USD - Capíulo Treze. Parte I

Capítulo 13 - Fazendo o Certo de Modo Errado

Bella - Narração:

- O que está fazendo? - Alice entrou no escritório.

- Nada. - Saí de cima da mesa evitando encará-la.

- Então por que a cara de culpada?

Mantive-me firme o máximo de tempo que pude, ou seja, cinco segundos.

- Inscrevi o selvagem num programa de Tv! - Roí as unhas.

- Não brinca! - Arregalou os olhos.

- Isso é tão ruim assim? - Tive medo da resposta.

- Você ainda se lembra de quem é Edward Cullen, certo? - Perguntou incrédula.

- Um nerd aborígine temperamental que não mente? - Engoli em seco.

- Exato. - Puxou uma cadeira pra eu sentar e desabei sobre ela.

- Oh, Deus. - Murmurei finalmente tomando consciência do que fiz.

- Não tenha um derrame. Afinal, quais as chances dele ser escolhido? O cara nem é muito bonito. - Alice usou um argumento que me convenceu.

- Verdade. - Dei um meio sorriso relaxando. - Ed é legal, mas é um maltrapilho. - Recuperei o bom senso. - As garotas que escreveram pra ele só estão a fim de curtir o corpo do sujeito.

- Que garotas?

Tentei explicar para Alice o estranho sucesso de Edward no site, e foi ela quem leu para mim a mensagem da tal Melanie enquanto eu me sentava em frente ao computador.

- “Olá. Eu me chamo Melanie, mas, por favor, me chamar de Mel. Como já deve ter visto no meu perfil, tenho 20 anos e moro em Orlando. Para ser totalmente sincera, escrevi essa mensagem três vezes, porém nenhuma das vezes consegui colocar um pouco de mim no texto. Desconheço totalmente a forma certa de se iniciar uma amizade. Me pergunto, será que posso fazer isso com um elogio? Quem sabe uma frase gentil? Poderia tentar contar uma piada engraçada. Não... Acho que a melhor forma seria apertando sua mão, mas infelizmente isso nem sempre é o suficiente. Às vezes precisamos dar uma chance às pessoas para revelarem quem realmente são. Então, Edward, quem é você?”

- Blá, blá, bláááárgggg! - Coloquei o dedo na boca como se fosse vomitar e Lice riu. Tomei o e-mail das mãos dela e dei uma olhada na foto do perfil. Melanie tinha traços orientais, pele bem clara, cabelos negros muitos lisos e um sorriso perfeito. - O que Edward respondeu?

Ela pegou a outra folha e suspirou antes de ler:

- “Olá, Mel. Assim como você, também não sei a forma correta de iniciar uma amizade. Na verdade, tenho bastante dificuldade em criar esse tipo de vinculo social. Confesso que sua mensagem me chamou a atenção pela sutileza com que confessou seu despreparo diante dessa situação. Acho que posso dizer que me identifiquei um pouco. Sem falar que concordo com o que escreveu sobre um aperto de mão nem sempre ser o suficiente. Estive relutante em aceitar conhecer alguém por um meio que não considero convencional, mas não me prendi a isso, já que estou passando por uma fase de descobertas. Gostaria de falar um pouco sobre mim como você pediu, só que não é nada fácil para mim. Demoro a confiar nos outros. Espero que entenda. Mesmo assim, acredite, estou muito interessado em saber mais sobre você. Obrigado por me escrever.” - Lice deu um meio sorriso. - “Assinado: Edward C.”

- Em que mundo eles vivem? - Não contive a revolta. - Onde está o bom e velho: achei você lindo, não quer sair comigo essa noite? - Afinei a voz como se fosse a tal Mel, depois fingi ser Ed. - Ah, Claro, Mel. Que horas te pego? - Revirei os olhos. - Pelo andar da carruagem, só no próximo milênio vão ter coragem pra isso.

- Eu achei fofo.

- Cala a boca, Alice. - Arranquei o papel das mãos dela. - Edward não tem tempo para ser fofo. Temos os dias contados e eu preciso cumprir minha promessa, mas desse jeito... - Amassei a resposta do selvagem. - Está mais do que difícil. - Joguei na lata de lixo. - Minha missão aqui é fazer as coisas acontecerem.

- A moça vai ficar sem resposta? - Assustou-se.

- Claro que não. - Estalei os dedos sorrindo. - Como eu já disse... Vou fazer as coisas acontecerem.

Não perdi tempo e digitei:

“Olá, Mel. É um prazer receber sua mensagem. Não se preocupe se você não sabe como iniciar uma amizade, eu posso te ajudar nisso. Adoraria poder encontrá-la pessoalmente e lhe cumprimentar, talvez assim percebesse que às vezes um simples olhar é o suficiente pra conectar duas pessoas...”

Lice me aconselhou a usar parte do que Edward escreveu para diminuir as chances de um deles descobrir que eu estava interferindo.

“Estive relutante em aceitar conhecer alguém por um meio que não considero convencional, mas não me prendi a isso já que estou passando por uma fase de descobertas. É difícil falar sobre mim mesmo, pois sou bastante tímido, principalmente pessoalmente. Estou em Orlando há pouco tempo e me sinto solitário. Você sabe, sem alguém de confiança para partilhar momentos e pensamentos, por isso seria ótimo conseguir conquistar sua amizade. Por favor, me responda e me dê uma chance de entrar em sua vida. Beijos. Edward.C.”

- Prontinho. - Esfreguei as mãos, satisfeita. - Se eu interferir em mais umas quatro ou cinco mensagens, vou conseguir descolar o primeiro encontro de Edward. O que acha?

- Maquiavélico, mas genial. Você só está encurtando o caminho. Eles só vão conseguir se conhecer realmente quando se encontrarem cara a cara, daí vai ser por conta deles. - Lice me apoiou.

- É disso que eu estou falando. - Enviei a mensagem.

(...)

Pouco tempo depois, Mel respondeu o e-mail de Edward. Dei uma rápida olhada para garantir que não tinha nada que me comprometesse e entreguei a ele. O cara passou a maior parte do dia isolado na casa da árvore, já eu e meus amigos demos um duro danado fazendo faxina. Estávamos ansiosos pela chegada dos novos hóspedes no dia seguinte e, assim como da primeira vez, nos entusiasmamos, mesmo sabendo que teríamos mais dificuldades do que no início do mês. E a maior dessas dificuldades era conseguir um veículo para transportar os hóspedes, pois não tínhamos dinheiro suficiente para alugar um. A única grana com que podíamos contar era a segunda parte do pagamento dos pacotes que só chegaria a nossas mãos quando os hóspedes fechassem a conta. Por fim, Emmett garantiu que tinha um colega que podia nos ajudar e saiu em busca dele.

- Cadê o Emmett? - Jasper perguntou impaciente.

- Calma, acho que já está chegando. - Falei sentada no meio fio na esperança de ver Emmett dobrar esquina com uma Van Topique.

- Gente, vamos dar um crédito ao Emm. Ele sabe o que está fazendo. - Lice me obrigou a levantar.

De repente, eis que surge pipocando no início da rua uma kombi branca ano 75 cujo motor roncava mais que um velho desdentado.

- Não é ele. - Disse Jazz.

Só para matar nossas esperanças, Emmett colocou o braço pra fora e acenou se aproximando. Alice começou a chorar.

Quando o imbecil estacionou, a kombi fez um barulho tipo assim: pec... pec... pec... pec... POOOOOW! E do cano de escapamento saiu uma fumaça preta e densa.

Meu irmão, sem voz, quase se descabelou. Logo que a fumaça se dissipou, cruzei os braços e, indignadíssima, falei para Emmett:

- Nos deixou todo esse tempo esperando por isso? - Balancei a cabeça. - Bonito, hein?

- E veloz. - Acariciou o volante.

- Já chega! Saí daí que eu vou quebrar os teus ossos. - Lice falou sério.

- Cadê o jipe? - Jazz se preocupou.

- Troquei com meu amigo até o final do mês. Não façam essas caras, já tínhamos combinado que precisávamos de um carro maior. Essa kombi é um clássico. Pode ser velhinha, mas pelo menos está inteira. - Emm abriu a porta pra sair e a mesma despencou. A mudez combinou bem com nossas expressões de perplexidade.

(...)

Por volta das 21:00h, Alice e eu estávamos na sala fazendo as unhas enquanto conversávamos sobre os outros e-mails que Edward recebeu durante o dia.

- Impressionante como o perfil dele foi visitado. - Ela comentou pintando minhas unhas dos pés.

- E eu não sei? Caraca, homem está mesmo difícil de se achar. As mulheres estão indo à caça.

- Talvez devêssemos ir também, pois continuamos solteironas.

- Só vou me preocupar com isso quando chegar à faculdade. Estou fechada pra balanço. - Soprei nas unhas das mãos. De repente, Lice começou a rir de algo que não entendi. - O que foi?

- Nada. - Prendeu o riso.

- O que foi? - Insisti muito séria.

- Você tinha coragem de “pegar” o Edward? Você sabe... Só pra dar uns beijinhos, ter um pouco de carinho? Podia tentar ignorar o fato de ele ser um pouco diferente.

- Não. - Ri alto. - Eu meio que tentei isso no dia que nos beijamos sem roupa. Até me diverti no Bucaneiro, mas Ed não faz nem um pouco meu tipo. Não rola!

- Você gosta dos bad boys. - Ela revirou os olhos.

- Não é necessariamente dos bad boys. É que gosto de homem com H maiúsculo, entende? O cara tem que ter “pegada” e me deixar completamente sem fôlego. Gosto do tipo que faz a gente praticamente babar. Já Ed é meio... meio...

- Ingênuo? Certinho?

- É... por aí. - Não pude deixar de rir. - Estranho, né? Edward é uma mistura de homem das cavernas com nerd e adolescente deslocado. Espero que ele consiga encontrar alguém que não ligue para nada disso. Porque, sinceramente, ia ser triste vê-lo rejeitado novamente.

- Você pode o estar subestimando. Talvez o cara seja daquele tipo tímido no início e você precisa atiçá-lo, mas quando consegue, ele vira um animal.

Gargalhei.

- Não viaja, Alice. Além disso, ele age de uma forma que distancia as pessoas. Talvez se ache tão intelectualmente superior que chega ao ponto de não perceber que nessa sociedade ele é que é inferior.

- Complicado. - Alice ficou com pena. - Ouviu isso? - Indagou sobressaltada.

- Parecia a porta dos fundos batendo. - Estranhei. - Não se preocupe, é só o vento. - Assim que acabei de falar, o telefone tocou. Estiquei o braço e peguei o aparelho que estava na mesinha. - Alô?

- Por favor, eu poderia falar com o Sr. Edward Cullen?

- Quem gostaria? - Estranhei.

- Diga que é Lisa, assistente de produção do programa Me Azare!.

Levantei-me chocada e momentaneamente sem voz.

- Por que está tão pálida? - Alice passou a palma rente ao meu rosto petrificado.

- Alô? Alguém na linha? Alô?

- Hã... - Lutei para recuperar a voz.

- Por favor, chame o Sr. Cullen.

- Claro. - Pressionei o telefone contra o peito e gritei, mas não saiu nenhum som.

- Oh, meu Deus! É do programa, não é? - Alice percebeu e eu fiz cara de choro.

- O que eu faço? O que eu faço? O que eu faço? - Comecei a tremer. Não era o momento oportuno para contar ao selvagem sobre a minha burrada. Ele podia usar o Krav-não-sei-o-que em mim!

- Shhh! - Alice tapou minha boca. - Faça-a entender que T-zed não está interessado. - Sussurrou.

Respirei fundo, ergui a cabeça e encarnei o Bill.

- Alô? - Falei com a voz grossa.

- Sr. Cullen?

- Sim? - Mordi o punho.

Alice enfiou uma almofada no rosto para não rir alto.

- Sou Lisa, assistente de produção do Me Azare! Tudo bem?

- Sim.

- Desculpe estar ligando a essa hora, mas é que tivemos alguns problemas na produção do show e estou resolvendo algumas pendências. Não sei se o Sr. sabe, mas a primeira edição do nosso programa estréia amanhã e é justamente por isso que estou ligando. Escolhemos os primeiros participantes há dias atrás, só que um deles se acidentou e estamos procurando um substituto. Enfim, seu perfil bastante visitado agradou a equipe de produção e adoraríamos tê-lo em nosso show. Sei que é algo de última hora, mas podemos resolver tudo a tempo.

- Na-na-não... - Lice me deu um tapa nas costas. - Não estou interessado. - Falei o mais rápido que pude.

- Tem certeza? É uma oportunidade única. Os casais que forem formados no programa ganharão um final de semana com tudo pago em Miami.

- Minutinho. - Novamente pressionei o telefone contra o peito. - Merda! Eles vão bancar um final de semana em Miami - sussurrei para Alice. - Edward podia ter dias incríveis com alguém. Se eu acabar com essa chance, posso estar estragando o destino dele.

- Bella, já estragou o destino dele na hora que você nasceu. - Chateou-se. - Mas tem razão, T-zed pode se dar bem nessa. Vamos ajudá-lo.

- Não! - Pensei em como ele reagiria.

- Sim!

- Não!

- Sim! - Quase me bateu.

- Não!

- Ok . - Colocou as mãos na cintura. - Não!

- Sim. - Com a voz grossa, quase choraminguei no telefone. - Eu topo, dona.

- Ótimo. Mesmo o programa começando às 18:00h, preciso que me encontre no prédio da TVK, no estúdio 7 às 9:00h da manhã. Precisa assinar um contrato de licença de uso de imagem. Quer o endereço?

- Sei onde fica. Estarei lá. Tchau! - Desliguei preocupada.

- Hora de contar a novidade para o T-zed. - Alice cantarolou entusiasmada.

- Tudo bem, vamos. - Me preparei.

- Aiiii... - A filha da mãe espreguiçou bocejando. - Preciso dormir. Te vejo amanhã. - Saiu correndo.

- ALICEEEEEEEEE! - Fiquei uma fera.

(...)

Era madrugada e chovia canivete em Orlando. Corri para a casa da árvore e, mesmo assim, me molhei, pois o guarda-chuva não ajudou muito. Subi os degraus e ao entrar na casa me senti perdida. Estava muito escuro.

- Edward? - Esperei que meus olhos se acostumassem com a escuridão. - Edward? - Como não respondeu, caminhei com cuidado até o local onde ele costumava dormir. Sentei no chão e, com uma mão, o busquei até senti-lo coberto pelo saco de dormir. - Ei, Ed. - Sussurrei perto de seu ouvido. - Acorda, dorminhoco. - O cutuquei. - Como você pode não estar me ouvindo? - Cutuquei novamente.

- Me deixa, Bella. - Sua resposta não foi amigável, mas me deixou aliviada.

- Preciso falar com você.

- Quero dormir.

- É importante.

- Não quero ouvir... - Bufou ficando de costas para mim. - Não agora.

- Estamos de mau humor? - Brinquei e ele não ligou. - Se é assim... - Revirei os olhos. - Vou esperar você querer ouvir. - Arrastei-me até um canto e me encolhi lá. Estava muito frio.

Era difícil esconder minha preocupação. Fui impulsiva ao extremo e agora não sabia como lidar com as consequências. Inscrevi Edward no programa com a melhor das intenções, porém receava que ele não enxergasse aquilo com o mesmo otimismo de Alice. Aquela chance tinha dois lados, era como jogar uma moeda no ar. Cara: Ed podia ser exposto de uma forma negativa e ser humilhado. Coroa: podia encontrar finalmente sua garota especial e ter um final de semana maravilhoso. Será que agora estávamos nas mãos da sorte? Isso me atormentava porque a sorte e eu não éramos amigas.

Encostei a cabeça nos joelhos procurando as palavras adequadas para contar-lhe as boas novas. Era complicado, porque ele me recriminaria antes mesmo de conseguir fazê-lo visualizar as possibilidades.

Normalmente, eu não me esforçaria tanto para ajudar alguém, só que aquele homem já tinha ajudado tantas vezes a mim e a meus amigos que me sentia em constante dívida com ele.

- O que quer? - A voz rouca soou na escuridão.

- É difícil falar, porque até o som da minha respiração parece chateá-lo.

- Isso é normal.

- Qual o seu problema? - Ergui a cabeça incomodada com sua acidez.

- Nenhum.

Tentei esquecer as recentes diferenças e fui até meiga ao perguntar:

- Ed, posso deitar aí com você? Estou com frio.

- Não. - Respondeu rápido e autoritário.

Engoli aquilo de cabeça erguida. Estava decidida a não demonstrar abalo.

- Tudo bem. - Assenti.

- O que veio fazer aqui?

Definitivamente, era o pior momento para contar o que fiz.

- Deixa pra lá. - Levantei pra ir embora.

- Já que se deu ao trabalho de me incomodar, fale.

- Esqueci. - Dei de ombros.

- Pode falar, não serei... crianção.

Fiz careta estranhado suas palavras.

- Falo depois. - Dei um sorriso forçado e fui para a porta.

- Espera! - Pareceu ligeiramente arrependimento. - Por favor, fale.

Suspirei.

- Outra hora, Edward. - Eu o senti muito distante. - Durma bem. - Saí sem medo da chuva.

(...)

Às 8:30h da manhã, Alice retornou. Cruzou o jardim correndo e encontrou-me sentada perto da piscina.

- Estou pronta, vamos lá. - Disse empolgada. - VEM LOGO, T-ZED! - Gritou acenando na direção de onde ele estava treinando com os rapazes.

- Shhh! Shhh! - Abaixei suas mãos. - Pára!

- O que foi? Não contou pra ele?

- Tipo assim... - Cocei a nuca.

- Bella, o programa é esta noite e você não contou pra ele? - Segurou-me pelos pulsos.

- Eu tentei.

- Quando?

- De madrugada, mas o cara está de ovo virado.

- Chega de drama. Vamos lá contar, agora!

- Mas eu gosto tanto dos meus ossinhos inteiros. - Abracei-me. - Vai você.

- Uuui! - Alice encolheu os ombros assustada pela forma violenta com que Emm desabou no chão.

- Então, qual era o plano mesmo? - Ironizei. - Poxa, é capaz de Edward nem acreditar na gente.

- Vai acreditar quando ele vir o contrato.

- É isso! - Meus poucos neurônios se chocaram gerando uma idéia. - Vamos buscar o contrato e só contar a ele quando parecer que não tem mais como recusar. Somos malandras. Vamos conseguir dar a volta nele.

- É, mas se não conseguirmos, você o distrai levantando a sua blusa e eu dou no pé.

- Por que só tem idéias sacanas?

Ela soltou uma gargalhada alta e espalhafatosa.

- Vai buscar as chaves da kombi. - Empurrou-me.

(...)

- PÔ! SAÍ DA FRENTE, CIDADÃO! VOU PASSAR POR CIMA! - Berrei colocando parte do corpo pra fora da kombi, a qual já nem tinha porta no lado do motorista.

- É um cúmulo essa sucata não ter nem buzina. - Alice estava praticamente disfarçada, de chapéu e óculos escuros.

- E esses são os dias glamurosos de nossas férias... - Lamentei, acelerando logo que o carro da frente me deixou ultrapassá-lo. - Anda! Anda! - Tentei puxar velocidade, mas a porra da kombi era mais lenta que um velocípede. - Eu vou me descontrolar aqui!

- Pelo amor de Deus não atropele ninguém. Esse veículo é muito enferrujado. Se isso acontecer, a pessoa não vai morrer com o impacto, vai morrer é de tétano.

Abanou-me com um pedaço de papelão.

- Eca! O que é isso? - Me afastei.

- Ar condicionado. - Respondeu triste. O calor estava mesmo de matar.

- Chegamos. - Anunciei estacionando próximo ao do prédio da TVK.

A kombi repetiu o barulho de ontem e a fumaceira subiu. Ouvimos as vozes do povo reclamando, por isso, morrendo de vergonha, afundamos no banco e cobrimos o rosto com o papelão.

Ás 9:00h em ponto conseguimos entrar no estúdio 7. Procuramos por Lisa e a encontramos nos bastidores. Percebemos que ela ajudava a fazer mudanças no cenário e esperamos que nos atendesse. Enquanto observávamos a jovem, não pude deixar de notar o livro de romance barato enfiado no bolso traseiro de sua calça.

- Olá. - Ela se aproximou.

- Oi. - Apertei sua mão com aquele frio na barriga. - Estamos aqui em nome de Edward Cullen.

- Onde ele está?

Minha amiga e eu trocamos um olhar.

- Limpeza de pele. - Lice começou a soltar suas mentiras extravagantes. - O cara está fazendo limpeza de pele, de corpo, de alma... - Gesticulou para confundir a mulher. - Você sabe, ele quer estar... Brilhando!

- Brilhando? - Lisa arqueou uma sobrancelha.

- Sim. - Confirmei constrangida.

- Pois ele não vai poder “brilhar” se não assinar a licença antes das 10:00h.

- E por isso que estamos aqui. Não poderia nos entregar? Vamos levar pra Edward assinar e voltamos o mais rápido possível. - Tentei ser persuasiva.

- Não posso fazer isso. - Ficou preocupada.

- Por favor... - Alice interveio. - Precisa nos ajudar.

- Não dá. Edward devia estar aqui. Agora sim as coisas se complicaram, pois esse contrato tem que ser entregue no setor jurídico até às 10:00h e se isso não acontecer, vai ficar um buraco no programa.

- Ok... - Perdi a paciência e agarrei a mulher pelos ombros. - Você tem que nos dar esse contrato. Está estragando o destino de Edward...

- Esse cargo já tem dona. - Alice, sem noção, me acusou por entre dentes.

Se a garota lia romances de banca de revista é porque devia ser muito romântica, então explorei isso.

- Ed vai conhecer a mulher da vida dele nesse show. Lisa, pense comigo, uma grande história de amor vai ser iniciada hoje... Um épico! - A soltei. Fiz cara de choro com os olhos bem marejados. - Os destinos de dois futuros amantes estão em suas mãos.

Alice fingiu que estava chorando só para intensificar o drama.

(...)

Já eram 9:20h quando disparamos para fora do prédio com o contrato em mãos. Com todo o gás, atravessamos o gramado da propriedade e pulamos por cima de uns arbustos baixos. Por causa do pequeno desvio, alcançamos a kombi mais rápido.

Nos jogamos dentro da “monstrenga” e eu dei a partida, só que ela não pegou.

- NÃÃOOOO! - Berramos.

- Bella, faltam menos de 40 minutos.

- Eu sei! - Gritei alterada. - Vai, maldita! Vai!

A kombi fez um barulho estranho, mas pegou. Enfiei o pé no acelerador e fiz a “monstrenga” dar tudo de si. Entre solavancos, pipocos e muita fumaça, conseguimos chegar à mansão às 9:34h.

Corremos para o jardim e eu comecei a gritar:

- EDWAAAAAAAARD! - Não tinha tempo para ser discreta.

De longe, Jazz apontou para a casa da árvore e nós praticamente voamos até lá. Nos atrapalhamos ao subir os degraus, mas o negócio ficou preto mesmo foi quando entramos no lugar gaguejando ao mesmo tempo. Foi impossível para Ed compreender, mas ele esperou que cansássemos.

Então, Alice se calou e eu finalizei.

- E foi isso que aconteceu. Muito obrigada. - Fui para a saída e Lice me deteve, segurando-me pela manga da camisa.

- Creio que ele não entendeu. - Foi ríspida.

- Eu sei. - Choraminguei.

- Não entendi o quê? - Levantou-se do chão.

Como se conta para um homem que odeia a sociedade que ele vai participar de um programa de auditório?Alguém sabe? Sugestões?

- Er... - Pigarreei. - Acontece que... - Pigarreei outra vez. - Você gosta de televisão? - Sorri nervosa.

- Televisão? - Franziu o cenho.

- Aquela caixa mágica cheia de imagens coloridas. - Alice tentou ajudar.

- Eu sei o que é televisão. - Se ofendeu.

- Podem me emprestar um papel e uma caneta? - Poli minha cara de pau.

Hesitante, me entregou o que pedi. Sem ter a mínima ideia de como ele reagiria diante da minha desastrosa intervenção em sua vida, escrevi:

“VOCÊ VAI APARECER NA TV HOJE!”

Tensa, exibi o rabisco e Lice se escondeu atrás de mim. Edward ficou olhando para a folha por mais tempo do que eu podia imaginar.

- Faz alguma coisa. - Murmurei pelo canto da boca.

- Você vai conhecer mulheres em rede nacional! Êêêêêê! - Alice jogou as mãos para o alto como se avisasse que ele tinha ganhado na loteria.

Edward no encarou de forma nada agradável.

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