficamos tensos ao avistarmos o homem caminhando apressado em nossa direção por causa dos gritos histéricos de seu filho. Realmente temi ser processada ou coisa do tipo.

— O que aconteceu? — O coroa olhou para o topo da árvore e logo percebeu o merdelê que o gordinho fez. — Toby, desce agora! — Se chateou.

— Eu não consigo... — Ele voltou a choramingar.

— Me desculpe, senhor. Nem sei como ele chegou lá em cima. — Torci para não ter que devolver as 100 pratas.

O Sr. Jones me encarou com seus olhos altivos e fronte enrugada. Imediatamente me preparei para levar uma bronca, mas, para minha surpresa, ele enxugou o suor da testa e balançou a cabeça com pesar. 

— Conheço o filho que tenho. Sempre que tiramos férias em Orlando ele nos faz ser expulsos de algum hotel. Já estamos até sem opções. — Bufou com desgosto.

— Ah, então o “normal” dele é isso? — Alice interrompeu.

— Mais ou menos. — O homem não soube como responder. — Desculpem, estou trabalhando em um projeto e acabei por deixá-lo muito só. Vou tentar colocar Toby na linha.

— A conversinha aí já acabou? Vou ficar aqui até formar um ninho? — O moleque audacioso estava pedindo para levar na fuça.

— Vou ligar para os bombeiros. — Sr. Jones pegou o celular do bolso.

— Por que ele ainda não desceu? — Edward perguntou, finalmente chegando perto.

— Não sabe como, mas o pai dele está chamando os bombeiros. — Respondi.

— Não é preciso. — O selvagem franziu o cenho como se a idéia fosse absurda.

— O que disse? — O hóspede afastou o celular do ouvido.

Sem prestar explicações, Edward deu três passos atrás e, com uma corridinha, pegou o impulso necessário para saltar e escalar o tronco agilmente. Galgando rapidamente os tortuosos galhos, fez em cerca de um minuto o que Toby deve ter demorado no mínimo uma hora pra fazer. Não estávamos exatamente habituados com as habilidades do selvagem, por isso ficamos um tanto boquiabertos.

Alcançando o moleque no topo do carvalho, ele o segurou pelo braço e passou a lhe dizer onde devia pisar e se agarrar. Limitados a observar, torcemos para que ninguém despencasse lá de cima, mas Edward permaneceu seguro e despreocupado.

O resgate demorou vários minutos porque Toby era desajeitado e choramingão. Por sorte, Edward esbanjou paciência e não reclamou nem uma vez. Ao chegarem perto do solo, o Sr. Jones estendeu os braços para auxiliar o filho e o drama finalmente acabou.

Ed saltou da árvore, limpou as mãos nas calças jeans e recebeu elogios dos rapazes. Grata e aliviada, sem produzir som algum, apenas movi os lábios pronunciando um “obrigada”. Ele, por sua vez, só deu um carismático sorriso.

Depois que o Sr. Jones viu que seu filho estava bem, apertou a mão de Edward com uma gratidão bem maior que a minha.

— Isso foi impressionante. — O homem sorriu. — E olha que estou acostumado a ver coisas impressionantes.

— Não foi nada. — Edward não considerou aquilo um grande feito, talvez por estar acostumado com desafios bem maiores. 

— T-zed é o rei de Malaita. — Jazz bancou o intrometido, colocando orgulhosamente a mão no ombro do novo cunhadinho. Edward ficou pouco confortável com o comentário, mas nada falou.

— Malaita? — Sr.Jones pronunciou o nome da ilha como se a conhecesse.

Fala sério, meus amigos e eu nem sabíamos se ela constava no mapa.

— Temos muito a fazer. — Alice me rebocou para a cozinha sem nenhuma educação.

Com auxilio da Vishimideuz, coloquei o aparelho de som no jardim, terminei de preparar os espetos e juntei alguns copos que voaram pelo gramado por causa do vento. Demorei uma meia hora para realizar essas tarefas. Nesse tempo, Edward ficou de papo com o Sr. Jones. O mais estranho é que ele parecia estar gostando da conversa. A forma como gesticulava e às vezes sorria denunciava isso. Não era típico do selvagem ficar tão à vontade com estranhos.

Brad não me aporrinhou mais, ao invés disso, se reuniu com os caras da banda no lado direito do jardim e eles monopolizaram a atenção do mulheril. Confesso que isso me irritou, pois eu tinha armado a festinha para Emm e Jazz se divertirem. Foi impossível não me sentir frustrada, já que eles ficaram largados “às moscas” à beira da piscina. Tudo bem que nunca tiveram muita sorte com garotas, mas dessa vez realmente acreditei que seria diferente.

Quando Alice e eu agilizamos o que faltava para o churrasco, ela foi correndo ao meu quarto pôr um biquíni e eu fui para a cozinha lavar as mãos. Após secá-las com um pano de prato, me virei para a entrada do cômodo e encontrei Edward junto à soleira.

— Seu irmão e Emmett estão de mau humor? — Indagou se importando.

— É o que parece. — Resmunguei sem conseguir esconder a raiva. — Acho que estão se sentido meio rejeitados. Tudo culpa daqueles babacas do Link 69. — Limitei a explicação, Ed sabia do que eu estava falando.

— Mas eles são tão melhores do que Brad e os demais.

— Infelizmente as peruas lá fora não percebem isso. Estou a ponto de mandá-las embora. A vassouradas se for preciso. — Cruzei os braços feito uma criança contrariada e Edward soltou uma risadinha.

A temperatura não parava de aumentar e gotículas de suor começaram a se formar em minha testa. Edward também sentiu os efeitos do verão e tirou a camiseta. Precisei me conter para não ficar “secando” demais aquele torso queimadinho do sol, com pequenas cicatrizes e suavemente definido.

— O que podemos fazer?

— Não sei... — Encurtei calmamente a distância entre nós, parando a centímetros dele. — Você podia assustar todo mundo dizendo que é o Duke doidão da favela. — Ri um pouquinho.

— Será que alguém acreditaria? — Entrou na brincadeira.

— Talvez. Faz cara de mau.

Primeiro Edward riu, mas logo depois franziu o cenho e cerrou os lábios, ficando o mais carrancudo possível.

— Eu conheço essa expressão. Você a fez quando te esqueci no supermercado. — Gargalhei.

— Dia memorável. — Murmurou voltando a sorrir.

— O que pensou a meu respeito?

— Não vai querer saber. — Balançou a cabeça.

— Foi tão ruim assim?

Apenas assentiu e o compreendi.

— Acreditei que me mataria. — Fiz uma careta cômica.

— Confesso que na época tive um pouco de vontade. — Ficou sério ao roçar as costas da mão na minha.

De repente, senti novamente aquela eletricidade crescente entre nós. Era até difícil nomear a sensação. Parecia que tinha voltado a ter 12 anos, quando se espera que o garoto de quem gosta pegue na sua mão como sinal de que ele também sente algo por você.

Eu julgava conhecer tudo sobre o amor e seus tentáculos, então “um dia acordo” e sinto-me vagando por um terreno totalmente desconhecido e surpreendente. Era uma confusão boa de se estar.

Edward vagarosamente entrelaçou os dedos nos meus. Aquele era um gesto tão simples, mas, dentro do contexto em que vivíamos, se tornou algo significativo e romântico. Ele queria ficar de mãos dadas, queria dar mais um passo no nosso relacionamento incomum. Talvez por termos uma data marcada para rompermos, tudo, absolutamente tudo, ganhava importância e eu jamais tinha presenciado ou vivido algo semelhante. Era empolgante!

— Vamos para o jardim, talvez encontremos um jeito de animar Emmett e Jasper. — Disse Ed.

— Ok.

O selvagem não largou minha mão. Atravessamos a sala e, sem pressa, caminhamos pelo jardim de mãos dadas até alcançarmos os rapazes. Eu não conseguia parar de “pontuar” a situações. O primeiro beijo como namorados. O primeiro passeiozinho de mãos dadas...

O que viria a seguir?

(...)

Quando Edward foi pôr em prática uma idéia que teve para ajudar os rapazes, fiquei ao lado de Alice junto à churrasqueira.

O selvagem trouxe o puma para perto da piscina e isso automaticamente atraiu a atenção dos convidados. Emm e Jazz mostraram intimidade com o animal e logo se transformaram em alvos de perguntas.

Para a nossa satisfação, o Link 69 se deu mal. Ficaram meio isolados do outro lado da piscina. Eles fingiam não se importar com nada, mas a realidade era outra.

— Incrível. Parecem formigas em volta do açúcar. — Lice se referia às garotas ridiculamente interessadas nos nossos meninos.

— É, estou vendo.

Ed mantinha o animal calmo, lhe acariciando a cabeça e tentando ficar fora das conversas. No entanto, o que eu mais ouvia eram os gemidinhos de “oowwnnn” vindo das moças que o assistiam interagir com o felino.

— Sabe o que é massa?

— O quê? — Perguntei interessada.

— T-zed pensa mesmo que as meninas estão ali só por causa do puma.

Alice e eu trocamos um olhar, em seguida caímos na gargalhada.

— Acho melhor ele continuar pensando assim — Brinquei, cruzando os braços. Por tolice, fitei a entrada da casa e avistei Toby saindo de lá e correndo na nossa direção. — Ah, não... O meu carma ambulante está vindo aí.

O pancinha, todo vermelho e suado, nos abordou tagarelando:

— Eu acabei de ler a coisa mais doida de toda a minha vida.

— Não diga, sua certidão de nascimento? — Lice mandou a ofensa na lata.

O garoto estreitou os olhos e inflou as bochechas de raiva.

— O que você quer? — Gemi impaciente.

— Lê aqui. — Puxou de debaixo do braço algumas folhas de papel e as ergueu acima da cabeça.

— A garra... — Comecei a ler em voz alta e logo ele trocou a página. — Romeu... — Li a terceira — Peitinho.

— Tá bom. — Não é que as mãos do moleque vieram direto para os meus seios? Minha sorte foi que Lice o impediu, puxando-lhe pela camiseta.

— Meu Deus, me segura... — Coloquei as mãos na cabeça para não espancar o garoto. — Vou contar tudo para o seu pai! Por que não volta pra droga de latrina de onde você veio?

— Ah não, gente. Eu já estou de castigo. — Ele se tocou do perigo.

— Calma, Bella. Tenho uma idéia melhor. — Alice sorriu matreira.

(...)

Foi perto da casa da árvore que nos vingamos.

— Faz pose. — Ordenei a Toby.

— Não me sinto muito à vontade... — Ele resmungou só de calção, com a parte de cima de um biquíni florido.

— Não temos o dia todo. — Lice segurava a câmera Polaroid.

— Mãozinha na cintura, moleque lazarento. — Vociferei.

— Ah, cara... — Fungando, ele obedeceu.

Alice começou a tirar as fotos e eu as recolhi tentando ficar séria.

— Agora coloca uma mão no quadril e a outra no queixo. — Fui implacável.

— E faz um biquinho. — Minha amiga não teve dó.

— Não vou ficar nesse bundalêlê. Vocês estão brincando com a morte, hein?! — Apontou o dedo gordinho para nós.

— Alice, que tal ele dar uma dançadinha? — Provoquei, coçando o queixo.

— Uma dançadinha caía bem. — Ela comentou, ignorando os palavrões que o menino soltava.

— O que é isso? — Edward se aproximou indicando Toby.

— Hoje é o dia universal do óbvio e essa figura aí ainda pergunta “o que é isso?” — Mais uma vez, o pancinha ficou fulinho da vida.

— É que esse boca-de-fossa merece um castigo. — Esclareci. — Cadê o puma? — Sobressaltada, olhei para trás e avistei Emm ajoelhado perto do animal. Os rapazes continuavam rodeados por garotas e agora o papinho parecia mais animado. — Não é perigoso deixar o puma com os meninos?

— Não. Quero dizer, não muito. Ele está tranqüilo hoje e já se habituou com Emmett.

— Tem certeza? Não gosto da idéia. — Eu não confiava no animal.

— Tudo bem. — Ele decidiu atender meu apelo. — Vou colocá-lo de volta na jaula.

Edward virou-se para a piscina, levou dois dedos à boca e assobiou alto. O animal rapidamente se levantou e, alerta, disparou em nossa direção. Seus olhos amarelados sempre me amedrontaram, mas naquele momento eram suas patas ágeis e seu porte de caçador que me deixavam tensa.

Edward olhou-me de relance e, logo em seguida, se direcionou para o fundo do jardim onde ficava a jaula. O puma desviou o caminho e seguiu fielmente seu dono. Observando-os, percebi que Ed havia se ligado ao animal muito mais do que eu e meus amigos podíamos imaginar. A conexão entre eles era quase incompreensível. Será que o selvagem também o deixaria para trás?

— Muito bem, lindão, vamos tirar mais uma fotinha. — A voz melódica de Lice afastou a questões sem resposta da minha cabeça.

— Toby, uma mão no quadril e a outra no queixo. Preciso lhe ameaçar novamente? — Fui durona e ele merecia. — Quero você todo sexy nessa foto.

— Estão praticamente rasgando o estatuto da criança e do adolescente! — A criatura resmungou pela milésima vez.

— TOBY! — Alice gritou perdendo a paciência, então o garoto finalmente fez a pose que exigimos.



Depois de dar algumas risadas às custas do pancinha, fiquei à espera de Edward retornar. Quando o avistei a alguns metros de mim, tomei a câmera das mãos de Lice e passei a correia em volta do meu pescoço. Brincando, girei o braço direito no ar fingindo laçar o selvagem, então comecei a puxar a corda imaginária e fui dando alguns passos para trás enquanto ele vinha pra mim.

Ao nos afastarmos o suficiente da galera, amarrei a corda invisível à cintura e o selvagem enfim me alcançou.
                                                                                                                                             
— Eu quero um sorriso caprichado para essa foto. — Tirei meu boné e o coloquei na cabeça de Ed.

— Claro. — Comprimiu os lábios, arregalando os olhos.

Rindo de sua expressão amalucada, dei três passos pra trás e tirei a foto.

— Outra. — Pedi pousando a foto recém tirada no gramado.

O selvagem coçou o maxilar meio sem jeito e dá-lhe “clique” nele.

— Minha vez. — Estendeu a mão querendo a Polaroid, então passei a alça pela cabeça e lhe entreguei.

Voltando a me distanciar, arranquei uma boa risada dele ao colocar os dedos entrelaçados junto ao queixo, fazendo um biquinho bem exagerado e ridículo. Assim que Edward tirou a foto, fiz com a mão um chifrinho “a la” rock 'n' roll e até coloquei a língua pra fora.

— Espera, essa aqui é a boa. — Piscando o olho, mordi a ponta do dedo indicador, quase encarnando novamente a Charlene Créu Créu. — Pronto, minhas caras e bocas de arrasar acabaram.

— Só mais uma.

Edward veio até mim e passou o braço em volta dos meus ombros. Quando ele ergueu a câmera para nos focalizar, tasquei-lhe um beijão na bochecha e saímos bonitinhos na foto.

Juntei todas as fotografias e as coloquei no bolso traseiro do selvagem. Se eu disser que não apalpei disfarçadamente a região, estarei mentindo.

— Posso te perguntar uma coisa? — Edward pôs uma mão na minha cintura.

— Fale.

— Lembra quando tomei analgésicos por causa do meu tornozelo?

— Sim.

— Lembra quando Alice falou a todos que eu tinha te “desrespeitado”, mas você a desmentiu?

— Sim... — Não sabia onde ele queria chegar.

— Em fim, pensando melhor agora, tenho quase certeza de que dei um tapa na sua... — Fitou o meu quadril. — Dei? — Franziu o cenho ansioso por uma resposta.

— Deu. — Murmurei prendendo o riso.

Edward inclinou a cabeça para o lado e refletiu.

— Hmm... — Mordeu o lábio.

— “Hmm”? O que isso quer dizer?

Ele suspirou e meus olhos cresceram de curiosidade.

— Quer dizer que eu... — Colocou a outra mão em minha cintura. — Que eu...

Fomos interrompidos por jatos de água. Alice, Jazz e Emm descarregaram sobre nós as metralhadoras de água que animaram nossas brincadeiras de infância.

Ensopada, carbonizei meus amigos com o olhar. Eles tinham que interromper justo na hora que Ed ia soltar o verbo?

— Vou matar todo mundo. — Anunciei com frieza.

Jazz, sem noção do perigo, molhou o selvagem, resmungando:

— Se Jasper soubesse que T-zed ia encoxar a irmã dele, não tinha explicado como se... — Emmett tapou a boca do meu irmão e soltou uma risada abafada.

— Explicado o quê? — Lice e eu perguntamos simultaneamente.

Quem eu ia ter que trucidar pra saber o final das frases?

— Então... — Ed revirou os olhos, tomando a metralhadora de Jazz. — Você não ia matar todo mundo? — Entregou-me o brinquedo.

— Corram, porque tou fervendo feito água na chaleira. — Me preparei pra chacina e eles se espalharam sabendo que naquela brincadeira sempre fui fera.

Apesar de meus amigos e irmão não saberem a hora de se mancar, nossa manhã foi perfeita. Desfrutamos do que me arrisco a chamar de paz.
As últimas semanas tinham sido conturbadas e cheias de altos e baixos. Eu mal conseguia acompanhar os acontecimentos que sempre me levavam a extremos. Agora, com o peso de meio mundo longe dos meus ombros, podia respirar sem a constante dor no peito causada pelo que vivi com Brad. Assim como também podia ficar à vontade com Edward sem enlouquecer tentando evitar o inevitável. Mas, acima de tudo, podia relaxar totalmente, pois finalmente aceitava que nem sempre a vida é justa. Nem sempre as coisas acontecem exatamente como queremos. Mas quer saber? O importante é que elas aconteçam!

As horas em volta da piscina renovaram a alegria natural de Jasper e Emmett, deram a Lice um belo bronzeado e me proporcionaram momentos agradáveis com o selvagem.

Nunca o vi tão aberto, tão disposto a explorar as sensações que despertávamos um no outro. O homem que às vezes deslizava suavemente os dedos por minha coluna, que ria das bobagens que falávamos, que ignorava com elegância as infantilidades do Link 69, era o mesmo cara de Malaita. Edward não perdera sua essência, mas, assim como eu, ele evoluiu. Parecia que seus rígidos ideais se expandiram, liberando uma parte dele mais despreocupada, carismática e jovial.

Não conseguia me arrepender do tempo que desperdiçamos, pois talvez tivesse que ser assim mesmo. Acabamos nos rendendo um ao outro quando alcançamos o ápice de nossas evoluções pessoais. Agora Edward tinha o melhor de mim e eu tinha o melhor dele.

Quando a tarde caiu, Alice me lembrou que o agiota passaria na mansão para tentar se dar bem comigo. Ela tinha um plano e, claro, era pra lá de louco.

Exatamente às 18:00h, a campainha tocou. Imediatamente, corri para a porta, respirei fundo e escancarei a bagaça. Fui logo dando de cara com capangas grandalhões do anão.

— Olá, pessoas bonitas. — Meio que cantarolei essa mentira.

— E aí? Mandando? — Olhei para baixo e lá estava o anão sorrindo com o dente de ouro à mostra.

— Mandando o quê? — Você pro inferno? Completei mentalmente.

— Mandando ver no visual? Quero você bem bonita, mulher. — O pigmeu ficou carrancudo.

— Pode deixar. — Pisque o olho pra ele. — Entra aí meu lindo tamborete. — Arnold atravessou a porta e bati com ela na cara dos seguranças.

— Vou logo avisando que não irá sair comigo com essa camiseta velha e esse short encardido. — O homenzinho ascendeu um charuto.

— Amor, farei tudo que quiser, mas antes por que não cumprimenta minha família?

Arnold deu uma boa tragada no charuto relanceando os olhos sobre a sala lotada. Além dos meus amigos, lá estavam também alguns convidadozinhos de Alice.

— Seus parentes se multiplicam sozinhos?

— Mais ou menos. — Sorri.

— Tem muitos irmãos. — Ajeitou o nó da gravata azul berrante.

— Não. — Gargalhei colocando a mão em seu minúsculo ombro. — São meus filhos.

O anão encarou perplexo as crianças amontoadas no sofá. Com a grana de Ed, Lice pagou a molecada da vizinhança pra se passarem por meus filhos.

Aproveitando a mudez do meu Umpa Lumpa, corri até o sofá e comecei a apresentar meus falsos filhotes.

— Esse é o pequeno Aldercy. — Indiquei o ruivinho sardento de 7 anos que nada fez além de continuar mascando seu chiclete.

— Quem é o pai? — O agiota perguntou, preocupado com concorrência.

— Sou eu. — Emmett ergueu a mão, permanecendo perto da escadaria.

— Continuando. — Fui para trás do sofá. — Essa linda loirinha é a Carmina. Não é uma fofa? — A garotinha de 6 anos acenou para o anão. — O pai dela é o Jasper. — Apontei para meu irmão ciente de que Arnold não sabia de nossa ligação sangüínea. 

— E aí? — Jazz continuou comendo seu sanduíche bem sentado em uma das poltronas.

— Não podemos esquecer do meu moreninho. — Fiz um cafuné no garoto que mais parecia um clone do filho do Will Smith.

— E quem é o pai desse? — O agiota já estava confuso.

— Oras, o Duke Doidão. — Indiquei o selvagem que estava a alguns metros de mim.

— Nota-se imediatamente a semelhança. — Ed revirou os olhos e eu quase gargalhei.

— E, por último, mas não menos importante... Toby. — Dei um tapa na nuca do gordinho.

— E o meu pai é aquele ali. — Ele apontou para o velhote surdo que passava para cozinha com sua inseparável ave.

— O papagaio entrou juntou e misturado na bagaça, se é que você me entende... — Alice se intrometeu só para me tirar do sério.


2 Minutos Depois...


— NÃO SE VÁ, MEU TAMBORETE! EU QUERO TER UM FILHO COM VOCÊ! — Berrei da calçada.

O carro do agiota cantou pneu, subiu a rua e desapareceu ao dobrar a esquina.

— Valeu meninada. — Lice começou a distribuir notas de 10 dólares.

— Pois é, estou traçando todo mundo. — Rindo soltei um beijo pros rapazes.

(...)

Após servir o jantar dos hóspedes, Alice me arrastou pelo braço até meu quarto como se fosse uma emergência. Ela bateu a porta com violência e começou a balbuciar ofegante e elétrica:

— Eu ouvi... Eu ouvi... Meu Deus do céu, eu ouvi!

— Ouviu o quê, mulher? — Vociferei confusa.

— T-zed garantiu a Emmett que não vai transar com você.

— É O QUÊ? — Berrei desafinando.

— Ouvi eles conversando lá no jardim. — Uniu as mãos junto ao queixo com pena de mim

— Ele só pode estar brincando... — Choraminguei esperneando.

— Parece que é por causa de algum tipo de voto de castidade.

— Que merda de voto é esse que ele nunca me contou? — Fiquei apavorada com a idéia de não tê-lo completamente.

— Eu não sei. — Escancarou a porta do meu armário. — Mas você precisa fazê-lo mudar de idéia. — Começou a jogar alguns vestidos na cama.

— Isso tudo me soa tão estranho. — Tamborilei os dedos na testa.

Alice largou algumas roupas no chão e correu até mim.

— Vai ficar aí perdendo tempo? — Me chacoalhou pelos ombros. — O que vocês precisam é de uma noite de namorados.

— Defina “noite de namorados”. — Arqueei uma sobrancelha.

— Um passeio romântico com direito a beijos e muitos amassos.

— Até que não é má idéia. — Mordi o lábio imaginando onde poderia levá-lo.

— Ándale! Ándale, Belita! — Me empurrou para o banheiro, mas logo me puxou de volta pela parte de trás da blusa. — Tem uma coisa que pode ajudar. — Soou misteriosa.

— E o que é? — Desvencilhei-me.

— Uma das minhas tias me contou uma vez que existe uma frase infalível para essas situações. É algo que deixa os homens completamente loucos. Se usar ela, é tiro e queda.

— Sério? — Me perguntei como ainda não sabia sobre essa frase. — E qual é?

— Ah, poxa, eu não tenho coragem de falar. Fico com vergonha. — Riu colocando uma mão no rosto. — Enquanto você toma banho vou escrever num papel. — Voltou a me empurrar.

— Hãm... Tá bom.

Arrastei-me para o banheiro temendo ter que apelar para a tal frase. Para falar a verdade, ainda estava perdida na notícia de que Ed não queria dormir comigo.

(...)

Tive que me arrumar às pressas e mesmo assim consegui ficar bonitona. Meu vestido branco e preto era bem marcado no busto e em parte da cintura, valorizando meus seios de uma forma sexy, mas moderada. Por ser bem solto a partir do quadril, me dava mobilidade e charme. As alças finíssimas, junto com o comprimento na altura do joelho, o deixavam com um ar quase inocente. Para garantir um “pacote” completo, passei um pouquinho de maquiagem e usei os brincos mais delicados que possuía.

— Não gosto de ficar me elogiando, mas estou uma gata. Se Ed não quiser apalpar o material, merece um soco no meio daquela fuça linda. — Indignada, coloquei as mãos na cintura.

— Falou e disse. — Alice concordou me empurrando para a porta. — Não esqueça da frase matadora. — Enfiou um pedaço de papel no meu decote.

— Pode deixar, Lice. — Determinada, girei a maçaneta e abri a porta dizendo: — Vou mostrar a ele a minha matadora.

De repente, meu peito inflou de susto porque dei de cara com o selvagem. Ele ainda estava com o punho erguido para bater na porta. Constrangida até o último fio de cabelo, tive que aturar Alice se escondendo atrás de mim para rir da minha mancada.

— Oi. — Edward baixou a mão.

Não me lembrava de tê-lo convidado pra sair, mas o cara estava diante de mim todo bonitão e despojado. Reconheci a calça preta, mas a blusa da mesma cor talvez fosse de Emmett. Ficou bem nele por usá-la com as mangas desabotoadas e a gola um pouco aberta.

— Oi. — Respondi empurrando a vergonha pra longe.

— Tomei a liberdade de avisar ao T-zed que vocês vão dar uma voltinha. — Lice fingiu seriedade ao sair do esconderijo. — Tenham uma noite mata... — Comprimiu os lábios. — Maravilhosa. — Corrigiu empinando o nariz.

Quase grunhi de ódio dela.

(...)

Peguei o recém recuperado carro de meu pai e levei o selvagem para o Centro Cultural de Orlando. O local já havia fechado, mas o calçadão ao lado dele nos atraiu.

O calçadão sempre foi conhecido por seus cafés aconchegantes, por seus artistas de rua que davam cor e beleza ao espaço. Sempre foi muito visitado por turistas que apreciavam a diversidade de eventos acontecendo ao mesmo tempo. Aqueles metros quadrados transpiravam vida e nos encaixávamos muito bem ali.

Foi fácil esquecer tudo que Alice me falara. As preocupações foram varridas da minha mente quando Edward voltou a segurar minha mão. Caminhamos errantes por entre bancos de madeira e postes de luz que pareciam do início do século XIX.

Por um tempo, Ed e eu permanecemos calados, apenas deixando que chegassem aos nossos ouvidos melodias e sons que brotavam de todos os lados. Um violino sendo tocado por um homem solitário sentado em um banco à espera de alguns trocados; sussurros apaixonados de casais que atravessavam nosso caminho; o tilintar das risadas infantis despertadas por um mímico.

Quando avistei uma boa mesa em um dos cafés, puxei o selvagem até lá e pedimos dois cappuccinos. Sentada de frente para ele, não me cansava de estudar o seu rosto. Era como observar alguém que chegou ao mundo agora. Ed relanceava seus olhos curiosos sobre tudo.

— Como é ser você? — Perguntei brincado.

Ele me analisou tentando encontrar o sentido da pergunta.

— Não sei como responder isso. — Sorriu torto. — Por quê?

— Adoraria saber como sua mente fervilhante funciona.

Edward maneou a cabeça como se sua mente não fosse tão fascinante como de fato era.

— E como é ser você? — Voltou a me fitar.

— Olha, é difícil explicar, mas posso te dizer como um dia serei.

— Por favor. — Me incentivou.

— Eu serei como uma daquelas pessoas que todos criticam porque trabalham por vocação e não só por dinheiro. Alguém que ficará acordada algumas madrugadas só para pensar em como tornar sua própria vida mais útil. — Fiz uma pausa e passei os dedos pela xícara quente. — Serei como aqueles persistentes que mesmo aos 70 anos fazem planos a longo prazo. Sei que estou soando como uma estúpida e que todo mundo está sujeito a mudar de opinião com o tempo, mas quem me garante que eu não serei exatamente assim? — Após um suspiro, encarei Edward.

Passaram-se segundos até ele encontrar algo em meu olhar que o fez dizer:

— Você será, Bella. — Sorriu. — Eu tenho certeza. — Completou com a voz macia.

A maioria das pessoas que eu conhecia me recriminaria por ter objetivos tão utópicos. Tentariam jogar na minha cara que futuras circunstâncias retalhariam meus pensamentos juvenis, só que Edward não. Ele simplesmente acreditava em mim.

— Que louco. Se pararmos pra pensar, veremos que nunca mais seremos tão jovens e apaixonados como hoje. Quer dizer... — Ri de vergonha das bobagens que dizia. — Nunca mais estaremos sentados aqui, nos olhando com essa intensidade. Acho que sempre fui meio paranóica com o tempo. Aquele sentimento de que ele se vai e não volta mais. Ah, poxa. Por favor, me mande calar a boca. — Cobri o rosto com uma mão.

— Eu entendo você. — Edward me obrigou a tirar a mão do rosto. — É como ver um filme, certo? Um filme que não dá pra pausar ou voltar. Se perder uma parte, você pode não conseguir entender corretamente o restante da história e ficar perdido nela.

— Exato. — Fiquei impressionada com a explicação de Ed. — É assim que sinto. — Me bateu um alivio. — Em que parte do filme está?

Edward se levantou e colocou a cadeira junto à minha. Quando se sentou, passou um braço em volta dos meus ombros e o calor que exalava involuntariamente fez-me relaxar.

— Estou na parte em que o protagonista descobre como é namorar. — Afundou o rosto em meus cabelos.

— E ele está gostando? — Sorri mordendo o lábio.

— Ele está adorando. — Murmurou.

(...)

Edward e eu voltamos para o Centro Cultural porque lá estava quase deserto. Subimos parte da extensa rampa que dava acesso ao prédio. O lugar pouco iluminado parecia ideal para abordar o assunto do voto de castidade.

— Sabe, você está tão... — Me encostei no corrimão da rampa e o selvagem pôs as mãos nela me aprisionando entre seus braços. — À vontade. — Completei ofegante.

— É impressão sua. — Brincou fitando minha boca como fizera na mansão.

— Então por que não... — Pigarreei sem saber como lhe convencer a largar o voto. — Exploramos... — Eu devia ter incluído a palavra “tudo”, mas ela não saiu.

Edward me encarou franzindo o cenho e só aí percebi que não entendeu nada.

— Espera. — O afastei com delicadeza e Ed deu um passo atrás.

— Qual o problema, Bella? Fiz algo errado?

— Claro que não. Só me dá um minuto. — Me distanciei um metro dele e resolvi dar uma chance à “frase matadora”.

De costas para o selvagem, puxei o papel do decote e o desdobrei. Ao ler a frase, gemi alto de desgosto e chacoalhei o corpo, inconformada.

— Está tudo bem? — Ed estranhou e eu apenas ergui a mão pedindo mais um minuto.

De olhos fechados, colei os punhos na testa, pois ouvia nitidamente Alice tagarelando na minha cabeça. Queria arrancar a voz de lá, mas era impossível.

“Vai fundo, o que você tem a perder?”

“Lembra que você já fez coisa pior.”

“PORRA, BELLA, ABRE A BOCA E FALA!”

Em um súbito, me virei para Edward e falei de uma vez:

— Não faça manha, eu quero o seu taco-taco no meu balacobaco.

— Err... O quê? — Ficou completamente perdido.

Nunca desejei tanto estar a sete palmos de terra. O silêncio que se seguiu só não foi mais constrangedor do que Edward me encarando com se eu tivesse falado em uma língua alienígena, mas pouco tempo se passou até sua expressão se suavizar e ele dizer:

— Alice esperava que eu lesse isso pra você. — Puxou um bilhete do bolso e o estendeu para mim.

Corri para pegar o bilhete e advinha o que tinha escrito lá?

“Não faça manha, eu quero o meu taco-taco no seu balacobaco.”

O sangue me subiu à cabeça, precisei contar de um a dez pra não gritar de raiva.

— Perguntinha. — Estreitei os olhos. — Você não fez nenhum voto de castidade, fez?

— Não. Por quê?

— Filha de uma égua! — Vociferei amassando os bilhetes. — Nesse momento ela deve estar rolando no chão de rir da nossa cara.

— Agora entendo porque Alice disse que você tinha medo do... — Ed revirou os olhos. — “Meu lado primitivo”.

Totalmente boquiaberta e revoltada, pedi meu celular que estava no bolso dele liguei para a sacana. Claro que ela não atendeu, mas me mandou uma mensagem.

De Alice:
Para Bella:

[A idéia nem foi minha ¬¬ foi do Emm Kkkkkkk]

— Nem acredito. — Resmunguei, e um segundo depois chegou outra mensagem.

De Emmett:
Para Bella:

[É mentira da Alice. A idéia foi do Jazz. Ei, me traz um sanduíche? ;D]

— Eu vou estropiar todos eles. — Rosnei e mais uma mensagem apareceu na tela do celular.

De Jasper:
Para Bella:

[Quais as chances de vc colocar $10 de crédito no celular do seu mano?]

— O que é deles tá guardado. — Desliguei o celular para não receber mais nenhuma mensagem.

— Acho que estou começando a entender o sentido da frase que Alice te fez falar. — Edward fitou o céu, refletindo.

— Não. Não está nada. — Aflita de vergonha, fiquei pulando para conseguir estalar os dedos perto de seu rosto na esperança de que aquilo atrapalhasse seu raciocínio.

— Ah, estou sim. — Respondeu só para me torturar.

— Shhh! Não está. Não está. — Bati palmas feito louca, depois chacoalhei as mãos em frente aos seus olhos. — Não pense.

— Pensando bem... — Arqueou uma sobrancelha.

Não agüentei mais. Fiquei na ponta dos pés e o puxei pelo colarinho da blusa até conseguir beijá-lo.

(...)



Quando retornamos à mansão, já passava de uma da manhã. Quase todas as luzes estavam apagadas e o raro silêncio era praticamente um presente. 



Eu não subi imediatamente para o meu quarto, fiquei deitada no gramado junto com Edward. Com a cabeça pousada em seu braço, ouvia ele me explicar por que havia um anel luminoso e multicor em volta da lua.

— É um fenômeno raro. O halo lunar se forma por causa da refração e dispersão da luz nos cristais de gelo de nuvens do tipo cirros. A luz, ao passar pelos cristais, se separa nas cores que vão do violeta ao vermelho, está vendo? — Apontou para a lua.

— Sim. É incrível. — Ergui a mão e com o indicador lentamente contornei o anel como se pudesse tocá-lo.

Sentia tanta paz...

As brisas frias da madrugada começaram eriçar minha pele e quando dei por mim, já estava de olhos fechados. Por um momento, nada pude ouvir além do suave chacoalhar das folhas das árvores.

— Bella... — Edward deitou de lado e o movimento fez-me abrir os olhos.

— Fala. — O encarei tocando seu maxilar.

Primeiro ele deu um meio sorriso nervoso, depois seus lábios tremularam sutilmente por conta das palavras que não chegaram a sair. Somente após um suspiro, Edward finalmente disse com a voz rouca:

— Faz amor comigo?

Meu estômago gelou como se fosse a primeira vez que ouvia tal proposta. Analisando bem, feita dessa forma, era sim a primeira vez. Embora a resposta estivesse estampada em minha face, Edward esperou eu recuperar a voz.

— Sim. — Uma onda de ansiedade me atingiu.

Edward relanceou os olhos sobre o meu corpo deixando visível que não sabia exatamente por onde começar. Confesso que naquele momento até eu estava meio perdida por causa do nervosismo.

— Me beija. — Sussurrei tão baixo quando o vento.

O selvagem se inclinou um pouco sobre mim e colou a testa na minha. Automaticamente minha mão alcançou sua nuca e esperei que ele juntasse nossos lábios. Primeiro senti seu nariz tocando o meu, depois seu hálito morno invadindo minha boca, então minha súplica foi atendida com um beijo que revelava exatamente o que ele sentia.

Conseguia enxergar seu nervosismo, insegurança e desejo. Tentei impor minha pouca experiência, mas Edward me embebedou com seus sentimentos tão transparentes.

Enquanto aprofundávamos o beijo, senti os dedos dele correrem delicadamente do meu joelho até a coxa, arrastando a barra do vestido pra cima para que minhas pernas ficassem à mostra. De repente, ele interrompeu o beijo para olhá-las e apalpá-las com carinho.

Com medo de que suas próximas investidas me roubassem o discernimento, falei com a voz mole:

— Precisamos sair daqui.

(...)

De pé no meio da casa da árvore, não conseguíamos parar de nos encarar. A única luz ali provinha do luar que adentrava o local pelas janelas e algumas frestas no teto.

Antes de subirmos na casa, tiramos os itens mais fáceis, os sapatos. Agora Edward começava a desabotoar sua blusa vagarosamente sem conseguir disfarçar o insistente nervosismo. Depois que ele se livrou dela, puxei o zíper do meu vestido que ficava na lateral do corpo. O selvagem me assistiu deslizar as alças pelos braços e, em seguida, o vestido inteiro pela cintura, quadril e, por fim, pernas.

Eu estava usando uma lingerie branca com detalhes em renda preta. Não era a primeira vez que Edward me via com pouca ou nenhuma roupa, mas as circunstâncias agora eram outras. Seus olhos não estavam só cheios de curiosidade, mas também de paixão.

Ele encurtou a pouca distância que havia entre nós e pôs as mãos em minha cintura, erguendo-me para que eu alcançasse sem dificuldade seus lábios. Em um impulso, envolvi seu quadril com minhas pernas e pressionei sua boca ávida contra a minha.  

Senti novamente aquela eletricidade desenfreada percorrer meu corpo e me agarrei ainda mais a Edward. Ele, por sua vez, ficou de joelhos e, logo depois, sentou sobre as pernas.

Suas palmas começaram a subir e descer por minhas costas sem deixar de devorar meus lábios compulsivamente. Quase como se a expectativa do que estava por vir me causasse dor, soltei um gemido entrecortado. Imediatamente a boca dele derrapou para o meu queixo, me dando a chance de respirar.




Faltava-me fôlego, mas a Edward parecia sobrar, pois começou a inspirar junto ao meu pescoço, absorvendo meu cheiro como nunca ninguém fez.

Fechei os olhos e pendi a cabeça para trás. A ponta do nariz dele roçava minha pele me causando amenas e prazerosas cócegas. O selvagem continuou enchendo seus pulmões com meu perfume, até que sua atenção se voltou para o fecho do meu sutiã. Como era de se esperar, ele não conseguiu abrir.

Sem dizer nada, eu mesma abri o fecho e retirei a peça com meus olhos vidrados nos dele. Edward então baixou a vista para fitar a região despida e suas mãos, que estavam na minha cintura, subiram lentamente para os meus seios.

Seu primeiro toque foi tímido, mas logo se transformou em uma carícia cálida e boa demais para eu continuar de olhos abertos. Acabei arqueando o corpo e o selvagem passou a inspirar a fragrância concentrada em meu tórax. Não demorou muito para eu começar sentir os lábios, dentes e língua de Edward por todo o meu busto.

Quando ele se deu parcialmente por satisfeito, buscou por minha boca e balbuciou contra ela:

— Seu coração está batendo tão rápido...

— Eu sei. — Murmurei, desfazendo com os dedos a ruga de preocupação que se formou entre as sobrancelhas dele.

Edward passou um braço em volta das minhas costas e projetou-se para frente, deitando-me com calma no chão. Ele não se colocou imediatamente em cima de mim, primeiro se despiu completamente sem nenhum constrangimento, mesmo estando de um jeito que nunca vi.

As sombras da noite não foram capazes de esconder a beleza daquele homem. E nem o frio aplacou o calor que emanava do meu corpo inteiro por desejá-lo tanto. Desistindo de ficar apenas deitada, terminei de me despir para ele e me coloquei de joelhos para retribuir algumas carícias.

O selvagem passou uma mão pelos cabelos quando sentiu pela primeira vez o prazer do toque feminino. Ele tentou reprimir um gemido, mas o som rouco e sexy que deixou escapar só fez ficar mais evidente o quanto aquela experiência ultrapassava suas expectativas.

Almejando lhe proporcionar todas as sensações possíveis, fui mais ousada e beijei-lhe em lugares que ele nunca imaginou. De maneira alguma Ed foi o único a delirar com aquilo, pois foi maravilhoso para mim também.

Então, conforme o prazer ia esmiuçando os alicerces de seu extraordinário autocontrole, um Edward diferente começou a se sobressair. Seu peito inflou por causa do pesado arfar e quando se deitou no chão, puxou-me para cima dele. Seus dedos imediatamente afundaram em meus cabelos e assim manteve meu rosto a poucos centímetros do seu.




— Você é tão linda. — O elogiou soou aveludado.

O olhar de Edward continha um forte magnetismo que deixava meus músculos moles e entregues. Não tem nem como explicar, você simplesmente se sente tentada a deixá-lo te dominar.

Sem muito esforço, ele rolou nossos corpos, se colocando em cima de mim. Naturalmente o abriguei entre minhas pernas e Edward correu sua palma áspera por toda a minha coxa.

Cedendo a seus instintos, ele foi deslizando o rosto pelo o meu corpo e, mais uma vez, aspirou profundamente o aroma da minha pele inflamada. Sofrendo com a expectativa, mordi o lábio ao sentir sua respiração acelerada em minha barriga. Então, liberando sobre mim seus impulsos sexuais a tanto reprimidos, Edward passou a aplacar seu feroz desejo onde eu mais ansiava.

Parecia que várias partes de mim formigavam e apertei os olhos lutando para acompanhar às milhares de sensações provocadas por Edward e seu súbito descontrole. Depois de uns minutos, desisti da luta e apenas arqueei o corpo para sentir tudo que ele queria que eu sentisse.

Gotículas de suor já haviam se formado em minha testa e várias partes de mim se contraíram, me obrigando a clamar por Edward com urgência. Meio que contra vontade, ele me atendeu e voltou a se encaixar no lugar que já lhe pertencia.

Nossos olhares outra vez se encontraram e estavam carregados de convicção e vida. Norteado pela força primitiva que impele um homem a possuir uma mulher, Edward, ainda que inexperiente, me tomou por sua com um movimento vigoroso.

De imediato ambos sentimos o poder do ato de amar em sua forma mais crua, onde o prazer anda de mãos dadas com a dor. Nesse momento, levei meus dedos ao rosto dele e observei as sutis linhas de sua testa franzirem quando se movimentou com mais suavidade. O gemido que me escapou, foi só o prenúncio dos muitos sons entrecortados que ainda brotariam de meus lábios.

O homem que era meu por tão pouco tempo nunca esteve tão lindo. Suas pálpebras tremulavam e um rosnado gutural emergia da boca entreaberta. Suspirando com o roçar delicioso de nossos corpos, o puxei para mais perto de mim e lhe envolvi com os braços.

Aconcheguei meu rosto no vão entre a cabeça e ombro de Edward. Quase que automaticamente seu corpo respondeu, aumentando a intensidade dos movimentos que se tornaram impetuosos.

De olhos bem fechados, desfrutei do prazer que o selvagem me proporcionava, apertando-lhe as costas úmidas de suor. Eu mal conseguia acreditar no que estava acontecendo. Aquele momento superava tudo que já vivi. Desbancava meu entendimento sobre amor e sexo, pois não sabia que podia ser tão incandescente, desesperador, celestial...

Definitivamente Edward também fora pego de surpresa pela total consciência da magnitude do que vivíamos. Podia senti-lo enlouquecendo em cima de mim, com suas características mais selvagens me consumindo gradativamente.

Esbaforindo, já não conseguia parar de roçar a parte interna das minhas coxas no quadril dele. Edward então passou a gemer junto ao meu ouvido, me deixando todinha arrepiada.

Feito uma tola, julguei ter conhecido o prazer com Brad, mas agora percebia que intitulei errado o que vivenciei com ele. O que estava sentido com o meu selvagem nem se comparava!

Existia uma chama fervilhando pelas minhas pernas, me fazendo contrair os dedos dos pés. Um suave e prolongado choque no ventre; uma pressão no peito que me impedia completamente de respirar. Essas tais sensações cresciam desordenadamente. E nesse mesmo instante, Edward encostou a testa quente na minha e os rosnados dele se tornaram mais audíveis. Seu corpo perfeito entrou em frenesi e o emaranhado de sensações meio que explodiu, sugando-me para um vácuo de semiconsciência em que nunca estive antes.

(...)

O luar que invadia a casa da árvore banhava nossos corpos imóveis no chão.

Deitada de bruços, eu mantinha a lateral do meu rosto pousada no braço de Edward. Ele estava de barriga pra cima, mas me encarava intensamente com a face perto o bastante para que sua respiração branda ditasse o ritmo da minha.

Não havia palavras no mundo que se encaixassem com o momento. Somente o mais puro silêncio era bem-vindo.

Meus olhos pesavam de sono, só que eu não queria dormir. Não queria perder nenhum segundo da minha vida com Edward. Nunca desejei tanto um “para sempre”, assim como também nunca tive tanta certeza de que esse sonho, de algum jeito, ficaria preso na casa da árvore em forma de uma perpétua lembrança.

Então, sem que eu esperasse, uma única lágrima se formou no canto do meu olho. Permiti que ela seguisse o curso que desejasse, não só pela melancolia do pensamento que acabara de concluir, mas também pela enorme e singular felicidade que a noite me trouxe.


(Continua...)

***

2 comentários :

por favor desejos saber sobre os restante da fanfics Um Selvagem Diferente capitolos 20 21 e final pode me enviar informaçoes por favor to adorando estes fantics obrigada

24 de abril de 2012 12:00 comment-delete

Olá... Hj a tarde postarei os capitulos 20 e 21. Fique ligada..

24 de abril de 2012 12:37 comment-delete

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