Um Selvagem Diferente - Capitulo 18


Edward observou minha expressão de choque por uns três segundos e esse foi o tempo necessário para ele se dar conta do que acabara de falar.

— Na minha cabeça não soou tão inapropriado. — Engoliu em seco. — Acho que vinho e eu não fomos feitos um para o outro. — Empurrou a garrafa para o meio da mesa.

Mais alguns segundos se passaram até eu ter condições de fechar a boca, piscar os olhos e falar:

— Uau...

Eu sei, não foi uma grande frase.

— Me desculpe. Achei que nosso novo nível de amizade permitia esse tipo de conversa... — Pendeu a cabeça para o lado, refletindo. — Mas agora vejo que me enganei.

— Não, Ed. Que é isso?! — Me fingi de ofendida. — É por isso que estou aqui! É pra isso que servem os amigos!  A gente tem que contar sempre tudo um para o outro... — Descarada, me inclinei em sua direção. — Principalmente os detalhes mais sórdidos. — Pigarreei.

— Por favor, esqueça o que eu disse.

— Não, não, não... Deitou, agora rola.

— O quê?

— Começou a falar, então continua. — Esclareci.

Edward suspirou, visivelmente arrependido.

— Primeiro me diz como foi seu sonho.

— Que tipo de negociação é essa? — Cruzei os braços, mas logo cedi. — Ah, vai... Tudo bem. — Resolvi resumir meu pesadelo. — Alice tinha virado uma Hare Krishna, Jasper virou gente, Emm virou mulher e você um babaca superficial e metido. Agora é sua vez.

— Como assim? — Franziu o cenho.

— Edward! — Protestei. — Não enrola. — A curiosidade era violenta.

— Só sonhei que...  — Passou a estalar os dedos da mão esquerda. — Que Brad não tinha nos interrompido naquela madrugada. — Parou pra me analisar e eu escondi o espanto como pude. — E continuamos nos beijando.

Fica calma, fica calma...

— Mesmo? — Fiz minha melhor cara de paisagem. — Nos beijamos muito? — Minha voz tremeu um pouquinho no “muito”.

Edward fixou seus olhos na mesa e murmurou:

— Não faz idéia.

Ainda com os pés sobre o móvel, passei a chacoalhar o pé esquerdo freneticamente em uma tentativa desesperada de manter a linha.

— O que mais... — Medi as palavras. — Aconteceu?

Ed soltou um sutil grunhido ao fitar o teto.

— Aconteceu mais uma, ou duas coisas.

Dessa vez, gargalhei em silêncio e só parei quando ele me encarou.

— Interessante. — Respondi seriíssima. — Por favor, continue.

Extremamente desconfortável, Edward coçou a testa, cruzou os braços e, por fim, desembuchou rápido:

— Te toquei em alguns lugares, você me tocou em outros e acordei. — Aliviado, puxou uma cadeira e sentou do outro lado da mesa. — Foi só.

Precisei fechar os olhos e me concentrar para não rir, afinal, o “rei da floresta” tinha tido um sonho proibidão comigo.

— Podemos mudar de assunto? — Ele pediu.

— Claro. — Respirei fundo.

— Ótimo.

Houve um momento de silêncio.

— Então... — Me espreguicei. — Quer dizer que você ficou excitado?

Gemendo de desgosto, encostou a testa na mesa.

— Não fica grilado não, isso acontece com todo mundo. — Banquei a especialista. — Pode perguntar a quem quiser.

O selvagem ergueu a cabeça.

— Sério?

— Com certeza. — Fitei a garrafa de vinho. — Quer mais um vinhozinho pra se soltar de vez? — Sorri matreira.

— Não, obrigado. — Finalmente riu de si mesmo. — Não acredito nas coisas que falei. — Pendeu a cabeça para trás.

— Eu sei. — Também gargalhei.

— O melhor foi sua expressão de espanto.

— Ás vezes fico meio histérica.

— Meio? — Riu ainda mais. — Obrigado por não me considerar um tarado.

— Quem disse que não considero? — Brinquei.

— O sonho foi uma bobagem causada por... — Parou pra pensar.

— Por? — Fiquei ansiosa.

Ultimamente Edward estava tendo dificuldades para completar as frases. Que esquisito!

— Por... — Estreitou os olhos. — Meu excesso de imaginação? — A resposta soou como uma pergunta. — Ou... — Gesticulou perdido no próprio raciocínio.

Bella, essa é a deixa! Era isso que estava esperando! É agora que você conta que está apaixonada. Vamos lá! Você consegue!
Edward tinha sonhado comigo após beijar Jully, isso só podia significar que ele também sentia algo por mim, certo? Era isso que ele tentava explicar?

— As garotas já devem estar cansadas de esperar por esse vinho. — Sem concluir nossa conversa, pegou a garrafa e se dirigiu à porta.

Senti que minha chance estava escapando por entre meus dedos. A sensação era horrível. Então, em um momento de puro impulso, me levantei e anunciei:

— Apaixonada!

Edward estagnou, virou-se lentamente e me encarou completamente aturdido. Imediatamente me xinguei por minha total falta de tato.

— O que disse? — Voltou.

— Eu... — Tomei fôlego. — Não sou mais apaixonada por Brad. — Decidi explicar primeiro essa questão.

— Não? — Estranhou.

— Nem um pouco. — Senti um leve tremor nas pernas. — Ontem conversamos e... tudo que precisava ser dito foi dito. — Sorri torto. — Edward, você sabe que, antes, tudo que eu queria era “virar a página”, mas descobri... — Fixei meus olhos nos dele. — Que já estou lendo outro livro.

Nervosa, esperei ele digerir a informação e demorou mais tempo do que eu esperava.

— Confesso que estou um pouco surpreso. Pra falar a verdade, senti algo diferente em você quando a vi, mas não imaginava que fosse isso. Agora entendo por que está aqui.

— Entende? — Engoli em seco.

— Sim. Você veio me contar a novidade. — Exibiu um lindo sorriso. — Parabéns, Bella. — Afagou meu rosto. — Alcançou seu objetivo. Estou realmente orgulhoso de você. — Beijou minha bochecha esquerda e involuntariamente fechei os olhos.

Sabe quando você sente como se seu coração estivesse prestes a sair pela boca e as pontas de seus dedos ficam geladas? Nossa, era exatamente assim que me sentia.

— Não quer comemorar? — Afastou o rosto e pegou minha mão. — Aposto que Alice pensará em algo. — Tentou me levar para a sala, mas só consegui dar dois passos, desvencilhando-me logo em seguida.

— Edward, tenho que te perguntar uma coisa. — Me afastei.



O sorriso dele sumiu ao perceber a seriedade da pergunta através de minha expressão.

— Pergunte.

Não foi fácil obrigar as palavras a saírem.

— Sei que ainda não se decidiu quanto a Jully, mas... — Ofeguei. — Ela é mesmo a única que combina com você?

A pergunta o pegou de surpresa e ele nada pôde fazer além de baixar a cabeça e refletir sobre ela.

Não existe um meio fácil de expor seus sentimentos a alguém. Não existe um manual indicando a melhor forma de contar a um amigo que está apaixonada por ele. Nesses momentos, até as pessoas mais confiantes se sentem andando na corda bamba.

Diante da mudez de Edward, percebi que estava colocando muitas coisas em risco. Ele não era um carinha qualquer, era alguém que conquistou minha amizade com sua inacreditável sinceridade e compreensão. Edward tinha o dom de enxergar as pessoas além do que elas aparentam ser. Eu sabia que ele me enxergava, assim como também aprendi a enxergá-lo, por isso a idéia de perder essa conexão era mais do que apavorante.

— Por favor, senta. — Pedi baixinho e ele me atendeu.

Meu grande temor naquele momento era Edward se sentir constrangido com minha confissão e começar a me tratar diferente em uma vã tentativa de não me magoar. Não queria que perdêssemos a espontaneidade ou cumplicidade. Por outro lado, não havia mais como esconder o que eu sentia, pois já não conseguia ser covarde a ponto de não me arriscar pelo que eu queria.

Revestida com toda a ousadia que adquiri durante as férias, peguei na gaveta do armário duas facas e um garfo, em seguida alinhei as duas facas em cima da mesa bem diante dele e deixei o garfo de lado.

O selvagem ficou olhando para os talheres sem falar nada, porém eu tinha muito a dizer:

— Edward, quando você chegou à mansão, acreditei que era um completo idiota. Te julguei de todas as formas possíveis e imagináveis. O problema é que eu te via, mas não te enxergava... Meus olhos preconceituosos e limitados não alcançavam muito além da aparência. — Não consegui disfarçar o remorso. — Sinto muito.

— É passado. — Deu de ombros.

— Hoje, depois de tudo que vivenciamos, quer saber o que enxergo?

— Sim.

— Enxergo essas duas facas. — As toquei suavemente. — Elas são perfeitas. Afiadas, de metal nobre e brilham. Não há dúvidas de que são úteis e belas, mas... são idênticas. Geralmente acreditamos que peças iguais combinam. Que foram feitas para ficarem juntas. Entretanto...  — Fiz uma breve pausa. — O que uma faz a outra também faz. Elas não trabalham bem juntas, pois não há equilíbrio ou utilidade. Não há nada a acrescentar.

Edward continuou fitando os talheres e não consegui ler seus olhos. Por mais estúpida que fosse a metáfora, foi o único jeito que encontrei de lhe mostrar a verdade.

— Mas sabe... Essa faca aqui não precisa ficar sozinha. — Com receio, indiquei a da direita. — Embora esse garfo nunca, nunca vá ser uma faca..., — Toquei a peça. — ele também pode ser bom e útil. Na verdade..., — Um nó se formou em minha garganta. — acho que ele já é. Sei que são opostos, mas eles funcionam tão bem juntos, Edward. — Precisei ser muito forte para não derramar nenhuma lágrima. — Não enxerga isso?

Podia ouvir as vozes de Alice e minha prima ao longe, só que na cozinha o silêncio afetava toda a atmosfera, fazendo minhas mãos ficarem frias e meus olhos arderem.

Mesmo vendo que meu discurso não atingira meu amigo como eu esperava, fui até o fim.

— Edward, eu sou esse garfo. É por isso que estou aqui.

Ele finalmente ergueu a cabeça e me encarou. Não havia alegria em seus olhos, apenas tristeza. Sua face estava carregada com um lamento que me alcançou e derrubou-me com um só golpe.

— Não sei o que dizer. — Ele murmurou baixando a vista. — Desculpe.

— Não se desculpe. — Gemi, apoiando-me em uma cadeira. Ouvir Edward se desculpar era pior do que ouvir uma rejeição explícita, pois nesse caso havia um tom de pena. — Sendo assim, por favor, só diga que precisa ir. Só diga isso. — Não sabia por quanto tempo ainda conseguiria manter meu rosto seco e minha voz firme.




No fundo, eu sabia que Ed também não queria que as coisas entre nós mudassem, mas até ele entendia que depois do que falei nossa relação nunca mais seria a mesma.

— Preciso ir. — Sussurro o que pedi e se foi sem olhar para trás.

Edward deixou um vazio no cômodo que me engoliu vagarosamente. Tudo que conseguia ouvir era o som da minha própria respiração enquanto eu lutava para não me arrepender do que fiz. Infelizmente, aquela já era uma batalha perdida.

— Meu Deus, o que mais posso fazer? — Inconformada, coloquei as mãos na cabeça e tive vontade de gritar.

Fiz o que era aparentemente correto. Fui honesta com Edward e nem assim o amor me sorriu. Nada pra mim era fácil!

— O que aconteceu? — Alice invadiu a cozinha. — Por que T-zed passou por mim com cara de velório?

— Me abri com ele. — A fitei com os olhos marejados.

— E?

— O que você acha, Alice? — Aumentei o tom de voz.

— Shhh. Vamos sair daqui.

Lice, vendo que eu estava seriamente abalada, me rebocou para fora da casa tão rápido que mal percebi. Ficamos na praia, apenas com a lua, o mar e a garrafa de vinho como testemunhas de minha revolta.

— Por que isso?! — Não conseguia ficar quieta. — O que há de errado? Me sinto em uma Montanha Russa, hora estou em cima, hora estou embaixo. Às vezes parece que tudo vai dar certo, mas simplesmente dou com a cara em um muro. Eu não entendo! — Minhas mãos tremiam. — Ontem me senti uma vitoriosa, mas hoje tenho que lidar com essa derrota. Por que tudo tem que ser tão difícil?

— Fica calma, as coisas vão se ajeitar. — Alice tentou me consolar em vão.

— Sabe o que é pior? — Bebi mais vinho. — Eu sei que agora ele ficará pisando em ovos só para não acontecer nenhum mal entendido que possa me magoar. Toda a intimidade que tínhamos antes simplesmente vai desaparecer.

— Conversa com ele sobre essa questão.

— Não importa o que eu diga, Alice. É do feitio de Edward agir assim, pois ele sempre procura fazer a coisa “certa”. — Sentei no chão e joguei o corpo para trás sem me importar com a areia em meu cabelo. — Está feito, não há volta. — Balbuciei com uma lágrima escorrendo no canto do olho.

— Achei que T-zed estava super na sua. — Ela murmurou sem jeito.

— Fui a primeira a beijá-lo. Isso pode ter mexido um pouco com a cabeça dele, mas não o suficiente para ele querer ficar comigo.

Diante dos fatos, Alice nada pôde fazer para me animar.

O tempo correu e, aos poucos, a revolta foi se dissipando. O que restou foram quatro dedos de vinho na garrafa, milhões de estrelas no céu e alguns pensamentos rodeando minha mente.

A essa altura já não me arrependia do que fiz, na verdade, começava a compreender que ter feito uma escolha foi melhor do que me esconder atrás das dificuldades. Eu não queria mais ser o tipo de pessoa que arranja mil desculpas para não se arriscar.

O que disse a Lice era verdade, tinha a sensação de estar em uma Montanha Russa emocional. Porém, conforme refletia sobre isso, percebia que era inevitável não me sentir assim. Eu estava aberta a tudo, não ficava alheia a dor, vergonha, paixão, coragem, alegria ou tristeza. Sempre fui uma pessoa naturalmente emotiva e rejeitar isso seria o mesmo que rejeitar a mim mesma.

Quando aprendi a me valorizar, não adquiri o poder de ficar imune às adversidades. Eu estava sujeita a vitórias e derrotas, erros e acertos, como qualquer um. A diferença é que agora eu tinha a fibra para levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima sem nunca retroceder. E essa fibra é que separa quem eu fui de quem eu sou.

 — Alice, o dia logo irá amanhecer. Vamos tomar um banho, comer algo e voltar para casa. — Fiquei de pé.

— Como se sente? — Coçou os olhos.
                                                          
— Estou bem. — Sorri para a sonolenta. — E isso me basta.


Pink - Crystal ball

Bebendo vinho e achando que a solução está no fundo da garrafa
Só preciso de uma bússola e de um companheiro
E todas as dúvidas que enchem minha mente se confundem de novo
Pra cima e pra baixo, de um lado pro outro de novo

Oh, eu tive minhas chances e eu aproveitei todas
Apenas pra acabar deitada aqui no chão
Pra acabar deitada no chão

Moedas num poço,
Um milhão de dólares na fonte do hotel
O vidente diz: talvez não vá para o inferno
Mas não estou nem um pouco assustada
Mmm mmm mmm mmm mmm
As rachaduras na bola, rachaduras na bola de cristal

Às vezes você pensa que tudo se baseia em um anel de diamantes
O amor precisa de testemunhos e de um pouco de perdão
muita paciência, e um ritmo mais calmo
E assim eu aprendi a ser forte com meus próprios erros

Oh, eu senti o fogo, e eu, eu me queimei
Mas eu não trocaria a dor pelo que aprendi
Não trocaria a dor pelo que aprendi

Moedas num poço,
Um milhão de dólares na fonte do hotel
O vidente diz: talvez não vá para o inferno
Mas não estou nem um pouco assustada
Mmm mmm mmm mmm mmm
As rachaduras na bola, rachaduras na bola de cristal

Ironia é odiar o amor
Pelo que ele fez comigo, pelo que foi feito comigo
O que foi feito, foi feito

(refrão)

(...)

Logo que foi possível Alice e eu caímos na estrada. Não nos despedimos de Edward e Jully porque estavam dormindo e julguei desnecessário, afinal, dentro de algumas horas nos reencontraríamos na mansão.

Enquanto Lice cochilava no banco traseiro, procurei me manter atenta ao volante. As músicas que tocavam no rádio foram minhas únicas companheiras por horas. Muitas das canções falavam sobre decepções amorosas e paixões avassaladoras. Foi impossível não pensar em Edward.

Confesso que fiquei tentada a disputar ele com Jully, mas nossa relação estava acima disso. Ridículos joguinhos de sedução só distorceriam o sentimento honesto e intenso que estava me fazendo sentir tão viva. Eu preferia manter esse sentimento intacto a banalizá-lo só para conseguir uma noite de sexo, ou um pouco mais de atenção.

Eu estava determinada a não mudar com o selvagem e torcia para que ele fizesse o mesmo, do contrário, ambos perderíamos. Claro que não estava exatamente pronta para esse desfecho, mas se fosse necessário, enfrentaria de cabeça erguida. Não tinha motivos para me envergonhar, pois meu erro mais embaraçoso foi justamente não ter percebido antes o quanto eu gostava dele.

(...)

Ao chegarmos a Orlando, minha amiga e eu tratamos de tomar banho e trocar de roupa. Só depois é que fomos procurar Jazz e Emmett, mas como não os encontramos, fomos até a sala perguntar a Toby.

— Onde está meu irmão? — Indaguei vendo o pancinha se entupir de chocolate.

— Por quê? — Lambeu os dedos gordinhos.

— Não é da sua conta, moleque. — Lice retrucou.

Ao ouvir nossas vozes, Brad desceu as escadas correndo e invadiu o cômodo.

— O que vocês têm na cabeça? — Já chegou berrando. — Cara, falta pouco pra eu matar vocês! Juro! — Ficou vermelho. — Cadê meu carro?

— Êpa, abaixa a bola, meu filho. — Lice deu um passo à frente. — Só pegamos o brandidomóvel emprestado, não precisa dar chilique. — Tirou as chaves do bolso. — Vai querer mais um beijinho pra se acalmar? — Ironizou e McFadden arrancou as chaves de sua mão.

— Fique longe das minhas coisas. — Lançou seu olhar mais ameaçador para ela. — Acho bom não ter nenhum arranhão no meu carro.

— Quer que eu diga onde pode enfiar seu carro?

— Vai à merda! — Deu-lhe as costas e se direcionou para a porta da frente. 

— Tchauzinho, querido casca de ferida. — Alice acenou sorridente e o cara foi verificar se o Mustang estava inteiro.

— Muito bem... — Bufei impaciente. — Cadê Jasper e Emmett? — Encarei Toby.

— Não faço a menor idéia. — Apontou para o escritório.

— Como é? — Boiei.

— Eu tou dizendo que não sei, pau-de-virar-tripa! — Berrou usando as duas mãos para indicar a porta do escritório.

— Ai, meu Pai, dá-me paciência. — Me arrastei até o escritório e logo percebi que a porta estava trancada. — Dá pra abrir aqui ou tá difícil? — Dei uma batidinha.

— É você, Bella? — Emmett perguntou baixinho.

— Não... É o cabelo do sovaco da sua mãe. — Grunhi.

— T-zed está aí com você? — Jasper questionou.

— Quem me dera. — Revirei os olhos.

Eles destrancaram a porta e abriram-na lentamente. O idiota do meu irmão colocou a cabeça para fora e estudou o ambiente.

— A barra tá limpa? — Emm escondia-se atrás dele.

— Falando em Rei da Selva, olha ele aí. — Alice anunciou a chegada do casalzinho.

— Oi. — Ed colocou a bagagem no sofá e Jazz bateu a porta na minha cara.

— Isso sempre acontece comigo... — Comentei lembrando da Godzilla. — Qual o problema de vocês? — Chutei a maldita porta.

— Está tudo bem? — Jully perguntou.

— Emm e Jazz estão se amancebando no escritório. — Lice riu.

— Não estamos não! — Emmett se ofendeu.

— Gente, estou ficando velha pra isso. — Colei a testa na madeira. — Tenham dó.

— Espera um minuto. — Meu irmão estava tramando algo.

Cerca de meio minuto se passou até empurrarem um papel por debaixo da porta. Desanimada, baixei-me para pegar o bilhete e comecei a lê-lo com voz arrastada.

— “De: Emmett e Jasper. Para: Prezados amigos” — Olhei rapidamente para todos. —“Gente boa, a casa caiu! Como Rosalie levou o dinheiro do agiota, o malandro mandou os homens dele aqui pra pegar a grana. A gente até tentou se safar, mas a lata-velha do Charlie não cobre o valor que devemos. Resumindo... T-zed, por obséquio, que nossa morte seja rápida e indolor...”

— Não entendi? — O selvagem franziu o cenho.

Li o final do bilhete de olhos arregalados e todos ficaram na expectativa.

— Edward... — Respirei bem fundo. — Tenho duas notícias pra te dar, mas a sua digníssima pessoa tem o direito de escolher a notícia. Quer primeiro a notícia boa ou a ruim?

Ele gemeu de desgosto.

— E a minha digníssima pessoa tem o direito de morrer?

— Só depois de ouvir a notícia.

— Qual é a ruim? — Fitou-me.

— Levaram o puma.

Não tirei os olhos do selvagem enquanto Alice e Jully expressavam surpresa e revolta. O cara ficou quieto, mas perigosamente carrancudo.

— Qual a notícia boa? — Arqueou uma sobrancelha.

— A porta não é de madeira maciça, fique à vontade. — Me afastei um pouco, ouvindo os xingamentos de Emm e Jazz.

(...)

Edward acabou não matando os rapazes ainda, mas os forçou a sair do escritório e explicar melhor a história.

Acontece que os paus-mandados do agiota se ligaram de que o puma valia uma grana alta no mercado negro e confiscaram o animal com a promessa de devolverem o carro. O problema é que no momento não tínhamos nem a lata-velha, nem o animal, e Ed estava a ponto de ter um colapso.

Depois de muito blá-blá-blá, sugeri que fôssemos até o agiota pedir alguns dias de prazo e pegar o puma de volta. Não seria fácil passar a lábia no cara, porém não tínhamos escolha.

Ordenei que Jasper ficasse tomando conta do resort com Jully enquanto eu, Ed, Alice e Emmett íamos pôr o nosso na reta. Só com a cara e a coragem, entramos na Kombi e Emm se dispôs a nos levar até seu “amiguinho”.

Sentada no banco do carona, permaneci calada. Atrás de mim ficaram Edward e Lice, que também não tinham nada a dizer devido às circunstâncias. Às vezes eu olhava de relance para Alice e a pegava encarando o selvagem com indignação. Ele, por sua vez, fingia não perceber.

De repente, ouvimos uma risadinha.

— O que foi isso? — Olhei para trás.

— A Kombi riu? — Lice se assustou e buscou a origem do som. Ela ficou de joelhos no banco e levantou o forro que cobria o porta-malas.

— Ah, cara! Fui pego! — Toby praguejou sendo puxado por Alice.

— Que merda está fazendo aí? — Me chateei.

— Hãm... — Ficou olhando para o teto. — Brincando de esconde-esconde. —Retorceu a boca.

Lice notando o volume na jaqueta do moleque enfiou a mão dentro dela e lhe tomou a revista Playboy.

— Que horrível! — Revoltada, ela passou a espancá-lo com a revista. — Existe um nome pra isso, sabia?

— Puberdade? — Tentou se proteger. — Cara, não sei como isso veio parar nas minhas mãos. — Riu até suas bochechas ficarem vermelhas.

— Droga... Vamos voltar. — Bufei de desgosto.

— De jeito nenhum. Se eu parar essa Kombi não sei se ela vai pegar de novo. — Emmett emburrou.

— Nesse caso, quem concorda em atirar o hematoma-de-baleia pra fora do carro? — Ergui a mão e meus amigos fizeram o mesmo.

— Peraí, gente. — Todo desajeitado, Toby pulou para o banco à sua frente e quase caiu no colo de Edward. — Pra onde nós vamos? Tou com fome. Alguém tem um forra-bucho aí, um doce, um chocolate?

— Fica quieto, pelo amor de Deus. — Pedi morrendo de vontade de abandoná-lo na próxima esquina.

— Ei, T-zed... — Alice atirou a Playboy nele. — Tá aí, enlouqueça. — Chacoalhou as mãos próximas ao rosto pra dar ênfase à sugestão.

Eu pensei que nesse momento teríamos um minutinho de silêncio. Ledo engano...

— Pessoal, deixa eu contar uma parada. E essa vai especialmente pra Bella. — O pancinha estava brincando com fogo. — Era uma vez uma galinha que botou dois ovos, deles nasceram dois pintos, um nasceu sem um pé, foi ciscar e caiu, o outro nasceu entupido, foi peidar e explodiu.

Juro que vi tudo vermelho na minha frente.

— Essa foi a gota d´água! — Gritei pisando no pé de Emmett para obrigá-lo a frear.

(...)

— Achei que nunca chegaríamos. — Lice foi a última a sair da monstrenga e fechou a porta atrás de si.

— Sabe, estou pensando em ficar aqui fora... Só pra vigiar a Kombi. — Emmett se acovardou.

— Pode deixar, esse trabalho é do Toby. — Dei uma batidinha no vidro da janela para provocar o pancinha, o qual estava com boca e mãos envoltas na fita adesiva que encontrei no porta-luvas.  — Não explode, não. A gente já volta. — O garoto grunhiu até ficar vermelho.

Adentramos a pequena loja de penhores sem saber o que esperar. O local era empoeirado e havia eletrodomésticos antigos nas prateleiras fixadas nas paredes. A poucos metros da entrada, encontrava-se o balcão, onde dois grandalhões nos estudavam por trás de seus óculos escuros. Um deles era careca e tinha tatuagens no pescoço, já o outro era negão com pinta de assassino.

— Deixa que eu falo. — Sussurrei, em seguida me direcionei até os supostos meliantes.

— Bom dia. — Sorri tentando ser simpática. — Podemos falar com o dono da loja?

Não moveram um só músculo.

— Como é o nome do agiota? — Lice cutucou Emm.

— Eu sei lá, dizem que se chama Arnold. — Respondeu intimidado. — Um conhecido foi que serviu de ponte entre nós.

— Por favor, dá pra chamar o Sr.Arnold aqui? — Insisti.

Em um ato estranhíssimo, o carecão tirou os óculos escuros e, com olhos arregalados, indagou:

— Duke Doidão?

Confusa, olhei para trás e notei que ele encarava o selvagem.

— Duke Doidão da favela? — O outro cara também tirou os óculos.

Edward imediatamente olhou por cima de seu ombro esperando ver o tal do Duke. Ao finalmente perceber que falavam com ele, fez sua típica cara de perdido.

— Meu irmão, como saiu da prisão? — O negão engoliu em seco.

Ed assumiu à frente para esclarecer o mal entendido, mas os grandalhões se assuntaram, espremendo-se contra a parede, quase derrubando as prateleiras acima de suas cabeças.

— Desculpem, mas...

— Ele não pode contar. — Interrompi o selvagem, apertando seu ombro. — Vocês sabem como é. — Pisquei o olho. — Agora, por favor, podemos falar com o Sr.Arnold?

Receosos, pensaram no pedido por um momento.

— Tudo bem, podem falar com o chefe. Ele está no escritório. — O tatuado Indicou a porta esquerda, bem ao lado do balcão. — Mas vou dar um conselho: Hoje ele está de ovo virado, é melhor não irritarem o homem. É perigoso.

— Pode deixar. — Assenti.

Alice deu uma batida na porta e adentrou o local sendo seguida pelos rapazes. Quando eu também fui entrar no escritório, um dos grandalhões segurou-me pelo braço e tive que encará-lo.

— Moça, só vou dizer uma vez: Corre pra longe do Duke Doidão. Ele não é peça boa. — Sussurrou, e o outro marmanjo fez o sinal da cruz.

Sem entender nada, me juntei à galera.

Lá estávamos nós, dentro do escritório ridiculamente luxuoso porém brega do agiota. Eu me sentia em um filme de gangster, tendo que suportar as cabeças de animais empalhados nas paredes me encararem e a névoa do charuto do homem me intoxicar.

— Bom dia, Sr.Arnold. Me chamo Bella. — Novamente tomei a frente das negociações.

Estava sendo difícil ser simpática com as costas da enorme poltrona. O homem sequer virou-se para nos encarar e eu temi que nossa proposta lhe fosse insignificante. Em cima da gigantesca mesa, havia uma pistola cromada e tomei ciência do risco que corríamos.

— E aí, tudo bem? — Lice tentou usar seu jogo de cintura. — Estamos aqui pra negociar a dívida que temos com o senhor.

— Trouxeram meu dinheiro? — A voz de trovão do homem me fez recuar.

— Infelizmente... Não. — Emmett lutou contra sua covardia. — Mas...

— Então vão embora.

— O puma está bem? — Edward se pronunciou.

— Vão embora. — Repetiu, impregnando ainda mais o ar com sua fumaça.

— A gente vai arranjar a grana, juro. Por favor, nos devolva o puma. — Implorei.

— Eu já disse pra saírem! — Ele gritou e minhas pernas vacilaram.

— Então, tá. Tchau.— Emm tentou fugir e Edward o impediu.

— Tenho certeza de que, se o senhor olhar para nós, vai ver que temos cara de honestos e vai saber que vamos pagar cada centavo. Por favor. — Implorei mais uma vez.

Enchi-me de esperança quando o agiota não recusou imediatamente o pedido.

— Só mais alguns dias. — Lice usou seu tom de voz mais persuasivo.

Surpreendendo-nos, o agiota começou a girar a poltrona lentamente e, por instinto de preservação, dei um passo atrás. Quando o homem finalmente ficou cara a cara conosco, literalmente perdemos a voz.

— Que fofo. — Alice ficou mesmo alegrinha. — É um anão, gente!

Pior que ela tinha razão. O homenzinho moreno não devia ter mais de um metro e vinte. Ele mantinha a sobrancelha arqueada, dentro de seu terninho vermelho berrante.

— Véi, devolve o puma. — Emmett ficou repentinamente corajoso.

— Vamos negociar. — Incrível como a voz do anão era grossa.

— Que bonitinho. — Alice falou fininho como se ele fosse um bebê. — Olha o dentinho de ouro dele. — Gargalhou.

— Olha o bonitinho aqui. — Apontou a arma pra ela e a maluca riu ainda mais.

— Vamos negociar, então. — Precisei intervir. — O que o senhor quer?

O anão desceu da poltrona e ainda armado veio até nós. Ele primeiro me rodeou estudando-me, em seguida, respondeu:

— Tenho uma proposta.

— Deixa eu pegar você, pequetitito. — Lice ria sem medo da morte.

— Eu vou meter uma bala na cara dessa doida, estou avisando. — O agiota resmungou e Emmett teve que segurá-la.

— Qual a proposta? — Edward perguntou.

— Eu quero ela. — O anão apontou a arma pra mim.

— Odeio a minha vida... — Choraminguei.

De repente, ouvimos uma gargalhada alta e espalhafatosa. Ao viramos na direção do estardalhaço, demos de cara com ninguém menos que o Toby sem as fitas adesivas.

— Que diabo é isso? — Ele apontou para o agiota, debochando. — Se eu soubesse que a gente vinha pra um circo, eu tinha trazido uma pipoca, valeu? Olha a roupinha de viado dele. Faz um truque aí, toco de amarrar bode.

O agiota direcionou a pistola para Toby e Edward precisou se colocar entre eles, dizendo:

— Vamos renegociar.

O tal Arnold analisou o selvagem dos pés a cabeça.

— Duke Doidão da favela?

Edward revirou os olhos, mas antes que pudesse responder qualquer coisa o anão fez sua exigência.

— Eu lhes devolvo o puma e também dou mais alguns dias para me pagarem se a moça aqui topar sair comigo. — Seu dente de ouro cintilou ao sorrir pra mim.

Por incrível que pareça, meus falsos amigos ficaram me encarando à espera de uma resposta.

— Vocês só podem estar brincando! — Me irritei.

— Só uma saidinha, Bella. — Emmett incentivou.

— Eu nunca vou sair com esse pigmeu! — Esbravejei carrancuda.

(...)

— É, foi divertido. — Toby saiu da Kombi batendo a porta.

Edward levou o puma cheio de tranqüilizante para dentro da mansão e meus amigos o seguiram. Quanto a mim, fiquei esparramada no banco do carona, totalmente desolada por causa do encontro que teria em dois dias.

Pois bem, meu ridículo pesadelo estava se tornando realidade...

Logo depois do almoço, fui descansar um pouco em meu quarto e dei por falta das coisas de Edward. Foi fácil concluir que ele voltara a se isolar na casa da árvore por minha causa, mas foi difícil cruzar o jardim e subir na casa para ter outra conversa franca com ele.

Ao adentrar o local, o encontrei desenhando. Não deu pra ver o que desenhava, mas devia ser mais um belo desenho de sua casa em Malaita.

— Oi. — Dei uma batidinha na parede, pois não havia porta.

— Oi, Bella. — Respondeu guardando o desenho em sua agenda.

Eu tinha me preparado para lhe dizer que não havia necessidade dele dormir ali. Planejava ressaltar que nada precisava mudar entre nós e que a cama auxiliar ainda estava disponível, no entanto, o smoking dentro de uma enorme caixa da Hugo Boss desalinhou meus pensamentos.

— O que é isso? — Apontei para a caixa perto dele.

Edward olhou de relance o smoking, em seguida tirou de sua agenda um envelope médio e o estendeu para mim. Abri o envelope e vi que junto com um contive havia também uma carta. Meu amigo gesticulou para que eu seguisse adiante e li a cara com atenção.

Olá, Edward.

Espero que sua viagem tenha sido agradável.

Querido, sei que não tenho o direito de te pedir nada, mas seria uma grande honra e alegria para mim se comparecesse à minha festa de aniversário. Ela estava programada para o final de semana passado, mas como acompanhei desde o início sua pequena jornada no Me Azare, achei por bem adiá-la.

Tendo em mente que seria mais fácil pra você aceitar meu contive se a festa fosse realizada em Orlando, pedi à minha assistente que tomasse todas as providencias cabíveis para transferir a festa de Los Angeles para Orlando. O grande contratempo foi o fato de que o salão de eventos do Continental Plaza Hotel só tinha uma data disponível, então a festa ocorrerá amanhã, às 20h.

Sei que fui precipitada, mas não me perdoaria se não fizesse todo o possível para tê-lo como meu convidado de honra. Por favor, aceitei o convite.

Mandarei alguém buscar você e sua acompanhante às 19h.

Carinhosamente,

Sarah Ryan.

PS: Acredito que o smoking lhe cairá bem.”

Bastante surpresa, sorri ao indagar:

— Vai à festa?

Edward demorou um pouquinho para responder.

— Por que não? Refleti sobre o que me falou outro dia e cheguei à conclusão de que estava certa. É tarde demais para Sarah assumir o papel de mãe, mas podemos ao menos tentar ser amigos.

— Que máximo! — Me empolguei. — Você tem noção das super estrelas de Hollywood que estarão lá? Caramba, o evento sairá em todas as revistas. Será extraordinário conhecer todo aquele povo que a gente só vê pela tela do cinema e da TV. Se o Tom Cruise estiver lá, juro que caio durinha no chão. — Precisei me abanar com o convite. — Alice vai pirar total quando eu contar.

Ao notar o selvagem cabisbaixo demais, meu entusiasmo evaporou, dando lugar ao constrangimento. Vagarosamente virei o envelope e, no canto esquerdo, havia escrito: Edward Cullen e Jullyana Melanie Lewis.

Minha ridícula ingenuidade fez-me acreditar que, por termos passado por altos e baixos juntos, nossa parceria seria mantida. Eu devia ter presumido desde o início que Sarah enviaria o contive para Jully, pois ela e todo o país acreditavam que os dois estavam namorando.

Querendo sumir da face da Terra, engoli a saliva com dificuldade e forcei um sorriso.

— Precisa contar a novidade pra Jully.

— Bella, tenho certeza de que Sarah não se importará se você for.

— Imagina... — Devolvi o convite. — Eu só estava exagerando para você ficar empolgado com a festa. — Cocei a nuca. — Até porque nesse tipo evento se deve levar a namorada e não uma amiga. E Jully é sua namorada, certo? — Senti necessidade de confirmar e ele demorou a responder.

— Certo... — Estalou os dedos da mão. — Mas, Bella...

— Tudo bem. — O interrompi com um sorriso mecânico. — Você só tem que contar logo as boas novas pra Jully, porque ela tem que arranjar algo pra vestir. — Deslocada, evitei encará-lo. — Preciso arrumar uma... coisa. Até mais. — Se eu não saísse logo da casa da árvore, voariam pedacinhos de mim por todo lado.

De volta à mansão, sentei no sofá da sala e procurei recuperar o fôlego. Havia uma dor provocada pela decepção enclausurada em meu peito e por mais que a mandasse embora, ela não ia.

Eu me agarrei à esperança de que minha relação com Edward não mudaria, o problema é que ela já havia mudado. Não foi só porque confessei meus sentimentos, mas também porque agora ele tinha uma namorada.

(...)

Coloquei Lice a par dos acontecimentos enquanto arrumávamos os quartos dos hóspedes. Ela ficou ainda mais revoltada com Edward e precisei salientar que eu só estava deitando na cova que eu mesma cavei.

Quando fomos limpar a suíte do Sr.Bruce, minha prima nos interceptou no corredor e Alice foi logo perguntando:

— Ei, Jully. Você sabe quem é Ashton Kutcher?

— Não. — Ela ficou confusa. — É algum... cantor?

Alice imediatamente me fuzilou com o olhar. Acontece que a maluca considerava Jully indigna de ir à festa, pois ela nunca a desfrutaria como nós. Infelizmente, eu concordava.

— Está tudo bem? — Coloquei o balde com os utensílios de limpeza no chão.

— Estou com um problema. — Minha prima ficou bastante sem jeito. — Eu não tenho nada pra ir à festa de aniversário da mãe do Edward.

— Não diga. — Alice destilou sarcasmos.

— Compra um vestido. — Sugeri.

— Esse é o problema. — Jully baixou o olhar. — Eu não sei como me arrumar para esse tipo de ocasião.

Um enorme silêncio tomou conta do corredor e fui eu quem teve que quebrá-lo.

— Está pedindo nossa ajuda?

Por favor, não. Por favor, não.

— Sim. — Respondeu ruborizada.

— Só um segundo. — Puxei Alice para a suíte e fechei a porta.

— Você não é nem louca! — A esquentada sussurrou apertando meu braço.

— Acha que estou feliz? — Sussurrei de volta. — Edward não pode enfrentar aquelas pessoas malucas de Hollywood sozinho. Apesar de tudo, ele ainda é nosso amigo. Nunca deixamos um dos nossos na mão, lembra? Façamos isso por ele e não por Jully.

Alice refletiu por alguns segundos, então respondeu um sonoro:

— Não.

Ela me abandonou na maior cara de pau e logo depois minha prima adentrou a suíte com olhar de pidona.

— Então?

— Vamos às compras. — O sorriso que precisei dar me revirou o estômago.

(...)

No trajeto de casa até o shopping, coloquei mil obstáculos chegando a usar o trânsito como desculpa para voltarmos. A essa altura já havia me arrependido amargamente de me dispor a ajudar Jully. Por isso, assim que chegamos ao shopping, esquematizei um plano para sabotar a alegria dos nerds. Levei minha prima a uma boutique ridiculamente cara para que a frustração de não poder pagar pelo vestido servisse de combustível para sua desistência.

Enquanto a atendente nos mostrava algumas peças de liquidação, involuntariamente minha consciência transportou-me para a época em que Edward fingia ser meu namorado.

Por mais que tentasse voltar minha atenção para outro assunto, sempre ficava me colocando em seu lugar e consequentemente ficava sentindo remorso por tê-lo usado com propósitos tão baixos. Até pouco tempo, Edward era só um cara meio perdido em uma terra completamente estranha. Ele precisava de amigos, mas na época eu só conseguia pensar em mim e em como tirar proveito dele. Muitas vezes exigi do selvagem mais do que ele podia dar, o colocando em situações embaraçosas só para impressionar o imbecil do Brad.

Poxa... Por que eu não podia dobrar meu orgulho e suportar um pouco do que ele suportou? Ed sempre torceu por mim. Ficou feliz quando eu estava feliz, ficou triste quando eu estava triste. Ele estava vivenciando as experiências que tanto queria, tinha feito sua escolha e, se eu agisse como uma hipócrita ciumenta e egoísta, eu não seria melhor que McFadden.

— Esquece esses vestidos liquidação, Jully — Respirei fundo pra afastar qualquer sentimento mesquinho. — Você tem que ficar absolutamente linda amanhã, por isso vamos arregaçar as mangas pra que isso aconteça.

— Mesmo? — Desajeita, ela seguiu-me pela loja enquanto eu caçava o vestido perfeito.

Por cerca de uma hora e meia, minha prima experimentou as peças mais bonitas da loja, mas foi um vestido acetinado azul escuro que mais combinou com seus olhos e pele. O decote em V era comportado, porém a abertura nas costas ia até quase a cintura, deixando-a sensual na medida certa.

— Você pode pagar por ele? — Perguntei recolocando a peça no cabide.

— Vou precisar parcelar em dois cartões.

Rimos juntas.

— Pode deixar, vou espernear por um desconto. — Entreguei-lhe o vestido.

(...)

Ao chegar em casa, ajudei Alice a servir o jantar dos hóspedes e mandei a estoniana desequilibrada vazar, pois ela não parava de tagarelar coisas que eu não entendia.

Eu estava louca para dormir porque ainda não tinha me recuperado completamente do porre de vinho, só que alguém precisava limpar a piscina. Ao terminar a tarefa, joguei-me em uma espreguiçadeira e depois disso não lembro de mais nada, exceto acordar em minha cama às 6:15h da manhã.

De volta à rotina do resort, após servimos o café da manhã, Alice, Jazz e Emmett saíram com os hóspedes. Eu fiquei para trás, pois não queria me estressar com a maldita Kombi.

Por volta das 8:30h, o telefone tocou e era ninguém mais ninguém menos que Sarah Ryan. Imediatamente levei o telefone sem fio para Edward, que se encontrava perto da piscina com o puma. Ele agradeceu a gentileza e voltei para a casa.

Terminei minhas tarefas da manhã mais cedo do que esperava e fui para a piscina, só que o selvagem já não estava lá. Jully, vendo-me desocupada, veio me mostrar o par de brincos que pretendia usar na festa. Sentamo-nos nas espreguiçadeiras e tentei lhe dar atenção, só que não conseguia tirar os olhos do Mercedes preto estacionado em frente à mansão.

— Aquele não é o carro da Sarah? — Questionei.

Antes que minha prima pudesse desmistificar a questão, Edward veio até nós.

— Oi. — Nos cumprimentou com um breve sorriso.

— Sarah veio te visitar? — O encarei.

— Na verdade, eu é que vou visitá-la.

— Sério? — Não consegui disfarçar a surpresa.

— Tenho um assunto de grande importância a resolver, então aceitei o convite de passar o dia com ela. Voltarei quando anoitecer.

Como não esperava essa súbita aproximação dos dois, apenas falei:

— Divirta-se. — Sentia como se ele estivesse me deixando por fora de algum fato importante.

Edward se despediu com um aceno de mão e se foi.   

Durante a tarde, me empenhei em cumprir minha promessa. Fiquei um tempão queimando acidentalmente meus dedos na droga do babyliss só para modelar cachos nos cabelos de Jully. Prendi os cachos com grampos e lhe fiz um penteado simples.

Entre uma cerveja e outra, maquiei minha prima da melhor forma possível. Ela ficou quase o tempo inteiro calada, quanto a mim, também não tinha muito a dizer.

Quando a noite caiu, finalmente lhe ajudei a colocar o vestido. A garota ficou exatamente como eu prometi: absolutamente linda.

— Uau... Essa sou eu? — Ela murmurou de frente para o espelho.

— Eu é que não sou. — Brinquei sem querer.

— Muito obrigada, Bella.

— Me promete uma coisa? — Suspirei.

— Qualquer coisa.

— Não conta pro Ed que fui eu que te ajudei, tá? — Não queria pousar de vitimazinha, não era minha praia. Eu só queria que ele tivesse a noite que merecia.

Intrigada, Jully estudou minha expressão por um breve momento e me afastei com a desculpa de arrumar a bagunça que fizemos.

(...)

Já eram quase 19h quando, exausta, desci as escadas e fui direto para a sala. O problema é que não esperava encontrar Edward lá, impecavelmente lindo no smoking. Ele combinava tanto com o traje quanto eu com o azar. Seus cabelos estavam bem penteados e a barba feita.

— Alice me ajudou com a gravata. — Ele disse, exalando um cheiro muito gostoso.

— Desculpa ter apertado demais naquela hora. — O sarcasmos dela me fez supor que havia tentado estrangulá-lo.

— Está elegante, Ed. — Elogiei levemente desconcertada.

— Obrigado. — Fez uma longa pausa. — Como foi sua tarde? — Perguntou por educação.

Só o que me faltava. Agora vamos nos tratar com essa estúpida formalidade?

— Boa.

— Que bom.

Atrás do selvagem, Alice fingiu que sua mão era uma arma fogo e atirou na própria cabeça.

— Realmente boa. — Repeti, me perguntando se Lice me emprestaria sua arma imaginária.

Ao ouvir passos na escada, me dei conta de que Jully estava chegando e resolvi me retirar pra não me torturar à toa.

— Vamos resolver aquela parada lá no escritório? — Encarei minha amiga.

— Que parada? — Ela arqueou uma sobrancelha.

— A parada. — Murmurei por entre dentes.

— Hein? — A dissimulada queria era ver como Jully ficou.

— Te espero lá. Divirta-se na festa, Ed.

Passei por ele e invadi o escritório fechando a porta atrás de mim. Imediatamente levei a mão ao peito, deslizando lentamente até cair sentada no chão.

Outra vez, como uma sina, teria que levantar dali e seguir adiante sem ficar me martirizando por não ter valorizado Edward quando ele ainda não tinha se envolvido com ninguém.

Eu precisava aprender a conviver com minha paixão platônica, pois eu sabia que um dia... Um dia eu seria amada como merecia e, por mais que a vida me provasse, jamais perderia a esperança.

(...)

Como Emmett ainda estava com dor de cotovelo, saiu para tomar umas cervejas com Jasper, mas prometeu que não demoraria.

Sem opções, fiquei empoleirada no sofá da sala com Alice. O canal Romance exibia uma maratona com os melhores filmes de romance dos anos 90 e, claro, não podiam faltar alguns trabalhos da queridinha da América: Sarah Ryan.

Por incrível que pareça, as peripécias da mocinha do filme levantaram um pouco meu astral. Sarah sempre ficava hilária em comédias românticas e os finais felizes alimentavam a esperança de garotas naturalmente azaradas como eu.

Quando o filme acabou, já eram quase 21h e Lice caíra no sono sem que eu percebesse. Desliguei a TV e deixei a dorminhoca sozinha para realizar minha última boa ação.

Com vassoura e lanterna na mão, subi na casa da árvore para tirar a poeira e as folhas que acumularam durante o final de semana. Como o selvagem não ia mais ficar em meu quarto, que ao menos a casa da árvore estivesse limpa o suficiente para se dormir.

Determinada a não demorar mais do que 5 minutos ali, coloquei a lanterna em um canto de parede e comecei a varrer. Confesso que enquanto empurrava as folhas porta afora, meus olhos permaneceram fixados no lado da casa onde o selvagem dormia, mais precisamente em sua mochila.

Nunca havia bisbilhotado seus pertences, só que estar sozinha com eles era tentador demais. Não conseguia parar de imaginar o que ele guardava ali e se havia algo que me faria compreendê-lo melhor.

Em um ímpeto, larguei a vassoura, peguei a lanterna e resolvi dar uma espiada.

Ergui a pesada mochila pela alça e, com a lanterna na boca, comecei a vasculhar um dos muitos bolsos. Encontrei alguns objetos de uso pessoal, nada de incomum, isso até partir para outro bolso e achar dois grossos maços de notas de 100 dólares. Estupefata, olhei para o dinheiro me perguntando onde o “Sr. antimaterialismo” conseguira aquela grana.

Confusa, continuei vasculhando o bolso e achei um extrato de banco. Apontei a lanterna para ele e vi que o dinheiro havia sido sacado de uma poupança no nome de Edward naquele mesmo dia. A partir daí, o que me deixou embasbacada nem foram as notas de 100, e sim o saldo da poupança. Acontece que o selvagem era um riquinho e nunca contara absolutamente nada para nós.

— Que droga, agora é que Jully nunca mais vai largar o osso. — Sem saber direito o que pensar, coloquei o dinheiro e o extrato de volta no lugar.

Ao abri o zíper principal, fui logo puxando uma camiseta que estava atrapalhando a busca, só que tinha algo preso nela e só percebi isso quando uma pasta preta caiu no chão espalhando alguns papéis.

Imediatamente larguei a mochila e me ajoelhei, pousando a lanterna no chão para recolocar os papéis na pasta, no entanto, o que vi roubou-me o fôlego e os movimentos.

Fiquei um tempo apenas olhando para os desenhos de Edward, então comecei a espalhá-los pelo chão, formando um grande leque à minha volta.

Era uma dezena... Não, algumas dezenas de desenhos do meu rosto de todos os ângulos e com diversas expressões. No rodapé das páginas havia datas e percebi que os desenhos do começo do mês não pareciam muito comigo. O cabelo e alguns traços faciais de fato eram meus, porém não me enxergava ali.

Com atenção, fui acompanhando as datas e fiquei extremamente surpresa ao notar que conforme os dias iam passando, Edward se aproximava cada vez mais de minha real imagem e seus desenhos tornaram-se mais elaborados.

Hesitante, peguei o último desenho feito e o analisei. Tive dificuldades em aceitar que aquela mulher linda era eu. Sua cabeça estava um pouco inclinada para a direta e, com um sorriso, ela tentava tirar algumas mechas de cabelo que cobriam seu olho esquerdo. Os traços e sombras do retrato beiravam a perfeição. Nenhum detalhe foi esquecido, tornando aquele desenho o mais impressionante que já vi na vida.

Com cuidado, coloquei o desenho no chão e, ainda perplexa, cobri a boca com as mãos, questionando-me:

O que isso significa?

Ninguém poderia me dar uma resposta, exceto o próprio Edward. Por que razão ele havia me tornado sua musa?

Cansada de decepções, preferi não fazer suposições precipitadas. Infelizmente, ninguém consegue mandar no coração e, de dentro dele, brotou um imenso sorriso de satisfação.

Com os olhos brilhando, fiquei apreciando os desenhos sem tocá-los. Todas as minhas facetas estavam presentes, desde a Bella infeliz à brincalhona. Da garota turrona que ele conheceu no início do mês à companheira que arriscou a própria vida para salvá-lo.

Contendo a empolgação, voltei a olhar para a mochila e avistei a agenda de Edward. Muitas vezes o flagrei fazendo anotações, mas nunca a curiosidade me levou a perguntar-lhe o que escrevia.

Sem querer desperdiçar a chance, estiquei o braço para tirar agenda de dentro da mochila e, quando as pontas dos meus dedos tocaram-na...

— BELLA!

Sobressaltei com o grito de Alice.

— Bella, você está aí? — Ela continuou berrando ao pé da árvore. — Desce daí. A mãe do T-zed está aqui.

— O quê? — Nervosa, rapidamente guardei os desenhos de volta na pasta e a enfiei dentro da mochila. — Já estou indo! — Fechei a mochila e peguei a lanterna.

Toda atrapalhada, desci as escadas e dei de cara com a estonteante Sarah Ryan, a qual trajava um vestido vermelho belíssimo.

— Está tudo bem? — Ofeguei, afinal ela não devia estar ali. — O que aconteceu com o Edward?

— Ele está bem. — Sorriu simpática. — Ainda está no Plaza.

Lice e eu trocamos um olhar, sem entender absolutamente nada.

— Feliz aniversário. — Falei sem jeito e cutuquei minha amiga.

— Feliz tudo. — Alice apertou a mão da super estrela.

— Por favor, não se ofenda, mas por que está aqui? — Fui direito ao ponto.

— Vim me desculpar por não tê-las convidado formalmente para minha festa, então espero que convidá-las pessoalmente conte a meu favor.

Ficamos olhando para Sarah, como nossas típicas caras de otárias.

— Você está brincando, né? — Murmurou Lice.

— Mas nem nos conhece... Direito. — Franzi o cenho.

— Muito obrigada, estou aceitando o convite. — Minha amiga apertou novamente a mão da mulher.

— Não, não... Desculpa. Sei que Ed pediu que fizesse isso, mas realmente não precisa. Ficamos lisonjeadas, só que é melhor a senhora voltar para sua festa. — Fui o mais educada possível.

— Em primeiro lugar, ele nem sabe que estou aqui. Em segundo lugar, estou ficando um ano mais velha, então se me chamar de senhora outra vez, vou começar a ter convulsões de desespero. Juro.  — Fez uma pausa para desligar o celular que a interrompeu. — Edward me falou bastante de vocês hoje. Seria ótimo se pudessem se juntar a nós.

— T-zed falou de nós? — Alice estranhou.

— Sim...  — Sarah sorriu pra mim. — Especialmente de você, Bella.

Oh, meu Deus, ela decorou meu nome? Que diabos o cara falou?

— Que interessante. — Lice me encarou, já maquinando.

— Ainda não são nem dez horas, vamos aproveitar o resto da noite. — Sarah insistiu.

— Não vai dar mesmo. Não temos nem o que vestir. Fica pra próxima. — Sugeri.

Sarah colocou as mãos na cintura, estudando meu corpo de um jeito super estranho.


(...)

Meu pai costuma dizer que tudo que fazemos de bom ou ruim nessa vida volta em dobro para nós. Depois do meu dia com Jully, começava a entender essa “lei” universal.

Assim que as portas do elevador do Continental Plaza se abriram, ergui a cabeça e, com esforço, saí do elevador acompanhada por Alice e Sarah. Nós havíamos acabado de sair do quarto da atriz.

Se eu contasse, dificilmente alguém acreditaria, mas eu estava usando um dos vestidos de minha ídola. Era um Versace em tons de bege e pêssego. O tomara que caia com lindas camadas entrelaçadas era tão justo que fazia minha cintura parecer fina e elegante. Abaixo do quadril, o vestido se expandia em uma cascata de camadas irregulares que iam até a pequena calda. Quanto às sandálias, eram altíssimas e intimidavam. Mesmo ficando um pouquinho apertadas, calcei-as rezando com fé pra não pagar nenhum mico.

A mãe de Ed também me emprestou uma bolsa Ferragamo e jóias Van Cleef. Na verdade, eu não conhecia bem essas marcas, mas pela cara de espanto que Alice fez... O importante é que a bolsa era num tom bem próximo do cobre e os brincos de diamantes eram longos, tornando dispensável o uso de colar.

Juro que fiquei abobalhada quando a própria Sarah prendeu meu cabelo rapidinho em um coque propositalmente desarrumadinho. Ficou muito legal e descolado. A maquiagem eu mesma fiz às pressas. Usei sombra escura, bastante lápis preto e rímel. Para não ficar com o rosto carregado, nos lábios passei apenas um gloss rosado muito sutil.

Atravessamos o suntuoso hall do hotel cinco estrelas com um pouco de pressa e seguimos para um corredor largo que nos levaria ao salão de festas. Eu estava tão nervosa que nem prestei muita atenção ao hotel. Até Alice, que sempre é tagarela, ficou muda de apreensão.

Cara, a maluca estava linda! Seu vestido preto possuía alças finas e um bordado magnífico no busto. A barra de seda ondulava enquanto ela caminhava. Quem não a conhecia podia jurar que ela também era uma celebridade. Ainda assim, Lice não estava dando a mínima para o vestido. Ela queria era cair na gandaia e, se fosse preciso, viria à festa até com roupas feitas de saco.

Quando finalmente chegamos à entrada do salão, minhas mãos começaram a produzir um suor frio. Eu não sabia o que esperar.

— Não se preocupem, barrei a entrada da impressa. Só convidei alguns amigos e mesmo assim nem todos puderam vir. — Sarah tentou nos acalmar, cumprimentando os seguranças à nossa frente com um sorriso.

— Por gentileza. — Um dos seguranças abriu as portas e Alice “partiu pro abraço”.

Esperei Sarah atravessar as portas e logo em seguida adentrei o local.

Estagnada entre duas enormes colunas, não consegui descer os poucos degraus que se opunham à minha frente. Apertando a bolsa com força, embasbaquei diante do pomposo salão.




O piso era revestido de mármore e o espaço contava com doze colunas. Apensar dos lustres de cristal colocados em pontos estratégicos para valorizar o ambiente, o que chamava a atenção era a cúpula dourada que descia do centro do teto.

Pelas imensas vidraças do lado esquerdo do recinto, se podia ver a piscina iluminada. A decoração gritava requinte desde as mesas com arranjos florais e toalhas de linho ao buffet digno de muitos elogios. Já no final do salão, a banda ditava o tom da festa, fazendo com que os convidados praticamente flutuassem sobre a pista de dança abaixo da cúpula.

Os “poucos” convidados de Sarah, na verdade, passavam dos 200. Rostos conhecidos e desconhecidos davam vida ao lugar em seus trajes Black-tie, fazendo-me sentir em uma festa do Oscar.

 — Não faz essa cara de caipira. — Lice cochichou em meu ouvido.

— Meninas, já encontro vocês, preciso muito retornar uma ligação. Por favor, fiquem à vontade. — Sarah sorriu e praticamente foi arrastada pelo que pareceu ser sua assistente.

— É isso aí, vamos encontrar o seu princeso e agitar. — Lice deu uma dançadinha, fazendo cara de que ia tomar todas.

Respirei fundo, ergui um pouco a barra do vestido e desci os degraus, deixando a maior parte da insegurança para trás.

Segui Alice “cegamente” e serpenteamos pelo salão mantendo a pose necessária, mas por dentro berrávamos de empolgação a cada celebridade que reconhecíamos.

Nunca possuí uma beleza óbvia. Nunca me destaquei na multidão e a sorte nunca foi minha melhor amiga. No entanto, contrariando a expectativa de muitos, eu estava ali, pilhando olhares de homens elegantes e despertando admiração em algumas mulheres.

O que fazia de meu sorriso uma declaração sutil de confiança não era o vestido caro, ou as jóias exclusivas, mas sim a inquestionável sensação de que eu estava no lugar certo, na hora certa.

Alice e eu vagamos pelo salão por mais alguns minutos, até que, de longe, reconheci a silhueta de quem eu buscava. Edward, por algum motivo, estava sozinho diante de uma vidraça observando a piscina. Parecia alheio à multidão atrás de si.

Por minha amiga estar entornando uma taça de espumante, não viu o mesmo que eu. Não consegui lhe alertar, porque meus pés moveram-se automaticamente por sobre uma linha invisível que aos poucos foi me aproximava de Edward. Algumas pessoas passaram por mim, mas meus olhos não perderam o foco.

A poucos passos de Edward, minha mente trouxe à tona lembranças dos desenhos onde minhas muitas facetas estavam retratadas. Com a memória fresca aumentando o ritmo de minhas batidas cardíacas, parei a uns 4 passos dele e pensei no que falar. Antes mesmo que eu conseguisse juntar palavras, talvez sentido alguém parado atrás de si, ele virou-se lentamente e me viu.

Seu peito inflou ao inspirar, mas não expeliu o ar, mesmo com os lábios entreabertos. Com a sobrancelha esquerda levemente arqueada, não conseguiu esconder a surpresa e finalmente soltou todo o ar contido. No segundo seguinte, seus olhos me esquadrinharam, contemplando-me da cabeça aos pés.

Novamente apertando a bolsa, dei um passo hesitante, depois outro, e assim continuei até ficar a centímetros de Edward. Ele piscou vagarosamente os olhos e finalmente sorriu torto, como se nem soubesse o que perguntar primeiro.

Involuntariamente umedeci os lábios, em seguida, obriguei-me a retribuir o sorriso na mesma proporção. Ele, por sua vez, balançava a cabeça, rindo sem produzir som algum. Em resposta, meu sorriso se expandiu, fazendo-me inclinar a cabeça um pouco para trás.

— Como? — Ele indagou.

— Sua mãe.  — Dei de ombros.

Edward franziu o cenho, mas não fez nenhum comentário. Logo sua expressão suavizou e voltou a sorrir.

— Alguém tem uma caneta aí? — Alice chegou segurando duas taças de espumante. — Só vou sair daqui quando o Ashton Kutcher autografar o meu traseiro.

A essa altura era difícil saber se ela estava só brincando.

— Alice? — O selvagem se surpreendeu ao vê-la.

— Não, é o tal pintinho que explodiu na ridícula piada do Toby e veio ciscar aqui pra te assombrar. — Empurrou uma taça para mim. O selvagem riu e eu fiz careta.

Não tive tempo de mandar minha amiga calar a boca, pois avistei Jully caminhando a passos largos em nossa direção. Ela provavelmente vinha do banheiro e devia voltar pra lá para se recompor, pois sua expressão de espanto ameaçava deixar-nos constrangidos.

— Olha só, sempre chegando de surpresa. — Ela tentou esboçar um sorriso, mas ficou tão decepcionada quanto no dia em que aparecemos em Miami.

— Pois é, Sarah praticamente nos obrigou a vir. Fazer o quê, né? — Alice respondeu por mim.

— Estão bonitas. — Elogiou se colocando ao lado do selvagem.

— Bonitas são minha mãe e minha vozinha acordando de manhã. Nós estamos é espetacularmente lindas! — Lice piscou o olho pra mim e quase sussurrei: Menos, pelo amor de Deus.

— Diz aí, em que mesa estão? — Mudei de assunto.

(...)

A assistente de Sarah encaminhou nós quatro para uma mesa perto do buffet e eu pude relaxar e curtir o ambiente. A anfitriã se desdobrou para dar atenção a todos os convidados, mas ela não deixava de vir à nossa mesa sempre que possível para conversar um pouco.
 
— Por que Emmett e Jasper não vieram? — Ed perguntou.

— Alguém tinha que ficar tomando conta do resort, além disso, Emm bebeu um pouco mais do que devia. — Respondi olhando para o palco. — Espero que não aprontem mais nada.

— Já que tocou nesse assunto... Consegui o dinheiro para pagar o agiota.

Não diga...

— Fomos nós que colocamos a corda no pescoço. Pode deixar que arranjaremos a grana.

— Quando ela fala “arranjaremos”, significa que arranjaremos com você. Muito obrigada. — Lice me fuzilou com o olhar.

Custava ela me deixar “fazer um pouco de doce”?

Quando minha prima começou a usar palavras esquisitas para descrever a arquitetura do hotel, juro que tive vontade de quebrar uma garrafa na cabeça dela. Felizmente, Sarah a interrompeu com sua chegada.

— Já provaram o coquetel de camarão? Eu particularmente adoro. — Sentou-se na cadeira vaga ao lado de Edward.

— Se eu comer qualquer coisa, esse vestido vai explodir. — Ri me referindo ao fato de ser muito justo na cintura.

— Garanto que uma boa parte dos homens presentes não achará isso ruim. — Falou baixinho só pra mim, mas acho que a mesa toda ouviu. Sem saber o que dizer, apenas assenti com um sorriso.

— Sua festa está muito linda, Sarah. — Jully se incluiu na conversa.

— Obrigada. Fico feliz que estejam gostando. — Virou-se para Ed, analisando seu rosto. — Agora está bem mais descontraído, temi que estivesse odiando a festa.

Meu Deus, que Lice não fale nada. Que não fale nada.

— É porque nós chegamos. — Ela disse rindo e eu entornei uma taça de espumante. — T-zed gosta é da zoação.

Sarah achou o que Alice falou tão engraçado que gargalhou alto. Só não bati em minha amiga porque, de certa forma, o que disse era verdade.

A atriz papeou conosco por mais alguns minutos e nos apresentou a alguns de seus amigos. Talvez para não deixar o selvagem desconfortável, evitou apresentá-lo como seu filho. 

Logo que Sarah precisou se retirar, sentei-me em sua cadeira e me inclinei para Ed, surrando:

— Não vai convidá-la para dançar?

— Jully não gosta muito de dançar. — Sussurrou de volta.

— Estou falando de sua mãe. Ela está se esforçando tanto para agradá-lo. Não acha que isso é o mínimo que poderia fazer?

Edward baixou a vista e refletiu por um breve momento.

— Não sei... Além do mais, não danço bem.

— É claro que dança. Não é difícil. Vou te mostrar. — Coloquei-me de pé.



Senti o olhar das garotas sobre mim, mas tentei ignorá-las. Edward, que até aquele momento não estava bebendo, pegou da mesa minha taça e bebeu todo o espumante de uma só vez.

Contendo um sorriso, voltei a ficar nervosa quando ele levantou-se. Sem prestar explicações às garotas, o selvagem caminhou ao meu lado até a pista de dança.

Colocamo-nos embaixo da cúpula, rodeados por casais que desfrutavam a suave canção. Edward ficou parado diante de mim sem saber o que fazer. Então com aquele frio na barriga que nos faz sem querer prender a respiração, ergui a mão direta na altura do meu ombro, dizendo:

— Precisa chegar mais perto. — Com a cabeça, indiquei que ele deveria juntar sua palma à minha.

Guiando-se pela forma como os outros casais dançavam, Ed vagarosamente colocou sua mão esquerda em minha cintura e juntou nossas palmas como eu pedi.

Apesar da postura de valsa, apenas nos movemos de um lado para o outro bem devagar, no ritmo da música.

— Tem razão. Não é difícil. — Ele murmurou com os olhos fixos nos meus.

Sem ter o que o dizer, mordi suavemente o lábio inferior lutando contra o impulso de prender a respiração. 

— Não consegue respirar direito com esse vestido? — Edward apertou um pouco minha cintura e esse simples ato mexeu com meu interior.

— Hahãm.

— Obrigado por vir. — Havia muita sinceridade em sua voz.

— Às vezes coisas inesperadas simplesmente acontecem.

— Eu sei. — Sua mão subiu pelas minhas costas.

— Edward... — Fechei os olhos buscando coragem pra falar. — Não quero perder sua amizade.

— Eu também não. — Respondeu em um gemido. — Sinto saudades. — Sabia que se referia a como éramos antes de Miami.

— O que faremos? — Voltei a lhe fitar.

— Não sei... — Roçou os dedos em minha bochecha ao afastar uma mecha de cabelo que escapara do coque. — Que tal sermos só Edward e Bella?

Tentei ler seus olhos. Neles havia receio, melancolia e algo mais... Algo que não conseguia definir.

— E quem são esses? — Meus dedos foram derrapando por seu ombro.

— Dois indivíduos propensos a se distanciarem por causa das diferenças..., mas que adquirem afinidades ao tentar ajudar o outro.

— Sendo assim... — Meu sorriso tremeu sutilmente. — Acho que quero ser “Edward e Bella”.

Paramos de dançar e um milhão de coisas não ditas foram caindo ao chão conforme ele colocava as mãos em minha cintura. Edward simplesmente me pressionou contra si e colou a testa na minha. Havíamos feito isso antes de saltarmos do penhasco e mais uma outra vez quando ele foi para a TVK pela primeira vez.

— Obrigado. — Murmurou rouco.

Naquela hora desejei beijá-lo, pois seu hálito era muito convidativo. A distância entre nossos lábios era tão curta... Contudo, havíamos acabado de nos acertar e eu não ia estragar as coisas.

Com delicadeza, me afastei e voltamos a dançar. Agora havia uma liberdade maior e não precisávamos mais nos reprimir. A sensação de estar “pisando em ovos” foi desaparecendo e a noite se tornou ainda melhor.

Ainda guiando-se pelos outros casais, Edward segurou minha mão e me girou com certa elegância, em seguida, voltou a colocar a palma em minha cintura.

Para quem não tinha o hábito de dançar, ele estava se saindo muito bem.

— Acho que está pronto para convidar sua mãe.

O selvagem gemeu retorcendo a boca.

— Precisamos voltar para a mesa agora?

— Não. — Respondi com uma risada. — O que quer fazer?

— Vamos fazer seu vestido explodir. — Puxou-me pela mão.

— Hã?

Fomos direto para a buffet e ficamos beliscando uma delícia e outra. Edward aproveitou para me perguntar quem eram os convidados que Sarah nos apresentou. Dois ou três eu não conhecia nem de vista, mas os outros eram diretores e produtores com quem ela costumava trabalhar.

Quando fomos para o final da mesa, não conseguimos mais sair de lá, pois ficamos gargalhando em frente a uma escultura de gelo. Só que não era uma escultura qualquer, era replica perfeita de Davi de Michelangelo.

— Muito apropriado. — Disfarçadamente tapei a boca para não rir alto. — E deprimente. — Fitei a genitália minúscula da escultura.

O selvagem riu tanto que quase engasgou com o espumante.

— Não ria alto, Alice pode querer vir aqui e vai acabar colando a língua na droga da escultura. — Pedi baixinho.

Como o selvagem sabia que ela era mesmo capaz de fazer isso, riu ainda mais.

— É melhor sairmos daqui.

Caminhamos lado a lado pela lateral do salão. De repente, pisei acidentalmente na barra do vestido e me desequilibrei. Felizmente, Ed segurou meu braço e evitou um desastre.

— É melhor prevenir do que remediar. — Ofereceu seu braço direto para que eu me apoiasse.

— Se você diz... — Aceitei a oferta e pude caminhar com mais tranqüilidade.

Vários minutos se passaram até eu voltar a insistir para Edward convidar sua mãe para dançar.

— Acho que está mesmo na hora convidá-la. — Ele se mostrou decidido, porém, relaxado.

Sarah estava a uns cinco metros de nós conversando com um casal.

— Ok, mas espere meu sinal.

— Que sinal?

— Você vai saber. — Pisquei o olho ao deixá-lo.

Antes de volta à mesa, passei pelo palco e consegui trocar uma palavrinha com o vocalista.

Acreditei que teria que enfrentar uma Alice sorridente e uma Jully irritada, mas nenhuma delas estava na mesa. Olhei à minha volta e não encontrei nem rastro das duas. Com medo do que aquilo podia significar, sentei em uma cadeira e esperei.

Pouco tempo depois, a banda começou a tocar Total Eclipse of the Heart. Meu amigo não deixou de reconhecer o sinal e caminhou lentamente até sua mãe. Ela havia se distraído com a música, talvez recordando o passado.

Abri um largo sorriso ao vê-lo convidando Sarah para dançar, mas meu sorriso até pareceu fraco diante do dela. Minha ídola ficou simplesmente radiante e, claro, vibrei por dentro.

Enquanto os observava na pista de dança, fiquei tentando imaginar o que se passava pela cabeça deles.

Edward me contara uma vez que Sarah sempre cantava Total Eclipse of the Heart quando ele era criança. Devia estar sendo emocionante para ela dançar com seu filho já adulto.

O que Edward estaria sentido? Seria ele capaz de ficar alheio àquele momento tão especial? Não era possível que tivesse o coração de pedra a ponto de não se comover com sua mãe tentando conter o choro. Até eu fiquei com os olhos úmidos.

Sarah cochichou algo no ouvido do filho. Talvez outro pedido de perdão, talvez uma palavra de carinho... Seja lá o que tenha dito, a fez verter algumas lágrimas e abraçá-lo.

Inicialmente Edward não retribuiu o abraço. Ele ficou um pouco sem jeito, mas graças a Deus acabou por colocar as palmas nas costas de sua mãe, confortando-a.

Até pouco tempo me arrependia constantemente de ter inscrito o selvagem no Me Azare. Foi uma idéia muito estúpida, mas por causa dela meu amigo reencontrou sua mãe. Pela primeira vez, senti orgulho das trapalhadas que nos levaram até ali.

Mais do que contente, levantei da mesa e resolvi procurar por Lice. Temia que a maluca estivesse com as mãos no pescoço de minha prima. Como não a encontrei no salão nem no banheiro, parti para a área da piscina.

A colossal piscina era cercada por espreguiçadeiras e velas flutuantes iluminavam a água. Perto dali, havia um jardim e mesas com guarda-sol se espalhavam pelo gramado. Alguns convidados desfrutavam de drinks no bar próximo às mesas.

Desconsiderando a possibilidade de Alice estar matando minha prima, seguia para o jardim. A conhecia desde criança, por isso sabia que se ela não estava no bar, só havia um lugar ali onde podia estar.

Atrás das mesas vazias tinha uma parede de arbustos bem cuidados. Afastei alguns arbustos e, com dificuldade, atravessei a parede. O local estava escuro e mal dava para ouvir os sons que partiam do salão e do bar.

— Alice? — Chamei ao enxergar duas silhuetas a uns três metros de mim. 

Mesmo temendo estar atrapalhando um casal qualquer, dei alguns passos à frente e vi um homem escapando pelos arbustos. Não deu para ver o rosto dele, já estava muito escuro.

— Puta que pariu, Bella. — Lice xingou vindo ao meu encontro.

— O que está fazendo? — Me bateu uma crise de riso.

— Posso beijar em paz nessa vida? Também sou gente.

— Era alguém famoso, sua safada? — Embasbaquei.

— Mistério, minha amiga, mistério... — Limpou o queixo que estava sujo de batom.

— Cadê Jully?

— Saiu da mesa com cara de pouco amigos quando você beijou o T-zed.

— O quê? — Arregalei os olhos. — Não nos beijamos.

— Não? Pelo ângulo que vimos parecia que sim.

— Droga! Só encostamos as testas.

— Xi... Ela ficou mesmo magoada. Deixa a chata acreditar que se beijaram.

E agora? Como eu ia explicar o mal entendido?

De repente, ouvimos vozes conhecidas e paralisamos.

— Shh... — Fiquei alerta.

— Essa voz é do T-zed. — Lice sussurrou.

Sem mexer nos arbustos, ficamos paradas perto de onde acreditávamos virem as vozes.

— Desculpe-me por tirá-lo da festa. Eu precisava muito conversar com você a sós. — Por um momento achei que fosse Jully, mas a dicção era de Sarah.

Não tinha certeza, mas parecia que estavam sentados em uma mesa muito perto dos arbustos, pois ouvimos com clareza.

— Edward, sei que estou extrapolando nos meus pedidos de aniversário, ainda assim, preciso perguntar. Não gostaria de passar seus últimos dias no país em Los Angeles comigo?

Era só o que me faltava...

— Obrigado, mas não. — Ele foi cortês, ainda que decidido.

— Eu meio que já esperava por essa resposta. — Sarah soltou uma tímida risada. — Compreendo seus motivos.

— A família do Sr. Swan e seus amigos têm sido gentis comigo.

— Eu sei, você me contou. São boas pessoas. — Ela voltou a rir baixinho. — Também entendo que é por causa da moça.

Edward ficou em silêncio e Sarah se desculpou.

— Lamento, não estou querendo ser intrometida.

— Tudo bem. Por causa do Me Azare acredito que já saiba o suficiente sobre meu... namoro com Jully.

Coloquei uma mão sobre os olhos para não gemer alto de desgosto.

— Querido... — Ouvi o que pareceu ser um tamborilar de dedos na mesa. — Sabe, muito da minha vida foi construído em cima da ficção. Para muitos, os filmes são meras válvulas de escape e devo admitir que estou incluída nesses “muitos”. Quando abandono uma personagem e meus fãs saem do cinema, tocamos nossas vidas cientes de que o mundo é outro. Nem sempre as pessoas ruins têm o final que merecem. Nem sempre o tempo pode ser compensado. — Ela suspirou e tive certeza que se referia aos anos que desperdiçou longe do filho. — E nem sempre as pessoas certas permanecem ao nosso lado. Você terá algumas oportunidades únicas em sua vida. Por favor, não as desperdice.

— Não desperdiçarei.

— Vou ser mais clara. Espero que perdoe minha franqueza. — A voz de Sarah soou compreensiva. — Já fui muitas mulheres em uma única vida e é com toda essa bagagem de experiência que te digo: está com Jully à toa, pois não é dela que você gosta. Até um cego enxergaria a forma como fica perto de Bella.

 Alice apertou meu braço e fiquei totalmente sem ação. Provavelmente, o selvagem também.

— Err... Bella e eu somos só amigos. — Senti desconforto em seu tom de voz.

— Edward, há tanto sinais... — Sarah riu delicadamente. — Os reconheço porque adoro essa “pequena magia” dos sinais. Por exemplo, hoje quando estávamos na sala de espera do banco, te perguntei como estava sendo sua estadia em Orlando. Contou-me sobre de seus amigos com tranqüilidade, mas ao falar de Bella, passou a estalar os dedos das mãos, igualzinho a seu pai quando fica nervoso. No início da noite, você estava muito entediado. Jully conversou sobre assuntos relativamente interessantes, no entanto houve momentos em que parecia que você ia tapar os ouvidos. Querido, depois que Bella chegou, seu semblante se transformou. Eu os vi dançando. A forma como a olha e a toca é completamente diferente de como olha e toca Jully.

A falta de resposta do selvagem quase me fez ter um aneurisma. A tensão no ambiente subiu a níveis absurdos.

— Desculpe, não quero deixá-lo constrangido. — Sarah parecia se sentir mal por isso.

Fechando os olhos, eu sussurrei baixíssimo:

 — O que você sente?

Não sei dizer o que motivou Edward, não sei o quão difícil foi para ele, mas simplesmente falou:

— Sinto... Uma coisa. Algo... difícil de descrever. — Pude ouvir um grunhido inquieto.

— A moça está apaixonada. Isso se vê há quilômetros de distância. A meu ver, o sentimento é recíproco. — Sarah disse mansinho.

Agora sabia de onde ele tinha herdado o lado observador.

— Não posso estar... apaixonado. — Parecia que consegui vê-lo franzindo o cenho e baixando a cabeça. — Jully e eu somos compatíveis. Isso é...

— Desculpa interromper... Só que as pessoas que considero compatíveis comigo são aquelas que eu adoro ficar perto. Querido, imagino que esteja sendo muito difícil pra você reconhecer algo que nunca sentiu. Algo que nunca presenciou. Meu Deus, deve estar tão confuso. — Ouvi o ranger de uma cadeira, talvez Sarah tivesse se aproximasse do filho. — Sei que Carlisle te educou de forma extraordinária, mas isso que está sentido não se aprende através de livros. Acredite em mim, literalmente vivo de romance. Estar apaixonado e, principalmente pela primeira vez, é confuso mesmo. Ficamos nervosos, com medo, cometemos erros... Parece que somos sugados pelo olho de um furacão. É conturbado e maravilhoso. Sente tudo isso?

— Sim. — Ele murmurou.

Coloquei a mão no peito com medo de todos estarem ouvido as potentes batidas do meu coração.

— Então por que, querido? Por que escolheu ficar justamente com Jully?

Outra maré de silêncio.

— Eu não sei... Quando não uso a razão, chego a pensar que talvez seja porque Jully não parece em nada com Bella. Porque ela não me deixa simplesmente louco e vibrante quando está perto e quando está longe. Porque... não me faz querer ter outra vida. — Soltou um suspiro alto. — Uma vida que nem eu nem Bella poderíamos manter por muito tempo.

— Precisa contar a Bella o que sente. Está sendo injusto com você, com ela e com Jully. Uma vez li: A verdade se corrompe tanto com a mentira quanto com o silêncio. Estar omitindo o que me confessou é estar corrompendo a verdade. Entenda que tenho a obrigação de lhe dizer que pouquíssimas vezes na vida nos apaixonamos pra valer. Dispense os subterfúgios.

— Tem razão. — Gemeu. — Obrigado por...

— Não agradeça. Só espelhei o que no fundo você já sabia, então não perca tempo, vá atrás dela. Vá!

— Com licença.

— Toda. — Ela riu baixinho.

Nervosa e absorvendo lentamente tudo que foi dito, abri a boca para gritar por ele, só que Alice imediatamente tapou minha boca.

— Vai pegar muito mal sermos flagradas ouvindo escondido. — Cochichou em meu ouvido. — Vem comigo. — Puxou-me pela mão.

Corremos até o final dos arbustos e tentamos sair deles sem danificarmos os vestidos. Assim que atravessamos a parede, olhei na direção das mesas e já não havia ninguém lá.

— Essa ala do hotel é enorme. Vamos nos dividir e procurar o T-zed. — Alice estava com um sorriso de orelha a orelha.

— Tudo bem, se o encontrar não o largue! — Minhas mãos voltaram a suar.

— Vai dar tudo certo. — Mostrou os polegares antes de caminhar às pressas para o salão.

Por vários minutos perambulei por entre os convidados, até avistar uma silhueta muito parecida com a de Edward à beira da piscina. Só não corri até lá porque meu salto não permitia, mas felizmente o alcancei em pouco tempo e toquei-lhe o ombro na expectativa de que se virasse para mim.

— Pois não? — O estranho me fitou com curiosidade.

— Desculpa, o confundi com outra pessoa.

Frustrada, me virei. Depois disso, tudo que senti foi minha cabeça pender para direita e minha bochecha arder com o tapa estalado que Jully me deu.
Absolutamente chocada, coloquei a mão na bochecha e a encarei.

— Vou lhe dizer com todas as letras por que fiz isso. — Seu rosto estava fechado em ódio.

Embaraçada, senti o peso do olhar de alguns convidados. Precisei conter o impulso de revidar, pois se fizesse isso íamos acabar nos engalfinhando no meio da festa. Depois de tudo que Sarah fez por mim, preferia morrer a envergonhá-la na frente de seus convidados.

— Vamos conversar em outro lugar. — Pedi.

— Será que não entende, Bella? Não! Não! É claro que não entende. — Falou alto, gesticulando e suando. Ela estava totalmente fora de si.

— Jully, pelo amor de Deus. Vamos conversar lá fora. Vem comigo. — Marchei pela beirada da piscina.

— Por que está fazen...

De repente, o que não podia acontecer, aconteceu. Minha prima pisou na calda do meu vestido e desequilibrei-me completamente, caindo em seguida na água.

Após o breve momento de confusão, emergi desejando com todas as minhas forças que aquilo não tivesse acontecido. Trêmula, nadei até a borda o mais rápido que pude. Sair da piscina só foi possível porque a própria Jully e um convidado me ajudaram, pois a vergonha e o vestido pesavam como chumbo.

Sem coragem de olhar para ninguém, mantive-me de cabeça baixa. Porém saí arrastando apressadamente minha prima pela mão. Deixando rastros de poças de água, atravessamos a área da piscina, passamos pelo salão e rompemos porta afora. Minha fuga desenrolou-se rápido o suficiente para não estragar a festa.

Funcionários e seguranças do Plaza tentaram me barrar quando passei pelo hall principal. Sem parar nem um minuto, os dizia freneticamente que já estava saindo e quando atravessei a saída principal, deixaram-me em paz.

Já passavam das três da madrugada, a rua estava pouco movimentada e nos afastamos da entrada do hotel.

Frente a frente, trocamos um olhar carregado de mágoa.

— O que a fez pensar que tinha o direito de me bater na frente de toda aquela gente? — Bufei de raiva.

— O que a fez pensar que tinha o direito se ser desleal comigo? — Revidou. — Estou cansada de ser calminha, estou cansada de você pisar em mim.

— Jully, juro que não o beijei.

— Por que está fazendo isso comigo? — Começou a chorar. — Por que quer tanto estragar minha felicidade?

— Não quero estragar a felicidade de ninguém. — Amargurada, desfiz o coque.

— Bella, pedi sua permissão para me aproximar de Edward.

— Eu sei... — Vê-la passar aquilo na minha cara doía demais.

— Como pode ser tão egoísta e mesquinha? Você não estava nem aí pra ele. Ficava passando mal por causa de Brad. Só que quando nos viu juntos... — Verteu mais lágrimas. — Não é justo! Só por que agora Edward está todo bonitão e tem uma mãe rica e famosa resolve roubá-lo de mim? Ficou lá em Miami agindo feito uma menininha estúpida e invejosa. Meu Deus, nunca pensei que diria isso, mas eu te odeio!

O vestido pareceu ficar ainda mais justo e agora eu mal conseguia respirar.

— Jully, não estou aqui por inveja. Te garanto isso. Não tenho a menor intenção de te magoar.

— Não é o que parece.

— Sei que fui muito, muito idiota por não valorizar Edward antes... — Meus olhos também ficaram marejados. — Só que eu não posso evitar o que estou sentindo. — Fechei a mão sobre o peito. — Desculpa, mas você está correndo atrás de um trem que já partiu... Embora nem eu, nem ele, tivéssemos consciência disso até pouco tempo.

— Sou perfeita pro Edward de um jeito que você nunca será. — Falou em tom acusatório.

Fechei os olhos por dois segundos e, quando os abri, uma lágrima correu pelo meu rosto. Eu não tinha argumentos, por isso, minha voz ficou presa na garganta e senti uma enorme pressão no tórax.

Jully ficou me encarando cheia de rancor e repulsa, e foi aí que lembrei do que falei para Edward em Miami.

...

— Embora esse garfo nunca, nunca vá ser uma faca... — Toquei a peça. — Ele também pode ser bom e útil. Na verdade... Acho que ele já é. Sei que são opostos, mas eles funcionam tão bem juntos...

...

A recordação renovou minhas crenças na metáfora.

— Você está pouco se lixando para o que eu sinto. — Jully soluçou.

Ela ergueu a mão para me dar outro tapa e segurei seu pulso. Esperei um segundo antes de calmamente lhe dizer:

— Sei o que é ficar decepcionada, frustrada, ressentida... Sei que está doendo. Não estou menosprezando seus sentimentos... — A mágoa finalmente passou. — Espero que um dia consiga me perdoar, mas não tenho como alterar os cursos dessa história. Alguns deles só Edward pode alterar.

Minha prima desvencilhou-se devagar e limpou as lágrimas.

— Ele já alterou. — Suspirou tristonha. — Terminou comigo minutos atrás na suíte de Sarah.

Ela não esperou que eu me recuperasse da surpresa e atravessou a rua para pegar um táxi.

Depois que Jully partiu, me vi completamente sozinha, ensopada e com frio. Não podia voltar para a festa naquele estado e não queria ser expulsa do hotel novamente. Eu nem tinha como ligar para Alice, pois deixei meu celular dentro da bolsa em cima de uma mesa no salão.

Meio desorientada, olhei à minha volta e, após um longo e exausto suspiro, resolvi sair andando até achar um orelhão. Ligar para Jasper vir me buscar era minha única opção.

Por meus pés estarem doloridos, tirei as sandálias e caminhei uns cinco metros até chegar à esquina. Lá coloquei as sandálias em cima do telefone e liguei para casa a cobrar.

Fiquei esperando até a chamada cair. Tentei mais uma vez e ninguém atendeu ao telefone. Depois da quarta tentativa, recoloquei o telefone no gancho e sentei no meio-fio.

Com tantos altos e baixos na minha vida ultimamente, era fácil se perder em um dos momentos. Eu ainda estava perdida na discussão que tive com minha prima e só conseguia pensar nas decisões que não deveriam ter sido tomadas, nas escolhas mal feitas e suas conseqüências.

O triângulo amoroso tortuoso que se desenvolveu nos últimos dias foi alimentado por ilusões e erros. Por causa disso, não dava para evitar que alguém saísse de vítima e outros de culpados.

Atormentada, cobri o rosto com as mãos e gemi.

— Bella. — A voz de Edward fez meu estômago gelar.

Minhas palmas deslizaram pelo rosto e caíram moles em meu colo. Demorei alguns segundos pra levantar e me virar para ele.

O selvagem estava a cerca de dois metros de mim e sua expressão não era melhor do que a minha. Nós estávamos presos em uma encruzilhada.

— Você está bem? — Ele indagou.

— Não. — Era impossível disfarçar.

— Preciso te confessar algo. — Pressionou os lábios e fitou o chão, talvez alinhando os pensamentos. — Nada do que vivi até hoje me preparou para um momento como esse. É muito provável que eu tropece nas palavras, ou não me faça entender corretamente. — Seus olhos encontraram os meus. — Mas eu... penso em você o tempo inteiro. E quando tento não pensar, aí é que penso mais. — Riu sem humor. — Quando estou com você, fico estupidamente distraído como se minha mente estivesse parcialmente bloqueada. Nunca fui assim. Hoje em dia, me pego refletindo sobre assuntos que eu considerava insignificantes e... tenho receio de sentimentos e impulsos que nem sabia que existiam. — Ofegou antes de continuar. — Desculpe não ter dito o que você precisava ouvir em Miami. É que não podia te explicar o que nem eu entendia.

— Eu sei. — Murmurei, dividida entre a alegria e a tristeza. — Sinto muito, meio que sem querer ouvi sua conversa de agora a pouco com Sarah.

Edward não esboçou surpresa. Só que não foi porque já sabia sobre o que lhe contei, mas porque claramente outros sentimentos dominavam suas emoções no momento.

— Não estou conseguindo ficar feliz. — Disse-lhe com a voz trêmula. — Até agora vivi um momento de cada vez justamente por medo de bater de frente com esse.

Ele assentiu, sintonizando o pensamento com o meu.

— Me fala que existe um meio de isso dar certo. — Quase não havia esperança em sua voz.

— Como eu queria... — Subi a calçada de cabeça baixa.

Ambos passamos a enxergamos um muro entre nós muito maior do que qualquer preconceito, erro ou falta de sorte. Era a incapacidade de escapar da realidade. A impossibilidade de fundir nossos mundos.

— Não pode vir comigo para Malaita? — Perguntou ansioso.

— Eu poderia, mas depois de algumas semanas como seria?

Edward passou as mãos pelos cabelos, totalmente ciente da resposta.

Eu ficaria feliz por um tempo, mas não teria vida própria. Não concluiria a faculdade e não teria emprego. Definharia de saudades da minha família e amigos e, por fim, sufocaria.

— Não pode ficar? — Pedi com pouca esperança.

O selvagem refletiu um momento.

— Não posso abandonar meu pai sozinho na ilha. Ele só tem a mim. Além do mais... — Balançou a cabeça, inconformado. — Nem você ficará em Orlando. Sei que irá para Yale. O que eu faria aqui, Bella? Eu não sou assim. — Deu um puxão no blazer. — A maior parte do tempo nem compreendo as normas de conduta que regem essa sociedade. Por você, eu tentaria pelo maior tempo que conseguisse. Arranjaria um emprego e seria como qualquer outro homem dessa terra. Só que não vou te mentir... Por dentro, eu seria como aquele puma na jaula e...

— Como eu, sufocaria. — Completei desolada. — E se tentássemos manter um relacionamento à distância?

— Malaita é uma ilha totalmente isolada no meio da Oceania. Não há meio de nos comunicarmos com frequência. — Com o semblante torturado, se livrou da gravata. — Posso tentar vir aqui uma vez por ano, ou um pouco mais.

Por um minuto considerei a idéia. Mas então a realidade novamente me tomou.




— Nosso relacionamento nunca evoluiria. Seria um sentimento congelado no tempo. Nunca partilharíamos as pequenas e grandes coisas que mantém as pessoas apaixonadas. O companheirismo nos dias difíceis, a felicidade pelas conquistas do outro, o aconchego e... o sonho de um futuro juntos. Podíamos tentar nos enganar, mas na realidade estaríamos sozinhos.

— Tem razão. — Edward pendeu a cabeça para trás, observando o céu.

— Meu Deus, seria maravilhoso se um de nós pudesse abandonar tudo que tem, ou o que um dia poderia ter, por esse sentimento... — Só de falar nele, perdia o fôlego. — Exatamente como nos grandes romances. O problema é que essa idéia é uma utopia... Eu só teria fragmentos de você, assim como você também só teria fragmentos de mim.

— Não quero que seja assim. — Edward falou baixíssimo.

Encaramos-nos clamando silenciosamente pelo outro, mas não podíamos cruzar a linha que separava a tortura de uma tortura ainda maior.

Me encolhendo de frio, de repente recordei a sensação de saltar do penhasco pela primeira vez. O impulso de correr e se lançar em algo arriscado e incerto. A sensação extasiante de liberdade. A ausência de passado, presente e futuro durante os poucos segundos em que o corpo fica totalmente suspenso no ar...

Com pulsação acelerada, como se estivesse novamente diante do penhasco, falei:

— Edward, vamos nos jogar nessa paixão. Vamos extrair tudo dela sem guardar nada para depois, porque não haverá um depois. Esses dias que ainda ficará no país é tudo que temos. — Dei um passo à frente. — Vamos abrir um parêntese no tempo. — Uma energia diferente tomou conta de mim. — Quando tivermos que seguir em frente, seguiremos. Sem arrependimentos, sem cobranças, sem falsas expectativas...

— Não quero voltar para casa sem saber como é tê-la. — O selvagem também deu um passo à frente. — Se tiver que ser assim..., que seja.

— Precisamos esquecer completamente que irá embora. Não vamos ficar nos torturando com o inevitável.

— Então... — Ele respirou fundo, também sentido o curso de nossa história mudar outra vez. — Vamos nos despedir agora. Só será possível pôr em prática o que sugeriu se começarmos pelo final. Uma despedida depois de ficarmos juntos seria... — Balançou a cabeça, sem saber como completar a frase. — No dia que eu for embora, não quero dizer ou ouvir um adeus.

— Sim. — Concordei de imediato.

Encurtamos a distância que nos separava e apertamos as mãos.

— Foi ótimo te conhecer. — Edward deu um meio sorriso. — Você ensinou várias coisas a alguém que acreditava já saber de tudo.

— Também adorei te conhecer. — Um nó se formou em minha garganta. — Você me ajudou a ser uma pessoa melhor. Obrigada. — Lutei para não derramar lágrimas e não conseguimos soltar as mãos.

— Me promete que será feliz? — Os olhos dele ficaram um pouco vermelhos.

— Prometo. — Cobri os meus com a mão para não desabar em choro. — Me promete o mesmo?

— Prometo. — Respondeu rouco.

— Adeus, Edward. — Me obriguei a encará-lo.

Houve um momento de silêncio.

— Adeus, Bella.

Soltamos as mãos bem devagar, selando um momento que nunca mais se repetiria.

O muro da realidade e impossibilidade finalmente ruiu, levantando uma densa poeira de oportunidade.

— Acabou? — Edward suspirou.

— Acabou.

Em um piscar de olhos ele me abraçou pela cintura, fazendo meus pés saírem do chão. No mesmo segundo o senti pressionar os lábios contra os meus. Então, coloquei as mãos firmemente em sua nuca, prendendo-o ainda mais a mim.

Quando a língua de Edward invadiu minha boca, involuntariamente gemi de satisfação. A maciez e o calor dela, roçando e massageando a minha, me provocaram súbitos formigamentos em várias partes do corpo.

A palavra sofreguidão não era suficiente para descrever o desespero com que nos beijamos. Era como se fosse a primeira e a última vez, tudo ao mesmo tempo. Era um sentindo bem completo de “querer e ter”, “correr e alcançar”. Eu jamais tinha sentido aquilo antes.

A forma como Edward me abraçava desafiava a razão, pois parecia que se me soltasse, eu desapareceria. Intimamente lhe agradeci por segurar-me com força o suficiente para me impedir de respirar direito. Não tinha como não adorar aquela sensação.

Inclinando a cabeça para direita, suguei-lhe o lábio inferior saboreando aquela boquinha levemente rosada e bem desenhada. Meus dedos chegaram a tremular ao acariciarem seu maxilar lisinho.

Então Edward começou a rosnar muito baixinho, essa era uma característica tão dele. No fundo, eu sabia que era uma nítida manifestação de seu desejo por mim. Seu corpo declarando que me queria. Podia senti-lo tão inteiro, tão meu. Desde seu sabor a seu calor. Desde sua fome por meus lábios à capacidade de me fazer sentir especial.

De repente, não sentia mais frio, insegurança ou tristeza. Minha intuição gritava que estávamos prontos para aquele tempo. O nosso tempo. Íamos vivenciar todas as experiências mais intensas de um genuíno romance em poucos dias. E eu tinha convicção de que seria extraordinário.

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