Um Selvagem Diferente - Capitulo 17



Miami, EUA.

Hoje, sábado, é o meu segundo dia aqui. Estou sentado de frente para o mar esperando a tarde dar seus últimos suspiros. Enquanto o café esfria no meu copo, aguardo com paciência minha consciência desvendar o motivo pelo qual ando tão distraído.

Ontem não consegui escrever e hoje está sendo igualmente difícil. Talvez esse momentâneo bloqueio seja apenas um subterfúgio, uma ridícula desculpa para não ter que escrever e, consequentemente, me arrepender do beijo que Bella e eu partilhamos.

Embora eu tenha preocupações maiores, ao relembrar o incidente, não consigo deixar de pensar: eu fiz certo? Fui muito rude? Ou fui delicado demais e pareci um estúpido? A segurei corretamente? Quão angustiante é ficar na dúvida! Alice me contou que Bella gostou do beijo, mas às vezes Alice fala coisas que são difíceis de acreditar.

Eu posso não ter respostas para todas as questões acima, mas de uma coisa tenho certeza: algo diferente aconteceu naquela sala. Não foi como o beijo que trocamos sem roupa, pois naquela noite fui guiado por meus instintos sexuais há tanto reprimidos. Era uma atração básica, macho e fêmea, como acontece com todas as espécies. Ou seja, eu teria reagido com a mesma intensidade, independente de meu momentâneo objeto de desejo ter sido Bella ou não.
Então só posso concluir que o último beijo foi o ápice de minha recente ligação com ela. A consolidação de um sentimento de união e cumplicidade que vem crescendo a cada acontecimento. Se existem níveis de amizade, com certeza, estamos em um nível bem elevado. Um em que apenas um olhar, combinado com um momento delicado, pode acarretar toques labiais e carícias.

Será que posso pressupor que foi um beijo inocente, com o propósito de selar esse nível de amizade? Não... Não é possível classificar o beijo como “inocente”, pois não tive nenhum pensamento que possa ser considerado “inocente”. Muito pelo contrário. Primeiro não consegui tirar os olhos dela, sentindo-me atraído por sua expressão pensativa porém serena. Depois me vi desejoso por seus lábios entreabertos, cujo hálito inconfundível ficou em minha memória.

Eliminar os centímetros que nos separavam foi tão fácil quanto respirar, eu nem consegui pensar em razões para não colocar minha boca junto à dela. Sinceramente, eu tento me arrepender, mas não consigo. Principalmente pelo fato de ter sido tão prazeroso, como não estou acostumado com essas sensações, a tendência é querer cada vez mais. Houve um momento em que Bella tentou afastar-se caindo de joelhos no chão, mas eu não a larguei e não teria conseguido nem se quisesse. Então quase como se entendesse minha embaraçosa situação, ela cedeu, permitindo que o ato continuasse.

Sentir as mãos de Bella na minha nuca, em meus braços e às vezes em torno da minha cintura me fez compreender que eu posso não ser experiente quando o assunto é contato físico, mas eu gosto muitíssimo disso tudo. É contraditório, porém é bom sentir a falta de ar, os pensamentos desconexos, a ânsia, a sensibilidade, o descontrole e a vontade... Vontade de ir mais além.

Se meu pai estivesse aqui, talvez me falasse que a razão dessa confusão emocional é o fato de que só agora estou vivenciando coisas que a maioria dos ocidentais vivencia na adolescência. Talvez me desse um tapinha nas costas dizendo que as sensações são boas, mas que também são passageiras e eu não devia supervalorizá-las. Seria interessante ouvi-lo falar, que por eu estar cada vez mais próximo de Bella, acabo direcionando para ela os meus impulsos sexuais.

Será?

Seguindo essa linha de raciocínio, significa que quanto mais tempo passar com Jully, mais atraído me sentirei por ela? Na verdade, acho que já estou atraído, só que de uma forma muito diferente.

Conversar com Jully é agradável, ela não me olha como se eu fosse um anormal e estou descobrindo que temos muito em comum. Partilhamos as mesmas opiniões sobre diversos assuntos e não tenho que me esforçar tanto para compreendê-la, como acontece com Bella.

Óbvio que fiquei aborrecido quando descobri que Melanie, na verdade, é Jully. Não gostei da atitude dela e não hesitei em expressar reprovação. No entanto, conversamos por vários minutos no palco do Me Azare e me senti impelido a perdoá-la. Como poderia discriminá-la se foi sua prima, com todas as suas trapalhadas e mentiras, que me colocou em tal situação? Não estou culpando Bella pela mentira de Jully, só acho injusto sempre perdoar Bella e não perdoar ao menos uma vez sua prima.

Hoje Jully e eu demos um mergulho no mar. Foi um momento agradável, porém lembrei da conversa que tive com Bella na praia em que machuquei o tornozelo. Ela me disse que quando eu encontrasse a “minha garota”, não podíamos ter mais certas intimidades. Parece que esse dia está chegando mais rápido do que imaginávamos. Jully declarou-se para mim em particular no Me Azare e têm sustentado suas intenções.

É estranhíssimo saber que a prima de Bella gosta de mim e que a idéia de viajarmos como amigos só alimentaram suas esperanças. Agora mesmo ela está preparando um jantar especial e só consigo me perguntar como ele terminará.

Por que estou sendo tão tolo? Não era exatamente isso que eu queria? Bella e eu não batalhamos por esse propósito? Não posso recuar agora, preciso descobrir se Jully e eu somos compatíveis de outras formas. Preciso continuar aberto às possibilidades.

Agora meu café já está gelado, a noite chegou e continuo sem saber o que Bella quis dizer com “eu estava errada”. Passei a madrugada perdido em suposições, segurando seu tênis como se ele pudesse me ajudar. Houve um momento em que cheguei a imaginar que ela se referia a nós. Que “estava errada” a meu respeito e já não me julgava um misto de “homem das cavernas, nerd e adolescente deslocado”.

Ah, que tolice! Não sei onde estou com a cabeça... Certamente Bella gritou “eu estava errada” se referindo ao fato de que Melanie é Jully.

De qualquer forma, foi bom ficar com o tênis dela. Ele tem me ajudado a lembrar o motivo pelo qual estou aqui. Bella verdadeiramente se empenhou em me proporcionar essa oportunidade de adquirir experiências e não posso falhar com ela. Não posso falhar comigo mesmo.

Hoje sinto saudades. Saudade de meus novos amigos, mas especialmente de Bella.


***

— AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH! DROGA! MERDA! — Puxei a toalha que estava pendurada perto do box e castiguei a pia. — COM A MINHA PRIMA NÃO! COM ELA NÃO! — Aquele grito tinha ficado preso na garganta desde o Me Azare! — POOOOR QUÊÊÊÊÊ? QUE ÓDIO! QUE ÓDIO! COM ELA NÃO! — Surrei a pia até a visão de Ed e Jully se agarrando, sumir da minha mente.

Passado o choque e o desabafo, respirei bem fundo recuperando o controle. Então arrumei a gola do meu uniforme, abrir a porta do banheiro e com absoluta convicção, falei:

— Alice, arranja um carro. Nós vamos buscar Edward em Miami!

— É DISSO QUE ESTOU FALANDO!

***

Capítulo 17 - Quem Não tem Cão, Caça com Alice


Para não desistir do “resgate”, troquei de roupa em um piscar de olhos. Coloquei um jeans, regata preta, minhas botas favoritas e enfiei na cabeça um boné azul antigo. Alice também vestiu algo confortável e nos focamos em arranjar um veículo que não morresse a cada meio quilômetro.

No escritório, Jasper e Emmett ouviram minhas desculpas, acompanhadas pela promessa de que eu retornaria em no máximo 24 horas. Não deu para lhes explicar meu plano, mas não criaram caso.

Ao sairmos do escritório, Lice sugeriu que pegássemos emprestado o carro da mãe dela. O problema é que a mãe de minha amiga é tão biruta quanto ela, ou seja, corríamos o sério risco de levar vassouradas e fraturar até o cóccix.

Decididas a arriscar, corremos até a porta da frente e a mesma se abriu com a chegada do Link 69. Os caras bloquearam a passagem, rindo e fazendo brincadeirinhas, porém Brad manteve-se sério.

— Aonde vão com tanta pressa? — Questionou o baixista.

— Dá para sair da frente? — Pedi impaciente.

— E aí, Brad? — Alice sorriu pra ele. — Está ardendo? — Soprou o próprio cotovelo em uma provocação.

— Vai à merda. — Ele passou por nós e sua banda o acompanhou.

— Vamos. — Tentei apressar Alice, mas ao invés de me dar ouvidos ela seguiu McFadden e eu fiquei estagnada na porta.

— Ei, desculpa... Foi só uma brincadeira. — A maluca o deteve antes que ele chegasse à escadaria. — Vem cá, vem Brandido. — Chamo-o com a voz mole e maliciosa. — Você sabe que Licinha não quis magoar seus pobres sentimentos. — Dissimulada, passou a mão na gola da jaqueta de couro dele.

Brad analisou Alice com cuidado, provavelmente se perguntando que bicho a mordeu.

— Não me magôo tão fácil. — Exibiu seu típico sorriso debochado.

— Que pena, porque se estivesse magoado eu tinha um bom remédio.

— Que remédio?

— Esse. — A louca agarrou a nuca dele e lhe tascou um beijo.

É o fim do mundo!

O Link 69 caiu na gargalhada e eu fiquei olhando para os lados, esperando o meu Umpa Lumpa aparecer, pois Alice beijando Brad era tão irreal quanto eu casando com um anão da Fábrica de Chocolate.

McFadden, que não é besta, aproveitou o beijo. Talvez acreditasse que me provocaria ciúmes, mas eu estava era preocupada com a sanidade da minha amiga.

— Bora parar por aqui... — Alice se distanciou, desarrumando o próprio cabelo. — Você se empolga muito fácil, hein, meu filho?! — Empinou o nariz e desfilou até mim, deixando Brad bastante confuso. — Vamos vazar, Vamos vazar... — Murmurou por entre dentes, puxando-me para o jardim.

Atravessamos o jardim quase correndo, mas ao chegarmos à calçada tive que parar e dizer:

— Meu Deus... Você beijou o Brad, o que mais falta acontecer?

— Irmos para Miami? — Com um sorrisinho malandro, chacoalhou a chave do carro do meu ex.

— Safada! — Elogiei chocada.

— Foi fácil roubar do bolso do bocó. — Jogou a chave pra mim e peguei-a no ar. — A propósito, que homenzinho de beijo sem sal. — Fez careta. — Brandido não tem toda essa moral pra cantar de galo não. T-zed beija melhor que ele?

Sem querer ruborizei.

— Bem... — Era difícil encontrar as palavras certas. — Edward é bastante... Intenso. — Por algum motivo, fiquei tão encabulada quanto uma menina tentando descrever seu primeiro beijo.

— Já vi tudo. — Alice piscou o olho esquerdo, doida pra me zoar.

— Ah, falamos disso depois. Está com o endereço da tal casa de praia?

— Claro. — Deu um tapinha no bolso traseiro.

— Pronta pra cometer um delito? — Animada, fitei o Mustang que estava estacionado ali perto.

— E quando é que não estou?

Trocamos um sorriso de cumplicidade, em seguida corremos para o carro e nos metemos nele antes que McFadden desse falta da chave.

Feito fugitivas, abandonamos a rua devagarzinho. Logo que me vi longe da mansão, fiz o motor do Mustang rugir ao pisar firme no acelerador e todo o resto ficou para trás. Seriam 4 longas horas até Miami, então Alice baixou a capota, ligou o som e me convenceu a relaxar.

(...)

Flórida, 13:00h  e um sol gostoso reinando absoluto no céu.

Nós já estávamos havia quase duas horas na estrada. A rota estabelecida pelo GPS do veículo era relativamente fácil, então nos focamos apenas no “resgate”.

— O que acha dessa? — Alice havia encontrado um bloco de notas e caneta no porta-luvas e agora rabiscava possíveis falas pra mim. — “Ei, colega. Tira a mão do meu T-zed!”.

— Estou me imaginando dizendo um troço desses. — Ri alto. — É uma péssima fala.

— Tá bom. — Destacou a folha, amassou e jogou-a para trás. — Saca essa então: “Ôh macaca-xita, sai daí que esse Tarzan já tem Jane!”

— Vou te abandonar na próxima encruzilhada. — Gargalhei.

— Eu tenho cara de galinha de despacho?

— Próxima. — Implorei revirando os olhos.

— Essa aqui é batata. Chegue junto do T-zed dizendo: — Pigarreou antes de começar a ler. — “Ed, em um segundo terei você na palma da minha mão, porque eu posso fazer melhor. Não há mais ninguém, quando é que vai cair a ficha? Jully é estúpida, que diabos você estava pensando?!”

Húm!

Considerei a frase por um segundo, porém logo me toquei de que era um trecho de uma música da Avril Lavigne.

— Alice, não vou lá pra bater de frente com minha prima. E outra... — Suspirei vagarosamente. — Não vou abrir o jogo com Edward até ter absoluta certeza de que ele também sente algo por mim. Como eu disse antes, Ed está numa fase de descobertas. O beijo que trocamos pode ter sido só mais uma experiência pro cara. Não posso me dar ao luxo de bancar novamente a imbecil e levar um fora.

— Tem razão. — Jogou o bloco de notas no banco traseiro. — Nem você sabe exatamente o que sente. Então, o que pretende fazer?

Fixei os olhos no horizonte.

— O mais justo é dar a ele a chance de descobrir se sente mais atração por mim ou por Jully.

— Cuidado com isso... Todo mundo sabe que sua priminha tem mais em comum com T-zed do que você. Não se sente em desvantagem?

— Você está certa. Jully é uma futura geóloga, leu o livro do pai dele, certamente entende aquelas palavras estranhíssimas que o cara gosta de usar e é muito bonita... — Estreitei os olhos, aceitando o desafio. — Mas não vou deixar isso me diminuir. Vou provar a Edward, com atos e não com palavras, que eu também posso ser boa pra ele, senão melhor. Minha prima pode ser a “miss perfeitinha”, mas sou eu quem tem a manha. — Vi meu sorriso matreiro através do espelho retrovisor.

(...)

Quando Brad concluiu que 1 + 1 = 2, ligou várias vezes para Alice, mas ela não atendeu o celular, nem eu. Ele devia estar soltando fumaça pelo nariz e o meu nível de preocupação com isso era zero.

Após a longa viagem, finalmente chegamos ao nosso destino. A rua em que entrei era cercada por casas de bom gosto e palmeiras. Os imóveis possuíam o mesmo tipo de arquitetura e pareciam ser do tipo que se aluga por temporada.

Estacionei no final da rua, de onde já se podia ver o mar. Saímos do Mustang e analisamos o local onde o Me Azare! hospedou Edward e Jully. A casa duplex à nossa frente, assim como as demais, possuía uma pequena cerca branca e atrás dela um jardim simples, mas bem cuidado. A fachada também era branca com detalhes em azul. No andar superior tinha uma pequena varanda, só que não havia ninguém nela. Eu não tinha certeza, mas podia supor que os fundos da casa davam para o mar.

— E aí, está pronta? — Alice perguntou.

— Não. — Meus pés travaram.

— Você tem que estar, porque eu estou louca pra fazer xixi. — Rebocou-me até a casa.

Munidas apenas com nossa infinita cara de pau, abrimos a portinha da certa, atravessamos o pequeno jardim, subimos três degraus e alcançamos a grande porta de madeira. Tentamos espiar através das janelas mais próximas, mas infelizmente as cortinas nos impediram de enxergar qualquer coisa.

— Toca a campainha. — Ela ordenou.

— Você não tem dedo? — O nervosismo me acovardou um pouco. — Ah... Que seja. — Dei um pulinho pra relaxar e apertei a campainha.

Poucos segundos se passaram até a porta se abrir.

— Pois não? — A senhora de feições masculinas, com uns dois metros de altura metida em um uniforme de empregada, não era exatamente o que a gente esperava ver.

— Oi, Edward Cullen está? — Indaguei.

— Não existe ninguém aqui com esse nome.

Imediatamente encarei Lice.

— Tem que existir. — Ela puxou o papel com o endereço do bolso e conferiu. — Repito, tem que existir. O endereço está certo.

— Lamento. — A empregada fechou a porta na nossa cara.

— Ah, meu Deus. — Coloquei uma mão na testa. — Me diz que não passei 4 horas na estrada à toa.

— Calma, acho que sei o que está acontecendo. As garotas da vizinhança devem ter reconhecido T-zed e vieram bater aqui só pra encher o saco. Aposto que essa mulher recebeu ordens pra dizer que ele não está aqui.

— Até que faz um pouco de sentido. — Lembrei-me das celebridades que usam nomes falsos pra fugir do assédio. — Temos que dizer que somos amigas dele. Fica fria — Apertei novamente a campainha.

— Pois não? — Outra vez a empregada nos atendeu.

— Por favor, diz pro Edward que as amigas dele estão aqui.

— É rapidão, minha senhora. — Alice se contorceu tentando não molhar as calças.

— Nada posso fazer. Desculpem. — Novamente bateu com a porta na nossa fuça.

— Mas que porra! — Minha paciência se esgotou.

Com a vergonha na cara já passando longe, enfiei o dedo na campainha e só soltei quando abriram a porta.

— Pare com isso! — A gigante quase me engoliu ao repreender-me.

— Chama o Edward aqui. — Aumentei o tom de voz. — Agora, minha senhora!

— Se incomodar novamente, vou chamar a polícia!

— Olha aqui, sua Godzilla. — Fiquei na ponta dos pés pra enfiar o dedo indicador na cara dela. — Eu passei horas na estrada e não vou sair daqui sem falar com meu amigo. Estamos entendidas?

É isso aí, botei moral!

— Vão embora. — Rosnando, a mulher agarrou meu dedo e o torceu, obrigando-me a tropeçar pelos degraus.

— Ai... ai... ai... — Era uma dor dos infernos. — Colega, já que está pedindo com educação eu vou, né?! — Balbuciei quase me ajoelhando no gramado.

— Esse é meu último aviso. — A Godzilla me largou, entrou na casa e bateu a porta com tanta força que nos fez encolher os ombros.

— E agora? — Massageei meu dedo.

— Não grila. Sempre existe um dragão pra derrotar antes de alcançar a princesa.

— Princeso. — Corrigi.

— Foi o que eu quis dizer.

— Tive uma idéia. — Eu é que não ia desistir.

(...)

— A qualquer hora o negócio aqui vai descer. Tô avisando. Preciso ir ao banheiro! — Alice choramingava enquanto engatinhávamos pela lateral da casa.

— Shhh. — Fiquei de joelhos e, com cautela, abri lentamente a primeira janela que encontrei. Super tensa, debrucei-me sobre ela e estudei a sala de jantar que estava totalmente vazia. — Vai você primeiro, Alice.

— Quê? — Ficou de joelhos também. — Não vou subir aí nem a pau!

— Por quê?

— VOU ME MIJAR INTEIRA! — Berrou irada e precisei tapar sua boca.

— Não grita. — Reclamei por entre dentes e esperei que se acalmasse. — Não amarela agora. Viu, só?! A janela já estava aberta. Vamos aproveitar que eu estou com uma sorte do caramba.

Como as forças místicas do Universo se divertem às minhas custas, naquele exato momento, alguém ligou o regador automático. O bicho ficou girando sem parar, espirrando água pra todo lado.

Com cabelos e roupas molhados, apenas balbuciei:

— Se serve de consolo... — Forcei um sorriso. — Um dia eu vou morrer. — Com medo de sua reação, destapei-lhe a boca.

— Depois dessa viagem, você que arranje outra melhor amiga. — Me fuzilou com o olhar.

— Ficamos aqui tomando banho ou entramos? Está afim do quê? — Não obtive resposta. — Entendi, eu vou na frente.

Invasão de domicílio não estava na minha programação para o final de semana, mas se eu não fizesse tudo que estava ao meu alcance para impedir que Ed se envolvesse ainda mais com minha prima, certamente me arrependeria. E, poxa, eu já tinha arrependimentos demais pra dar conta.

Feito uma gata, pulei a janela e o salto da minha bota entortou levando-me ao chão. Talvez eu tenha exagerado ao me comparar a uma gata, mas que se dane!

— Rápido, Alice. — Sussurrei ficando de pé.

— Era uma vez... duas garotas... que tinham o couro inteirinho... antes de invadirem a toca do Godzilla. — Saltou pra dentro da casa.

Enquanto minha amiga resmungava, observei a sala de jantar e não pude deixar de notar que a mesa estava posta para 8 pessoas. Imediatamente concluí que a equipe do Me Azare! também estava na casa e isso dificultaria a minha vida. Não iam me deixar levar o selvagem embora.

— Gente, que coisa chique. — Alice se referia ao lustre de cristal, a louça e aos talheres de prata.

— Não quebre nada. — Dei-lhe as costas.

— Eu me chamo Bella? — Se ofendeu.

Olhei para trás, repreendendo-a com o olhar e esbarrei em algo. Me apavorei ao ver a coluna de mármore em que esbarrei balançando e ameaçando derrubar um vaso.

— Eu peguei... Eu peguei. — Me agarrei à coluna e ao vaso. De repente, ouvi vozes vindo de um cômodo ali perto. — Que foi isso? —Sobressaltada, larguei a coluna e o vaso se espatifou no chão. — Eu não peguei... — Fiquei triste.

— Bella, minha bexiga vai estourar. Vamos correr para o T-zed e ele vai evitar que chamem a polícia.

— Tá bom. — Fiquei com pena da coitada. — Como será que ele vai reagir?

— Vamos saber agora. — Saiu correndo na direção das vozes e eu acompanhei.

— EDWAAAAARD! — Gritamos juntas ao invadir a sala.

O que vimos nos chocou. Não era o selvagem beijando Jully, muito menos o selvagem “pegando” Jully. Era uma família inteira comemorando o aniversário de alguém. A sala estava até decorada.

Três segundos se passaram e o silêncio continuou matador. Perplexos, os donos da casa não sabiam o que dizer. Eu também não sabia o que dizer, mas Alice...

— Quais as chances de me deixarem usar o banheiro?

(...)

— Ai... ai... ai... — Grunhimos juntas.

Com as mãos entranhadas em nossos cabelos, a Godzilla nos jogou para fora da casa. Alice cambaleou para um lado, eu cambaleei para o outro, e a maldita bateu a porta gritando:

— Vou ligar pra polícia!

Massageando meu couro cabeludo, berrei de volta:

— Era só pedir que a gente saía!

A porta se abriu e meu boné voou direto pra minha cara.

— Ah, mais assim já é sacanagem. — Peguei o boné do chão e enfiei na cabeça.

— Esse povo de Miami é muito violento. — Lice choramingou outra vez e logo começou a praguejar palavras incompreensíveis.

Revoltada com a brutalidade com que fomos tratadas, marchei até a porta, olhei para os dois lados da rua e como estava deserta, disse:

— É uma boa hora pra fazer xixi.

— Aleluia! — Alice correu até mim.

Rapidamente abrimos as calças pra urinar na porta alheia, porém não deu tempo de arriá-las, pois minha amiga berrou:

— EDWARD!

Não acreditei quando o vi na entrada da casa do outro lado da rua. Ele arqueou as sobrancelhas e mostrou-se extremamente surpreso. Na verdade, chocado!

— T-ZED! — Lice, de braços abertos, atravessou a rua feito um foguete.

Nosso confuso amigo também abriu os braços achando que ela corria para abraçá-lo, só que a louca o empurrou com força e invadiu a casa em busca de um banheiro.

O selvagem ignorou a atitude de Alice e caminhou em direção à rua. Fiz o mesmo e meu coração foi a mil. Encontramo-nos no meio do asfalto e acabei por esquecer toda a vergonha que passei assim que nossos olhos se encontraram.

Lindo que só ele, estava completamente sem barba, com uma camiseta azul marinho, jeans e ainda se apoiava na bengala. Era estranho vê-lo com a aparência tão jovial, pois ainda não tinha me desligado totalmente de sua antiga aparência.

— O que aconteceu? Por que está aqui? — Edward finalmente se pronunciou.

Fechei os olhos e murmurei:

 — Eu estava errada.

— Sobre o quê? Passei o final de semana imerso em suposições.

— Sobre... — Busquei palavras coerentes.

— Fala, Bella. — Tirou meu boné da cabeça.

— Queria ter te impedido de se expor no Me Azare!. — Voltei a fitá-lo. — Não é disso que precisa. Eu fui tola demais em querer que você...

— Bella? — A voz de Jully cortou meu discurso. — O que aconteceu? — Tão espantada quanto meu amigo, correu ao nosso encontro. — Está tudo bem?

Eu não sabia o que responder.

— Continua. — Edward insistiu, mas perdi o pique.

— Aconteceu alguma coisa com Jasper? — Jully ficou de fato preocupada.

— Surpresa! — Abri os braços, totalmente sem jeito. — Alice eu resolvemos fazer uma surpresa pra vocês. Não esquenta, estão todos bem. — Não sabia onde enfiar a cara.

— Ah... — Minha prima deu um sorriso amarelo e pendeu a cabeça. Eu no lugar dela, também ficaria triste com a notícia.

— Vamos voltar para Orlando amanhã cedo. Vai ficar até lá? — O selvagem especulou.

— Isso é um convite? — Tomei-lhe o boné e enfiei na cabeça.

Edward trocou um rápido olhar com Jully e exibiu pra mim um grande e sincero sorriso.

— É um convite.

Rumo à casa, ele caminhou ao meu lado e, antes que entrássemos, sussurrou:

— Sua calça está aberta.

Foda!

(...)

Logo que entrei na casa, dei por falta da equipe do Me Azare! e o outro casal que foi formado no show, então Edward me explicou que na sexta-feira o pessoal do programa fez uma entrevista rápida com eles e foram embora. Quanto ao casal, estavam hospedados em outra casa ali perto.

Apesar de minha prima não conseguir disfarçar a decepção por termos nos metido em sua viagem romântica, foi bastante educada quando nos apresentou ao simpático caseiro e sua esposa. Eles eram bem discretos e se limitavam a seus afazeres. 

Como eu tinha dito a Alice, não estava ali para peitar minha prima, por isso evitei lhe cobrar satisfações. A tratei como sempre, só não estava mais disposta a abrir mão do selvagem. Jully escondeu seus planos de mim, então não podia me julgar por fazer o mesmo.

Na nossa primeira hora na casa, Edward sugeriu que colocássemos nossas roupas molhadas na secadora. Logo Jully nos ofereceu algumas de suas roupas e foi assim que Lice e eu acabamos metidas em vestidinhos “certinhos”. O vestido rosa de minha amiga a fez parecer uma boneca, já o meu fez-me parecer uma menininha birrenta. Claro que as botas estilo cowgirl e o boné colaboraram pra isso.

Meu vestido branco tinha pregas, ia até a altura do joelho e possuía alças bem largas. Como se isso tudo já não bastasse para espantar qualquer palavra que se assemelhasse a “sexy”, ainda havia pequenas flores na barra do vestido. Jully não teve a intenção de me sacanear, é que, de fato, suas roupas eram muito infantis.

Por volta das 17h, todos fomos para os fundos da casa e nos sentamos na ampla varanda que dava de frente pro mar. O lugar todo era absolutamente lindo, mas eu só conseguia pensar no quanto o ambiente romântico podia haver influenciado Edward e Jully.

Até aquele momento, eu não tinha conseguido extrair nenhuma informação de Ed porque ainda não havíamos ficado sozinhos. Então o que eu precisava era de uma boa desculpa pra que isso acontecesse.

— O que vocês fizeram nesse final de semana? — Alice percebeu minha angústia e perguntou com uma falsa inocência.

— Ah... bem...  — Jully sorriu um pouco constrangida. — Nos divertimos. Conversamos bastante, aproveitamos o mar... Lemos alguns capítulos de Viagem ao Centro da Terra.

— Uau! E esse é seu livro favorito? — Alice insistiu no interrogatório.

— Sempre foi. — Respondi por Jully.

No dia em que aconselhei Edward a se casar com quem gostasse do tal livro chato, claro que estava só brincando. Agora a questão era: ele entendera a brincadeira?

— Gostando de Miami? — Fitei o selvagem.

— É um lugar agradável. — Edward parecia o único realmente relaxado. Prefiro usar a palavra relaxado ao invés de “feliz”. — O que estavam fazendo na casa do outro lado da rua?

— Visitando um... — Afundei na espreguiçadeira e a aba do boné disfarçou meu rubor. — Conhecido. — Desafinei um pouco.

— Vocês vão ter que me desculpar, mas vou falar. — Lice aumentou o tom de voz. — É domingo, estamos em Miami e é uma tarde linda. O problema é que isso aqui está muito chato. Vamos encher a cara, meu povo!

A risada de Edward foi a mais audível.

— Vou ver o que tem na cozinha. — Ele se levantou.

Santa Alice!

— Eu ajudo! — Fiquei de pé antes que mais alguém se oferecesse.

— Agradeço. — Edward sorriu pra mim e esqueceu de olhar pra frente, depois disso foi preciso só dois passos pra ele dar com a cara no vidro da porta. A estrutura balançou e as garotas gargalharam.

— Tem que empurrar pro lado. — Confusa, lentamente abri a porta de correr.

— É, eu sei. — Pigarreou antes de atravessá-la.

Quando chegamos à cozinha, o caseiro e sua esposa já estavam de saída. Eles falaram algo sobre o jantar, só que me entrou por um ouvido e saiu pelo outro, pois eu só conseguia pensar em como interrogar Edward. O tal senhor foi muito gentil em nos dizer onde estavam as bebidas e o selvagem buscou duas garrafas de vinho na geladeira.

— Pega as taças que eu abro o vinho. — Falei assim que encontrei o saca-rolhas em uma das gavetas do estiloso armário.

Coloquei a garrafa sobre a mesa e fiquei girando a porcaria do saca-rolhas. Estava distraída demais e só despertei quando Edward tomou a garrafa de minhas mãos. Não sabia se ele já tinha feito aquilo antes, mas resolveu o problema da rolha muito mais rápido que eu.

Enchi uma taça, tomei um golão de vinho e resolvi parar de bancar a “monga”. Por que estava tão nervosa, afinal? O selvagem e eu já éramos íntimos, tínhamos passado por muita coisa e eu me considerava sua cafetina, ou seja, eu tinha todo o direito de lhe perguntar o que eu bem entendesse.

Vou mandar é na lata!

 Bella, você sabia que Melanie é a sua prima? — Ele se adiantou.

— Claro que não.

— Acho que isso explica o seu grito no Me Azare!. — Sentou na ponta da mesa e me posicionei à sua frente.

— Nem desconfiava. — Bufei contrariada. — Não ficou chateado? — Tínhamos passado sexta e sábado separados e só agora começávamos a nos reconectar. — Achei que não suportava mentira.

— E não suporto. — Fixou os olhos na taça em sua mão. — Mas todos que conheci aqui já mentiram para mim. Se eu for discriminar Jully, vou ter que discriminar você também. — Me encarou.

Mesmo sabendo que ele tinha razão, não gostei nadinha do comentário.

— Qual foi a desculpa dela?

— Disse-me que... — Deu um longo suspiro. — Que desde que me conheceu se sente atraída por mim, mas tinha muita, muita vergonha de demonstrar isso. Contou que no início sua intenção era só me conhecer melhor por e-mails, mas que meu discurso no programa mexeu muito com ela. Ressaltou que se sentia mal pelo que fez, mas que nunca imaginou que sua mentira fosse chegar tão longe. Jully acreditou que, com ela indo ao Me Azare!, eu passaria a vê-la como uma mulher e não como sua parenta.

— Nossa, ela se declarou pra você? — Cruzei os braços, mostrando mais surpresa do que decepção.

— Hããm... — Edward não sabia como responder. — É.

— Eu podia jurar que ia dispensá-la no programa.

— Se fosse uma garota desconhecida talvez eu tivesse feito isso, mas percebi o quanto seria constrangedor para sua prima passar por tal coisa. Seria realmente estranho eu envergonhá-la em rede nacional e continuar convivendo com você e ela na mansão.

 — Entendo. — Fui sincera.

— Quando o show chegou perto do final, ainda não sabia exatamente como lidar com a situação, então sugeri que viéssemos para cá como amigos. Naquele momento me pareceu uma solução razoável.

Abri um largo sorriso.

— Agora estou entendendo tudo.

Cantarolei mentalmente: Ed não está “pegando” Jully! Ed não está “pegando” Jully...

— Mas...

Meu sorriso sumiu.

— Tem um “mas”?

— Tem. Ontem à noite... nos beijamos.

Minha expressão congelou. Fiquei alguns segundos com as sobrancelhas arqueadas e a boca entreaberta. Eu até teria soltando um palavrão se minha língua não tivesse travado.

— Está surpresa? — Edward murmurou, estranhando minha demora em reagir.

— Hmm... Altamente... coisativo. — Balbuciei destravando os músculos faciais. — É, eu estou surpresa. — Disfarça agora, sua maluca! — Heeey! — Abri os braços com um sorriso forçado. — Que surpresa boa!  — A essa altura, o que mais eu podia dizer? Fui eu quem os uni. — Que surpresa realmente boa. — Soquei seu ombro.

— Pois é.

— Muito, muito... — Dei-lhe outro soco forte no ombro e não parei mais. — Muito, muito, muito boa! — Continuei batendo.

— Hãham. — Teve que sair de seu lugar para fugir da minha falsa e violenta alegria.

— E agora? — Minhas bochechas doíam por manter o sorriso mecânico.

— Eu não sei. — Sentou em uma cadeira. — Nosso plano era encontrar uma garota compatível comigo para que eu tivesse algumas experiências, mas...

— Outro “mas”? — Desse eu gostei.

— Mas... Acho que é cedo pra decidir se vou continuar me envolvendo com Jully.

— Você é tão sábio... — Isso, Ed! Vibrei.  — E como foi o... beijo? —Sentei também e ficamos um de frente para o outro, com a mesa entre nós, para separar meu punho do seu ombro.

Edward refletiu.

— Foi diferente.

Que respostinha filha da mãe!

 Legal. — Sorri como um robô.

— É difícil de explicar, Bella. — Bebeu um pouco de vinho. — Não planejamos. O pouco tempo que passei aqui com sua prima me fez enxergar que temos muito em comum, mas ao mesmo tempo... — Balançou a cabeça, tentando se concentrar na resposta. — Ao mesmo tempo... — Gemeu, sofrendo um bloqueio.

— Então decidiram se beijar. — Concluí, contendo um suspiro de desgosto. — Você tem se divertido pra caramba, hein?!

Eu quase disse: vou te capar!

— Um pouco, mas em vários momentos fiquei... — Olhou de relance para a porta e fez uma careta cômica — Meio entediado e... senti saudades de vocês. — Sorriu.

— Também sentimos sua falta. — Retribuí o sorriso com sinceridade e houve um momento de silêncio.

Pensei em contar a Edward que não sou mais apaixonada por Brad. Para falar a verdade, estava ansiosa para partilhar aquela vitória com ele, mas eu queria fazer isso em outro ambiente. Em um lugar onde pudéssemos conversar sem limite de tempo, interrupções ou minha prima o esperando no outro cômodo.

— Estou com seu tênis. — Se inclinou sobre a mesa.

— Ah, meu Deus. — Gargalhei ao relembrar o sufoco.

— Você tem chulé.

— Cala a boca. — Cobri o rosto com o boné.

— Estou brincando, o cheiro não é ruim.

Hein?

— Como sabe que não é ruim? — Deslizei o boné até o nariz.

Com a expressão séria, ele abriu a boca pra falar, mas nada saiu dela.

— Que bebidinha demorada. — Alice entrou falando alto como se tentasse me alertar sobre a chegada de Jully.

— Vocês se importam se eu não beber? — Minha prima não era chegada em álcool.

(...)

O Sol começou a se pôr e fomos dar um passeiozinho pela praia. Jully caminhou ao lado de Edward, já Alice e eu ficamos logo atrás, a uns dois metros de distância. O nerds conversavam sobre a corrente marítima da Flórida, ou seja: aaarrggghh!  Alice e eu nos perdemos legal na conversa, então passamos a imitá-los. Lice era Jully e eu era Ed. Fizemos um milhão de caretas acompanhas por gestos malucos. Sempre que algum deles olhava para trás, eu fingia estar roendo as unhas e Alice observando a paisagem.
Houve um momento em que minha prima desatou a falar, aí eu tive que parar Alice e agarrar seu pescoço, fingindo que era Edward quem estava esganando Jully. Alice, zoando pra caramba, colocou a língua pra fora e ficou chacoalhando os braços. Ela parecia uma minhoca sufocando.

Não satisfeita, passei a estapear “Jully”. Alice, no auge de sua interpretação, jogava a cabeça para um lado, jogava para outro e nos empolgamos de verdade com a brincadeira.

— É para separar? — A pergunta de Edward nos pegou de surpresa.

Larguei minha comparsa e tentamos disfarçar, mas não deu. O quase casal nos fitava como se pensassem: hospício resolve?

— É que tinha um... — Mordi o lábio. — Bicho... no cabelo da Lice.

— Que bicho? — Indagou Jully.

— Um insetinho safado. — Alice sorriu.

— Cansei de caminhar. — Contive a risada.

(...)

Acostumada a pôr a mesa no resort, tomei a frente na hora do jantar e Alice me ajudou. Edward e Jully foram para seus respectivos quartos tomar banho e nós ficamos cochichando na cozinha.

— Não acredito que se beijaram. — Ela colocou mais vinho na minha taça.

— Isso caiu como uma bomba sobre minha cabeça, não consigo parar de imaginar os dois trocando saliva. — Empurrei o vinho pela goela.

— Fica fria, foi só um beijo. Não é nada de mais. Até eu já beijei hoje.

— Para o casalzinho inexperiente talvez seja. — Tirei o peixe do forno e o coloquei sobre a mesa.

— Finalmente está com raiva de sua prima?

— Não. — Suspirei. — Às vezes o jeitinho dela me dá nos nervos, mas já era assim antes do selvagem aparecer. Gosto da minha prima. — Bebi mais vinho. — Escuta, Jully nunca namorou, então se ela está aqui com Edward é porque sente algo que não consegue controlar.

— E por isso vai desistir do T-zed? — Falou um pouco mais alto do que devia.

— Alice, eu sou legal, não besta. — Revirei os olhos. — Jully merece ser feliz, só que eu também. E se formos comparar os níveis de sofrimento pelos quais já passamos, eu mereço mais. Não estou tirando o “doce da boca de Ed”, só estou lhe dando mais opções. — Sorri com ousadia.

— Quem te viu, quem te vê... — Tirou onda com a minha cara.

— Pois é, minha amiga... Eu aprendi a duras penas que priorizar a própria felicidade nem sempre é egoísmo, é amor próprio.

— Quero ser igual a você quando eu crescer. — Me abraçou com força. — Qual vai ser o esquema? — Largou-me.

— Venho pensando nisso desde a praia. — Agora fui eu quem encheu a taça dela. — O selvagem passou dois dias e meio nesse lugar romântico descobrindo que é extremamente compatível com Jully. Preciso equilibrar a balança. Ela está fisgando ele pelo intelecto, então eu também vou balançar a minha isca. — Pisquei o olho ajeitando meu decote.

— Vai fundo! — Alice tapou a boca para não rir alto. — Toca aqui. — Ergueu a mão. — A gente sempre se ferra, mas se diverte!

— É isso aí, Vishimideuz! — Choquei minha palma contra a dela.

Quando Edward e Jully desceram para o jantar, foi a nossa vez de subir para tomar uma ducha. Minha prima nos cedeu seu quarto e eu adorei o visual da suíte. Ela tinha janelas que davam para o mar e a decoração era em tons de marfim e azul.

Alice foi a primeira a invadir o banheiro, porém minutos depois liberou o lugar para mim. Tomei um banho rápido, não molhei o cabelo, mas fiquei cheirosinha. Ao sair do banheiro, fui surpreendida com uma peça de roupa voando em minha direção.

— Ei! — Desviei e a peça caiu no chão.

— Achei na mala da sua prima. — Lice respondeu se achando a tal.

— Ficou fuçando a bagagem alheia? — A repreendi, mas eu não tinha moral pra nada.

— Nós roubamos um carro, invadimos uma casa, então, minha filha, isso é o de menos. — Começou a pentear o cabelo.

Peguei a roupa no chão e sorri ao perceber que a saia jeans combinava perfeitamente com minha regatinha preta.

A saia da minha prima ficou apertadinha e um pouco acima do joelho. Eu tinha um pouco mais de corpo que ela, embora Jully tivesse seios maiores.

Dispensando o sutiã, vesti minha regata, calcei as botas e dei uma bagunçada no cabelo pra ficar sexy.

Sem mais delongas, abandonamos o quarto e descemos à escadaria que nos levou à sala onde o quase casal esperava. Eles estavam sentados em um sofá de costas para nós. Jully foi a primeira a olhar para trás e Alice correu para sentar em uma poltrona. Danada, queria era nos assistir.

Eu continuei de pé na entrada da sala. Com as pernas um pouco afastadas e uma mão na cintura, esperei pacientemente o princeso se levantar e finalmente virar-se para mim.

Não sei se mais alguém percebeu, mas Edward engoliu em seco e baixou o olhar como se estivesse se autocensurando por algum pensamento inapropriado.

— Jully, espero não que se importe. — Indiquei a saia. — Minha calça não secou direito.

— Tudo bem, Bella. — Deu um rápido sorriso.

(...)

O jantar estava uma delícia. Peixe, salada verde, batatas dorê e o vinho branco combinava com tudo.

Edward e Jully ficaram relativamente perto, na verdade, o cara sentou e ela se acomodou no assento ao lado dele. Depois disso, comecei a me questionar se minha prima já se considerava namorada do selvagem.

Será que ela tinha consciência de que “ficar” não é namorar? Será que Edward deixara claro que ainda não havia se decidido? Será que era hora de pôr um cinto de castidade nele?

Para não ficar de fora da conversa dos nerds, me obriguei a prestar atenção no que Jully falava. Alice, por sua vez, fez o mesmo.

— De acordo com Peter Bromirski, do Scripps Institution of Oceanography, A quebra e o derretimento de calotas polares podem não ser consequência do aquecimento global. — Minha prima sempre ficava muito segura quando fazia observações cientificas. — Ele expôs uma teoria sobre um fenômeno pouco estudado: as ondas infragravitacionais.

— Que diabos é infragra... esse troço aí que você disse? — Alice fez uma careta medonha.

— As ondas normais são gravitacionais, e elas geram as infragravitacionais, que são, na verdade, vibrações. — Edward respondeu.

— E como isso pode derreter as capotes de gelo? — Questionei.

— Não, Bella. — Jully deu uma batidinha na mesa como se fosse minha mãe. — A palavra certa é calotas polares, não capotes. Para o seu próprio bem, procure sempre pensar bem antes de falar.

— Tem razão, desculpa. — Meu constrangimento foi tamanho, que nem mesmo o vinho foi capaz de desfazer o nó em minha garganta.

Eu sabia que às vezes falava coisas erradas, só que não fazia isso de propósito. Ninguém gosta de levar um “puxão de orelha”. Ninguém gosta de bancar a estúpida.

Tentei disfarçar minha tristeza dobrando o guardanapo, mas o desconcertante silêncio no cômodo quase me fez levantar da mesa.

— Hmm... — Edward gemeu, remexendo a comida em seu prato.

— O que foi? — Indagou Alice.

— Já corrigi Bella algumas vezes, mas só agora percebo como é deselegante fazer isso.

— Não tive a intenção de constrangê-la. — Jully falou para ele, em seguida, me encarou. — Me desculpe, Bella.

Quis responder um “tudo bem”, mas não ia soar sincero.

— Terminei de comer, vou esperar vocês lá fora. Com licença. — Edward saiu da cozinha.

Minha prima baixou a cabeça e tomou um grande gole de água. Imediatamente Alice fitou-me como quem diz “o que foi isso?”.

— Já estou cheia. — Dei um tapinha na barriga, porém me referia ao estranho momento. — Depois como a sobremesa.




Fui direto para varanda e o selvagem já estava lá, debruçado sobre a grade. Sem falar nada, também me encostei à grade e fiquei observando o mar.

— Me desculpe por todas as vezes que te corrigi em público. — Ele mantinha os olhos no horizonte.

— Tudo bem... — Suspirei com pesar. — Eu devia mesmo pensar um milhão de vezes antes de abrir a boca.

— Sabe que antes eu concordava com isso... — Riu sem humor. — Mas eu era muito pretensioso. — Balançou a cabeça em reprovação. — Bella, você só é uma garota formidável porque não tem medo de ser você mesma. Nunca conheci alguém tão autêntica. Admito que comete alguns erros, no entanto, a forma com que luta para se superar... O jeito criativo com que dribla as adversidades... — Fez uma pausa. — Tudo isso faz seus erros ficarem do tamanho de grãos de areia.

Edward não tirava os olhos do horizonte, já eu não tirava os olhos dele. De repente, me vi admirando o cantinho de sua boca, onde um sorriso quase se formava. Quis tocar as mechas levemente onduladas de seu cabelo, e estremeci quando ele baixou a cabeça para suspirar. Senti um aperto na boca do estômago na hora em que se distanciou para se acomodar em uma espreguiçadeira e, por fim, desejei pular no seu colo e não sair nunca mais.

O mais sensato era reprimir o sentimento incomum e gostoso que estava preenchendo meu peito, porém a felicidade de ainda ser capaz de perder o fôlego por alguém... era insuperável.

— Está tudo bem? — Ele percebeu que algo se passava comigo.

Com um dos sorrisos mais cintilantes da minha vida, coloquei a mão na testa e pensei:

Meu Deus do céu... Estou apaixonada por Edward! Não é só uma atração física, é paixão mesmo!

Achei que meu coração ficaria ressequido para sempre, mas não, ele estava ali, pulsando firme e saudável por aquele homem.

— Bella? — Ele insistiu.

Olhei para Ed e não consegui dizer nada, pois comecei a rir em um genuíno momento de felicidade. Era ótimo descobrir que uma desilusão amorosa não foi capaz de me roubar a capacidade de amar.

— Não sei do que está rindo, mas isso me dá vontade de rir também. — E seu rosto se iluminou com um afetuoso sorriso.

Incapaz de me conter, joguei a cabeça para trás e gargalhei mais ainda. Como podia evitar o ataque de alegria? Eu estava passando por momentos muito marcantes, primeiro o encerramento de uma era e, agora, o prelúdio de outra.

A maioria das pessoas estaria preocupada com os obstáculos que se impunham entre Edward e eu. A concorrência, as inquestionáveis diferenças, o fim das férias que romperia nossos laços, mas eu tinha aprendido a viver um dia de cada vez. Começava a valorizar os bons momentos a ponto de torná-los inesquecíveis.

Eu só estava saboreando a grande descoberta, então não me importava com a expressão confusa de meu amigo e muito menos com minha reação abençoadamente exagerada.

Eu estou apaixonada! Essa não é uma das melhores sensações do mundo?!

— Pessoal, vamos escutar um pouco de música lá na sala. — Lice chegou segurando a garrafa de vinho.

Edward, sem falar nada, se levantou, sorriu outra vez e entrou na casa.

Assim que perdemos o cara de vista, minha amiga sussurrou:

— Não quis interromper, mas é que Jully já estava quase vindo aqui. É melhor ela não pegá-los de surpresa. — Estreitou os olhos, estudando minha face. — Por que está tão radiante?

Parei para respirar bem fundo e isso a deixou mais curiosa. Não havia muito a ser dito, por isso, antes de também entrar na casa, passei por ela e cochichei:

— Estou apaixonada.

Ao atravessar a porta de vidro, a ouvi falar em minhas costas.

— Senhoras e senhores, finalmente a ficha caiu.

(...)

Alice tinha razão, a ficha havia caído e agora eu não podia ficar perdendo tempo me preocupando com a humilhação que sofri à mesa. Edward e Jully estavam prestes a se tornar um casal, eu precisava impedir isso.

Quando o selvagem sentou-se no sofá, minha prima se acomodou ao seu lado. Claro que não fui besta e fiz o mesmo, sentando à esquerda dele. Já Lice ficou empoleirada em uma poltrona perto de mim, mais à frente.

— Então... — Cruzei as pernas e a ponta da minha bota tocou a panturrilha dele. — Aquele apresentador do Me Azare é um chato, né?

— Não achei tanto. — Respondeu Jully.

— O cara quer ser engraçado, mas não é nem um pouco. Não gosto dessas pessoas que forçam a barra. — Expliquei.

— Entendo o que quer dizer. — Edward fitou-me.

— Que bom. — Fiz um discretíssimo carinho em sua panturrilha com o pé.

— Estou pensando em me inscrever. — Alice comentou, apontando o controle remoto para o som pra mudar de estação de rádio. — Adorei esse lance de viagem, além disso, estou muito encalhada.

— E você, Bella? Também pensa em se inscrever? — Minha prima questionou.

— Hmm... — Fiz uma careta. — Não faz meu estilo. — Bebi um pouco de vinho. — Além disso, prefiro caçar a ser caçada.

— Caçar nem sempre é vantajoso. Às vezes a presa foge. — Ela retrucou.

— Só se o caçador ou caçadora for incompetente. — Sorri.

— Eu prefiro ser caçada. — Alice gargalhou, sacando minha jogada. — E você T-zed?

Ele demorou pra responder.

— Eu não... sei. — Murmurou de forma cômica, confuso com o papo feminino.

— Deixa pra lá, vamos beber. — Chacoalhei minha taça vazia.

Lice esticou o braço para me servir e precisei me inclinar em sua direção, apoiando a mão na coxa do selvagem até que ela enchesse a taça. Quando minha amiga terminou, fingi esquecer a minha palma na perna dele e só a retirei depois de beber o vinho vagarosamente.

Ficamos jogando conversa fora por um bom tempo. Dessa vez, Jully evitou assuntos complicados e nos limitamos a falar sobre o trabalho no resort e suas conseqüências.

Quando o vinho acabou, Edward se levantou para buscar outra garrafa. Esperei exatos 60 segundos antes de também levantar com a desculpa de descolar alguns tira-gostos.

Infelizmente, quando eu estava indo, ele já estava voltando e nos encontramos na porta da cozinha. Houve um momento de confusão, pois o álcool já fazia efeito e não conseguimos entrar em consenso. Quando eu tentava passar pela direita, Edward também. O mesmo aconteceu com a esquerda. Ficamos naquele ridículo desencontro até ele dizer:

— Fica parada.

— Ok...

O selvagem pôs suas mãos firmes em minha cintura, me ergueu no ar e girou o corpo, colocando-me dentro da cozinha. Livre para poder voltar à sala, apenas sorriu e se foi.

— Alguém me abana... — Me apoiei em uma parede, quase desabando de tesão.

Ainda sentido o efeito de seu toque, me arrastei até o meio da cozinha e murmurei perplexa:

— Que diabos vim fazer aqui? — Cocei a cabeça.

De repente, Ed adentrou o cômodo, estranhamente desconcertado.

— Esqueci o vinho.

Olhamos para a mesa e a garrafa não estava nem aberta. Eu já era distraída por natureza, mas Edward? O que deu nele?

— Acho melhor você parar de beber. — Brinquei.

Ele concordou com a cabeça e tratou de pegar o saca-rolha.

— Qual o motivo da distração? — Me aproximei.

— É que fiquei refletindo sobre... um sonho que tive ontem.

— Sonho? — Arqueei uma sobrancelha.

O selvagem suspirou, deixou a garrafa de lado e me encarou.

— Sim. Bella, já teve um sonho extremamente peculiar?

— Há, há, há... — Puxei uma cadeira, sentei jogando os pés sobre a mesa e finalmente respondi. — Querido, sou a rainha dos sonhos bizarros. Conta aí, vai.

— Deixa pra lá... — Balançou a cabeça, colocando as mãos nos bolsos.

— Desembucha, Ed. Pra você ter noção, tive um sonho super estranho com você na quinta.

— Eu também. — Ficou surpreso. — Só que o meu sonho foi nessa madrugada. — Fez uma longa pausa e se apoiou na mesa. — Vi coisas que me deixaram confuso.

— Acredite, sei como é. — Revirei os olhos, recordando meu pesadelo.

— É a primeira vez que sonho com você.

— Não me diga... — Ri sem humor. — Eu tinha mudado de sexo?

Edward não entendeu a pergunta, por isso a ignorou.

— Foi totalmente surreal. — Estreitou os olhos. — Quando acordei me senti meio deslocado.

— Eu também. — Balancei um pouco a cadeira, bem descontraída.

— Fiquei tentando compreender o que me fez sonhar com aquilo...

— Ah, eu também.

— Te achei tão diferente.

— Eu também.

— Só que fiquei excitado.

— Eu tam... O QUÊ? — Arregalei os olhos.


(Continua...)

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