Um Selvagem Diferente - Capitulo 16


Pô, tá atrapalhando meu amasso!”

Tudo bem, ele não falou isso, mas foi quase...

— Não é educado entrar assim. Estão sendo inconvenientes. — A voz de Edward soou bastante autoritária.

— Entramos na sua casa? Eu não sabia. — Com sarcasmo, o baterista trocou um olhar com Brad.

McFadden manteve o olhar rígido sobre mim em uma cobrança silenciosa e descabida. Seu queixo tremeu um pouco e a fachada de “bonzão” estava seriamente abalada. Ele provavelmente estava lutando para não deixar transparecer o ciúme, mas era impossível não perceber o genuíno sentimento de “substituição” que lhe fazia trincar os dentes. Não é muito agradável ser flagrada pelo ex-namorado... Ah, meu Deus, tudo bem... Eu confesso! Depois de tudo que passei, é ótimo!

Brad continuou sem palavras enquanto o baterista falava meia dúzia de bobagens que Edward fez questão de ignorar. Talvez meu amigo estivesse mais interessado na risada que eu arduamente reprimia. Como eu podia esconder que achava tudo irônico? Fiz loucuras para provocar ciúmes em Brad, mas agora que eu já não me preocupava com isso, aconteceu da forma mais natural possível. Não era um daqueles momentos em que você faz de tudo para se sentir superior. Era um daqueles momentos em que a própria vida te coloca em posição de poder dizer: você foi o primeiro homem da minha vida, mas não será o último.

Dessa vez, minha ligação com Ed não era uma farsa e Brad sabia disso. Então levantei com serenidade e falei:

— Edward tem razão, vocês estão sendo inconvenientes. Por favor, subam em silêncio.

— Qualé, Bella? Não seja chata! — Retrucou o baixista.

O selvagem ergueu a mão como se fosse responder com extrema agressividade, mas o impedi, apertando-lhe o braço.

— Eles são como crianças. Reclamam, mas obedecem. — Falei calmamente.

— Pessoal, vamos curar a ressaca. — Brad finalmente se pronunciou.

Ele largou a garrafa de wiskhy sobre uma mesinha e mancou até a escadaria. O resto da banda resmungou um pouco, só que estavam cansados demais pra estender o blá,blá,blá e se mandaram.

Vigiei a banda enquanto subiam os degraus e sorri feliz por não ter vacilado diante do ciúme de Brad. Não senti aperto no peito, não solucei tanto e não fiquei toda abobalhada. Minha obsessão por aquele músico um dia teria fim e eu já conseguia sentir o cheiro da minha vitória.

Quando o Link 69 sumiu de vista, ainda olhando para escadaria, falei sem pensar:

— Caramba, Ed. Você parecia um leão defendendo seu terri... — Ao olhar para a sala, meu sorriso desapareceu. Edward já não estava ali.

Respirei fundo, tentando me convencer de que ele me abandonara para colocar mais gosma verde no tornozelo. Caminhei até a cozinha, mas não consegui atravessar a soleira.

O que eu devia dizer depois daquele beijão? Pior, o que eu devia dizer depois de ficar toda sorridente ao dar um inesperado golpe em Brad? O selvagem entenderia meus motivos para sorrir, ou pensaria que me importei mais com Brad do que com o beijo?

Fiquei tão inquieta e indecisa que meu estômago revirou. Eu havia prometido a Alice que não confundiria a cabeça de Edward, mas quem estava toda confusa era eu. Perigosamente confusa. Qualquer frase mal interpretada, qualquer gesto impensado, poderia magoar duas pessoas que não escolheram estar em tal sinuca de bico.

— Idiota! Idiota! — Sussurrei, cobrindo o rosto com as mãos.

Eu havia traçado uma linha de segurança e, de tanto brincar perto dela, acabei ficando estagnada em cima da linha. Não dava para voltar atrás e fingir que não estávamos, de alguma forma, envolvidos. Assim como também não dava para atravessar a linha, pois eu ainda não estava pronta para ficar de beijos e abraços com ninguém. Principalmente com um cara que ia desaparecer no mesmo estalar de dedos em que apareceu.

Perturbada, corri para o meu quarto fugindo de uma conversa constrangedora. Temi que Edward repudiasse minha amizade caso lhe contasse que só agora estou começando a me amar e não tenho condições de dividir isso com ninguém. Ao mesmo tempo, me julguei tola por pensar que ele se importaria tanto. O selvagem podia não está dando importância a nossa situação, ele também tinha suas metas, planejava vivenciar experiências e deixá-las para trás, ao voltar para sua casa. 

Grunhindo sobre o travesseiro, decidi que eu estava sendo dramática demais. Se Edward não falasse sobre o beijo, eu também não falaria. Deixaria as coisas se resolverem por si só e a tendência era mais do que clara. Eu aprenderia a deixar minha ridícula paixão por McFadden para trás e só voltaria a pensar em namoros depois da faculdade. Já Edward, teria um curto caso com Melanie e voltaria para Malaita realizado. Convicto de que a vida simples que escolheu é mesmo a melhor para ele.

Mais relaxada, fui completamente nocauteada pala exaustão de ter passado praticamente duas noites sem dormir.

...

Dei um pulo da cama, morrendo de medo de ter dormido mais do que devia. Atordoada, procurei por meu relógio no criado mudo e não o encontrei. De repente, Alice entra no quarto tagarelando. Mal consegui prestar atenção no que falava já que ela estava completamente careca e usando um manto estampado esquisito.

— Finalmente, hein? O que aconteceu? Morreu e não te aceitaram no outro plano?

— Dormi tanto assim? — Esfreguei o rosto.

— Só sexta, sábado e domingo. — Gargalhou.

— Impossível! — Arregalei os olhos, espantada.

— É verdade.

Lice estava mesmo muito estranha.

— O que... — Fiz careta sem querer. — Aconteceu com seu cabelo? — Apontei receosa.

Ela passou a mão pela careca e respondeu sorrindo.

— Minha prima me convenceu a entrar para o movimento Hare Krishna. Quer comprar uma das nossas revistinhas?

Pisquei os olhos duas vezes e explodi.

— VOCÊ FICOU LOUCA!? Implantaram um chip na sua cabeça? Está chapada?

— Respire, Bella. — Respondeu com a voz mansa. — Está tudo bem, eu cansei de ser consumista. Estou praticando o desapego às coisas materiais.

— Como é? — Ainda estava confusa.

— Doei todas as minhas roupas e pertences. — Sacudiu os braços como se estivesse voando.

— Eu vou é dar o fora desse quarto rapidinho porque esse merdelê pode ser contagioso. — Revoltada, fui até ao meu armário e escancarei-o. — AAAAAAHHHHHHHH! — Berrei, ao encontrar só os cabides vazios.

— A propósito, doei suas roupas também. Pratique o desapego, Bella. Pratique o desapego. — Chacoalhou uma sineta perto do meu ouvido e o sangue quase me subiu à cabeça.

Desnorteada, desci as escadas rapidamente enquanto Alice cantava uma bizarra e repetitiva musiquinha Hare Krishna atrás de mim.
Assim que coloquei os pés na sala dei de cara com meu irmão.

— Jasper? — Arqueei uma sobrancelha.

— Fala aí, maninha. Dormiu muito? — O maluco segurava uma prancha de surf e usava apenas um bermudão. Ele estava tão,... choquei,... malhado!

— Você, tipo... inflou? — Não consegui absorver o fato.

— Quem? Eu? — Riu.

— Não acredito! — Meu queixo despencou. — Você falou de si mesmo na primeira pessoa! — Coloquei as mãos nas bochechas.

— E porque não falaria? Eu, hei?! Você está estranha, mana. Se liga, num vacila nessas paradas não que tu já tá assustando a Vishimideuz.

— Quem? — Me perdi.

— Vishimideuz, o novo nome hindu ou sei lá o quê da Alice.

Tive medo de me virar para encará-la, mas ouvi novamente a sineta perto do meu ouvido.

— Tudo bem... — Ri sem vontade. — Vamos parar de palhaçada, tá legal?! Não tenho tempo pra isso. Cadê o Emmett?

— Eu conto ou você conta? — Jasper fitou Lice, quero dizer,.. Vishimideuz.

— Contar o quê? — Me encolhi de medo. Pelo andar da carruagem, meu amigo podia ter sido até abduzido.

— Bel, é melhor você sentar. — Vishimideuz me conduziu até o sofá. — Escuta, depois que Rosalie voltou para o ex-marido mafioso, Emm deu uma guinada na vida dele.

— Que tipo de guinada? —Balbuciei.

— É melhor você ver. — Jasper pigarreou. — Pode sair, ela já está preparada. — Meu irmão gritou e a porta do escritório do meu pai se abriu.

— AAAAAAAAAAHHHHH! — Dei um pulo do sofá, totalmente aterrorizada.

— Oi, Bella. Ainda sou eu... mesmo depois da cirurgia de mudança de sexo. — Emm ainda era grande e forte, mas agora tinha cabelos loiros cumpridos, peitões e usava a mini-saia mais curta que já vi na vida.

— Você está horrorosa. — Comecei a choramingar.

— Horrorosa? Nunca! — Ela/ele se revoltou, desmunhecando. — Sou quase uma Shakira, meu amor. Que ver? — Ameaçou levantar a saia.

— Nãããooo! — Gritamos ao mesmo tempo.

— Estou passando mal. — Caí nos braços da Vishimideuz.

— Nada de chilique. — Ela me empurrou e eu cambaleei até a porta da frente, a qual imediatamente se abriu.

— EDWARD! — Gritei ao vê-lo.

— Oi, Bella. — Ele sorriu com o braço em volta dos ombros de uma gostosona de cabelos negros e traços orientais.

— Olá, sou Melanie. — Ela estendeu a mão para me cumprimentar, mas eu só conseguia pensar: que merda é essa?!

— Já... já... voltaram de Miami? — Lá estava eu, novamente deslocada.

— Sim. Foi irado! — O selvagem respondeu muito sorridente.

IRADO?

Edward também estava diferente. Usava uma calça jeans, camiseta branca e por cima um casaco de couro preto, mas não foram suas vestes que me chocaram e sim, o piercing na orelha direita.

— Está usando piercing? — Não podia estar mais pasma.

— Gostou? Então olha esse aqui. — Colocou a língua para fora e mostrou seu outro piercing.

— Ui... — Gemi, de olhos vidrados.

Ed ignorou minha reação e voltou-se para Melanie.

— Gata, vai pegar sua mala. — A beijou na boca e deu-lhe um tapa na bunda enquanto ela atravessava a porta.

Olhei para trás e meus amigos estavam rindo da minha cara de otária.

— Quer ver minha “Shakira” agora? — Emmett quis levantar a saia novamente.

Rapidamente agarrei a mão de Ed e o arrastei para o escritório. Tranquei a porta e me preparei para iniciar o interrogatório.

— Qual a parada, Bella? Está parecendo uma louca. — Ele gargalhou.

— Louca? — Me irritei. — Mesmo? Alice virou Vishimideuz, Jasper está malhado e Emm virou MULHER! — Quis gritar até ficar sem voz. — O que aconteceu com voc... — Fui interrompida pelo toque do celular de Ed.

— Guenta aí, mulher. — Ele atendeu com um sorrisinho malicioso. — Oi Susie. Tudo bêlê?

— Quando foi que comprou um celular? — Cocei a cabeça.

Edward ergueu a mão, pedindo que eu me calasse.

— Quem sabe na próxima semana. — Continuou a papear com a tal Susie. — Eu também adorei... — Riu de um jeito malandro. — Depois te ligo. Beijo, gata. — Desligou. — O que você estava guinchando, Bella?

— Eu bebi? — Fiquei na dúvida. — Sério, estou bêbada? — Olhei para os lados, procurando a garrafa. — Quem é Susie?

— Uma mina que “peguei” em Miami. — Deu de ombros.

— “Pegou”? — Mordi o lábio, muitíssimo aturdida. — E a Melanie?

— O que tem ela? Estamos namorando.
ÊPA!

Fiquei sem voz.

— Está tão confusa assim? — Veio até mim e colocou um braço em volta dos meus ombros. — Vou simplificar pra você. Antes eu era um tremendo otário, um verdadeiro mané, mas aí você teve a brilhante idéia de me inscrever no Me Azare! e... Bang! Você sabe, conheci Melanie, passamos o final de semana juntos e tudo mudou. Finalmente conheci o bom da vida e estou sendo o cara que sempre deveria ter sido se meu pai não tivesse me obrigado a morar naquela ilha ridícula. — Bufou pelo canto da boca, quanto a mim, continuei muda, paralisada e ferrada. — Está sendo incrível, gata. Resolvi aceitar a grana da minha mãe e estou super a fim de curtir “la vida loca”. Eu tô botando é pra “descer”. Falando em doideira, vou viajar para Los Angeles amanhã. Ouvi dizer que lá, bomba. — Me deu um tapinha nas costas.

— Edward! — O chamei com a voz estrangulada. — Por favor, diz pra mim que isso não passa de uma pegadinha. — Me senti super mal.

— Não estou te entendendo. Você sempre me incentivou a ir por esse caminho. Já desperdicei minha vida demais bancando o “esquisitão da selva”, como vocês sempre falaram. — Se jogou na poltrona do meu pai. — Agora só quero gozar a vida, sacou? — Piscou o olho pra mim.

Então fui eu quem tranformou o selvagem num babaca?

— Como... eu.... — Chacoalhei a cabeça, em seguida, sentei no braço da poltrona. — Quando vai voltar de viagem?

— E eu sei lá?! — Gargalhou.

— E o puma?

— Emmett, quero dizer, Emily... Ainda me confundo. Bem, “ela” disse que pode conseguir um comprador para o puma. Animais selvagens valem uma nota. — Arrotou do nada.

— Não pode vendê-lo!

— Não explode seus poucos neurônios com isso.

Estremeci de raiva, mas antes que pudesse xingá-lo, Edward puxou-me para seu colo e sussurrou em meu ouvido:

— Quando Mel dormir, posso passar no seu quarto? — Apalpou meus seios sem nenhuma delicadeza.

Desvencilhei-me, enojada.

— Não ferra, Ed! — Mantive a maior distância possível. — Como pode estar sendo tão imbecil? Esse não é você, por favor, volte a ser quem era antes de...de... — Grunhi. — DE PIRAR! Meu Deus do céu! — Coloquei as mãos na cabeça.

— Não rola de jeito nenhum. — Tirou do bolso um maço de cigarros e acendeu um bem na minha frente. — Mas quer saber?! — Tragou. — Se você não quer, tem quem queira, garota. Você também não é grande coisa, Bella. — Riu alto.
O fitei, magoada.

— Bel, seu namorado está aqui. — Jasper bateu a porta.

— Namorado? — Embasbaquei. — Voltei com Brad? — Rapidamente saí do escritório.

— Aí está ela. — Vishimideuz acenou pra mim.

— Quem é meu namorado? — Indaguei insegura.

— Oras, Ele! — Emmett apontou para a porta da frente e eu vi o pequeno Umpa Lumpa da Fábrica de Chocolate.

— AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH! — Me descabelei.

...

— AAAAAHHHHHHHH... — Senti o impacto do meu corpo contra o solo e gritei mais ainda. — AAAAIIIIIÊÊÊ! — Continuei com o rosto no chão e fui me dando conta aos poucos de que havia tido um terrível pesadelo.

— O que foi? Que grito foi esse? — Emm invadiu meu quarto.

Levantei num pulo e corri para os seus braços.

— Por favor, por favor, nunca mude de sexo. — Pressionei minha bochecha contra seu tórax. — Não corte nada fora, Emmett. Você não parece nem um pouco com a Shakira. Eu juro! — As imagens do sonho ainda preenchiam minha mente.

— Bella, você andou tomando algum remédio de venda proibida?

— Tive um pesadelo tão real. — Murmurei recuperando o fôlego.

— Sei que demora um pouco para voltarmos à realidade, mas não viaja. — Beliscou meu braço.

— Ei! — Me afastei, esfregando o local.

— De nada. Agora que você tem certeza de que está acordada, pára de dizer merda.

— Tudo bem. — Me recompus. — Quanto tempo dormi? Onde está o Edward?

— São 17:15h.. — Verificou no relógio de pulso. — E T-zed foi para o Me Azare! com a Alice.

— Não! Não! Não! — Fiquei aflita.

— Relaxa aí. Alice queria te acordar, mas T-zed pediu pra te deixarmos dormir porque você passou quase duas noites em claro por causa dele.

Comecei a suar feito uma condenada. Por mais absurdo que tivesse sido o meu pesadelo, havia ali um alerta da minha consciência. Por minha causa o selvagem estava mudando. Começou a ser impulsivo, já mostrava agressividade diante do Link 69, estava disposto a aparecer na televisão só para conhecer uma garota, começava a se preocupar com a opinião alheia a ponto de mudar a aparência, passou a entender nossas gírias e até chegou a usar uma, seus extintos sexuais estavam aflorando... Claro que isso tudo não parece motivo de grande alarde, mas o problema é que uma coisa sempre leva à outra. Qual seria seu próximo passo? Viajaria com Melanie e acabaria fazendo sexo só por fazer? Depois ele ia querer explorar essa “área” com outras parceiras? Ia começar a se importar com coisas fúteis? Como eu ia me livrar da minha parcela de culpa? Desde que Ed chegou à Orlando, o incentivei a ser como nós, mas ele só é um cara especial porque possui valores que são raros nesta sociedade.

— O selvagem não pode aparecer naquele programa idiota, não pode conhecer Melanie. — Procurei meus tênis pelo quarto e, por cima do pijama, vesti uma calça e uma jaqueta jeans. — Como eu pude deixar isso acontecer?! — Resmunguei e Emm ficou perdido. — Preciso de uma grana, me dá qualquer coisa. — Enfiei meus pés nos calçados.

— Que bicho te mordeu? Deve ter batido mesmo a cabeça.

— Me dá o dinheiro! — Vociferei.

(...)

O táxi estacionou em frente ao edifício da TVK. Paguei o motorista, peguei meu troco e disparei para a entrada principal.

Alguns pesadelos, mesmo os sem pé nem cabeça, têm o poder de nos atormentar. As sensações que fluem durante o sonho permanecem conosco por horas. Até sem querer, repassamos as cenas em nossas cabeças a ponto de acreditarmos que, se fecharmos os olhos, voltaremos a ter o mesmo sonho ruim.

Durante os minutos que fiquei dentro do táxi tentei me acalmar, pedi a mim mesma, juízo e paciência, só que eu nunca possuí essas qualidades. Então lá estava eu, novamente voando pelos corredores da TVK, mais parecendo uma fugitiva de manicômio. Não foi difícil chegar ao estúdio Sete, pois já conhecia o caminho. Acreditei que nada poderia me impedir de encontrar Edward, isso até avistar uma multidão enfileirada para entrar no estúdio. Sem fôlego, encostei-me em uma parede e tive dificuldades pra raciocinar por conta do murmurinho à minha volta. Cara, como tinha mulher e viado, aquilo!

Os minutos correram e me estressei por encontrar o celular de Alice na caixa postal. Isso sem falar que quase apanhei de umas garotas que se revoltaram com a minha frustrada tentativa de furar a fila. Depois de pisarem no meu pé, rirem do meu cabelo estilo “nunca vi um pente”, receber uma maldosa cotovelada e ouvir uns mil “OMG! OMG! OMG!”, finalmente consegui entrar no auditório. 

O nível de organização do Me Azare! era zero. Todo mundo queria pegar um bom acento e foi um pandemônio. Fui praticamente arrastada para as primeiras fileiras de poltronas, até ouvir um grito:

— BELLA!

Reconheci a voz de Lice e saí empurrando quem eu via pela frente. Fui guiada apenas pelo berro enlouquecido da minha amiga. Assim que avistei a espertinha sentada na primeira fileira do lado esquerdo do auditório, lá nas últimas poltronas, corri até ela.

— Não acredito que você veio. — Se animou, chacoalhando um pompom vermelho que a produção colocou em cada poltrona.

— Por que não me avisou que quem vai para o inferno faz escala aqui? — Olhei em volta e não encontrei onde sentar.

— Na primeira edição do show não foi assim. Se manca! O Me Azare! já é um sucesso, tá, coleguinha?! — Gargalhou.

— Foco! Vamos tirar o selvagem daqui. — Mandei na lata.

— E por que cargas d´água faríamos isso? — Cruzou os braços sobre o peito.

— Eu estava errada. Ele não precisa de toda essa exposição. Não precisa dessas malucas praticamente forçando-o a ser um “cara comum”. — Torci para que ela enxergasse o arrependimento por trás de casa sílaba.

— Bel, pelo amor da minha mão na sua cara! Senta teu rabo em algum lugar e não me inventa mais nenhuma barbaridade. — Me fuzilou com o olhar.

— Você não entende! — Fiquei ainda mais angustiada. — Esquece, só me diz onde encontro o Ed. — Fitei o palco que estava todo decorado. Em volta dele, havia uma grande equipe trabalhando, cameras-man, contra-regras, produtores... o escambal.

Logo que terminei de falar, alguém pelos auto-falantes, ordenou que todos se acomodassem e fizessem o máximo de silêncio.

— Já era, minha filha. Acha mesmo que vão nos deixar sair daqui com a atração principal? Desencana, Bel. Vamos assistir ao show e depois você fala pro T-zed que está se descabelando de arrependimento por ter jogado ele nos braços de outra mulher.

— Ah, não me vem com essa! Você sabe que... — Bufei de raiva. — Deixa pra lá. — Desisti de discutir com Alice. — Droga, você tem razão. Não vão deixar o selvagem sair daqui. — Ainda tentei bolar um plano, mas simplesmente não dava tempo.

— Se acalma, não chora pelo leite derramado. Vamos ver o que acontece. Aposto que T-zed vai ser sensato em sua decisão. — Esticou o braço e apertou minha mão.

— Não dá pra simplesmente sentar e assistir Ed fazer algo que não tem nada a ver com ele. — Não conseguia me conformar.

— Lógico que dá. Se você inventar um parangolê, justo agora, só vai envergonhá-lo.

Fechei os olhos e gemi de desgosto. Eu tinha que admitir, Lice estava certa. De mãos atadas, respirei fundo e relancei os olhos pelo auditório, buscando uma poltrona vaga. Infelizmente não encontrei nenhuma.

— Oi, tudo bem? — Me dirigi à moreninha sentada do lado esquerdo de Alice. Sorri para ela da forma mais gentil que minha impaciência permitia. — Gostaria de me vender seu lugar? — A garota devia ter uns treze anos.

— Ai, não rola. — Cruzou as pernas, bancando a esnobe. — Eu batalhei para sentar aqui na frente só pra ver melhor o Edward. Ele é um sonho! Então nem tem chance, dá um tempo.

Com a expressão azeda, arqueei uma sobrancelha.

— Por causa do Edward? — Enfiei o dedo indicador no ouvido e chacoalhei. — Eu ouvi bem?

— Quer que eu faça um desenho? — Respondeu a malcriada.

Com os nervos à flor da pele, arranquei a menina da poltrona e a escorracei, dizendo:

— Some daqui, vai procurar o Justin Bieber!

A adolescente não quis encarar meu mau humor e se mandou. Alice ria a valer e até a sua respiração parecia uma provocação.

Pouquíssimo tempo depois, o programa se iniciou. Com a chegada do apresentador, o auditório se animou e vi centenas de pompons chacoalhando atrás de mim. Como todo show de TV sem sentido, tinha até uma musiquinha de abertura tocando ao fundo.

Assim que o apresentador começou a ficar de blá, blá, blá com a platéia e a puxar o saco dos patrocinadores, cutuquei Alice.

— Por que não está nos bastidores com o Edward?

— Foi ele que me dispensou,... ou quase isso, pois fiquei reclamando que, da última vez, não vi o show de um bom ângulo.

— Ele comentou algo com você, tipo... — Fiquei meio sem jeito. — Sobre ontem à noite?

— Não, por quê?

— Ele estava nervoso? — Mudei de assunto.

— Não... Só me pareceu bastante ansioso pra conhecer Melanie. — Ela analisou meu rosto. — Cara, você está uma bagaça.

— Jura? — Gemi de desgosto e ela colou em mim quando a câmera focalizou a área em que estávamos. A maluca ficou acenando energicamente e eu morri de vergonha.

— Dá tchau pro povo do resort!

Involuntariamente, coloquei a língua pra fora como se tivesse chupado limão. Era horrível imaginar todo o pessoal do resort empoleirados no sofá rindo da minha cara de jumenta.

— Hoje temos novos solteiros dispostos a ouvir suas cantadas e lhes dar uma chance de conquistá-los! — O apresentador falou, roubando a minha atenção e fazendo o mulheril gritar. — E não é só! No final do programa, temos uma grande surpresa pra vocês. É isso aí, você que está em Orlando, corra para o estacionamento da TVK e venha assistir de graça à uma apresentação da cantora Diana DeGarmo no final do Me Azare! — O cara fez suas gracinhas na frente da câmera e o auditório foi à loucura por causa da surpresa. Alice e eu ficamos bobas com a novidade. Depois que o auditório se acalmou, o apresentador deu continuidade. — Agora, pessoal, quero que recebam com aplausos os quatro participantes do programa passado. Por favor, que entrem Brigitte Walker, Laura Hernandez, Evan Miller e Edward Cullen! — Os chamou com estardalhaço enquanto os aplausos soavam juntamente com uma música de fundo.




Enfileirados, eles adentraram o palco, acenando. Edward era o último da fila e também o mais bonito. Ele estava mancando um pouco, já que se apoiava em uma bengala listrada, provavelmente arranjada por Lice. O selvagem sorria, trajando um jeans básico que combinava bem com o a blusa e o blazer preto que usou da última vez. A gravata estava frouxa, dando-lhe um ar despojado que realçou seu olhar de inocente sexy.

Então, quando Edward colocou-se no meio do palco com os demais, finalmente cedeu ao apelo do mulheril e acenou para a platéia. Achei que meus tímpanos iam estourar! A conversinha mole de meu amigo no último programa havia mesmo conquistado as garotas. Também pudera, esse lance de correr atrás do “bom moço” estava em alta por causa de artistas juvenis como Jonas Brothers e derivados. Meu amigo não sabia, mas ele aparecera na televisão justamente na década em que as jovens voltaram a valorizar conceitos que até eu julgava ultrapassados como romance e virgindade. 

— Que demais! Que demais! — Alice, empolgada, cutucou meu braço.

O selvagem riu da reação exagerada da platéia e me perguntei se ele estava curtindo toda aquela exposição.

Logo que o apresentador conseguiu fazer a platéia se calar, cumprimentou os participantes. Como ninguém deixou de notar a perna machucada de Ed, o apresentador se adiantou.

— Então, Edward. O que aconteceu com você?

— Foi só um pequeno acidente na praia. Eu estou bem. — Sorriu.

— Bom saber. — O cara deu um tapinha nas costas dele.

— Será que ele não está nos vendo aqui? — Alice me fez notar, que de fato, Edward não havia nem olhado na nossa direção. — Será que está nos ignorando?

Trocamos um olhar de dúvida.

— É bom ir se acostumando, Vishimideuz. — Ainda lembrando do pesadelo, afundei na poltrona. — Agora tudo pode acontecer.

— Vishimi... o quê?

O apresentador começou a se vangloriar do sucesso do último programa e Edward enfiou as mãos nos bolsos, olhando fixamente para frente.

— Cara, ele só pode não estar nos vendo. Estamos nas últimas poltronas dessa droga de fileira. — O tom de voz de Alice era quase choroso.

Eu era incapaz de ver minha amiga triste. Por isso mesmo, contra minha vontade, coloquei o indicador e o polegar na boca e assobiei alto. O som chamou a atenção de algumas pessoas, inclusive a de Edward.

— Ah, ele nos viu! — Ela voltou a ficar contente quando o selvagem abriu um sorriso e apontou para nós como se dissesse “aí estão vocês!”.

Obriguei-me a retribuir o sorriso, mas parte de mim ainda acreditava que Edward não acenou para nós porque não quis. Só se ele fosse muito cego para não nos perceber ali. Poxa, estávamos na primeira fileira!

— Agora, sem mais delongas, vamos chamar ao palco os rapazes e moças que nossos participantes escolheram para um encontro romântico aqui no Me Azare! Mas antes quero parabenizar a produção pelo nosso barzinho. Ele está todo no clima, romântico e pronto para a azaração! — Nos telões estrategicamente pendurados dos dois lados do palco, mostraram detalhes do barzinho posto no final do palco. Ele se assemelhava à um barzinho convencional com barman preparando drinks, mesas bem decoradas com velas, enfim, todo climatizado para salientar o romantismo imposto pelo quadro. — O primeiro que vou lhes apresentar é Brian Carlton, o cara cheio de lábia que chamou a atenção de Brigitte Walker. Brian, entra aí! — Aumentaram a música enquanto o moreno de boné virado para trás, com pinta de malandro, entrava correndo e acenando para a platéia. Todos aplaudiram, só que, apesar do sorriso de Brigitte, estava nítido que o carinha não era exatamente o que ela esperava. A loira trocou beijos na bochecha com seu escolhido e ficou na cara que o coitado não ia ter chances com ela.

— Que nervoso! — Alice estava quicando na cadeira. — Devo torcer pra Melanie ser bonita como no perfil do Eutouquerendo.com, ou devo rezar para ela ter a perna fina, poucos dentes e cabelo no sovaco? — Me encarou.

Fiquei na dúvida.

— Ela é bonita. Até sonhei com a sujeita.

A produção do Me Azare! desconhecia totalmente o fato de que já sabíamos como Melanie era. Nem passava pela cabeça deles que Edward a escolheu justamente por já ter trocado e-mails com ela, então para não babar tudo, meu amigo precisava fingir que ela era tão desconhecida pra ele quanto era para os outros participantes.

E lá estava eu, roendo as unhas, assistindo os “escolhidos” adentrarem o palco um por um. Alguns eram bonitos, outros feinhos, mas o público estava adorando ver a reação dos solteirões.

— É agora. — Alice apertou meu braço e fiquei ainda mais tensa.

Imediatamente relembrei meu sonho e senti que todas as minhas idéias malucas serviram de trampolim para aquela desconhecida. Era possível que ela fosse o último elemento que faltava para Edward esquecer suas raízes. Não era o momento certo de “viajar”, mas foi impossível não imaginá-lo se apaixonando por ela, depois decidindo abandonar seu pai e Malaita para ter um destino diferente... Deixando para trás o selvagem por quem me... me... Apeguei.

Quais eram as chances daquela garota entrar de vez na vida do meu amigo? 1 em 100? 1 em 1.000.000? Mesmo as chances sendo poucas, ainda existia o perturbador “E SE?”.

— Agora vamos conhecer a escolhida de Edward Cullen. — O apresentador sorriu para ele e a moçada chacoalhou os pompoms. — Está nervoso amigo? — O idiota enrolou.




— Sim, estou um pouco. — Meu amigo foi sincero.

— Então não vamos mais te torturar. — Olhou de relance a ficha em sua mão. — Que entre Jullyana Melanie Lewis!

— AAAAAAHHHHHHH! — Mal senti quando fiquei de pé chacoalhando as mãos perto do rosto como se estivesse vendo um fantasma. E véi,... era praticamente a mesma coisa! O grito da platéia logo engoliu o meu quando minha prima atravessou o palco acenando. Meu coração foi a mil!

— Puta que pariu! — Alice também ficou de pé.

Com os olhos meio arregalados, Edward a encarou, tão perplexo quanto nós. Jully estendeu a mão para cumprimentá-lo, só que Ed não moveu um músculo. Quando o fez, foi para olhar em nossa direção, cheio de questionamentos por trás de seus olhos azuis.

— Parece que Edward não esperava que Jullyana fosse tão bonita. — Rindo, o apresentador tentou tirá-lo do estado de choque e conseguiu. Franzindo o cenho, o selvagem apertou a palma de minha prima e forçou um sorriso.

Lentamente baixei a cabeça, dizendo:

— Merda! Alguém me estapeie!

Meu cérebro se superou e começou a ligar os pontos. Imediatamente entendi porque Jully tinha me pedido permissão para se aproximar de Edward. Porém, o que ela não me contou foi que bem antes eu, possivelmente, deixei a página do perfil do selvagem aberta no computador do meu pai e ela criou um perfil falso só pra ficar trocando mensagens com ele. Eu tinha visto uma foto da falsa Melanie e, por isso não associei ela à minha Jully Melanie.

Mas por quê? Meu Deus, por quê ela fez isso comigo?! Cheguei a me oferecer para falar bem dela pra ele, só que Jully se recusou. Droga! Onde está a prima tímida que sempre tive? Não... Espera! Será que foi por isso? Jully mentiu pra todos por causa de sua timidez? Não faz sentido, então por que está agora azarando Edward em rede nacional? Não consegui pensar em uma resposta até minha memória levar-me à dois dias atrás, quando Edward apareceu pela primeira vez no Me Azare!.

Parecia que eu conseguia ouvir a voz de Melanie em minha cabeça:

“Olha, Edward, eu não tenho nenhuma cantada engraçada ou muito inteligente, mas eu realmente adoraria te conhecer pessoalmente. A princípio estava com medo de propor tal coisa, mas quando praticamente disse que uma garota não tem que ter medo de mostrar quem realmente é, tomei coragem e resolvi arriscar. Então o que te peço é: faça acontecer, que eu faço valer a pena.”

Ainda presa à lembrança, senti o pompom de Alice em meu rosto.

— Acorda, querem arrancar seu couro! Senta, pelo amor de Deus! — Açoitou-me com o pompom e me fez fitar Lisa, a produtora, que se descabelava por eu estar atrapalhando as filmagens daquele lado do auditório. Mas quem foi que disse que consegui descongelar?

— Melanie é Jully. — Balbuciei, recobrando lentamente a sanidade.

— É, Bella. Sua loiríssima prima nerd nos tapeou. — Puxou-me para baixo, forçando-me a sentar.

Passei as mãos pelo rosto e quando finamente voltei minha atenção para o programa, Edward e Jully já estavam no barzinho papeando e o apresentador conversava com os novos participantes.

— Qual será a desculpa que ela está dando pra ele? — Lice indagou e ficamos observando-os.

Jully estava sentada de frente para o selvagem e ele não movia a boca, apenas maneava a cabeça de vez em quando. Minha prima gesticulava e, por vezes, colocava a mão na testa, ruborizando terrivelmente.

Alice ainda estava bem confusa quanto à surpreendente aparição de Jully, então resumi para ela a minha teoria de como Melanie/Jully foi parar naquele palco.

— Edward odeia mentira, ele não vai engolir as desculpas dela facilmente. — Comentei, desejando aliviar a pressão no peito.

— Mesmo? — Minha amiga voltou-se para mim. — Temos mentido pro cara desde que ele chegou a Orlando e, ainda assim, ele sempre está de boa com a gente. Jully mentiu só uma vez. Quais as chances dele perdoá-la?

Pigarreei, cruzando os braços.

— Hãã... 1 em... Ah, cala a boca!  — Afastei-a com a mão.

(...)

Não tiramos os olhos de Edward e Jully um só minuto. Às vezes davam closes neles e, pelo telão, estudamos suas expressões e gestos. Edward parecia ficar cada vez mais à vontade e houve momentos em que simplesmente riu. Alice e eu evitamos tirar conclusões precipitadas, mas a verdade é que Ed ficou bem relaxado perto de Jully.

Os outros solteiros estavam passando pela pressão de analisar em um curto tempo seus escolhidos, mas Edward já convivia com Jully na mansão e, diferente dos demais, eles agiam como dois conhecidos jogando conversa fora.

— Viu aquilo? Deu pra ler os lábios dela! — Alice me cutucou.

— É, eu vi. — Quando deram um close em Jully, deu para perceber que ela falou “amigos? Claro!” e sorriu. — Provavelmente Edward ainda vai sair daqui solteiro. — Sem que eu esperasse, suspirei vagarosamente.

— Não está brava com sua prima?

— Em parte. Estou chateada porque ela se escondeu atrás do perfil de Melanie. Agora, quanto a querer Edward... O que posso dizer? Ela pediu minha permissão e eu a incentivei a ir fundo.

— Permissão? — Alice tossiu, disfarçando a risada. — Virou cafetina ou namorada?

— Cafetina. — Respondi de imediato. — Nós praticamente criamos essa versão mais sociável de Edward. 

— Lembra quando ele era todo anti-social, andando barbudão e pelado pela mansão? Lembra de quando ele não falava? — Rimos juntas.

— Edward era assustador. Em alguns momentos, parecia que ia nos matar. — Joguei a cabeça para trás e gargalhei. — Uma vez até disse que não gostava da gente.

— Agora olha nosso pupilo ali. — Alice suspirou. — Lindo, descolado, assediado. Quase uma celebridade instantânea.

— Pois é. — Estreitei os olhos, estudando-o. — Pra mim é difícil acostumar.

— Viu só? Você não precisa se preocupar com nada. Edward e Jully vão dizer a todos que serão só amigos. Chega de Me Azare!. Logo iremos para casa comemorar com um jantar. — Passou o braço em volta dos meus ombros. — Ele ainda é nosso! — Lice me fez rir.

(...)

Tirando a surpresa inicial, o programa correu bem. Os novos participantes foram azarados via e-mails e telefonemas. Assim como aconteceu na primeira edição, os solteiros selecionaram moças e rapazes para conhecê-los no show.

Então chegou o momento dos casais no barzinho decidirem se iam ficar juntos durante o final de semana ou não. A loira, Brigitte, dispensou sem dó o tal Brian. Evan Miller também disse “não” à moça com quem conversou durante o programa, mas Laura Hernandez aceitou ir para Miami com seu escolhido e a platéia vibrou com isso. Até eu aplaudiu o casal. 

— Diga-me, Edward... — O apresentador posicionou-se ao lado dele. — O que achou de Jullyana?

Pela primeira vez, Jully fitou-me, mas como fui incapaz de mostrar simpatia, ela baixou a cabeça.

— Zac, Jullyana é uma pessoa muito inteligente e interessante. — O selvagem previsivelmente educado.

— E você, Jullyana? O que tem a dizer sobre Edward? — Voltou-se para ela.

Minha prima riu e, com a face rosada, respondeu:

— Ele é exatamente como imaginei. Humilde e simpático.

A platéia aplaudiu e Edward ficou um pouco sem jeito.

— Agora é o momento decisivo, meu amigo. — O apresentador colocou uma mão no ombro do selvagem. — Acha que tem algum futuro com Jullyana? Deseja passar o final de semana em Miami com essa bela loira?

Edward fitou minha prima como se estivesse confirmando algo que já haviam combinado. Claro, eles decidiram que seriam só amigos. Então, ele pressionou os lábios, passou a mão pelos cabelos e falou:

— Sim. Desejo.

Não consegui ouvir meus próprios pensamentos devido ao excesso de empolgação da platéia. Complemente deslocada e sem reação, evitei a todo custo, olhar para o palco e, de repente, minha visão ficou turva. Segundos se passaram até eu me dar conta de que, na verdade, não havia nada de errado com os meus olhos. Eles estavam apenas levemente marejados.

Lentamente virei o rosto para Lice e a vi balançando a cabeça, como se não entendesse a decisão de nosso amigo. Nesse exato momento, confetes prateados começaram a cair sobre o estúdio, preenchendo o ambiente com uma alegria que só eu não sentia. Desligando-me do que se passava à minha volta, continuei olhando para a chuva de confetes.

Conforme Alice chacoalhava meus ombros, fui recobrando o raciocínio e a noção de tempo.

— Temos que correr! — Falou alto. — Se apressa!

— Por quê?

— Zac já chamou os comerciais. Não ouviu o aviso pelos alto-falantes? Vão abrir as portas para que todos possam ir lá pra fora, ver a apresentação da Diana DeGarmo e acompanhar a saída do T-zed e o resto da galera que vai pra Miami.

Fitei o palco e todos os participantes já haviam sumido.

— Como assim? Edward vai viajar agora? — Vociferei.

— Pela manhã, avisaram a Edward pelo telefone. A TVK não esperava que o programa fosse render tamanha audiência e estão reformulando várias coisas pra manter o show em evidência. Disseram pra T-zed trazer a bagagem dele por precaução, caso ele gostasse mesmo da Melanie.

— E isso é hora de você me avisar? — Fiquei de pé.

— E em que hora eu ia avisar? Quando você queria tirar o Edward daqui à força e quebrar o contrato que você mesma assinou?

— Merda! — Minha cabeça começou a latejar.

— Seja lá o que você ia falar pro cara, é melhor fazer isso agora.

A equipe da TVK, em toda a sua inacreditável desorganização de rede de Tv que só visa a audiência, abriram as portas laterais, lá do outro lado do estúdio. As pessoas ali presentes, começaram a se amontoar na saída, a fim de pegar um bom lugar junto ao palco para ver melhor a tal cantora.

Sem pensar duas vezes, saí serpenteando por entre a multidão. Alice ficou no meu encalço, até que um verdadeiro muro de gente se pôs entre mim e a saída.

— Complicou. — Alice gemeu, espremida entre mim e uma gorduchinha.

Os seguranças pediram calma, insistiram para que saíssemos devagar. O problema é que nessas horas, as pessoas mal educadas ignoram o bom senso e isso força qualquer um a lutar pelo próprio espaço.

Entre cotovelas e resmungos, finalmente atravessamos as portas e, no largo corredor, o ninho de gente se desfez. Os seguranças foram nos guiando por um corredor, depois outro, e no momento em que vi as luzes do estacionamento através da saída do prédio, empurrei um segurança e disparei.

Assim que coloquei meus pés no estacionamento, avistei há uns dez metros de distância, centenas de pessoas diante de um palco iluminado onde Diana DeGarmo já se apresentava com sua banda.

No palco, junto com os músicos, estavam o apresentador, Edward, Jully, o outro casal que também ia para Miami e os novos participantes. 

 — Vamos lá! — Alice saiu me arrastando junto com a galera que estava no estúdio. Novamente, foi uma correria só.

Nós tínhamos como meta chegar pelo menos até o cordão de isolamento, mas isso parecia tão impossível... Procuramos por brechas para esgueirar pelo mar de pessoas. Encontramos algumas, mas não conseguimos chegar perto o suficiente. Ainda havia umas seis pessoas entre mim e o maldito cordão.

— EDWARD! — Tentei chamar sua atenção gritando e acenando, só que outras retardadas também gritavam por ele, frustrando minhas tentativas.

Para ser sincera, eu não fazia idéia do que ia lhe falar, caso conseguisse alcançá-lo. Eu estava confusa demais e começava a acreditar que nada do que eu dissesse o impediria de ir para Miami.




Então Diana DeGarmo iniciou outra música. Ela serviu de deixa para que os recém-formados casais se despedissem e abandonassem o palco.

 — Está vendo? — Alice berrou no meu ouvido. — Entre o palco e o cordão de isolamento tem uma limusine, é nela que T-zed vai embora. Tente chegar o mais perto possível e grite por ele. — Empurrou-me contra estranhos — Vai Bella, vai!.

Sem pensar nas conseqüências, segui seu conselho. Literalmente lutei com as garotas que estavam na minha frente, recebi puxões de cabelo e fui xingada de todas as formas. Mesmo com todo o esforço do mundo, ainda fiquei atrás de duas pessoas e dos seguranças que reforçavam o cordão de isolamento.

— EDWARD! — Berrei com a mesma coragem com que saltei do penhasco. — AQUI, EDWARD!

Infelizmente, ele estava distraído se despedindo do apresentador e nem olhou na direção em que eu estava. Exausta e dolorida, comecei a perder a esperança. Jully também não me viu no meio da multidão, talvez pensassem que eu estava bem longe dali.

No momento em que Edward e Jully, escoltados por um segurança e uma produtora, rodearam a limusine para entrar pela direita, vislumbrei minha última chance de chamar a atenção de Ed. Minha prima começou a entrar lentamente no veículo e, desesperada, busquei por uma pedra ou qualquer coisa para atirar contra ele. Com meu azar do caramba, nada encontrei. Mal conseguia ver o chão. Felizmente, pensei rápido o bastante para arrancar meu All Star do pé e mirar nas costas dele. Com medo de errar, segurei meu tênis velho sob a cabeça e, com fé, o arremessei contra Edward. Ele já estava com uma perna dentro da limusine quando sentiu o impacto no ombro. Imediatamente, olhou para trás e eu gritei.

— EDWARD! — O chamei com a mão.

Ele me viu. Sim, ele finalmente me viu!

Parecendo extremamente surpreso, deu quatro passos em minha direção, mas o porra do segurança se apressou e o barrou. Edward desviou dele e insistiu em me alcançar. Então, a produtora correu e segurou-lhe pelo braço. Esta apontava para o relógio de pulso, muitíssimo nervosa e altiva.

— EDWARD! NÃO VÁ! — Gritei, esticando o braço por cima da adolescente à minha frente.

— O QUÊ? — Ele gritou de volta, tentando desvencilhar-se da produtora.

Por causa da barulheira provocada pela apresentação, a comunicação entre nós tornou-se um torturante desafio.

— EU ESTAVA ERRADA! ERRADA SOBRE TUDO ISSO! POR FAVOR, NÃO VÁ!

— O QUÊ? — Apontou para o ouvido, mostrando que não me entendia.

A angústia se intensificou e me sentia ainda mais... emocional.

— EU ESTAVA ERRADA! — Forcei minha garganta ao máximo, ainda esticando o braço na vã esperança de tocá-lo.

O selvagem balançou a cabeça, finalmente me ouvindo, mas não compreendendo o sentido da frase. Ao tentar chegar mais perto, outro produtor se colocou na frente dele e disse-lhe algo que o deteve. Edward trocou poucas palavras com o produtor. Então, com a expressão indecifrável, acenou para mim, se despedindo e voltou à limusine.

Sendo apressado pela a equipe do Me Azare!, Edward pegou meu tênis que ficara no chão e entrou na limusine. A saída ocorreu logo em seguida. O veículo trilhou uma reta feita pelo cordão de isolamento até chegar à rua e, assim, iniciou o trajeto de cerca de 4 horas até Miami.

(...)

Não voltei para casa de Kombi como imaginava, voltei de ônibus. Só depois que já estávamos dentro do veículo foi que Alice me explicou que durante a tarde, Sarah Ryan visitou Edward para lhe desejar boa sorte. Claro que era mais uma tentativa de aproximação. Esbanjando boa vontade, a atriz ofereceu carona e, Lice que não é boba, aceitou maravilhada. Minha amiga não perdeu a chance de ressaltar que nossa Kombi monstrenga é um atraso de vida.

Vendo que o papo sobre a Kombi não estava me distraindo e muito menos animando, ela passou a tagarelar sobre a conversa que teve com Sarah enquanto Ed se arrumava para o programa.

Mesmo com as idéias embaralhadas, entendi quase tudo do que Lice falou. A maluca conseguiu arrancar de Sarah detalhes interessantes sobre como ela descobriu o filho em Orlando. Segundo Sarah, sua agente que também é sua confidente, agencia Zac Gilles, o presenteador do Me Azare! A agente estava acompanhando o programa do cliente e inicialmente não associou Edward ao filho da amiga. No entanto, conforme ia lhe ouvindo contar sobre Malaita, não acreditou que fosse só coincidência e telefonou para Sarah.

Alice me disse que Sarah parecia sincera quando contou que ficou em choque, e depois entrou em crise de choro, mas arrumou forças para, no mesmo dia, voar de Los Angeles para Orlando.

Após um longo suspiro, falei para Alice o mesmo que falei a Edward. Sarah errou feio, mas ela se importa de verdade. Não é todo mundo que se dispõe a lidar com as conseqüências de seus erros, mesmo que isso signifique rejeição.

(...)

Cheguei à mansão, exausta e me sentindo uma completa imbecil. Não tive ânimo para entrar em casa e desabei sobre uma espreguiçadeira perto da piscina.

Alice correu e foi buscar meu celular no quarto, mas eu estava com vergonha de ligar para Jully só para pedir pra falar com Edward. Claro que a louca me mandou à merda e ela mesma telefonou, só que deu com os burros n´água, pois o celular de Jully estava desligado.

Sem querer desistir, ela me mostrou o suposto endereço da casa de praia para onde levariam os casais. Alice tentou ser uma super-heroína e conseguir o telefone da casa através do endereço. Cheguei a lhe dizer que provavelmente o número era confidencial. A cabeça dura ainda tentou, mas a telefonista só confirmou o que eu disse.

Por fim, acabei com a cabeça no colo dela e aceitamos que Edward estava por conta própria. Alice, para me consolar, disse que nós apenas colocamos Ed diante de portas, mas foi ele quem decidiu atravessá-las. Salientou que, de fato, sempre tentamos transformá-lo, mas que até o momento nenhuma mudança o prejudicou gravemente. Me lembrou que sempre fizemos tudo com a melhor das intenções.

O consolo da minha amiga tirou o peso que estava sobre minhas costas, mas o peso no coração permaneceu.

(...)

Após dormir umas boas 8 horas, acordei na sexta-feira totalmente convencida de que Lice estava certa. Eu podia ter metido Edward em loucuras, incluindo o Me Azare!, mas foi ele quem decidiu viajar com Melanie, ou melhor, Jully.

Não queria que Edward mudasse, ou escolhesse caminhos que o distanciassem de sua essência, porém nada podia fazer se o próprio começava a gostar das tais mudanças.

Tomei um banho demorado, coloquei meu uniforme e me preparei para fazer uma boa faxina. Cair na limpeza era um boa forma de fugir das atividades do resort. Eu não queria nem um pouco visitar a Disney World de novo.

(...)

Jasper e Lice conversavam na mesa da cozinha enquanto eu tentava ressuscitar a pia com um desentupidor. Procurei me concentrar na tarefa, mas eles não paravam de comentar o quanto ficaram surpresos em ver Jully no Me Azare!. Para aumentar a tortura, logo passaram a fantasiar sobre o que eles estariam fazendo em Miami. Saturada do blá, blá, blá, me virei para os dois, apontando o desentupidor como se fosse uma arma. Não consegui dizer uma palavra, pois Emm apareceu vociferando.

— Que cachorra! Filha de uma desdentada! — Emmett amassou com raiva uma folha de papel. — Rosalie me deu um pé na bunda.

— O quê? — Fui pega de surpresa.

— Mentira. — Alice escancarou a boca.

— Ela foi embora. — Jogou o papel no chão e Jazz imediatamente o pegou.

— Como assim? — Estranhei, porque parecia que a loira iria viver às nossas custas para sempre.

— “Pudim, foi legal ficar com você,...” — Meu irmão começou a ler o bilhete. — “Mas uma garota como eu precisa tocar a vida. Não posso ficar esperando dinheiro cair do céu, tenho que correr atrás de um homem bem mais velho que possa abrir caminhos para mim. Saiba que me diverti muito. Felicidades. Beijos estalados. Rose.”.

— Pudim? — Lice fez careta.

— Que pistoleira! — Me revoltei. — Você está melhor sem ela, Emm.

— Todos solteiros novamente. — Jazz falou como se fosse algo ruim.

— Tecnicamente você é casado. — O lembrei pra quê? Meu irmão tremeu feito vara verde.

— Não fazem idéia de quanto estou sofrendo. — Emmett cobriu o rosto com a mão, choramingando feito criança.

— Não fica assim não. — Fui até ele e coloquei sua cabeça em meu ombro, então comecei a chamar os outros com a mão, para que fizessem o mesmo.

 — É, você vai superar. — Alice o abraçou também.

— Sempre existirá outra perseguida. — Jazz chegou junto.

— Estou sofrendo em tantos níveis. — Fungou. — Que nem podem ficar zangados por a cachorra ter levado todo o nosso dinheiro.

— O quê? — Dei-lhe um tremendo tapa na nuca. — O que disse? — Me afastei, irada.

— Que merda, Emmett! — Jazz socou-lhe o braço.

— Ah, qualé, pessoal? — Ele bufou, mostrando que o choro era só encenação. — Como eu podia adivinhar?

— Como podia adivinhar? — Alice arregaçou as mangas da blusa. — Praticamente tinha escrito “mulher rolêra” na testa dela.

— Como vamos recuperar o carro do meu pai? — Coloquei uma mão na testa, já com a fronte latejando.

— O Link 69 só está dando prejuízo. As duas festas que promovemos melou, mas Jasper vai pensar num meio de faturar em cima deles.

— É o mínimo, né? — Abri os braços, indignada.

— Gente... — Lice suspirou, bem mais calma. — Olha só pra nós. Essas férias eram para ser o máximo, mas eu não pego ninguém desde o colégio, Jasper não pega ninguém desde que nasceu, Emm foi chutado por uma papa-velhos e Bella não vê a verdade nem se a própria sentasse na cara dela.

Revirei os olhos e meu irmão pediu que nos aproximássemos dele. Esperando ouvir alguma boa idéia, o vimos sussurrar:

— Ocorreu a Jasper agora que, nosso grupo é formado de dois caras e duas garotas...

— Oh, meu Deus. Ele sabe contar. — Alice resmungou com sarcasmo.

— Continuando: a idéia de Jasper é que, para afastar a solidão, sejamos amigos com benefícios.

— Tipo plano dentário? — Não entendi.

— Ele tá dizendo pra transarmos sem envolvimento sentimental. — Emmett explicou, nos deixando temporariamente mudos.

Trocamos olhares suspeitos e estranhos. Então, Alice foi a voz da maioria:

— Vai te catar, Jazz!

E assim, cada um foi para um lado, deixando o “gênio” literalmente na mão.

— Alguém por acaso tem idéia melhor? Jasper está aberto a sugestões. — Gritou enquanto nos distanciávamos.

(...)

# 11:25h #


Os rapazes saíram com os hóspedes e fiquei colocando a roupa suja na máquina de lavar. Logo que terminei, Lice saltou pra cima da máquina, dizendo:

— Amigos com benefícios.

Ignorei.

# 12:40h #

Enquanto eu passava o aspirador de pó na sala, Alice assistia Tv, zapeando sem se importar se estava atrapalhando.

— Amigos com benefícios. — Cantarolou.

Ignorei.

# 14:15h #

No escritório do meu pai, fui checar meus e-mails e acabei deletando a conta de Edward do Eutouquerendo.com.

— A. M. I. G.O. S — Alice soletrou, esparramada na poltrona de couro e folheando um livro.

— Hein? — Eu estava com o raciocínio lento.

— Com benefícios. — Completou.

Ignorei.

# 14:33h #


— AMIGOS COM BENEFÍCIOS!

Minha amiga craque em pentelhar, berrou do lado de fora do banheiro por que não a deixei entrar.


# 15:00h #


Fiz um sanduíche pra mim e sentei à mesa para forçá-lo descer pela goela.

— Amigos com benefícios. — A chata bocejou, passando os dedos pelo copo de água.

Decidi ignorar novamente, mas ao abrir a boca para dar uma mordida no sanduíche, a cretina disse:

— Há essa hora, T-zed já deve estar fazendo um amorzinho nerd.

Congelei, agarrada ao sanduíche e de boca aberta. Fiz uma rápida imagem mental, a qual se dissipou quando finalmente mordi o lanche.

— Tá, transa com Jazz. Eu deixo.

Sem dó, jogou o copo de água na minha cara.

— Merda! — Levantei com o rosto e blusa molhados. — O que acha que está fazendo? — Passei as mãos pela face.

— Tirando você da burriciolândia? Por que raios você e T-zed não são amigos com benefícios?

— Pelo mesmo motivo que rejeitou meu irmão.

— Repulsa?— Se assustou.

— Fique sabendo que me ofendi por Jazz. — Fui caçar o papel toalha no armário.

— Qual o seu problema? Você gosta do T-zed!

— Alice, não viaja no seu país das maravilhas. — Achei o rolo de papel e comecei a me enxugar. — Gosto do Edward tanto quanto gosto do Emm.

— Ah, claro. — Soprou suas unhas. — Isso explica porque você enfiou a língua na garganta dele.

Deixei o papel toalha cair no chão.

— Eu... — Embasbaquei.

— Eu sei! — Ela deu um pulinho. — O próprio me contou.

— Mas você disse que ele não tinha feito comentários ...

— Eu menti. — Arqueou a sobrancelha, fazendo cara de vilã. — Estava te testando. Como amiga, está reprovada. Não se esconde esse tipo de acontecimento da melhor amiga.

— Falsa.

— Destrambelhada. — Retrucou.

— Ele se abriu com você? — Mal consegui acreditar.

—  T-zed achava que você já tinha me contado. Eu perguntei se ele tinha coragem de beijar Melanie no palco, então o carinha respondeu que não. Daí falei: tem medo de beijar errado? E ele me disse que não era esse o motivo. Depois de dois minutos, se virou pra mim e perguntou: Bella disse que eu beijo errado? — Alice gargalhou.

— O que respondeu? — Minha voz saiu mais grave do que eu esperava.

— Não me faça perguntas que não agüentaria a resposta. — Correu e pegou no balcão uma frigideira, usando-a como escudo.

— Alice! — A repreendi, buscando no chão o rolo de papel toalha. — O que você disse?  — Lancei-lhe um olhar ameaçador.

Rindo, a maldita respondeu:

— Disse que você me contou que foi o melhor, dos melhores beijos da sua vida.

Rosnando, atirei contra ela o papel toalha e a cretina rebateu com a frigideira.

— E tem mais.

— Não me conte. — Implorei fechando os olhos. — Pelo amor da minha sanidade, não me conte.

— Ele perguntou se nós consideramos aceitável esse tipo de envolvimento físico entre amigos. Claro, óbvio e implícito que eu respondi que sim. Disse-lhe que beijo o Jazz o tempo inteiro. Que não há mal algum nisso. Se é bom, deve ser feito.

— Edward nunca acreditaria nessa patacoada. — Balancei a cabeça, pondo as mãos na cintura.

— Se acreditou eu não sei, mas ficou pensativo.

— Pensativo? — Franzi o cenho, mordendo o lábio inferior.

— É isso aí, ele fez uma cara igualzinha a sua. — Foi se aproximando lentamente.

— Que cara?

— De quem se lambuzou no melado e não sabe onde limpar a fuça.

— Eu te odeio. — Gemi, torcendo pra Ed não ter dado ouvidos a Lice.

— Conta os detalhes sórdidos. — Chegou junto feito cãozinho abandonado. — O que o seu danadinho da selva fez? Faça a alegria dessa solteirona.

— Não enche. — Ainda estava chateada.

— Bel, vou ser sincera com você. Não fique indecisa entre T-zed e Brad. Curta um pouco as férias com Ed. Mais vale uma pomba na mão do que duas voando.

Horrorizada, a fitei de olhos arregalados.

— É pássaro! Mais vale um pássaro na mão do que dois voando! — Quase lhe estapeei.

— Tanto faz, pomba é um pássaro...dããããã. — Deu de ombros.

— Depois dessa, vou lavar meus ouvidos. — Disparei cozinha a fora.

— AMIGOS COM BENEFÍCIOS! — Gritou, passando atestado de maluca.


# 18:00h #


— Sabe o que me intriga? — Indagou Alice.

— O que uma pessoa tem que fazer aqui pra ter um pingo de paz? — Encostei minha testa no azulejo do banheiro, fechando a ducha lentamente.

— Por que sua prima disse: amigos? Claro!

Pela visão periférica, a vi saltando para sentar na pia.

— Eu sei lá, Alice. — Bati com a testa no azulejo. — Talvez Edward tenha sugerido que fossem pra Miami como amigos.

— Mas isso não descarta a possibilidade de que lá, se tornem mais do que amigos.

— Exatamente. — Murmurei.

— Como se sente?

— Perseguida. — Respondi por entre dentes, me referindo ao que ela estava fazendo comigo.

No restante da noite, minha nada discreta amiga me deixou em paz. Ajudei a servir o jantar dos hóspedes, vi um pouco de televisão, dei uma geral no meu armário e, por fim, acabei dando um mergulho na piscina. Sem sono, permaneci na borda, escutando o som do vento balançando a copa das árvores.

Não pude deixar de pensar em Edward e Jully. Ainda não sabia o que sentir em relação à minha prima. Apesar de tudo que fez, não conseguia nutrir raiva por ela. Jully era uma das melhores pessoas que eu conhecia. O fato de ter se aproximado de Edward de forma tão errada não anulava suas qualidades. 

Bem, o selvagem estar em Miami com alguém da minha família é melhor do que com alguém que não conheço, certo?

Errado!

Caí novamente na água.

(...)

No sábado de manhã, fiquei um bom tempo falando com meu pai pelo telefone. Matamos um pouco da saudade, ele fez seu típico interrogatório e implorou que tivéssemos juízo. Ele sabia que aprontávamos muito. A conversa poderia ter sido bem normal se meu pai não tivesse me chocado ao dizer que ele e Carlisle assistiram ao Me Azare!.

Escutei-o contar que ficou muito surpreso em ver Jully na Tv, mas que ao mesmo tempo, ficou feliz por ela estar — segundo as palavras dele — namorando Edward. Eu disse para meu pai umas duas vezes que eles tinham viajado como amigos, só que ele não viu a escolha de Edward por esse ângulo.

Também não deixou de frisar que eles formavam um belo casal. Meu pai nunca foi do tipo romântico inveterado, só que ele via Jully como uma segunda filha e desejava o melhor para ela. No caso, o melhor, era o filho de seu grande amigo.

Perguntei a meu pai o que Carlisle achava de tudo aquilo e sua resposta me surpreendeu. Meu pai riu ao afirmar que o cientista se interessou por Jully e fez a ele várias perguntas. Claro que meu pai mostrou-se um tio orgulhoso de sua futura sobrinha geóloga e salientou as inúmeras virtudes dela. Carlisle, confiando na palavra do amigo, acabou por ficar bastante satisfeito com o namoro do filho. Meu pai chegou a repetir uma frase de Carlisle: em algum momento Edward teria que namorar alguém, então fico feliz que seja com uma moça que combine com ele. Que tenha o que acrescentar à vida do meu filho.

Durante vários momentos da conversa, pousei minha cabeça sobre a mesa do escritório e gemi alguns “huhum” como modo de concordar com o que meu pai dizia.

O telefonema pareceu demorar uma eternidade e quando meu pai precisou desligar, fiquei imensamente aliviada.

(...)

— Fala sério! — Alice me ajudava a trocar a roupa de cama de uma dos quartos. — Se depender dos cientistas, T-zed e Jully vão voltar de Miami casados e terão uma penca de filhos, bonitos, loiros e nerds.

— É. — Não consegui formular uma boa resposta.

— Está pondo a fronha do travesseiro ao contrário. — Lice me alertou, percebendo que eu estava com a cabeça nas nuvens.

— É. — Refiz o serviço.

— Nossa! Hoje você está pior do que ontem.

Neguei com a cabeça, em seguida, fui lavar o banheiro. Minutos depois, fomos arrumar o quarto de Brad. Como sempre, estava um caos.

Trocamos a roupa de cama, Alice limpou o banheiro muito mal e eu fiquei em frente ao criado mudo dele, observando atentamente a corrente de prata curiosamente esquecida sobre o móvel. Em forma de pingente, o anel da latinha de cerveja que dei ao meu ex continuava a destacar-se.

Ao me sentar na ponta da cama, não tirei os olhos da corrente. Ela tinha um significado íntimo e especial para nós. Antes era o jeito de McFadden declarar seu afeto por mim, hoje, já sabia o que significava.

Me preparei para sentir o velho aperto no peito, a enxurrada de lembranças torturantes e muitos soluços, só que isso não aconteceu. Intrigada com a minha falta de reação, corri os olhos pelo quarto, enchendo minha visão com os pertences de Brad e inalando seu perfume impregnado no cômodo...

Nada. Não senti nada.

— Você quer trocar o xampu do Brandido por cola? — Lice se jogou na cama.

— Quem sabe outro dia. Vamos terminar o serviço. — Me levantei, respirei fundo e procurei manter minha mente limpa e sã.

(...)

Durante o resto do dia, me comportei de forma anormal. Verifiquei umas dez vezes o forno achando que dona Bogdanov o deixara ligado. Coloquei roupas que já estavam limpas para lavar e até esqueci que Rosalie tinha nos abandonado. Senti falta de vários objetos na casa. Meu irmão disse que eu estava ficando louca, mas só conseguia imaginar que algum hóspede estava nos roubando. Não seria a primeira vez.

Durante a tarde fiquei assistindo Emmett tentar consertar a Kombi. Ele também não estava tendo um bom dia, então trocamos pouquíssimas palavras. Sabia que ele se sentia mal por Rosalie ter fugido com o nosso pouco dinheiro, por isso não o pressionei e ressaltei que ele “superar a vagaba” era a minha maior preocupação.

Com o cair da noite, ajudei novamente com o jantar e me vi presa à uma pequena rotina. Só senti falta do Link 69 depois que Jasper comentou sobre a apresentação deles em um barzinho badalado no centro.
Cumpri todas as minhas tarefas, esperei os hóspedes se recolherem e fui tomar um ar no jardim. Vaguei pelo local até lembrar-me do puma. Com a viagem de Edward, Emmett ficou encarregado de alimentar o felino. Graças a Deus, ele era sensato o suficiente para fazer isso sem invadir o território do animal ou provocá-lo.

Mantive uma boa distância da jaula para não perturbar a serenidade do puma, mas de onde eu estava, ele me parecia bem. Fiquei observando-o por um tempo que não consegui medir, mas foi tempo suficiente para minhas pernas cansarem. Sem vontade de retornar à casa, simplesmente me sentei por ali, pois a brisa da noite estava me agradando e relaxando.

Certo tempo depois, senti uma presença e, assustada, olhei para trás.

— Calma, não queria te assustar. — Disse Brad, se aproximando com dificuldades por causa da perna engessada. Ele carregava consigo seu violão, protegido pelo case.

Sem lhe dar muita importância, voltei meu olhar para o puma adormecido na jaula.

— O que está fazendo aqui sozinha? — Se colocou ao meu lado.

— Nada. — Sibilei. — Foi boa a apresentação? — Mudei de assunto, perguntando por perguntar.

— Sim... O de sempre. Você sabe como é. — Sentou-se, colocando o case sobre a perna boa.

Pensei em voltar para a casa, mas a verdade é que eu não tinha motivos para sair correndo.

— Tenho uma vaga lembrança. — Anos atrás, eu não perdia uma apresentação dele. Eu era sua fã mais dedicada e fiel.

Ficamos em silêncio por cerca de um minuto, então McFadden tirou seu violão sunburst do case e passou a dedilhar algumas notas. Pelo braço do instrumento, seus dedos passeavam, e meus olhos não deixaram de acompanhar os movimentos.

— Também lembro. — Balançou a cabeça lentamente, se deixando influenciar pela melodia que se formava. — Bons tempos. — Sorriu torto, mas sem provocação. — Você era uma jovenzinha tão... cheia de vida. Doce.

— Verdade. — Tive que concordar.

Aos poucos, a melodia improvisada foi dando lugar a uma conhecida. A uma música que foi minha favorita por anos. Diversas vezes, Brad a tocou para mim e no final da canção, eu sempre acabava nos braços dele.

— Quando te conheci, você falava sem parar. Eu pensei: meu Deus, o que essa garota tomou?

Involuntariamente ri, me recordando do dia em que o conheci. Me veio à cabeça meia dúzia de bobagens que falei na festa de aniversário de Jasper.

— Eu era uma boba.— Inclinei a cabeça e fitei as estrelas.

— Mas era uma boba linda. — Soltou uma risadinha. — Me lembro de o quanto ficou nervosa quando te beijei naquele mesmo dia. Cheguei a achar que nunca tinha beijado antes.

— Eu só tinha 17 anos. Não sabia onde estava me metendo. — A alegação fluiu naturalmente.

— Foi muito divertido. — Continuou tocando. — Passamos bons momentos juntos, admita.

— Não estou negando. — Voltei a fitar o puma.

— Pena que não deu certo, né?

Imediatamente o encarei, porém nada me veio à cabeça, muito menos à boca.

— Nosso namoro... Era complicado, eu estava numa fase muito focada na minha carreira. Naquela época, você não tinha condições de lidar com isso.

Fechei os olhos por um segundo, reprimindo a vontade de lhe dizer o que eu pensava sobre sua patética carreira.

— O que foi? — Estranhou minha reação.

— Nada. — Pressionei os lábios, voltando a observar o puma.

 — Eu sei. Às vezes sou estúpido, mas saiba que te preservei com a melhor das intenções. Isso não quer dizer que eu nunca... — Deteve-se.

— Nunca?

— Você sabe.

— Não Brad, eu não sei. — Revirei os olhos.

McFadden olhou para os lados, verificando se tinha alguém por perto. Passou uma mão pelos cabelos oleosos, lutando contra a língua presa.

— Isso não quer dizer que eu nunca... — Desviou o olhar para o braço do violão.. — Tenha te... amado. Na verdade, ainda amo.

Minha perplexidade foi tamanha, que minhas pálpebras tremularam. Já meus lábios, congelaram entreabertos. As palavras de Brad soaram tão irreais que me questionei se não estava tendo outro sonho maluco. O fato era que McFadden nunca, nunca tinha me dito algo parecido.

— Oras, Bells... Não finja que não sabia. Por que acha que estou aqui? Acredita mesmo que eu não tenho melhores propostas de emprego? Fui eu quem pediu a Jazz para ficar aqui durante as férias. Queria estar perto de você novamente. O que posso dizer? — Riu sem humor. — Você me pegou de jeito.

Olhei para o vazio esperando a ficha cair. Então, quando isso aconteceu, me coloquei de pé e Brad me acompanhou.

— Por favor, repete. — Engoli a saliva com dificuldade.

Ele suspirou, se esforçando para repetir.

— Eu te amo. — Fez uma pausa para coçar a nunca. — Não seja tão dura comigo, não costumo dizer isso para ninguém. É difícil, poxa... — Revirou os olhos. — E bem gay. Mas eu te amo, Bells.

Inclinei a cabeça para a esquerda, dissecando vagarosamente cada silaba e, ainda atônita, falei:

— Então você me ama?

— Sim. — Ficou confuso com minha insistência em confirmar.

Enchi os pulmões de ar. Em seguida, expirei forte.




— Você tem a mínima noção do que é amar alguém? — Não o deixei responder. — Claro que não, Brad. Sabe por quê? Porque alguém tão egoísta, superficial e imaturo quanto você, desconhece totalmente esse tipo de sentimento.

— Acho que não me entendeu. — Tentou me tocar, mas não permiti.

— Não. — Minha mente se abria de uma forma esplêndida. — Agora é que eu realmente estou entendendo tudo. — Sorri sem humor. — Você nunca teve a intenção de ter nada sério comigo e me fez acreditar que a culpa era toda minha. Que eu era nova demais pra ficar com você. De fato, fui ingênua em não perceber que, na época, invadiu minha vida sem a menor intenção de ficar. Mas agora você retorna e vem me dizer que me dispensou porque eu não ia saber lidar com sua carreira? E friso: carreira de músico de barzinho? Quer me fazer crer também que me chutar depois de tirar minha virgindade foi um gesto nobre?— Tomei fôlego. — Não acredito que teve a ousadia de abrir a boca para dizer que me ama se nunca teve um pingo de consideração por mim.

— Bells... — Ficou impaciente.

— Não terminei! — Com altivez, o impedi de falar. — Eu me puni feito uma louca por gostar de você. Fiquei em estado quase permanente de auto-sabotagem. Passei por altos e baixos, fiz coisas absurdas... E pra quê? Para poder fugir do que eu julgava ser uma obsessão incurável por você. Mas quer saber? Descobri que o que eu sentia não era obsessão, Brad. — Articulei perfeitamente as palavras. — Era justamente falta daquilo que erroneamente te dei... — Meus olhos ficaram úmidos de emoção. — Amor. — Ergui a cabeça. — Só que nessas férias eu fui mais corajosa do que algum dia podia imaginar, superei o que eu pensei ser insuperável e passei por cima dos meus próprios erros. Eu estou verdadeiramente passando a me admirar e a me respeitar. Então Brad, você pode chamar isso de amor próprio.

— Por favor, Bella. Você está confusa! — Jogou as mãos para o alto, fazendo pouco caso.

— Meu Deus, eu não estou! — Sorri para o céu, agradecendo. — Nesse momento estou inquestionavelmente sã. — Me sentia leve, como se pudesse flutuar.

— Ter amor próprio não é obstáculo para ficar comigo. Sério, você está confusa. — Seu ego o impediu de aceitar a rejeição.

— Escuta, se não conseguiu assimilar tudo o que eu disse... — Coloquei uma mão em seu ombro, fitando-o com extrema seriedade. — Entenda ao menos isso, Brad: eu não sou mais apaixonada por você.

Parei, boquiaberta com o soar libertador da frase. Fui tomada por uma alegria que era impossível de esconder. A sensação se assemelhava a de quando despertamos de um longo sonho ruim. Existia alívio, segurança e conforto.

— Isso é um ponto final. — Dei um passo atrás, alinhando minha postura.

— Tudo isso é por causa daquele cara anormal? O tal Edward? — Parecia magoado, mas eu não ligava.

Claro que Edward, com sua franqueza, ideais fortes e confiança, tinha me influenciado profundamente nos últimos tempos. Mas não querendo prolongar a conversar, simplesmente respondi:

— É que estou em busca do... — Olhei para o puma na jaula e ri por dentro de minha conclusão. — Estou em busca do meu equilíbrio interior.

McFadden ficou confuso, mas principalmente aborrecido com sua falta de domínio sobre mim.

— Boa noite. — Dei-lhe as costas e caminhei com serenidade até a casa.

No mundo existem dois tipos de pessoas. As que vivem de forma segura. E as que vivem a trancos e barrancos. Eu vivo a trancos e barrancos, mas essa é a forma mais intensa de se viver, sempre pegando carona nas oportunidades de recomeçar.

Disparei pela escadaria, passei pelo corredor vazio e alcancei meu quarto. Dentro do meu refúgio, pude colocar para fora toda a felicidade que quase me explodia o peito.

Ofegante, coloquei as mãos na cabeça e...

— EU SABIA! — Gritei para as paredes, pois há dias sentia que minha hora de dar a volta por cima estava chegando.  — Eu sabia, sabia! — Toquei as mensagens que escrevi para mim mesma nas paredes, cheia de vontade de abraçá-las. Aliás, de abraçar o mundo inteiro! — Meu Deus, eu não sou mais apaixonada pelo Brad! — Fechei os olhos e chacoalhei braços e pernas, em uma merecida comemoração.

Talvez eu já não possuísse sentimentos por McFadden há algum tempo, mas só quando ele se declarou para mim foi que finalmente percebi que eu não dava a mínima. Suas palavras já não me afetavam, seu charme já não me impressionava e seu estilo bad boy, definitivamente, me parecia ridículo e infantil.

Como criança, saltei pra cima da cama.

— MALUCA, SIM! — Arfava entre pulos. — BURRA, NUNCA... MAIS!

(...)

Pela manhã, Alice e eu largamos as obrigações e nos trancamos em meu quarto. Tínhamos um bom motivo para isso: comemoração.

Abrimos long necks Heineken e minha amiga propôs um brinde. Sua face estava iluminada, assim como a minha. Partilhávamos ali um momento há muito esperado.

— À liberdade do seu coração. — Ergueu a garrafa.

— À minha tão sonhada guinada. — Sorrindo, fiz tilintar o gargalo da long neck contra a dela.

Em um só fôlego, bebemos quase toda a cerveja. Incrível, aquela parecia a cerveja mais gostosa que já tomei na vida.

— E agora? — Lice indagou, limpando a boca com a mão.

Esperei a bebida descer direitinho e respondi:

— Eu sei lá! — Gargalhei, sem me importar com nada.

— Amigos com bene... — Tapei-lhe a boca.

— Está proibida de falar essa frase. — Caprichei na expressão ameaçadora.

Alice revirou os olhos e me empurrou.

— Tudo bem. Se não quer selar sua guinada com sexo bom e “selvagem”... —Adorou o próprio trocadilho besta. — Lavo minhas mãos.

— Ótimo!

— Mentira. — Rindo, me conduziu até a cama e obrigou-me a sentar. — Vai mesmo deixar sua prima ficar com o T-zed? Caraca, se minha prima estivesse isolada em uma casa de praia com o cara que estou “a fim”, com certeza, eu surtaria.

— Alice, não estou... — Fitei o vazio, incapaz de mentir tão descaradamente. — “a fim”. — A última palavra quase não saiu.

Desconcertada, entornei o resto da cerveja.

— Quer saber minha opinião?

— Não.

— Nem você tem certeza.

Manifestei-me apenas erguendo a palma da mão em um pedido de tempo.
— Bella, pensa comigo: você ficou mal quando T-zed concordou em viajar com Mel... Jully. Cara, vi sua expressão! Eu estava lá, lembra? — Cruzou os braços, com todo o seu jeitinho pentelha de ser.

— TÁ, ALICE! TÁ! — Vociferei, mais aborrecida com a situação do que com ela. — É complicado. Edward é meu amigo e, apesar de sermos diferentes, nos damos bem. Os beijos que trocamos foram gostosos, no entanto... — Massageei minha testa. — O que estou tentando dizer é: dar uns bons beijos e abraços em Ed seria show, mas e depois? E se a atração passar? Não quero magoá-lo de forma alguma. Pior, e se ele não sentir nada forte por mim? Ed está em uma fase de descobertas, por favor, hoje pode sentir uma coisa e amanhã outra.

Vendo que eu tinha razão, ela se calou. Infelizmente, seu semancoldurou pouco.

— Não vai nem tentar descobrir o tamanho dessa atração? — Sentou ao meu lado. Dessa vez, quem se calou fui eu. — Ok, eu não sou tão burra. Sei que em breve nosso amigo vai voltar para aquela ilha no meio do nada e você vai estudar em Connecticut. Mesmo assim, acompanha meu raciocínio... — Me fez encará-la. — Você vai tocar sua vida livre da opressão que Brad causava, vai fazer novos amigos em Yale... — Ambas ficamos tristes ao lembrar que nossa amizade ia se limitar a telefonemas e e-mails. — E provavelmente vai namorar algum gatão. — Me cutucou, provocando. — Mas a gente sempre vai lembrar dessas férias. Aconteceu e está acontecendo coisa que no futuro contaremos para nossos filhos, netos... — Rimos só de imaginar.— Então Bella, você vai lembrar do T-zed e de o quanto, em pouco tempo, ele influenciou sua vida. Vai pensar: eu deveria ter ido mais fundo naquele verão. Deveria ter esgotado todas as possibilidades só para saber no que ia dar.

Baixei o olhar, profundamente tocada pelo discurso de Alice. Minha amiga, sempre fora e sempre seria a voz da minha consciência.

— Você é uma criaturinha impossível. — Murmurei sorrindo.

— Bazinga! — Imitou o personagem de uma série.

— Eu acabei de sair de uma grande roubada. Não devia ficar pensando em namoricos agora, no entanto, você está certa. Meu tempo com Edward é limitado. Mesmo que eu acabe descobrindo que essa “atração” é só um carinho diferente, devo investigar ao invés de me acovardar. Não quero mais ser o tipo de pessoa que sofre uma desilusão amorosa e fica travada para sempre. — Suspirei, clareando as idéias. — Se fosse um outro cara, talvez eu não me desse ao trabalho, só que Edward... — Um sorriso surgiu. — É um sujeito especial. O que pode acontecer de ruim? Pode ser que atrapalhe um pouquinho o esquema dele com Jully, mas nosso lance é mais antigo. Minha prima vai ter que esperar a gente se resolver.

— Tem um problema aí.

— Qual?

— Há essa altura, T-zed já pode estar namorando Jully. Aí serávocê que terá de esperar o “lance” deles se resolver. E, cara, tempo é o que você menos tem. Essas férias não vão durar para sempre.

Fiz pouco caso, não querendo aceitar a possibilidade.

— Edward não vai virar namorado da minha prima em um estalar de dedos.

— São dois solteiros bonitos, com propósitos semelhantes, cheios de hormônios, isolados em uma casa de praia. Preciso dizer mais alguma coisa?

Tamborilei os dedos na testa, começando a ficar seriamente preocupada.

— Pô, estamos falando do selvagem, lembra? Quando se trata de relação homem x mulher ele ainda é inexperiente. — Debochei dela. — O cara não vai sair fazendo o que não sabe.

Alice me fitou com uma cara de bicho pronto para trucidar. Quatro segundos se passaram até ela rosnar:

— Bella, nós o ensinamos.

“Aprendendo a Namorar”

O título do livro surgiu como uma explosão na minha cabeça. Rapidamente recapitulei o manual e acabei ficando pálida e angustiada.

— Minutinho. — Balbuciei

Abalada até o último fio de cabelo, me tranquei no banheiro e extravasei.

— AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH! DROGA! MERDA! — Puxei a toalha que estava pendurada perto do box e castiguei a pia. — COM A MINHA PRIMA NÃO! COM ELA NÃO! — Aquele grito tinha ficado preso na garganta desde o Me Azare! — POOOOR QUÊÊÊÊÊ? QUE ÓDIO! QUE ÓDIO! COM ELA NÃO! — Surrei a pia até a visão de Ed e Jully se agarrando, sumir da minha mente.

Passado o choque e o desabafo, respirei bem fundo recuperando o controle. Então arrumei a gola do meu uniforme, abrir a porta do banheiro e com absoluta convicção, falei:

— Alice, arranja um carro. Nós vamos buscar Edward em Miami!

— É DISSO QUE ESTOU FALANDO!


(Continua...)

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