Um Selvagem Diferente - Capitulo 15


Dessa vez não havia a sensação de liberdade. Não era como se eu estivesse voando por sobre as águas, muito pelo contrário. Eu estava caindo. Era uma vítima da gravidade, sendo puxada para dentro de uma situação totalmente fora de controle. Eu queria gritar, porém nenhum som brotou de minha garganta.

De olhos fechados, senti o impacto do meu corpo contra a água e afundei tão rápido que minhas pernas e braços não foram capazes de me trazer de volta à superfície. Submersa, não consegui enxergar nada além de borrões esverdeados..., ou podiam ser azulados, era difícil distinguir.

Eu sabia que estava fora de mim, tinha consciência de que me arrependeria de ter pulado assim que o ar adentrasse minhas narinas novamente, no entanto, só conseguia me focar na vontade de encontrar Edward.

Chacoalhei minhas pernas e braços nadando com esforço, e foi assim que consegui emergir. Meus olhos arderam e minha boca se abriu automaticamente buscando ar. Não houve avisos ou pressentimentos, quando eu menos esperava, uma enorme onda me engoliu.


Não era como a primeira vez que mergulhei ali. O mar estava revolto, perigoso e imprevisível e, como Edward, fui arrastada com violência para junto dos rochedos. Depois disso, tudo que senti foi um grande impacto. Não era exatamente dor, pois o sangue corria quente em minhas veias e a adrenalina se espalhara por mim de tal forma que não era possível identificar os ferimentos, embora eu soubesse que estavam ali.

Mesmo atordoada, minha primeira reação foi agarrar-me ao rochedo em que fui jogada e, dessa forma, evitei ser puxada de volta para as águas profundas. Assim que encontrei ar, comecei a tossir, pois um pouco de água entrou por meu nariz e alcançou minha garganta.

Pisquei os olhos com força, então, sem saber em que direção olhar, gritei o mais alto que pude:

- EDWARD! - Ofeguei. - EDWARD!

- BEL... - Ouvi parte do meu nome ser gritado, mas não sabia de onde vinha a voz.

- Edward!
 
- BELLA! AQUI!

Olhei em todas as direções e, milagrosamente, enxerguei só a cabeça de Ed junto ao penhasco, do meu lado direito, há uns seis metros de distância. Instintivamente fui nadando até ele, mas minhas pernas batiam em algumas rochas submersas, ralando meus joelhos e canelas. Ainda assim continuei, pois nossas vidas estavam em risco.

Infelizmente, quando faltava pouco para alcançá-lo, outra onda grande nos atingiu. Cravei meus dedos nas pedras, só que isso não evitou que eu fosse puxada para longe dos rochedos. Era desesperador não ter nada sob meus pés e senti medo como nunca antes.

Debaixo d’água, vi que minhas pernas quiseram travar de pavor, mas meu instinto de sobrevivência falou mais alto e voltei para a superfície, resistindo como podia.

- EDWARD! - Gritei com meu primeiro fôlego.

- BE... - Não precisei fitá-lo para saber que a água o impedia de gritar por mim.

Com uma valentia que eu nem sabia que tinha, nadei até ele antes que outra onda feroz nos castigasse. Ao chegar perto, Edward estendeu a mão e a segurei com força. Ele me puxou para junto de si e meu pé, finalmente, encontrou apoio sobre a rocha escorregadia embaixo de nós.

- Temos que sair... - Não pude completar a frase porque meus dentes batiam.

- Não consigo. Meu pé está preso em uma fenda na pedra.

- O quê? - Eu tinha entendido, mas não queria acreditar.

- Cuidado!

Ambos procuramos por algo em que nos agarrar na gigantesca parede à nossa frente, só que não fui rápida o suficiente. Quando a onda nos atingiu, senti que estava sendo golpeada nas costas por um pugilista. A pressão era muito forte, sem falar nos segundos de confusão que eram gerados pela pesada espuma que nos cobria por inteiro. Eu teria sido arrastada novamente, mas Edward não soltou meu braço. Assim que a onda terminou de quebrar, consegui apoiar meus pés na rocha e praticamente gritei:

- Vou soltá-lo!


  

Enchi meus pulmões de ar e mergulhei. Coloquei as duas mãos na panturrilha de Edward enquanto ele tentava puxar o pé. De fato, seu tornozelo estava preso dentro de uma estreita fenda. Não sabia como o pé dele fora parar ali, assim como também não sabia como tirá-lo.

Fios de sangue brotavam da fenda e eu me preocupei com a gravidade do ferimento. Forcei o máximo que pude e, mesmo meu amigo não deixando transparecer a dor que sentia, eu bem sabia que era algo quase insuportável.t

Totalmente aflita, continuei puxando sua perna até que minhas mãos ficaram fracas e meu peito começou a doer por causa da falta de ar. Emergi e logo que consegui respirar, gaguejei:

- Me diga... me diga o que... fazer. - Tremia dos pés à cabeça.

Seu rosto avermelhado estava vazio. Eu sabia que bem antes de alcançá-lo Ed já tinha feito tudo que podia para se soltar. Sua exaustão era mais que visível. Então ele olhou para o mar, em seguida para mim, mas nada falou.

- Me diga o que fazer! - Gritei na esperança de motivar seu raciocínio.

- A maré está subindo.

Eu não entendia nada sobre marés, mas até mesmo uma tapada como eu era capaz de entender o que Edward estava querendo dizer. As águas iriam subir gradativamente até cobri-lo por inteiro.

- Quanto tempo? - Perguntei, mesmo sem saber como alcançaria a praia, ferida e exausta.

- Não sei. - Colocou a mão na testa, se esforçando para pensar.

Podia ser minutos, horas, também não fazia ideia.

Uma onda nos pegou, mas ela não era grande o suficiente para causar um impacto significativo. Ainda assim, engoli um bocado de água.

- Por favor..., só me diga o que fazer. - Tossi. Dos meus olhos escaparam lágrimas que se confundiram com as gotículas de água. Era demasiadamente angustiante não poder dizer a ele que tudo ficaria bem se o futuro parecia tão incerto. - Po-o-r favor. - Meus dentes bateram com mais força.

Edward refletiu por alguns segundos, então, com a voz mais firme, falou:

- Você precisa seguir pela encosta do penhasco. Quando as ondas maiores quebrarem, agarre-se onde puder. Mais lá pra frente, o mar é mais aberto e limpo e se nadar com vontade a maré te ajudará a chegar à praia.

Balancei a cabeça energicamente.

- Não. - Gemi alto.

- Você precisa fazer o que estou mandando. Não temos opções.

Algumas ondas continuaram quebrando nas rochas, mas não podíamos fazer nada além de resistir.
- Bella, vai! - Ed tentou ser persuasivo.

Eu queria chorar alto, só que, ao invés disso, me revoltei. Com as duas mãos, agarrei a nuca de Edward e minha determinação se solidificou no momento em que nossos olhos se encontraram.

- Eu não vou sair daqui sem você. - Pela primeira vez na vida, minhas palavras pareciam mais fortes que aço. - Eu não desisto, você não desiste. - Meus dedos pressionaram ainda mais a sua nuca. - Não somos só amigos... Somos um time. Precisamos fazer isso juntos. - Eu não estava filtrando o que dizia. Assim como também não me preocupei em investigar que tipo de sentimento provocara tamanha confiança em nós. - Está comigo?

Nossos narizes quase se tocaram. Fiz todo o possível para lhe passar um pouco da esperança que eu sabia que estava estampada em minha face. Ele precisava não só de força física, mas também necessitava de fagulhas que reacendessem sua coragem.

- Está certo. - Colocou sua palma em minha bochecha.

- Bom. - Olhei para a grande onda que já apontava há alguns metros. - Vamos usar a força da onda que está prestes a nos atingir. Vamos torcer para que ela nos arraste o suficiente.

- Entendi. - Ele estava tão tenso quanto eu.

- Ed, vai doer. - Não tinha jeito de seu tornozelo sair dali ileso.

- Eu sei.

Admirei sua coragem. Ele sabia o que tinha de ser feito e não questionou minha ideia. Foi aí que percebi que, de fato, naquele momento, éramos um time. Um só.

Nos preparamos para ser pegos pela parede de água que vinha em nossa direção. Não sei dizer quantos milésimos de segundo se passaram, mas para mim pareceu uma eternidade. Meus olhos não piscaram e jurei que meu coração ia sair pela boca.

- Agora! - Edward ordenou e ambos mergulhamos.

Puxamos sua perna e a onda exerceu uma grande força sobre nossos corpos, primeiro quase nos esmagando contra o paredão, depois, puxando-nos para o mar. Como não larguei a panturrilha de Edward, conforme eu era arrastada para longe das pedras, ele acabou vindo comigo, finalmente se soltando.

Por não ter mais forças, meus dedos deslizaram e afundei sem conseguir encontrar meios de emergir. Minhas pernas pesaram e meus braços paralisaram. Parecia que um bloco de uma tonelada esmagava meu peito. Revirei os olhos e minha visão escureceu, ainda assim, senti uma pressão em volta do meu braço, só que não soube identificar o que era.

(...)

Ao abrir os olhos, só vi imagens borradas à minha frente e demorou para perceber que ainda estava dentro d’água. O sol ofuscava a minha visão, mas eu respirava. Sim, respirava. Quanto tempo se passou? Segundos? Minutos?

Edward nadava com dificuldade, mas não me largou. Olhei para a praia e ainda parecia tão distante...

- Eu consigo. - Arfei tentando me desvencilhar. - Posso nadar. - Minha determinação era maior do que a minha força física.

Nos arrastamos até a areia e, esgotados, despencamos sem forças nem mesmo para falar. De olhos fechados, comecei a sentir dores em todos os lugares do meu corpo, porém não tive coragem de checar os ferimentos. Ficamos estendidos na praia por vários minutos até que nossos amigos nos alcançaram, trazendo socorro.

(...)

Sentada na poltrona do meu quarto, relanceei os olhos sobre o relógio no criado mudo e fiz uma careta percebendo que já eram quase 4:00h da manhã.

Fazia um tempinho que tínhamos chegado do hospital e, graças aos céus, não havia nada de errado comigo, exceto, claro, alguns arranhões nas pernas e uma marca roxa aqui e ali. Por causa da minha falta de sorte, eu estava acostumada com esse tipo de machucado, então para mim os ferimentos não significavam nada. Eu estava viva, Edward também... O resto eram só detalhes.

Fitei meu amigo dormindo em minha cama e lamentei por seu tornozelo. Edward tinha sofrido uma luxação, mas felizmente não quebrou nada. Colocar o osso de volta no lugar não foi tão doloroso porque ele foi anestesiado, só que agora o carinha precisava de cuidados e muita compressa de gelo.

Levantei da poltrona e afastei a bolsa térmica de sua perna, pois o gelo já havia derretido. Coloquei a bolsa no criado mudo e fitei o rosto de Ed.

Havia um arranhão em sua testa, próximo à sobrancelha. Sem pensar muito, me inclinei sobre a cama e aproximei meu rosto do dele. Queria dar checada no ferimento para decidir se era necessário um band-aid. Me esforcei para não pensar, mas uma pergunta me afligiu: e se Edward tivesse morrido?

Fiquei lá, parada, só o encarando sem conseguir responder à minha própria pergunta.

- Está me assustando. - Ele abriu os olhos e sobressaltei, afastando-me de imediato.

- Droga! - Caí sentada na poltrona. - Não faça isso! - Soprei a mecha de cabelo que cobriu meu olho esquerdo.

O selvagem se acomodou melhor na cama, ficando meio sentado, em seguida, gemeu ao indagar:

- Estou... bem?

- Creio que sim. Estamos todos bem, Edward.- Procurei lhe tranquilizar.

- Oh... - Esfregou os olhos. - Me sinto... estranho. - Disse com a voz mole.

- Não se lembra que lhe aplicaram anestesia para poder colocar o osso de volta no lugar? - Indiquei o machucado.

Edward me encarou, parecendo bem confuso.

- Você... - Piscou os olhos. - Me salvou mesmo?

- Desloquei seu tornozelo. Disso eu me orgulho. - Brinquei.

- Sendo assim... - Ignorou o que falei e soltou uma risadinha abafada. - Isso faz de você minha... - Balbuciou com espanto. - Heroína?

- Xiiii... - Fiz uma careta. - Vamos manter você longe das drogas. - Olhei para os remédios no criado mudo.

- Você me salvou. - Repetiu para si mesmo, ainda perplexo. - Hum... - Mordeu o lábio, pensativo.
Edward chacoalhou a cabeça, agindo de forma muito estranha. Parecia que tinha misturado as lembranças do que ocorreu na praia com o sonho que acabara de ter.

- Hum... O quê? - Sentei ao seu lado na cama.

Não gostei de vê-lo tão chocado. Por acaso eu não tentaria salvar qualquer um que estivesse em risco? Eu tentaria sim. Salvaria qualquer pessoa em qualquer circunstância.

Parei pra pensar um segundo.

Que beleza, agora estou mentido até pra mim mesma.

- Que sensação engraçada... - Fitou a própria mão e a balançou de um lado para o outro como se estivesse vendo duas.

- Quantos dedos vê aí? - Ri alto.

Edward voltou-se para mim e ficou me encarando sem pestanejar.

- O que foi? - Passei a mão no rosto achando que estava sujo. Seu olhar havia petrificado. - Tem alguma coisa nos meus dentes? - Cutuquei alguns.

Sem mais nem menos, o selvagem fungou, parecendo farejar alguma coisa. Imediatamente olhei para os lados procurando sentir o mesmo odor que ele. No momento em que franzi o cenho, o cara se inclinou na minha direção fungando ainda mais.

- Eu... tomei banho. - Disse-lhe meio sem graça. Em uma atitude no mínimo suspeita, Edward aspirou o ar perto do meu rosto. - Isso não é muito educado. - Fiquei com medo de estar com mau hálito.

Imóvel, tive que acompanhar com meus olhos o dedo indicador dele se aproximar do meu nariz e, quando tocou a ponta, fiquei zarolha.

- Chega. - Empurrei sua mão. - O que está fazendo?

- Você é...  - Sorriu abobalhado. - É... tão...- Se esforçou. - Heteróclita.

- Isso com pão é gostoso? - Resmunguei sem saber que diabos ele estava falando. - Não começa não.

- Você foi a primeira moça que toquei. - Cutucou meu ombro.

- O pior é que acredito. - Afastei seus dedos.

- E a primeira que vi... sabe, que vi completamente nua. - Não sei o que deu nele, mas sua palma já estava se aproximando do meu seio.

- Não é uma boa hora pra essas liberdades. - Dei um tapinha em sua mão, evitando que me tocasse.

Ed piscou os olhos algumas vezes e, após rir baixo, perguntou com a voz bem arrastada:

- Sabe o que é estranho?

- Você?

- Não te achei... - Bocejou. - Bonita quando te conheci.

- Me achou feia? - Fiquei surpresa.

Balançou a cabeça vagarosamente.

- Nem uma coisa, nem outra.

- Honestidade é uma droga. - Fiquei levemente ofendida.

Meu amigo pendeu a cabeça para um lado e estudou minha face, depois pendeu para o outro e estreitou os olhos.

- Não diga nada. - Implorei.

- Sua sobrancelha esquerda é mais arqueada que a direita. Éééé... sim! Está sempre com a boca meio aberta, respirando mais por ela do que pelo nariz e... - Coçou o queixo. - Muitas vezes sua expressão é de... de... dor. - Gargalhou.

- Vai dormir. - Gemi, colocando uma mão no rosto.

- Esses pequenos detalhes fazem de você uma...

- Baranga.

- Garota muito... bonita. - Apertou minha coxa.

Escancarei a boca, bestificada. Só consegui pensar: meu, o malandro tá chapado!

- Está me apalpando? - Indaguei na esperança de ele se conscientizar.

- Não! - Afastou a mão com força e quase caiu da cama, felizmente impedi o desastre segurando-o pela camiseta. Porém, três segundos depois... - Por quê? Eu posso? - Arqueou uma sobrancelha.

- Claro que não. - Nem levei a sério, afinal, o carinha estava noiado.

Edward ficou olhando para o teto e me perguntei se sua visão estava turva.

- Logo o efeito da anestesia vai passar. Já era pra ter passado, mas acho que te deram muito bagulho porque é um sujeito grande. - Gargalhei. - Você até parece o garotinho que vi em um vídeo no Youtube. Ele tinha saído do dentista e... - Desisti da explicação diante da total falta de interesse de Edward.

Sem ter mais o que dizer, fiquei olhando para o teto também. De repente, senti dedos subindo por meu joelho.

- Edward... - Chamei sua atenção como muita paciência

- Hum?

- Está fazendo de novo.

Hesitante, o fitei e vi que mantinha seus olhos azuis e meio sonolentos sobre mim. Já seus lábios não passavam de uma linha fina por causa da risada contida. Edward, com certeza, ia pirar consigo mesmo quando recobrasse o juízo.

- Quanta ironia hein, meu querido? - Zombei contente. - Me considera impulsiva, mas dá uma boa olhada em você. Está parecendo um adolescente na “seca”. É o que dizem... Nada como um dia após o outro e uma noite escura no meio. - Esbanjei satisfação.

- Sua pele é tão macia. - Acariciou minha coxa ignorando a provocação.

- Ed, na boa, sei que é um virgem de vinte e poucos anos subindo pelas paredes, mas deixa pra “soltar a fera” em cima da Melanie. - Estranhei não achar graça da minha própria piada.

- Me acha atraente? - Perguntou em tom de brincadeira.

- Vai editar minha resposta de suas futuras lembranças?

- Huhum.

Não diga nada, mulher!

- Você dá um bom caldo. - Me lembrei da reação maluca que tive quando o vi na Tv.

- O quê?

Não sabia como me expressar.

- Por que a pergunta? - Quis saber antes de explicar qualquer coisa.

- Seu cheiro me... intriga. - Pegou uma mecha do meu cabelo e eu já não sabia do que estávamos falando.

Edward afundou o rosto em meus cabelos, roçando o nariz perto da minha orelha. Pensei em afastá-lo, mas a verdade é que fiquei parada, tentando entender porque o maluco estava me farejando como se fosse um cachorro.

- Que bizarro... -  Minhas pálpebras tremularam e fiquei toda arrepiada quando ele cheirou meu pescoço. - Você não devia...

Tinha quase certeza que eu estava falando alguma coisa antes de Edward começar a cheira minha clavícula, a qual estava coberta apenas pela alça de uma regata branca.

Cheia de pensamentos sem nexo, fitei novamente o teto e o nariz de Ed passeou por minha garganta e, sem nenhuma cerimônia, chegou até o meu decote. Afundando o rosto em meus seios, ele aspirou com vontade, soltando um som que eu não soube distinguir se era um gemido ou um rosnado baixo.

- Não, não. - O detive erguendo sua cabeça. - Não vamos seguir por esse caminho. Comigo o buraco é mais embaixo. - Edward piscou os olhos, entendendo tudo errado. - É só uma... - Minha voz desafinou devido ao constrangimento. - Expressão. - Pigarreei. - Deita! - Fiquei de joelhos na cama e empurrei seu peito até que sua nuca colasse no travesseiro. - Boa noite.

Edward segurou-me pela cintura me impedindo de deixá-lo. Até que eu estava disposta a ignorar suas ações, infelizmente seus olhos semicerrados e sua boca entreaberta roubaram meu bom senso e não pude deixar me pensar:

Abusar, ou não abusar de Edward? Húm!

Imediatamente a questão deu asas à minha imaginação...

...

O edredom tremia violentamente servindo de tenda para a transa mais maluca da minha vida. Havia gritos, gemidos, risadas e som de tapas.

Edward suado, ofegante e completamente chocado, tentava escapar do meu ninho de perversão esticando os braços para agarrar-se à poltrona ali perto. Por isso, sem nenhuma piedade, cravei minhas unhas em suas costas e o puxei para de baixo do edredom só para desvirginá-lo de vez.

...

- Bella? - A voz embargada dissipou meus devaneios.

- Você está doidão. - Chacoalhei minha cabeça, tentando não ficar também. - Vamos dorm... - Minha voz desapareceu quando o senti apertando minha bunda. - Você não fez isso. - Eu não estava crendo.

O selvagem tinha maluquecido. Quando achei que a situação não podia piorar, ele simplesmente me deu um tapa na bunda. O estalo foi mais do que audível! Afastei-me tão bruscamente, que acabei me desequilibrando e caí sentada no chão.

- Merda! - Doeu. Levantei num pulo e desatei a tagarelar - Não!Não! Isso está errado. Ando confundindo sua cabeça. Sei que sente “coisas” porque é homem e só agora está tendo mais contato com garotas, mas... - Fiquei perambulando de um lado para o outro, gesticulando energicamente. - Somos amigos, cacetada! Quer dizer, sem dúvidas você é gostoso, só que não é assim que funciona. - Pensei em voz alta. - Depois do maldito Brandido o “parque de diversões” fechou. Não adianta você ficar agindo feito um puma no cio. - Revirei os olhos. - Não que eu tenha, você sabe, mudado de time, mas...

Quando finalmente fitei Edward, bufei de raiva ao constatar que o cara estava dormindo. Até ressonava!

- Você precisa achar sua garota logo. - Cruzei os braços, observando-o. Alguns segundos se passaram até eu conseguir sussurrar... - Ou vamos acabar fazendo besteira.

(...)

Eu não dormi. Ao invés de ficar pensando bobagens no quarto, fui para o andar inferior e adiantei boa parte das minhas tarefas. O tempo passou rápido e, quando dei por mim, já eram quase 10:00h.

- Bom dia. - Bruce Jones veio ao meu encontro.

- Bom dia. - Respondi arrumando as almofadas no sofá. - O senhor precisa de alguma coisa?

- Na verdade, preciso sim. Eu tenho que passar o dia fora a trabalho e gostaria de saber se poderia ficar de olho no meu filho Toby. - Puxou a carteira do bolso.

- Lamento senhor, mas...

- Não precisa ficar grudada nele. - Me interrompeu oferecendo-me uma nota de 100. - Só tente se certificar de que não aconteça nenhum homicídio. 

- Ninguém aqui vai matar seu filho.

Sr. Jones suspirou.

- Meu medo é de que aconteça justamente o contrário.

O homem enfiou a nota na minha mão e foi embora antes que eu pudesse recusar sua ofertar educadamente.

Quando o Sr. Jones abriu a carteira, não pude deixar de notar que ela estava abarrotada de notas altas e cartões de crédito, então me perguntei: por que esse homem cheio do cascalho estava hospedado no nosso cortiço?

(...)

Uma gota de suor escorria por minha testa enquanto eu esfregava a mesa da cozinha com uma esponja. Me acabar na faxina foi o único jeito que encontrei de manter minhas mãos bem longe do pescoço gorducho de Toby.

- Escuta essa que é engraçada. - Ele deixou cair farelos de salgadinho na mesa. - O pinto e a pinta foram pro cinema, quem pagou a entrada? Eu digo! A pinta, porque o pinto estava “duro”. - Gargalhou.

- Já chega! - Atirei a esponja no chão. - Você quer voltar pra bóia? - Ameacei.

- Não seja rude comigo. Não me reprima! - Fez uma cara feia enfiando mais salgadinhos na boca.

- Ah, é? - Agarrei o braço do moleque e o reboquei pelas escadas, atravessei o corredor e invadi meu quarto, anunciando:

- Ed, trouxe alguém para te fazer companhia.

Ele parou de escrever em sua agenda e me lançou uma olhar inquisitivo.

- Saca essa, cara. - Toby sentou na ponta da cama. - Por que você tem dois ovos e não três? - Edward franziu o cenho e o garoto continuou. - Porque o terceiro chocou e virou pinto. - Riu.

- Esquece. - Arrastei o moleque da boca suja para fora do quarto. - Onde vou te colocar? - Fitei o corredor vazio, e foi aí, que tive A ideia.

(...)

- Sou eu. - Dei uma terceira batida na porta do quarto de Brad. - Aqui você pode contar quantas piadas de pinto quiser. - Sorri para Toby.

Ficamos atentos quando a porta se abriu, porém não foi meu ex que nos atendeu.

- Oi? - A ruiva desconhecida me fez sentir um pouco de repulsa.

- Oi. - Murmurei analisando o lençol que cobria sua nudez. - Brad?

- Dormindo.

- Com licença. - Empurrei a moça para longe e adentrei o quarto.

- Bella? - McFadden sentou-se na cama com a maior cara de ressaca. - O que está fazendo?

- Depois conversamos sobre o que fez com Edward, mas agora... - Sentei Toby na ponta da cama. - Cuida que o filho é teu.

Saí batendo a porta sem dar maiores explicações.

- Oh meu Deus, você é casado? - Ouvi o que pareceu ser um sapato chocando-se contra a parede.

- Ei, moça, puxa aqui o meu dedo. - Toby soltou uma risada matreira.

Recusando-me a ficar remoendo o que vi, chacoalhei pernas e braços mandando a tristeza para longe. Dei uma ajeitada no meu uniforme, respirei fundo e fui procurar Alice.

Depois de rodar um pouquinho, a encontrei no jardim, observando a rua.

- Por que está plantada aí? - Indaguei.

- Que estranho. - Ela cruzou os braços. - Faz uns 40 minutos que aquele carro está estacionado aqui em frente.

Olhei na direção que indicou e tive que concordar que o Mercedes-Benz preto era mesmo muito suspeito. O carro não tinha placa e até parecia um veículo do governo com todas as janelas escuras fechadas.

- Vamos sondar. - A puxei pela mão.

(...)

Alice e eu quase colocamos a porta do meu quarto abaixo quando invadimos o lugar, ofegantes, meio desorientadas e histéricas.

- O que aconteceu? - Edward assustou-se.

Me contorci, com a mão no lado esquerdo do abdômen. Eu havia subido as escadas tão rápido que não me sobrara energia nem para falar. Apoiei-me nas muletas que desenterrei da garagem e Lice se apoiou em mim.

- Você... - Ela balbuciou sem fôlego.

- Eu...? - Levantou-se com dificuldade.

- Te passo... o meu... legado. - Quase tendo uma parada cardíaca, ofereci as muletas que usei quando torci o tornozelo.

- Obrigado. - Ele aceitou, com receio de perguntar por que estávamos tão agitadas.

Minha amiga e eu trocamos um olhar e isso foi o suficiente para desencadear em nós uma crise de riso.

- Oh, Deus. - Edward gemeu, baixando a cabeça. - O que foi agora? Me venderam pela internet? Vou ter que casar com alguém?

- Lembra que você disse... que quando nos meto em confusões... - Fiz uma pausa e Lice me abanou com as mãos. - Sempre acontece... uma coisa boa depois?

- Sim... - Deu um passo à frente.

- Talvez você tenha um pouquinho de razão. - Sorri piscando o olho esquerdo.

(...)

- Por aqui... Por aqui. - Gesticulei, o chamando para a cozinha. Eu até parecia um manobrista ajudando o motorista a estacionar.

Edward estava se adaptando bem às muletas, já Alice e eu quase desmaiávamos de ansiedade.

- Por que a pressa? - Ed começou a se chatear.

- Isso responde sua pergunta? - Segurei seu cotovelo ajudando-o a entrar na cozinha.

Edward paralisou de imediato. Nunca o vi tão surpreso, e não era para menos, pois estávamos diante da grande Sarah Ryan.

Ela abandonou a xícara de café sobre a mesa e se levantou, completamente desconcertada. A cozinha estava lotada, Emm, Rosalie, Jully, Alice, Jasper... Nós não conseguimos tirar os olhos da atriz, mas quem podia nos julgar? Nunca tínhamos visto uma estrela de Hollywood antes.

Pior do que nossas expressões abobalhadas, só o silêncio angustiante e constrangedor que se formou. Revezamos olhares entre o selvagem e sua mãe, porém nenhum dos dois se manifestou. Em um ímpeto, pigarreei alto e isso induziu Sarah a vir até nós.

- Olá. - Ela estendeu a mão em um cumprimento, só que Edward não reagiu.

Para não deixar Sarah no vácuo, eu mesma apertei-lhe a palma com firmeza.

- Oi, de novo. - Sorri. - Ed está com um probleminha na garganta.

Sarah tinha uma pele tão bonita e jovial que era quase impossível lhe dar mais do que 30 anos. Seus cabelos eram de uma tonalidade invejável de loiro e suas vestes, apesar de simples, denunciavam um extremo bom gosto e poder aquisitivo. Ela era uma mulher independente e de grande influência, no entanto, nos fitava como uma garota desajeitada e constrangida.

- Entendo. - Sarah deu três passos atrás e tateou uma cadeira sem tirar os olhos do filho. - Realmente entendo. - Sentou-se sem olhar onde e desabou no chão.

- Meu Deus! Ela é na vida real como é nos filmes. - Alice extasiada se apressou em ajudá-la.

- Me desculpem. - Sorriu sem jeito ao se recompor.

- Como me encontrou? - Edward finalmente abriu a boca.

- Tenho alguns amigos na TVK. Eles foram gentis em me fornecer esse endereço. - Estudou a fisionomia dele.

Imediatamente cutuquei disfarçadamente as costelas do selvagem, esperando que ele me agradecesse depois. E agradecesse “com força”.

- Desculpe chegar assim... sem avisar. - Ela olhou para o tornozelo enfaixado do cara. - Você está bem?

- Estou. - O senti meio distante.

- O que aconteceu?

- Eu torci o tornozelo dele. - Com uma risada nervosa, me adiantei para Edward não ter que contar que saltou de um penhasco.

- E por quê? - Mostrou-se surpresa.

Como eu não esperava um “por quê?”, travei, sendo abandonada por minha criatividade. E lá estávamos nós, presos novamente no silêncio.

- Oras. - Alice colocou uma mão em meu ombro. - Por que T-zed mereceu. Ele foi um pouquinho desrespeitoso com Bella ontem.

Edward e eu nos viramos para Alice ao mesmo tempo, em perfeita e absurda sincronia. Nossas bocas escancararam em espanto e logo me perguntei: que merda é essa? Como é que ela sabe?

Os olhos de Lice vagaram por nossas caras de otários e, de repente, percebeu que sua mentira não era tão mentira.

- Hiii.... - Ela coçou a nuca, perdendo o controle da mentira/verdade-que-eu-queria-que-fosse-só-mentira/ou-talvez-não.

- Mas foi apenas um mal entendido. - Jully veio correndo nos socorrer. - Repito. Só um mal entendido. Entre mortos, feridos e constrangidos... - Ela abriu seu cintilante sorriso dando um tapinha nas costas do selvagem. - Salvaram-se todos.

- Ah, tudo bem. - Sarah não acreditou, mas também não questionou.

- Senhora Ryan, sei que parece que somos pessoas muito estranhas. - Procurei desesperadamente reverter a má impressão que causamos. - Mas não somos. Para ser sincera, somos jovens de boa índole. Completamente centrados e respeitáveis. - Falei bem séria.

 - Quem quer ouvir piada de viado? - Toby chegou enchendo uma camisinha de ar como se fosse um simples balão.

Rapidamente dei um tapa na nuca do moleque e a camisinha saiu voando por cima da cabeça de Sarah.

- E lá se vai nossa chance de um autógrafo. - Emmett murmurou.

(...)

Depois de dar uma bronca em Toby por pegar porcarias no quarto de Brad, insisti que Edward e sua mãe fossem conversar no escritório de Charlie. O cara não foi mal educado, mas também não se mostrou entusiasmado. Ele não estava deixando transparecer nenhuma emoção que denunciasse seus pensamentos e isso não era nada bom.

Eu e meus amigos ainda não acreditávamos que Sarah Ryan (a atriz mais bem paga depois de Julia Roberts) estava de fato em nosso cortiço. Ficamos na sala inquietos para saber o desenrolar do encontro de uma estrela de cinema com seu filho criado na selva. Infelizmente os minutos passaram, passaram e passaram. Quase uma hora e meia depois foi que a porta do escritório se abriu e de lá saiu uma Sarah cabisbaixa e com os olhos vermelhos. Ela sorriu cordialmente para nós, entregou um cartão de visitas a Edward e se despediu com um aceno de mão.

Quando a atriz atravessou a porta da frente, quis correr atrás dela, pedir um autografo, contar que cresci vendo seus filmes, porém murchei diante da fachada controlada e aparentemente serena de Edward.

- T-zed, está tudo bem, cara? - Jazz indagou.

O selvagem assentiu, em seguida saiu pela porta dos fundos nos deixando intrigados.

- O que rolou lá? - Lice abriu os braços.

- Vamos deixá-lo digerir o que aconteceu. Não vamos incomodá-lo. - Jully pediu com sabedoria.

Edward precisava de um tempo sozinho e nem mesmo eu podia tirar isso dele.

- Cadê o Toby? - Olhei para os lados, procurando-o. - Faz quanto tempo que ele sumiu?

 Ninguém soube responder.

- Vamos procurá-lo. - Lice me arrastou para o jardim e logo que nos afastamos dos demais, iniciou o interrogatório. - T-zed deu em cima de você? - Seus olhos brilhavam de curiosidade.

- Querida Alice, o que você chama de “dar em cima”? - Tentei enrolar.

- Querida retardada, o que você chama de “levar na cara”? - Chateou-se.

- Tudo bem... - Continuei a vagar pelo jardim e ela me acompanhou. - Não aconteceu nada de mais. Ed estava literalmente drogado e falou meia dúzia de bobagens.

- Aaah... - Lice desanimou.

- E ele tipo... - Tossi dando uma disfarçada. - Deu um tapa na minha bunda.

 A garota paralisou com uma expressão de perplexidade e deboche.

- Nem vem! - Falou alto.

- Juro. Primeiro ele deu aquela apertada, depois tascou a mão com vontade. - Retorci a boca, preocupada. - Só não me zoa, tá?!

Ela já estava tendo uma crise de riso.

T-zed é um danadinho... - Saiu cantarolando e saltitando. Já eu fiquei para trás, com a maior cara de otária. - Sempre soube que ele era um danadinho...

- Eu não mereço. - Lamentei revirando os olhos.

Feito uma zumbi, segui Alice, dando a volta na casa até parar no quintal.

- Bella! - Ela gritou e corri para alcançá-la.

- O quê? - Ofeguei.

- Olha o que aquela criatura sem noção está fazendo! - Apontou para o pancinha.

Ele estava no fundão do quintal com uma pá, jogando um pouco de areia em um pequeno buraco.

- Ninguém tem misericórdia da minha paciência! - Irritada, marchei até lá.

Vendo que eu estava chegando cada vez mais perto, o gordinho se apressou no serviço.

- Ninguém se mete porque o caso é pessoal. - Toby ficou afobado.

- Mas que cace... - Perdi a voz, finalmente vendo o que ele estava enterrando.

Alice chegou junto e...

- AAAAAAHHHHH! - Desesperou-se agitando as mãos.

Por um momento fiquei sem reação, pois na pequena cova estava o papagaio do velhote surdo, embrulhado do pescoço às garras em plástico bolha... VIVO!

- Seu gorducho lazarento dos infernos! - Pirei, arrancando-lhe a pá e Alice tratou de tirar a ave da cova.

- Pô, gente... - Ele reclamou com a voz chorosa. - Esse bicho implica comigo.

- Se olha no espelho, até Deus implicou com você! - Fui má, mas o moleque merecia.

- Que foi? Vai cair pra dentro, sua lombriga anêmica, sua canela seca! - Retrucou.

Estreitei os olhos, louca para pipocar minha mão nas fuças dele.

- Francamente... - Alice começou a desmumificar o papagaio. - Pra quê o plástico bolha? Por acaso vai despachar via Fedex pro céu?

- Toby, some...daqui...agora! - Falei por entre dentes.

O garoto saiu correndo e minha amiga deu-me a boa notícia.

- O papagaio está bem. - O livrou totalmente do plástico. - Vamos colocá-lo de volta na gaiola antes que o hóspede perceba.

- Boa ideia. - Estendi as mãos para pegá-lo.

Caminhando apressadamente para casa, mantive o bicho o mais longe possível de mim. Com medo de que bicasse minhas mãos, não tirei os olhos dele.

- Muita calma nessa hora. - Lice estava aflita. - Não deixa essa porcaria escapar.

É claro que me chateei.

- Olha bem pra minha cara, acha que sou idiota? Não vou deixar escapar!

Assim que me calei, tropecei numa pedra, desabei lascando a cara no chão e a ave bateu as asas pro mundo.

Por alguns segundos ficamos só assistindo o papagaio desaparecer de nossas vistas. Então Alice voltou-se para mim, cruzou os braços e me fuzilou com o olhar.

Sem coragem para levantar, afundei o rosto na grama e murmurei:

- Pelo amor de Deus, me leva pra aquela cova e me enterra. - Não podia estar mais frustrada.

- Levanta daí que lá vem o dono do papagaio. - Puxou-me pelo braço, extremamente nervosa.

Fiquei de pé o mais rápido possível e comecei a pensar em como “tirar o meu da reta”.

- Onde está meu papagaio? - O velho indagou ao se aproximar. Ele nos fitava como se fôssemos delinqüentes.

Alice e eu trocamos um olhar, então respondi:

- Eu não sei. - Pronunciei as palavras, mas não deixei nenhum som sair da minha boca.

- O quê? - Gritou ranzinza.

- Eu... não... sei. - Repeti, ainda sem fazer barulho algum.

- Como é? - Ficou meio desorientado.

- Não sabemos. - Alice respondeu mexendo só os lábios.

O senhor colocou o indicador no ouvido, o chacoalhou e começou a acreditar que ficara surdo de vez.

- Preciso tomar meu remédio. - Assustado, enxugou o suor da testa.

- Vai com ele. - Fiz com que Alice lesse meus lábios. Ela fez sinal de OK e se mandou com o hóspede. Após um longo suspiro, constatei que: - Eu tô é fritinha!

(...)

Reuni a galera para procurar a ave. Com a altivez de quem já estava cansada de se estrepar, convoquei até mesmo as duas pessoas que estavam pilhando a minha paciência. Eu, que não sou besta, as responsabilizei pela fuga do papagaio.

Brad: por não ter ficado de olho no pancinha.
E Toby: por existir.

Emmett e Jasper ficaram comigo perto das árvores, no lado esquerdo do jardim. Com cabos de vassoura, ficamos cutucando as copas na esperança do papagaio sair voando de uma delas.

- Aqui, aqui, papagaio. Aqui... - Jazz bateu palmas.

- Ele não é um cachorro. - Fiz uma careta de desaprovação.

- Uma hora o bicho vai aparecer. - Emm jogou alguns grãos de milho no chão.

- E nem uma galinha. - Balancei a cabeça, bastante mal humorada.

- Qual a sua, Bel? Está muito chata hoje. - Emmett reclamou.

- Estou é? - Me entristeci.

- Com certeza. - Meu irmão continuou batendo palmas.

- Só estou estressada.

- É porque T-zed “passou o rodo” em você? Ou porque amanhã ele vai “passar” em outra pessoa? - Emm riu.

- Nem começa! Não aconteceu nada, vocês sabem que é só mais uma das lorotas da Alice.

Percebi tarde demais que não acreditavam que Ed fosse mesmo capaz de me assediar, mas nem por isso deixaram de me zoar.

- Então é porque o cara vai “passar” em outra amanhã. - Jasper falou para Emmett, me excluindo da conversa.

- Vou ignorar esse merdelê todo. - Continuei procurando o papagaio.

- Se T-zed gostar da tal Melanie, e se o Me Azare! levar os dois para Miami, o sujeito tem que estar preparado. - Disse Emmett.

- Como assim? - O encarei.

- Ontem tivemos uma conversinha com ele lá na praia. - Meu irmão se intrometeu.

- Disseram para Ed ser cauteloso? Disseram que a primeira vez de um homem é importante, certo? Não se faz sexo por pressão. Deram um conselho ajuizado para ele, não é? - Meio sem jeito, coloquei uma mão na cintura.

- Claro... - Emmett analisou as copas, não se importando muito com a conversa. Senti até uma ponta de deboche em sua voz.

- Resumindo...? - Pressionei mais um pouco.

- Resumindo, isso não é papo pra você, Bella. O passeio sexual de T-zed na periquitolândia não é da sua conta! - Jasper bancou o cretino. 

- Jazz, cala essa boca se não eu fecho o tempo contigo! - Ameacei erguendo o cabo de vassoura.

- PESSOAAAAL! - Lice berrou. Nós viramos para fitá-la e, a muitos metros de distância, nos chamava com as mãos.

(...)

Na lateral direita da casa, afastados o suficiente para ter uma boa visão do telhado, nos amontoamos discutindo para decidir quem ia subir nele só pra pegar o maldito papagaio que dava uns rolé por lá.

- Na boa, acho que o McFadden é quem deve ir resgatar a ave. - Me pronunciei.

- Vai sonhando, Bells. - Se irritou, ficando frente à frente comigo. - Não tenho nada a ver com essa droga.

- Espera aí, meu querido. Você tinha a obrigação de ficar de olho naquele gorducho larazento. - Falei com mais tranqüilidade do que esperava.

- Gente, eu tou aqui. Toma aí cuidado com a língua, falô! - Toby estalou os dedos querendo atenção.

- Se liga, não sou baba de pentelho. - Brad aumentou a voz. - O moleque só faz porqueira. - Quis me intimidar com o olhar.

- Sério, é meio impossível eu ser invisível, né não? - Toby chacoalhou a pança com as mãos.

- E daí, Brad?! Você e sua banda estão aqui no bem bom. Cuidar do boca-suja era o mínimo que podia fazer. - Joguei a verdade em sua cara.

- Nós estamos aqui para tocar, pra dar show! Eu lá tenho culpa se as festas de vocês são mal organizadas e desastrosas?

- Você... você... - Cacei um argumento e não encontrei, pois nós éramos mesmo uma porcaria no quesito festa. - Emmett, vai buscar a escada. - Vociferei disposta a resolver a parada sozinha.

Meu amigo foi correndo e voltou quase voando. Peguei a enorme escada e a posicionei da melhor forma possível.

- Estou cercada de homens frouxos. - Resmunguei subindo os primeiros degraus.

Brad gemeu contrariado, em seguida colocou as mãos em minha cintura e arrancou-me da escada.

- Não somos frouxos, somos extraordinariamente cautelosos. - Jasper riu.

Dei alguns passos atrás e assisti satisfeitíssima o Brandido subir na escada e chegar ao telhado rapidinho. Ele pisava nas telhas com muito cuidado e estudou o melhor jeito de agarrar o papagaio.

- Não assuste o bicho. - Alice gritou.

- Um passo de cada vez, cara. - Emm incentivou.

- Calem a boca! - Ele berrou, chegando cada vez mais perto da ave.

Coise no reto! - O papagaio começou a tagarelar. - Gorducho lazarento.

- Aí ó! Sacanagem! - Toby pegou uma pedra e não hesitou em jogá-la contra seu inimigo. Felizmente o garoto errou o alvo.

O papagaio voou, mas logo pousou na pontinha no telhado, dificultando ainda mais nossa vida. Os três passos que Brad deu em direção ao animal fizeram algumas telhas rangerem e instintivamente fiquei tensa.

- Todo cuidado é pouco. - Gritei.

- Eu sei o que estou fazendo. - Procurando se equilibrar, ele deu mais um passo e depois outro, e outro...

Até que de repente, ao pisar em falso, algumas telhas despencaram fazendo Brad deslizar tão rápido que mal tivemos tempo de gritar. Automaticamente fechei os olhos e, quando não ouvi o baque do corpo contra o solo, os abri avistando o cara se segurando na calha. Suas pernas balançavam conforme tentava subir de volta no telhado.

- Se segura! - Lice berrou, nervosa.

McFadden soltou um festival de palavões.

- Brandida, sua louquinha. Não me vai cair daí, hein?! - Jasper zombou e Emmett gargalhou.

- Não se preocupe! - Gritei indo socorrê-lo, mas nem deu tempo, a calha cedeu e meu ex caiu de dois andares.

(...)

3 HORAS DEPOIS...


- Isso é o que chamo de justiça poética. - Sorri torto.

Sentada no sofá, me abanei com uma revista observando Brad, acompanhado por Emm, atravessar a porta da frente com a perna direita engessada. Meu ex se apoiava em uma bengala e com a outra mão segurava uma garrafa de whisky. A diferença entre Edward e Brad, é que o selvagem não tinha quebrado nenhum osso.

- Sei não, está mais para justiça divina. - Satisfeita, Jully sentou no braço do sofá.

- Se alguém falar mais alguma coisa, eu vou descer o braço! - Brad estava irado.

- Ele vai ficar bem. - Emmett deu um tapinha nas costas do roqueiro.

- Não reclama Brad, podia ter sido pior. - Fiquei de pé.

- Nem imagino como. - Mancando, alcançou uma das poltronas e desabou nela.

- É sim. Tipo, você podia ter quase morrido afogado! - Ainda estava ressentida pelo que fez com Ed.

- Nem começa. - Revirou os olhos, entornando o whisky. - O anormal pulou do penhasco porque quis. É ridículo vocês ficarem me culpando por isso.

Balancei a cabeça reprovando-o. Enquanto estudava McFadden, comecei a me sentir estranha... Por muito tempo, internamente, admirei ele. Sempre foi fácil ficar encantada pelo seu jeitão bad boy, sua auto-suficiência, sua pose de superior, seu sorriso provocador... Estar com Brad era com viver uma aventura, nunca se podia ter certeza de nada. Porém, tudo isso que eu admirava eram características de alguém egoísta. É claro que eu já tinha percebido isso fazia tempo, o problema é que antes eu me importava muito. Ficava revoltada em vê-lo ser tão egocêntrico, ou ficava deprimida por suas palavras terem uma forte influência sobre mim. Eu ainda não sabia como ou por que, mas eu estava ficando indiferente. Primeiro não derramei nenhuma lágrima quando o encontrei com a ruiva, e agora não estava ligando para sua falta de consideração. O que tivemos no passado ainda mexia muito comigo, só que isso não me impediu de sentar, relaxar e deixar que ele soltasse provocações para o nada.

- Tudo bem. Só cumpra a sua parte da aposta. - Disse-lhe.

Brad gargalhou, não crendo no meu pedido.

- Só pode estar de onda! - Aumentou o tom de voz.

- Bella tem razão. - Emmett sentou ao meu lado. - Aposta é aposta.

- Nem houve competição, vocês sabem disso.

- Não houve porque você ficou para trás, desistiu. Sendo assim, Edward é o vencedor. - Retruquei.

- E quem fez de você a juíza? - Bebeu mais um pouco. - Nem sei por que estou discutindo isso. É perda de tempo. Não vou dar nada a ninguém.

- Vamos facilitar as coisas, mano. Não precisa dar o carro, mas deve mil e quinhentos a T-zed. - Emm falou com firmeza.

- Nós sabemos que você não tem palavra, Brad. Mas escuta, ou cumpre o acordo, ou pegue suas tralhas e dê o fora daqui. - O encarei confiante.

Ele arqueou a sobrancelha, nitidamente se remoendo de raiva por dentro. Brad tinha um ego do tamanho do mundo, por isso não baixou a cabeça para nós. Eu tinha certeza que ele preferia nos dar a sua amada guitarra a nos dar um motivo para humilhá-lo.

- Eu descolo mais do que isso em uma apresentação. - Com ajuda da bengala se levantou. - Se vão ficar chorando por causa dessa merreca, eu pago. O carinha é um desempregado, ele precisa.

Continuei indiferente, mas pela primeira vez vi Emmett fitar Brad como se fosse socá-lo.

- Jasper pegou o papagaio! - Meu irmão entrou pela porta da frente se achando um herói, já com o bicho preso da gaiola.

- Como fez isso? - Jully ficou surpresa, e não foi a única.

- Na verdade, foi bem simples. Jasper lambuzou o Toby com mel e polvilhou comida para pássaros nele, depois foi só deixá-lo no meio do jardim com os braços abertos feito um espantalho.

- E cadê o garoto? - Indaguei preocupada.

Jasper pigarreou.

- Fugindo de alguns pombos.

Os berros do pancinha ecoaram pela mansão.

(...)

A noite caiu, servimos o jantar, depois o Link 69 saiu, alguns hóspedes se recolheram e meus amigos se reuniram no escritório.

Por estar preocupada com Edward, deixei a galera discutindo planos para o resort e finalmente saí em busca do selvagem. Eu sabia que ele só podia estar em dois lugares: na casa da árvore, ou na jaula do puma. Levando em consideração sua torção, fui direto para o final do jardim onde escondíamos o felino.

Edward estava sentado dentro da jaula escrevendo em sua agenda. Já o puma bebia água em uma bacia ali perto. Não me aproximei muito para não deixar o animal agitado, e foi assim que tive a chance de observar o selvagem distraído.

Eu não sabia o que ele estava escrevendo, mas a julgar pelo longo suspiro que soltou, devia ser algo que o deixava melancólico. Ed passou uma mão nos cabelos e fechou os olhos, visivelmente esgotado.

- Como está o tornozelo? - Perguntei em voz alta.

Edward ergueu a cabeça e me fitou com uma expressão indecifrável.

- Estou bem.

- A Jully falou para deixarmos você em paz, mas eu acho que nasci para te tirar a paz... - Tentei brincar.

- Não se preocupe, Bella. - Fez um carinho na cabeça do puma, em seguida se levantou apoiando-se nas muletas.

- Quer jantar?

- Não.

Edward saiu da jaula e caminhamos bem devagar de volta para casa.

- Quer que eu carregue isso? - Indiquei a agenda que estava em baixo do seu braço.

- De jeito nenhum. - Finalmente sorriu.

Eu não podia deixar a chance passar.

- Brad pagou parte da aposta. - Tirei o cheque do bolso e o exibi.

- Bom. - Parou para me olhar.

- Quer que eu vá ao banco amanhã?

- Você sabe que eu não quero o dinheiro do Brad.

Eu meio que já esperava por isso, mas tinha a obrigação de insistir.

- Você se machucou por esse dinheiro, merece ficar com ele.

- Não insista, por favor. Reponha o dinheiro que tirou para me ajudar.

- Tem certeza? - Eu sabia que Ed estava fazendo a coisa certa, mas me senti um pouco culpada.

- Absoluta.

- Espera. - Guardei o cheque e estendi a conversa. - Eu não tenho cacife para te passar sermão, mas pular do penhasco foi uma baita estupidez.

- Eu sei. - Desviou o olhar com um suspiro. - Não imagina o quanto estou decepcionando comigo mesmo. Sempre me esforcei para ser uma pessoa equilibrada e, por puro orgulho, agi como um inconsequente. Geralmente não ligo para provocações, mas ontem, por motivos que nem compreendo totalmente, me deixei levar pelas infantilidades de Brad. Devo desculpas a todos vocês.

- Tá de boa. - Afaguei seu braço. Edward era muito severo consigo mesmo, eu é que não ia colocar pilha. 

- Obrigado. - Ele se preparou para andar, mas pareceu que algo lhe ocorreu. Ao me encarar, franziu o cenho perguntando: - Bella... Eu te “desrespeitei” ontem... de alguma forma? Minhas lembranças estão meio embaralhadas. É que sonhei com tanta coisa estranha...

Primeiro fiquei tensa, depois sorri sendo o mais convincente possível.

- Não vá na onda da Alice. É claro que não aconteceu nada... - Enfiei as mãos nos bolsos e fitei o chão. - Imagina... Você sabe que nunca me “desrespeitaria”. - Revirei os olhos. - Não é do seu feitio. - Para evitar o assunto, voltei a caminhar e Ed me acompanhou.

O que aconteceu foi um caso isolado. Não pretendia torturar meu amigo com coisas que fez fora de seu juízo normal.

- Sendo assim, pede a Alice pra parar de me chamar de danadinho.

- Ela fez isso? - Gargalhei super alto.

Ao subirmos a escadaria para chegar ao meu quarto, Edward recusou minha ajuda, mas ainda assim fiquei por perto só para garantir. Logo que chegamos ao quarto, troquei de roupa enquanto o selvagem tomava banho.

- Eu vou dormir na cama auxiliar. Ela é muito pequena pra você. - Avisei, vendo-o sair do banheiro com o peito desnudo e os cabelos úmidos.

- Não se preocupe, eu nem vou dormir. - Usou só uma muleta para chegar até à sua mochila de acampamento que estava em cima da cômoda.

- Como assim?

De dentro da mochila ele tirou um pote de madeira de uns trinta centímetros.

(...)

Mesmo Edward tendo insistido para que eu fosse dormir, fiquei na cola dele. Fomos para a cozinha e assisti atentadamente ele preparar uma pasta com um pó verde de cheiro estranho.

- O que é isso? - Espichei os olhos sobre a gosma que ele aplicava no tornozelo e no pé.

- Tem certeza que quer saber? - Respondeu rindo.

- Não. - Fiz uma careta com medo da resposta. Parecia algo muito nojento. - Mas isso vai fazer você melhorar, certo?

- Certo. - Sentando em uma cadeira e com a perna apoiada em outra, começou a enfaixar o local machucado.

- Bem que você poderia ter me dado um pouco disso quando torci meu tornozelo. - Comentei por comentar.

- Para você jogar fora como fez com o diamante? - Balançou a cabeça, desgostoso. - Na época você não se importava muito com os meus conselhos.

Como ele sabia sobre o diamante? Os rapazes teriam dado com a língua nos dentes recentemente? Ou todo esse tempo Ed sabia, só que nunca comentou? Não tive coragem de perguntar. Senti um pouco de remorso, o suficiente para me calar por vários minutos.

Quando Edward foi para a sala, o segui e ficamos empoleirados no sofá. Pelo que me contou, o cara teria que trocar a pasta a cada hora até o dia amanhecer. Mesmo morrendo de sono, não hesitei em lhe fazer companhia.

Liguei a Tv e fiquei mudando de canal sem prestar muita atenção na programação, até que, de repente, demos de cara com um dos filmes de Sarah. O título era: Nem Tudo é Por Acaso.

- Quer que eu desligue a televisão? - Indaguei.

- Não precisa fazer isso por minha causa. - Deu de ombros.

Encontrei naquela feliz coincidência a chance de especular sobre o que acontecera no escritório. 
 - Nem acredito que apertei a mão dela e não tirei uma foto. Durante minha adolescência sonhei em ser atriz. Imagine só, eu, atriz. - Gargalhei. - Mal sei interpretar a Charlene Créu Créu.

- Nessa profissão geralmente é necessário ter uma habilidade extraordinária para mentir.

- Não consegue perdoá-la? - Perguntei com cautela.

Edward ficou olhando para o vazio e demorou bastante para responder.

- Não sei o que sinto em relação a Sarah. Não sinto raiva ou desprezo, mas também não consigo enxergá-la como minha mãe. Quando garoto, sentia que era um peso na vida dela. Porém, sou grato por Sarah ter me deixado em Malaita. - Passou a observá-la na Tv. - Quando conversamos a sós ela chorou, pediu perdão, disse que sempre pensou em mim, mas tinha vergonha e medo de me procurar. Falou que se arrependia, que era imatura demais na época e tomou a pior decisão de sua vida. Me contou que trocaria tudo o que tem hoje por uma chance de voltar atrás. - Suspirou e eu quase senti na pele suas contradições emocionais. - Só que eu... fiquei apenas a encarando, sem nada a dizer, sem nenhum consolo a dar, sem nenhuma acusação a fazer. Não é que eu tenha sido insensível de propósito, mas é que mesmo Sarah tendo mudado pouco fisicamente, me senti diante de uma total estranha.

- Talvez só precise renovar seus laços com ela. Quem sabe um pouco de convívio...

- É meio tarde para ela retomar a função de mãe.

- Mas não é tarde para ela assumir a de amiga. - Passei um braço em volta dos ombros dele. - Não estou falando isso porque sou fã dela... É que... - Respirei fundo. - Nunca se perguntou onde está minha mãe?

Edward baixou a cabeça, lamentando silenciosamente.

- Pois é... - Continuei. - Quando eu tinha 15 anos, meus pais se divorciaram também. Jasper e eu moramos com nossa mãe no Texas por alguns meses, só que não suportávamos o novo marido dela e tínhamos muitas saudades de Orlando, do meu pai, da mansão, dos amigos... - Sorri com pesar. - Então voltamos para cá, mas minha conexão com minha mãe foi diminuindo. Não sei ao certo porque, não sei de quem é a culpa. Hoje nos falamos esporadicamente pelo telefone. - Fiz uma pausa e ele me incentivou a falar, pousando a mão em meu joelho. - Não me entenda mal, eu a amo do meu jeito, só que às vezes sinto que ela não se importa o suficiente conosco. Eu tenho o afeto do meu pai, do meu irmão e dos meus amigos, e isso já é mais do que eu mereço na vida, só que algumas vezes também sinto falta de um colinho de mãe. O que estou tentando dizer é que Sarah errou feio, mas ela teve a garra de chegar aqui, mesmo correndo o risco de ser escorraçada por você, e pediu perdão. Ela realmente se importa, Edward. Do que adianta culpá-la agora se até você acha que ser criado em Malaita foi a melhor coisa que lhe aconteceu? - Em um gesto de amizade, encostei minha cabeça junto à dele. - Vamos lá... Aprendi de uns tempos para cá que algumas coisas pertencem somente ao passado. Elas devem ficar enterradas lá. - Afastei minha cabeça para encará-lo. - Não precisa sair correndo para abraçar Sarah, mas dê a você mesmo a chance de conhecê-la melhor. - Quando dei por mim, já estava com a mão em sua bochecha. - É incrível como podemos nos surpreender com as pessoas. - As últimas palavras saíram em um desconcertante murmúrio.





Engoli em seco, completamente hipnotizada pelos olhos inocentes e ao mesmo tempo selvagens de Edward. As pintinhas cinzas contrastando com o azul encorpado, me provocaram uma leve palpitação. Era errado fitá-lo daquele jeito, só que eu não conseguia me mover.  

- Obrigado por não desistir de mim no mar. - Ele sussurrou sem pestanejar.

O rosto de Edward estava tão próximo ao meu que eu podia sentir seu hálito em minha pele e me via claramente em suas pupilas.

Entre eu e ele, havia um mundo inteiro de diferenças, mas em alguns raros momentos, entre uma pessoa e outra, tudo que existe é... ar.

Em uma ação mútua, rompemos os centímetros que separavam nossos lábios e, para o deleite de um estranho desejo reprimido, nos beijamos.

Os dedos de Ed penetraram em meus cabelos, fazendo-me inclinar a cabeça um pouco para trás. Minhas mãos ficaram moles sobre minhas coxas, pois eu ainda não havia encontrado forças para corresponder devidamente a algo tão deliciosamente imprudente. Edward pareceu não se importar e continuou a sugar meus lábios, soltando às vezes um rosnado muito baixo.

A boca dele era tão quentinha e singular. A rala barba roçava em minhas bochechas e queixo provocando-me uma leve e adorável ardência. Meio derretida, soltei um gemido que era um misto de angustia e satisfação. Nesse momento fui guiada por um instinto de proteção, talvez quisesse proteger nossa amizade, ou possivelmente meus próprios sentimentos. Então deslizei para fora do sofá, caindo de joelhos no carpete, mas Edward continuou a me beijar, se juntando a mim no chão.

Eu era bem mais experiente que Ed, só que naquele momento me via como garotinha com medo de atravessar a rua, com medo de descobrir o que existe do outro lado.

Minha atração pelo selvagem tornava-se cada vez mais gritante e eu já não sabia como lidar com isso. Será que era possível querer loucamente um homem mesmo amando erroneamente outro? Eu seria capaz de ignorar o fato de que as mãos dele, mesmo ásperas, eram carinhosas? Dava para fingir que seu cheiro não se tornou familiar demais? Como eu ia esconder que, quando ele abre a boca, simplesmente rouba toda a minha atenção?

Meus braços se rebelaram contra mim e envolveram a cintura de Edward enquanto ele espalhava beijos por meu queixo, bochecha e novamente os lábios. De olhos bem fechados, cedi ao prazer de cada uma dessas expressões de cobiça e cumplicidade. Eu simplesmente sucumbi!

Totalmente fora de mim, agarrei-lhe os cabelos da nuca e devorei sua boca com avidez. Edward pressionou-me contra si e o senti carregado de desejo, na verdade, me queimava com ele conforme suas palmas deslizavam por minhas costas, chegando à cintura, e um pouco mais além... Suas palmas pareciam tão grandes, pois me segurava com firmeza e confiança. O que será que ele diria se soubesse que toda vez que rosna baixinho uma corrente elétrica atravessa meu corpo e sem querer me contorço?

Edward era sensual de um jeito tão único que até me sentia estúpida por não ter percebido isso antes. Oh Deus, o que está acontecendo comigo? Ele era tão desinteressante... era tão... tão... Droga! Será que antes eu não conseguia enxergá-lo de verdade por ser preconceituosa?

Essa aqui não sou eu, tenho certeza disso! É só uma versão minha carente, apegada demais a Edward e completamente influenciada pelas circunstâncias.

Embora eu estivesse prestes a discutir comigo mesma, não fui capaz de interromper nossa fuga da realidade, porque era tão gostoso... Até lambi a boca de Ed, arranhando delicadamente suas costas. Ele imediatamente reagiu, subindo as mãos por dentro da minha blusa. Ofeguei ao sentir seus dedos em minhas costelas, quase chegando aos seios. Eu estava começando a perceber que Edward era como um felino selvagem: uma vez provocado, o certo é correr... ou ele te devora.

Como se a bolha em que estávamos estourasse, nos separamos rapidamente ao ouvir o baque que a porta da frente produziu ao ser aberta pelo Link 69. Eles invadiram fazendo a maior algazarra. Estavam bêbados e Brad mal conseguia ficar de pé. Não sei dizer o que ele viu, mas lançou-me um olhar tão frio e penetrante que, sem querer, solucei altíssimo.

Edward se levantou resmungando algo que não entendi, então se virou para Brad e disse:


***

(Continua...)




Diário de Bordo - Edward Cullen


Orlando, EUA.

Eu tive um sonho.

Mesmo depois que acordei desse sonho ainda me sentia preso nele. Minha mente me transportou para um mundo completamente distorcido. Um mundo onde um guerreiro agia como um tolo impulsivo, e uma tola impulsiva agia como uma guerreira.

Houve uma época em que pensei que, se estudasse um individuo, com o tempo seria capaz de prever suas atitudes. Esse pensamento foi derrubado pela ação de uma única pessoa: Bella.

Estou todo esse tempo analisando-a e até achei que estava compreendendo melhor sua natureza, mas aqui estou eu, novamente procurando entendê-la. Preciso saber o que a fez saltar do penhasco para me ajudar. Bella desafia toda a lógica! Ninguém em plenas faculdades mentais arriscaria a própria vida por alguém que conhece só há algumas semanas. Não sou como Emmett e Alice, a quem ela conhece desde criança. Sou um “selvagem” que invadiu seu território e modificou seus planos de férias. É verdade que nos tornamos mais íntimos do qualquer um podia imaginar, só que isso não explica nem justifica sua iniciativa de atar o próprio destino ao meu naquelas águas turbulentas.

“Atados” é uma boa palavra para definir nossa situação, pois agora tenho uma dívida de gratidão com Bella e farei até o impossível para honrá-la. Bella pode não ter consciência da grandeza desse elo, mas o respeitarei como se fosse sagrado. Mesmo que os anos passem e que a lembrança do que aconteceu evapore de sua memória, se Bella precisar de mim... eu retornarei a essa terra por ela.

Sinto-me um pouco mal por ter criticado tantas vezes sua impulsividade. Ontem também fui impulsivo e vi que não é exatamente uma opção. Tudo está ligado às circunstâncias e, quando não sabemos lidar com elas, a mente sofre um bloqueio o os sentimentos dominam as ações. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Eu estava bastante chateado por Bella ter aceitado a ajuda de Brad quando perdeu parte do biquíni. Como a garota pode dizer que quer afastar-se dele se aceita favores que sabe que ele vai cobrar? Quero muito vê-la livre de sua obsessão pelo ex-namorado, e é por isso que me incomoda assistir suas pequenas recaídas. Eu não chego a lhe culpar, porque deve ser mesmo difícil lutar contra tamanha fixação, mas fico irado com Brad. Ele é ardiloso, explora as fraquezas da garota só para achar que está no controle. Quando ele começou a me provocar, me senti no dever de colocá-lo em seu devido lugar. E esse foi justamente o meu erro, eu não estava pensando, só estava sentido... Sentido muita raiva!

Agora vou pensar duas vezes antes de criticar mentalmente Bella. A garota só é cheia de sentimentos que não sabe administrar. Eu já nem estou ressentido por ela e Alice terem me inscrito no programa de Tv. As duas fizeram loucuras com a intenção de me conduzir às experiências que tanto busco. É claro que preferia que tudo fosse diferente e menos absurdo, mas já está feito. No final das contas, não foi tão constrangedor, sobrevivi a ridículas investidas de garotas esquisitas e fui recompensado com a chance de conhecer pessoalmente Melanie.

É muito cedo para formar uma opinião sólida sobre essa moça, mas de todas as pessoas que conheci aqui, ela foi a única que me causou uma empatia instantânea. O perfil que Bella me mostrou é muito interessante. Melanie tem preferências com as quais me identifico e isso me fez sentir menos “singular”. Não estou desesperado por uma namorada, só que seria muito bom encontrar alguém que espante a sensação de que sou “um peixe fora d’água”. Eu gosto dos meus novos amigos, mas às vezes eles simplesmente não entendem minhas motivações e estilo de vida.

O fato é que não sei o que vai acontecer quando encontrar Melanie amanhã. Confesso que isso é um pouco empolgante, mas se não nos simpatizarmos um com o outro, não vou ficar triste.

Hoje estou com o pé enfaixado, com a cabeça doendo e torço para ter um pouco de paz. Escuto vozes vindo de todos os lugares da mansão, mas uma voz sempre se destaca das demais. Bella está berrando com um garoto chamado Toby, ela não tem o menor jeito com crianças e não consigo deixar de achar isso engraçado.


***

Não pretendia incluir mais nada em meu diário hoje, mas já é noite e ainda continuo com a estranha sensação de que estou dormindo.

Hoje, mais do que nunca, sinto saudades de casa. Ficar perto do puma ajuda um pouco nessa questão, ele me faz lembrar de Indah e das coisas que abandonei temporariamente em Malaita. Muito em breve, quando eu ficar perto de Indah, vai acontecer o contrário. Vou passar a lembrar deste puma, da mansão e de todas as coisas peculiares que vivenciei, como o... reencontro com minha mãe.

Nunca imaginei que voltaria a vê-la. Quando me entregou a meu pai, não deixou um endereço ou telefone de contato. Lembro-me de que ela tinha uma vida muito incerta, nunca sabia onde estaria na próxima semana.

Todas as coisas que Sarah falou hoje ficaram gravadas permanentemente em minha memória, porém ainda não consigo reagir a elas. Não sinto nada! Nada além dessa... dormência.

Talvez Sarah não tenha conseguido ser uma mãe convencional porque sempre teve problemas com meus avós, que nem cheguei a conhecer. Ela engravidou muito jovem, isso agravou a relação tumultuada que tinha com meu avô. Então Sarah fugiu de casa para se casar com um cientista que não tinha recursos para manter o estilo de vida que ela estava acostumada a ter. Meu pai dizia que ambos queriam “viver de amor”, e isso até poderia ter dado certo se os sonhos individuais de cada um não tivessem falado mais alto.

Fiquei surpreso quando Sarah me contou que minha avó faleceu há três anos, e quase um ano depois meu avô também. Enfatizou que nós éramos a única família deles. Ela me falou algo sobre uns imóveis que herdei, mas que os vendeu e colocou o dinheiro em uma poupança. Imediatamente cortei o assunto, pois isso no momento não me interessa. Só quero completar meu rito de passagem e voltar para Malaita. 

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