USD - Capítulo Nove. Parte II

(...)

Sonolenta, ouvi batidas na porta. Não me mexi, apenas falei meio grog:

- Entra.

- AAAAAÍ, MINHA NOSSA! - Alice berrou, fazendo-me sobressaltar. - DESCULPA! DESCULPA! EU NÃO VI NADA! - Tapou os olhos.

- Puta merda. - Jazz estava com ela.

Sentei-me, puxando a maior parte do cobertor para mim.

- Gente, não é nada do que vocês estão pensando. Nós dormimos pelados, mas foi na maior inocência. - Expliquei, porém, minha amiga ainda mantinha os olhos fechados. - Sério, não aconteceu nada. Edward, diga a eles. - Por algum motivo ele não se pronunciou.

- T-zed, qualé? Regra número um: não se come a irmã dos amigos. - Jasper saiu soltando fumaça pelo nariz.

- Com licença. - Alice soltou uma risadinha zombeteira e saiu fechando a porta.

Bufei.

- Por que não acreditaram em mim? - Fiquei chateada. Ed não respondeu. - O gato comeu sua língua? - Estranhei.

(...)

Coloquei o único vestido que possuía e fui falar com o pessoal. Minha amiga agitadinha ficou plantada no corredor e logo que me viu, puxou-me para um dos quartos vazios.

- Conta tudo! Conta tudo! - Saltitou em volta de mim.

- Não fizemos sexo. - Bufei.

- Então que brilho é esse no seu rosto? Você está radiante.

- Estou é com um tremendo mau humor. Dormi só quatro horas.

A doida me empurrou até o banheiro e me obrigou a encarar o espelho. O bizarro é que minha fisionomia estava excelente. Nada de olheiras ou sinais de cansaço. Parecia que eu tinha dormido por mais de doze horas e passado por um ótimo tratamento de pele.

- Eu não sei explicar. - Passei as mãos na face, perplexa.

- Me parece que você relaxou muito, essas quatro horas foram tão boas assim? - A curiosa me obrigou a encará-la. - Alguma coisa aconteceu. Não me esconda.

- Tudo bem. - Fiz uma careta arrependida. - Eu o beijei.

- AAAAAHH, MEU DEUS! - Me chacoalhou.

- Shhh! - Tapei-lhe a boca. - Não fica histérica.

- Temos que comemorar. - Murmurou contra minha mão.

- Foi só um beijo e eu já me arrependo. - Afastei-me.

- Não entende? Depois de Brad, você levantou uma barreira e nenhum homem conseguiu te alcançar. Esse foi o seu primeiro beijo em mais de um ano. Amiga, você se permitiu passar por isso. Talvez seu íntimo esteja começando a reagir para que possa se libertar da maldição McFoden.

- Alice, não rolou nenhum sentimento. Não foi um beijo apaixonado. Foi algo de momento. Eu estava lá, carente, triste e Ed têm sido tão legal comigo. Eu só queria retribuir de alguma forma. Éramos apenas um homem e uma mulher seguindo seus instintos. Foi um beijo gostoso, mas não passou disso.

- Você pensou no Brandido na hora?

- Não.

- Parabéns. - Aplaudiu. - Abra os olhos e comece a enxergar que você está caminhando na direção certa. É possível que se apaixone por alguém na faculdade. - Ela estava eufórica.

- Não sei se sou capaz de embarcar nesse lance de amor novamente.

- Como T-zed reagiu?

- Se empolgou um pouco por ser seu primeiro beijo, mas eu não me importei.

- Estou me referindo aos sentimentos dele. Será que ele pensa que vocês estão se envolvendo de verdade?

Eu ainda não havia refletido sobre aquilo.

- Espero que Edward entenda que somos apenas amigos. - Passei as mãos pelos cabelos. - Droga! Esse beijo foi uma besteira. Nunca! Nunca! Nunca devia ter acontecido.

- Não precisa se desesperar. T-zed sabe o que você sente pelo Brandido. Ele não é bobo, não vai se iludir.

- O que eu faço agora?

- Aja naturalmente, e se não quiser deixar o cara da selva confuso, não repita o que aconteceu na noite passada.

- Acha que só isso basta?

- Espero que sim. - Colocou uma mão em meu ombro. - Fala aqui pra mim: pra beijar precisava ficar nua? - Debochou. - Bella, isso é uma maldade com T-zed. Coitada da criança! - Gargalhou. - Vamos lá pra baixo, os rapazes conseguiram salvar o resort.

- Como assim?

(...)

- Não! Não! Não! - Coloquei as mãos na cabeça na esperança de conter-me e não voar no pescoço do meu irmão. - Por favor, me diz que não é verdade que pediu dinheiro emprestado a um agiota e deu o carro de Charlie como garantia.

- É verdade. Eu o levei lá. - Emm sacudiu o saco de papel onde estava a grana.

Coloquei a mão no peito.

- Acho que meu coração está parando de bater. - Eu estava falando sério.

Rosalie havia entrado em contato com alguns amigos que tinha em comum com o italiano e conseguiu localizar nossa mobília. Nossos pertences estavam na mão de um malandro que comprou os móveis para revender. A loira até conseguiu convencer o sujeito a fazer um tipo de pacote e dar um bom desconto, só que o dinheiro que restava do nosso projeto não era suficiente para pagar nem metade. Então, Emmett deu a idéia do agiota. Sem me consultar, os idiotas pegaram o dinheiro, deixaram o carro de Charlie com o agiota e agora, pretendiam ir buscar o caminhão onde estavam os móveis.

- Quanto tempo temos para pagar o agiota? - Perguntou Alice.

- Alguns dias. - Emmett respondeu

- E como pretendem arrumar o dinheiro? - Cruzei os braços, ranzinza.

- Jasper não sabe. - Escondeu-se atrás de Edward.

- Esse é realmente o maior problema. - Falou Rosalie.

- Você é que devia dar conta desse prejuízo. - Quase dei na cara dela.

- Não tenho dinheiro. Meu marido é que me dava tudo.

- E você o trocou pelo Sr. Não-tenho-nem-onde-cair-morto. - Indiquei o idiota do Emmett.

- Aí. - Ela gemeu, visivelmente arrependida. - Não chuta cachorro morto.

- Jasper não queria pegar dinheiro emprestado, mas precisamos dos móveis antes que os novos hóspedes cheguem.

- Droga, eu tinha esquecido disso. Não tem como cancelar? - Fiquei preocupada.

- Eles já pagaram o pacote. Acho que vamos conseguir segurar o resort, só precisamos descolar a grana pra pagar o agiota antes de chegarem. Devolvemos a bagagem dos ex-hóspedes e acabaram-se os problemas.

- Quanto estamos devendo? - Tive medo de perguntar.

- Cinco mil. - Emm afastou-se para não apanhar.

- Vamos vender alguma coisa. - Sugeri.

- O quê? Tudo é do nosso pai. - Jazz jogou nossa pobreza em minha cara.

- Não é possível. Tem que existir um jeito de faturarmos. Pensem!

- A única coisa que temos é a mansão. - Ele olhou para a sala vazia. - E todo esse espaço.

- É ISSO! - Alice gritou. - Nós temos o espaço.

- Não entendi. - Confessei.

- Minha tia organiza festas e me contou essa semana que o teto do lugar onde promovia os eventos desabou. Podemos alugar a mansão. O jardim é perfeito, é o que ela precisa. É alta estação e minha tia tem vários casamentos, jantares e festas infantis para organizar. Quem sabe possamos trabalhar nesses eventos para conseguir um extra. Eu não me importo de bancar a garçonete. - Alice sorriu vitoriosa.

- Tenta falar com sua tia. Podemos passar alguns dias ralando nisso enquanto os hóspedes não chegam. Depois, voltamos ao projeto resort. - Jasper concordou de cara.

- Perguntinha. - Ergui a mão. - Ela é mãe daquela guru careca salafrária? - Ninguém respondeu.

- Bom dia. - Brad chegou em um péssimo momento. - Está rolando uma reuniãozinha e ninguém me convidou? - Sorriu torto.

- É isso, temos um plano. - Emmett estava decidido.

- Que seja. - Joguei as mãos para o alto, derrotada.

- T-zed, Brad, Jasper e eu vamos buscar a mobília. Se não voltarmos, liguem para o FBI.

- Ou para a carrocinha. - Achei que ninguém ouviria o meu murmúrio, mas fui fuzilada por vários olhares. Minha intenção era ofender só o meu ex. - Temos um plano! Êêêê! - Fingi empolgação para distraí-los.

(...)

Junto com a mobília e todos os nossos pertences, os rapazes trouxeram alguns baldes de tinta para nos livrarmos da pichação. Os móveis ficaram no jardim enquanto fazíamos um mutirão pra pintar a casa. Rosalie se recusava a trabalhar, mas ela podia fazer birra. Em breve, ia cair na minha mão e eu não ia ter pena.

Alice realmente conseguiu convencer sua tia a alugar a mansão. Com o dinheiro do aluguel de alguns eventos mais o trabalho extra, daria para liquidar a dívida e ninguém seria prejudicado. O primeiro evento já estava marcado. Tínhamos menos de 24 horas para reorganizar a casa e ainda ter pique pra animar uma festinha infantil. Ia ser dureza!

Para que o trabalho ficasse menos maçante, colocamos meu aparelho de som na sala e o ligamos no último volume. Achei que Brad se mandaria para não pegar no pesado, mas, contrariando a lógica, ele tirou a camisa e os sapatos e foi pintar a cozinha. Mesmo ainda não conseguindo caminhar direito, me empenhei em ajudar a galera. O que me surpreendeu foi o clima de união que surgiu com toda aquela tribulação. Não ficamos nos descabelando, preocupados se íamos arranjar a grana para pagar o agiota. Ao invés disso, aproveitamos aquele momento difícil para trabalhar em grupo. Logo iríamos para faculdades diferentes e aquele pouco tempo que nos restava tornou-se precioso demais para ficarmos desperdiçando com brigas, acusações ou culpa.

Coloquei um short velho, uma regata rasgada e fui ajudar a pintar a sala junto com Edward e Alice. O serviço não era difícil, eu tinha jeito pra coisa. Já Lice...

- Que porcaria é essa que está fazendo? Não fica passando o rolo pra todo lado. Tem que ser debaixo para cima. - Falei, passando por debaixo da escada que Ed usava para pintar perto do teto.

- Não! - Ela gritou quando eu já tinha atravessado. - Oh, meu Deus! Vai ter ainda mais azar.

- Não repita isso! - Fiquei assustada.

- É uma superstição boba. - O cara da selva desceu do cavalete.

- Até parece que eu posso me dar ao luxo de ficar na dúvida. - Respondi.

- Olha só. - Confiante, passou por debaixo da escada.

Lice e eu colocamos a mão no peito em choque.

- Não brinca com essas coisas. - Alice ficou com medo.

- Edward, não podemos correr o risco de atrair mais azar. - Eu que nunca acreditei naquelas porcarias, depois de tanto me estrepar, passei a acreditar até em Papai Noel.

- Eu já falei que é bobagem. - Retrucou.

- Saí daí! Ninguém vai mais ficar perto dessa escada. - Minha amiga puxou o braço dele.

- Não precisa. - Ao puxar o braço para desvencilhar-se, Edward bateu com ele no cavalete, fazendo com que o balde de tinta no topo da escada virasse, derramando uma grande quantidade de tinta nele.

O selvagem ficou sem ação enquanto a tinta escorria por seu corpo.

- Ah, não... E lá vamos nós. - Pendi a cabeça.

- Sem pânico, isso não significa nada. - Limpou o rosto.

- Tem razão, não significa nada. - Peguei um jornal no chão e ajudei a se livrar do excesso de tinta.

- O que aconteceu com o T-zed? - Disse Emm vindo do jardim, acompanhado por meu irmão.

- Azar. - Lice anunciou.

- Nem fale essa palavra. Vamos levantar o astral. - Jazz foi até o som, pegou o controle remoto e ficou mudando as faixas do CD. Então, o CD acabou e a bandeja girou, colocando outro para tocar.

Gemidos de prazer logo começaram a soar alto pela mansão. Olhei para o som e congelei. Eu tinha esquecido que o CD que Emm me arrumou ainda estava no som.

Super aflita, comecei a gesticular para que alguém desligasse o aparelho, mas eles não entenderam meu desespero.

- Que putaria é essa? - Jasper se espantou.

A reação dele destravou minha língua.

- DESLIGA! DESLIGA! - Gritei.

- O que... é isso? - Reconheci a voz de Brad.

Lentamente, me virei na direção da entrada da cozinha. Não consegui responder, apenas solucei alto. É, o meu azar tinha retornado.

- UAU! - Lice ficou escandalizada com as coisas que o casal dizia. - Acho que pequei só de ouvir isso.

- Não eram vocês àquela noite? - Brad estreitou os olhos. - Era isso? - Apontou para o som.

- É-é-é claro que éramos nós. - Eu estava ferradona. - Juro!

BÉÉÉÉÉÉÉÉRRRRR

- Que nojo! O que aquele bode está fazendo lá? - Alice indignou-se.

- Ei, não tenho culpa. Fiz o que me pediram, peguei o DVD mais barra pesada da locadora. - Emmett cavou minha cova.

McFadden aproximou-se lentamente, parou há um metro de mim e questionou:

- Está fingindo que namora esse cara? - Indicou Ed.

Gesticulei sem saber o que dizer, em seguida, solucei tão alto e forte que meu peito doeu. Brad sempre desconfiou, agora estava há um passo da verdade, ou melhor, há um gemido.

- É claro que namora. - Alice colocou uma mão no meu ombro e a outra no ombro do selvagem. Ele não fez nada. - O casal aqui gosta de gravar suas aventuras. - Minha amiga ainda tentou salvar a pátria.

- É-é-é-é... verdade. - Suei nervosa. - Meu gatinho curte imitar um bode na hora H.

BÉÉÉÉÉÉÉÉRRRRRRRR.

Edward me fuzilou com os olhos.

- Alguém desliga isso, pelo amor de Deus! - Minha amiga perdeu a paciência e Jasper desligou o som.

- Fingiu todo esse tempo? - Meu ex já havia tirado suas conclusões. Alice desistiu e se afastou.

- Tudo bem. Não sou namorada do Edward - Respirei fundo. - Eu fingi.

- Por quê? - Ele balançou a cabeça, confuso.

- Foi um plano para esconder de Charlie que Jasper e Edward têm um caso.

- O QUÊ? - Os dois falaram ao mesmo tempo.

- É, e Jazz é o passivo. - Emmett completou, debochando. - Amor gay é lindo.

Edward me encarou como se nunca mais fosse falar comigo.

- OK! OK! OK! - Confessei antes que me crucificassem. - É tudo mentira. - Fechei os olhos. - Eu... implorei a Edward que se passasse por meu namorado. - Abri os olhos e o silêncio predominou no local.

Vários sentimentos rolavam ali, mas não consegui me prender a nenhum. Então, meu irmão quebrou o silêncio.

- Por que justo Jasper seria o passivo? - Ele ainda estava chateado.

- Porque você é o único que tem vocação. - Emmett explicou rindo.

- Parem! - Pedi tensa.

- Não devia ter feito isso comigo. - Existia uma ponta de rancor na voz do meu ex. - Mas de qualquer forma, agora posso fazer algo que há tempos tenho vontade.

Os rapazes ficaram na defensiva achando que ele socaria Edward. Brad diminuiu rapidamente a distância entre nós, segurou minha cabeça e beijou-me.

Um misto de espanto e dor me fez petrificar. Não consegui pensar, apenas arregalei os olhos. O selinho foi rápido o suficiente para que ele se afastasse antes que meus neurônios me alertassem de que aquilo era uma das piores coisas que podiam acontecer. Era provável que eu estivesse ficando louca, mas juro que tive a impressão de sentir meu coração tripudiar no peito. Eu não podia me sentir feliz com o rastro de amargura que o beijo deixou em meus lábios.

E sem dizer nada, McFadden pegou suas coisas e foi embora. Eu continuei congelada até que Jazz falou...

- Altamente coisativo.

(...)

Fingi que estava tudo bem comigo para não afetar o bom ânimo dos meus amigos. Dei todos os sorrisos falsos possíveis e continuei a pintar a sala. Em certo momento, cansei e sentei-me no chão. Passei tinta na parede até onde meu braço alcançava.

- Pensa pelo lado bom. As mentiras acabaram. - Edward abaixou-se junto à mim.

*Link seguro, abrirá no seu media player rapidinho*:

http://www.innocencemidis.com.br/m.i_dis/internacional/enrique_iglesias/enrique_iglesias_-_escape.mid

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*Link 4shared para quem não conseguir abrir no original*:

http://www.4shared.com/audio/hWnLsaqe/Enrique_Iglesias_-_Escape_-_01.htm

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- Claro. - Respondi secamente. O selvagem continuou me encarando e acabei falando mais do que devia. - Eu até imaginei que Brad descobriria. - Parei de pintar. - Só que não dessa forma humilhante e estranha. Agora me sinto ainda mais...

- Mais?

- Vulnerável e burra. O babaca já notou que ainda sou apaixonada por ele. Eu não sei o que fazer. - Achei que Ed falaria algo, mas realmente não havia nada a ser dito. Então, sem mais nem menos, ele passou o rolo cheio de tinta em meu braço. - Ei! - Sacudi o braço. - Não tem graça. Não estou com saco pra essa infantilidade.

- Tudo bem. - Ficou olhando para o teto como se tentasse se conter, só que não conseguiu. - Está sujinho aqui. - Passou a mão inteira melada em meu rosto e fugiu.

- Não acredito que fez isso. - Limpei o local fazendo beicinho. - Como você foi mau. - Fiquei de pé fingindo-me de magoada.

- Desculpe. - Se aproximou.

Tirei proveito da distração dele e passei o rolo em seu rosto. Edward cuspiu um pouco te tinta e eu ri alto.

- Tão ingênuo. - Debochei.

- Você é uma trapaceira.

- Eu nunca sou inocente. - Pisquei o olho.

- E é por isso que vai pagar caro.

- Vou é? - Provoquei, sacudindo o rolo na direção dele. Alguns respingos o atingiram. Edward estreitou os olhos, balançando a cabeça. - Tão assustador. - Sorri. Ele me rodeou lentamente enquanto eu prendia o riso. - O que pretende, Rei da Floresta?

Ele agarrou-me por trás, girou nossos corpos e me pressionou contra a parede. Com o rosto perto da tinta fresca, falei:

- Eu me rendo.

- Eu nunca pedi que se rendesse. - Obrigou-me a abrir os braços e toda a parte da frente do meu corpo ficou suja de tinta.

- Se a tinta secar e eu ficar pregada aqui, eu te mato.

Ed gargalhou perto da minha orelha.

- É uma possibilidade.

Tentei me desvencilhar, mas todo o corpo dele estava contra o meu.

- Por quanto tempo vai me prender aqui?

- Até que me convença de que é inocente.

- Ah, tá... Preparado pra passar a eternidade aqui?

- Todos têm qualidades. Quais são as suas? Me diga três bem convincentes e eu te solto.

Revirei os olhos.

- Sou esperta, educada e simpática. - Gargalhei.

- Não vale mentir.

Eu bem queria ter aquelas qualidades, porém, Edward sabia tanto quanto eu que nunca as tive. Ele já me vira entrar em situações inacreditáveis, o tratei mal quando chegou à Orlando e batemos de frente várias vezes.

- Eu... - Realmente me esforcei para lembrar de alguma qualidade que eu pudesse alegar ser totalmente verdade, mas parecia que eu não tinha nenhuma. Nunca havia me enxergado sob aquela ótica. Era assustador.

- Ao menos uma. - Murmurou.

- Não faça isso. - Minha voz soou pesarosa. - Não tenho qualidades, ok? É isso que quer ouvir? Te satisfaz? - Fiquei magoada.

Edward me soltou e eu girei, ficando de frente para ele.

- Você não tem muitas qualidades, porém, tem uma que me fascina. Bella, você é uma pessoa tão apaixonada. Chega a ser intrigante. Mesmo tendo a convicção de que Brad tem sérias falhas de caráter você o ama incondicionalmente. É incrível como consegue se entregar tão completamente à suas paixões. Olha pra essa mansão. Vocês não têm a mínima condição de gerir um resort, no entanto, está tentando com todas as forças porque se doou a esse projeto, já faz parte de quem é. Vejo como age com seus amigos e irmão. Sua paixão por eles a faz enfrentar qualquer situação por mais perigosa que seja. É como se não existisse meio termo com você. Ou é tudo ou é nada.

Fiquei sem palavras. Demorei um tempo para absorver a opinião dele. Se não tivesse ouvido aquilo de alguém que se recusa a mentir, talvez eu não acreditasse.

- Então, porque dá tudo tão errado pra mim? - Indaguei tristonha.

- Eu não sei. Talvez o problema esteja em suas escolhas.

- Você devia ser terapeuta ou algo assim. - Eu estava falando sério.

- Não. Quero levar uma vida tranqüila na minha ilha. Só estou aqui por causa do meu rito de passagem.

- Ainda está passando por isso?

- Sim.

- Quando vai me explicar direito?

- Quando você puder compreender.

Passei os dedos na parede úmida. Em seguida, esfreguei na bochecha dele, dizendo:

- Está sujinho aqui. - Ri.

Edward e eu paramos de enrolar e nos concentramos no trabalho. Passamos quase o dia todo pintando a casa e quando ela ficou pronta, sentimos orgulho de nossa pequena proeza. Todos estavam cansados, mas ninguém reclamou, pois o clima de brincadeira e desafio fez com que o trabalho fosse menos árduo.

Quando o sol se pôs, fomos para o jardim, esperar a tinta secar. Fizemos um piquenique com direito à pizza, cerveja, bolo e muitas risadas. Meu irmão ainda não havia esquecido que Emmett falara que ele era o passivo da falsa relação gay. Acho que a imagem mental que o maluco fez de Ed comendo ele, o perturbou demais.

Durante a noite, colocamos todos os móveis de volta na mansão e arrumamos exatamente como estava antes do assalto. Isso levou um tempo absurdo e quando terminamos, já era madrugada.

O último móvel que levamos para dentro foi um grande sofá cinza. O colocamos na sala e sentamos para descansar um pouco. O mais engraçado foi que ninguém conseguiu falar nada. Segundos depois, adormecemos ali mesmo.

Nas primeiras horas da manhã, a tia de Alice chegou com sua equipe. Eles estavam ansiosos para decorar a mansão. Nós fomos para os quartos e dormimos um pouco, do contrário, nem conseguiríamos ficar de pé durante a tarde.

Era visível nossa alegria por conseguirmos driblar o tempo e as adversidades.

(...)

Com uma maquiagem escura e borrada, passei as meias listradas por minhas pernas, coloquei o vestido preto e volumoso, encaixei a peruca branca na cabeça, e sobre ela, o chapéu pontiagudo. Eu era uma bruxa pavorosa. Ri ao pensar que finalmente tinha uma aparência digna de minha personalidade.

Para não atrasar o esquema da festa, quase corri até a cozinha, pois a sala estava reservada e decorada para divertir os pais. Lá serviam bebidas e alguém cantava em um Karaoquê. Já o jardim, estava liberado para a pirralhada e era a nossa função entreter e cuidar deles. Ia ser moleza, eu tinha muito jeito com criança.

Ao entrar na cozinha, fui logo dizendo:

- Eu estou pronta pra tocar o terror com a meninada.

- Que bom. - Alice estava fantasiada de fada. Seu cabelo ficara lindo. O vestido e asas cintilantes combinaram com ela.

- Que horrorosa. - Rosalie debochou de mim. Ela estava fantasiada de Cinderela com direito a um lindo vestido azul e tiara.

- Vem cá. - Coloquei as mãos na cintura. - Por que eu tenho que ser a bruxa? - Me indignei.

- Alguém tinha que ser. - Lice justificou-se, prendendo o riso. - Não reclama, podia ser pior.

- Pior como? - Duvidei.

- Podia ser um sapo. - Ela sinalizou para que eu me virasse.

Olhei para trás e sem querer soltei um...

- Oh, Deus!

- Não fale nada. - Edward pediu, fantasiado de sapo verde.

- Você está ridículo. - Ri alto.

- Eu pedi pra não falar nada. - Murmurou chateado.

- Onde estão os rapazes? - Questionei curiosa.

- Lá fora. Vamos, pessoal. Vamos trabalhar. - Lice empurrou todos para o jardim pela porta dos fundos.

Antes que chegássemos ao local da festa, ela segurou meu braço e sussurrou em meu ouvido:

- Brad apareceu de surpresa e eu o coloquei para trabalhar também. - Riu. - Dei-lhe a única fantasia que Emm e Jazz se recusaram a usar.

- Qual?

Ela apontou para frente e minha pergunta foi respondida pela visão de meu ex, fantasiado de príncipe encantado da Cinderela. A roupa não era ridícula como a minha ou a de Ed, mas logo notei que ele trabalharia muito mais, pois todas as crianças queriam tirar fotos com a princesa e o príncipe. McFadden ia comer o pão que a pirralhada amassou.

- Perfeito! - Senti uma mórbida satisfação.

- Coloque o seu nariz. - Alice exigiu toda mandona.

- O nariz não. - Implorei.

- Faz parte da fantasia. Coloque.

Contra vontade, puxei do bolso um grande nariz falso. O troço amarelado e cheio de verrugas ficou preso em meu rosto por um elástico.

Até que eu não me senti tão deslocada ficando no grupo dos feinhos, pois Jasper superou a todos com uma fantasia de duende. Chegava a ser deprimente olhar para ele dentro daquela calça de lycra verde. Isso sem falar nos sapatinhos pontiagudos, bem gay. Já Emm conseguiu se safar, usando uma fantasia de cavaleiro prateado.

O jardim estava decorado com muitos balões, mesas coloridas com vários tipos de doces, pula-pula e outros brinquedos. Mas o que predominava eram os enfeites de personagens de contos de fadas. A aniversariante era uma garotinha loira de 6 anos, ela também usava fantasia de Cinderela.

- Deixa de moleza. - Alice puxou-me pela mão e me obrigou a interagir com as crianças.

Inicialmente, foram tiradas várias fotos. A pirralhada adorava todos os personagens, até Ed teve sua cota de abracinhos, só que ninguém deu a mínima para a bruxa. Eu fiquei sentada em um canto, rezando para aquela tortura acabar logo. Minha única companhia foi um gordinho que não parava de tirar meleca do nariz.

- Ei, garotinho, vai lá brincar com os outros. - Falei com pena dele.

- Não. - Respondeu, enfiando o indicador na narina.

- Então pára de ficar tirando meleca, isso é nojento.

- Não. - Disse entediado.

- Sai fora daqui. - Perdi a paciência diante daquela nojeira.

- Não.

Bufei.

- Você só sabe falar NÃO. - Imitei a voz dele.

- Não.

- Eu vou te transformar em um porco, estou falando sério. - Ameacei.

- Não.

- ALICEEEEEEEEE! - Gritei e ela veio correndo. - Tira esse moleque daqui. Ele está me enlouquecendo.

- Vem amiguinho, vamos brincar. - Minha amiga tentou ser simpática.

- Não.

- Viu só? - Apontei revoltada. - Ele faz isso de propósito!

- Bella, é só uma criança. Tenha paciência.

- Tem razão. Desculpe. - Respirei fundo. Virei-me para o gordinho e sorri o máximo que pude ao perguntar: - Coleguinha, quer brincar?

- Não.

Juro que uma veia na minha testa quase estourou de tanta raiva que eu senti.

- Se acalme. - Lice olhou para as crianças, então, berrou. - Ei, galerinha, a bruxa vai contar uma historinha, venham ouvir!

- O quê? - Puxei o braço dela. - Não, não, não. Não sei contar história.

- Dá um tempo, Bel, nós também estamos cansados. É sua vez de ralar um pouco.

Engoli em seco.

Não pude fazer nada quando as crianças com idade entre 3 a 10 anos sentaram-se em volta de mim com os olhinhos brilhando de ansiedade. Fitei meus amigos implorando por socorro, mas não adiantou. Jazz e Emm se mandaram para a cozinha. Já Brad e Edward ficaram por perto, no entanto, nenhum deles demonstrou preocupação.

- Silêncio, pessoal. A bruxinha vai começar a história. - Minha amiga acalmou a meninada, depois saiu, deixando-me com a batata quente nas mãos.

- Er... - Pigarreei. - Que história querem ouvir?

A meninada tagarelou ao mesmo tempo e eu não consegui entender nada.

- A festa é minha e eu quero a história da Cinderela! - A aniversariante berrou ficando de pé.

- Shhhh. Tá bom, tá bom! - Eu faria qualquer coisa para aqueles monstrinhos pararem de gritar. - Vou contar a da Cinderela. - Mal me lembrava de como era. Ia ter que improvisar. Assim que eles se calaram, comecei. - Era uma vez... - Enxuguei o suor da testa. - Uma moça chamada Cinderela. Ela morava com o pai, a madrasta e as duas filhas da aproveitadora. O pai da Cinderela bateu as botas e ela teve que...

- O pai dela morreu? - Um garotinho perguntou.

- Sim. - Confirmei.

- Ele foi pro céu?

- Não. Agora me deixe continuar. - Bufei. - Cind ficou morando com a madrasta e as filhas dela. O problema é que as vacas exploravam a coitada da garota. Faziam ela trabalhar noite e dia, dia e noite, feriados, finais de semana e a burrona não fazia nada. Pra mim, a Cind gostava mesmo de sofrer. Porque se fosse eu, mandava as peruas tomarem no... - Edward pigarreou alto, alertando-me para não falar palavrão. - Tomarem no... pé. - Me retratei.

- O que é tomar no pé? - Uma menina ergueu a mão.

- É tomar uma injeção no pé. Por favor, não interrompam. - Revirei os olhos. - Como eu estava dizendo... Cind gostava de sofrer. Então, um belo dia, o rei promoveu uma festa no castelo. Todos queriam se esbaldar na rave, mas o verdadeiro propósito do evento era arranjar uma mulher para o príncipe.

- Esse príncipe? - Uma das crianças apontou para o Brad.

- Esse mesmo. - Prendi o riso. Meu ex não falou nada, apenas cruzou os braços, entediado. - O príncipe já tinha namorado todas as moças do reino e agora precisava de uma trouxa para casar-se ou seu pai lhe deserdaria. O cara necessitava de alguém que não se preocupasse com sua fama de mulherengo.

- Minha mãe diz que todos os homens bonitos são mulherengos. - Uma menina de uns oito anos ergueu a mão.

- Sua mãe está completamente certa. E digo mais, eles não tem cérebro. São completos idiotas. - Ri.

- Então, as meninas têm que namorar homens feios? Eles que são os bonzinhos? - Outra menina se pronunciou.

- Sua boba, não importa. Meu pai falou que as mulheres gostam é de dinheiro. - Um garotinho mostrou a língua.

- Chega! Preciso terminar de contar essa história. - Tentei lembrar onde havia parado. - Cind ficou sabendo que o príncipe estava à procura de uma esposa e resolveu ir ao baile. Ela queria dar um belo golpe do baú para sair da vida de escravidão. A madrasta e suas irmãs ficaram sabendo e a prenderam em uma torre, afinal, elas também queriam ficar com o solteirão. A noite do baile chegou e nossa heroína precisava escapar, então, eis que surge sua fada madrinha para lhe ajudar. - As crianças logo ficaram animadas. - Ela não era uma fada madrinha comum, aliás... - Pensei rápido. - Era uma fada que acabara de sair da reabilitação e estava virando todas as garrafas que via pela frente.

- Ei, Jessie, igual a sua mãe. - Um dos meninos provocou.

- Silêncio. - Fiquei chateada. - A fada bebum queria mudar a vida de Cind, e com sua varinha de condão, fez com que as roupas feias da garota se transformassem em um lindo vestido Chanel. E não foi só, também lhe presenteou com magníficas botas de couro legítimo.

- Dona bruxa, não eram pra ser sapatinhos de cristal? - A aniversariante me interrompeu.

- A história é minha, eu conto do jeito que eu quiser. - Não suportava mais interrupções. - Continuando... - Suspirei. - Cind foi pra festa toda poderosa em uma carruagem feita de... de....

- Abóbora? - Alguém perguntou.

- Não. De banana.

- De banana? - Vários pirralhos estranharam.

- É, ela foi sentada na banana e ponto final. Agora calem a boca. - Suei ainda mais. - Nossa heroína estava feliz, mas sabia que precisava voltar para casa antes da meia noite ou todos iam ver que ela não passava de uma escrava idiota. Quando Cind chegou ao castelo, a rave já estava bombando. Como ela não era besta, foi logo atrás do príncipe, só que de encantado ele não tinha nada. O mané fedia, tinha caspa e sérios problemas intestinais que o faziam soltar gases o tempo inteiro. - As crianças gargalharam olhando para Brad.

- Ele solta gases! - Um moleque riu muito, apontando para McFadden. Há essa altura, ele já tinha notado que eu estava levando para o lado pessoal.

- Como eu estava dizendo... - Prendi o riso. - O príncipe não tinha nada de encantado. Cind não se importou, ela estava mais preocupada com a conta bancária dele. O casal dançou por várias horas no salão e o príncipe ficou enfeitiçado pela linda aproveitadora. A moça não era boba, sabia que ele queria lhe traçar...

- O que é traçar? - A aniversariante se interessou.

- Er... - Não sabia o que responder.

- É beijar. - Um menino falou alto, depois escondeu o rosto.

- Exatamente. - Quase suspirei de alívio.

- É assim que nascem os bebês? - O gordinho da meleca finalmente falou algo.

- Se não pararem de me interromper, não vou continuar a história. - Evitei arduamente o assunto. Eu não ia falar de sexo com a criançada, não estavam me pagando o suficiente para isso. - Continuando... Cind não era boba. Ela ia fisgar de jeito o príncipe, mas seus planos foram adiados pelas badaladas do relógio. Cind precisou sair correndo, mas o salto das botas estava atrasando-a. Ela as tirou e quando já estava chegando na banana motorizada, deixou cair uma das botas. O tempo passou blá, blá, blá.... e o príncipe enfeitiçado procurou sua heroína por todo o reino. Ele fez várias moças provarem a bota, mas ela não coube em nenhum pé. Um dia, o príncipe foi a casa de Cind pedir para suas irmãs experimentarem a bota. Assim que ela viu as vacas se engraçando para o lado do solteirão, pegou um balde de lavagem dos porcos e jogou nas oferecidas. Cind calçou a bota e o príncipe mulherengo se convenceu de que ela era a mulher da vida dele. Eles se casaram dias depois, a cerimônia foi grandiosa e Cinderela humilhou todos aqueles que a maltrataram. Assim que o casalzinho consumou o casamento, Cinderela deu um pé na bunda do príncipe fuleragem e com o divórcio, levou metade de tudo que ele tinha. Ela não perdeu mais tempo e foi embora para Las Vegas curtir a vida de ricaça.

- E o que aconteceu com o príncipe? - A aniversariante perguntou lacrimejando.

- Pegou Aids e morreu.

- E a Cinderela? - O gordinho ainda tirava meleca.

- Foi fazer uma plástica complicada e morreu também.

- Todo mundo morreu? - Algumas crianças já tinham lágrimas escorrendo pelo rosto.

- Exato. A vida é assim, não existem finais felizes. É melhor vocês ficarem logo sabendo.

As crianças menores choraram alto e os maiores me xingaram. Edward apenas balançou a cabeça, reprovando-me com uma certa perplexidade. Brad levou na esportiva e gargalhou. Alice ouviu os choros e voltou correndo. Ela tentou acalmar os monstrinhos, porém, eles estavam revoltados comigo. Precisei ir para cozinha ou o choro descabido arruinaria a festa.

Sentei no balcão, tirei meu nariz falso e fiquei comendo alguns salgadinhos enquanto via os garçons entrarem e saírem da cozinha. Quando eu menos esperava, McFadden adentrou o cômodo e sentou-se ao meu lado.

- Bruxa. - Sorriu.

- Príncipe. - Fingi ignorá-lo.

- Está decidido. Não teremos filhos. - Riu.

- Achei que não te veria mais por aqui.

- Se enganou. Se engana sobre muitas coisas ao meu respeito.

Armei-me de coragem e o encarei. Antes até cogitava a idéia de que ele me assediava para ter o prazer mórbido de me separar de Edward, no entanto, ele ainda estava ali, demonstrando seu interesse por mim. O que Brad queria afinal? Era difícil compreender o seu jogo, se é que ainda estávamos jogando.

- Pensei que estava chateado comigo. - Murmurei.

- Confesso que fiquei bastante aborrecido ontem, mas hoje não. Talvez eu tenha merecido ser torturado por você.

- Mereceu. - Confirmei secamente.

- Bells, não fuja de mim. - Afagou minha bochecha. Não consegui desviar o olhar. Seus olhos mantinham-me prisioneira, alimentando aquela paixão desregrada que me consumia.

- O que quer? - Gemi.

Brad continuou fitando-me. Por um tempo não falou nada, apenas acariciou o meu rosto.

- Janta comigo amanhã?

Suspirei cansada.

- Tudo bem. - Tirei sua mão de minha face. - Me encontra no lugar de sempre às 19:00h. - Ele sabia que eu me referia ao local onde rompeu comigo. A velha lanchonete perto do meu antigo colégio.

- Obrigado. - Sussurrou me dando um beijo na bochecha.

Aquele gesto provocou-me uma dor física. Senti como se ele cravasse suas unhas em minhas feridas.

- Vai embora. - Implorei amargurada.

- Realmente preciso. O Link 69 vai tocar em um bar. - Pulou do balcão. - Vou devolver essa fantasia à Alice e vazar. Te vejo amanhã, certo? - Assenti sem conseguir falar mais nada. - Tchau.

Acenei. Pouco tempo depois, Edward entrou na cozinha e encostou-se no balcão. De cabeça baixa, fiquei brincando com o babado do vestido.

- Vai jantar com Brad?

Ergui a cabeça, surpresa.

- Ouvindo atrás da porta, Sr. Sapo?

- Não foi de propósito.

- McFadden vai ao encontro, só que eu não. Será bom pra ele saber como é levar um bolo.

- Lute contra. - Tocou minha mão em solidariedade. De algum jeito, Ed parecia enxergar minha dor e, por isso, eu ficava sem defesas diante dele. Não adiantava fingir que estava tudo bem.

- Estou tentando. - Ofeguei.

- Ele conhece os seus pontos fracos e não hesitará em usá-los a favor dele.

- O que eu faço?

- Resista, Bella.

- Resistirei. - Procurei convencer a mim mesma.

- Você é mais forte do que imagina. - Fixou seus olhos em mim.

Não consegui ficar séria. O selvagem estava tão engraçado com aquela fantasia.

- Eu te beijei e virou um sapo? - Demonstrei decepção comigo mesma. - Você devia ter beijado uma princesa, não uma bruxa.

- Verdade. - Riu baixinho.

- Onde está sua princesa?

- Não faço idéia.

- Não se preocupe, ela aparecerá. - Coloquei uma mão em seu ombro.

- Será? - Sorriu.

- BELLA! - Reconheci a voz feminina.

- Oh, meu Deus, Jully! - Saltei do balcão e corri para a porta. Sem cerimônias, abracei com força minha prima favorita. - Que saudades.

- É ótimo vê-la. - Retribuiu o abraço com a mesma empolgação.

- O que está fazendo aqui? Achei que não a veria nessas férias. - Me afastei.

- Me bateu uma saudade louca de Orlando. Precisava ver você, Jasper e Charlie. - Olhei para a mala que ela carregava e me toquei de que Jully não sabia nada sobre o resort. - Estou incomodando? - Percebeu minha hesitação. - Telefonei para o seu pai, avisei que viria. Ele não te ligou?

- Tivemos problemas com o telefone ontem. - Me preocupei.

- Bella? - Desconfiou.

- Acho que tenho umas coisinhas pra te contar. - Sorri envergonhada.

- O que aprontou?

- É uma longa história. - Olhei para Edward. - Caramba, como sou mal educada. Jullyana, esse é Edward Cullen. - A puxei para junto dele.

- Olá. - Apertando a mão dele, deu um beijo em cada bochecha. Fiquei aliviada por Ed não tentar pegar nas partes íntimas de ninguém.

- Muito prazer. - Ele respondeu simpático.

- Jullyana é minha prima. Morou conosco por um tempo, depois foi para Harvard cursar Geologia. Essa garota é a única inteligente da família. - Ri. - Jully, Ed está passando algumas semanas conosco. Ele é filho do Dr. Carlisle Cullen.

- O geólogo? - Ela ficou surpresa.

- Sim. - Respondi confusa.

- Nossa, eu li o livro do seu pai sobre o desenvolvimento da Teoria da Tectônica de Placas. É incrível. - Jully ficou empolgada.

- Carlisle escreveu um livro? - Embasbaquei.

- Ele não está mais se limitando a estudar e a explicar as feições do assoalho oceânico. Está dando ênfase aos continentes. - O cara da selva respondeu.

- Hã? - Franzi o cenho.

- Bella, preciso de ajuda. - Lice apareceu na porta.

- Estou ocupada. - Respondi.

- Sim, era para estar ocupada trabalhando. Anda, ficamos sem príncipe e o negócio aqui está feio. - Fez cara feia.

- Continuem falando sobre esse babado aí que não entendi. Já volto. - Saí da cozinha antes que minha amiga enfartasse.

Ajudei Alice e Jazz a organizar a meninada para cantar parabéns. Infelizmente, a festinha estava longe de terminar, nem havia anoitecido. De longe, avistei Jully e Ed, sentados em um dos bancos do jardim, conversando. Ainda não sabia como contar à minha prima sobre o projeto do resort. Esperava que ela ajudasse não nos delatando para Charlie, porém, sabia que se negaria a mentir para ele.

De repente, Jasper segurou meu braço, mais pálido que papel.

- MEU PAI!

Olhei para a direção em que ele apontava e não consegui me conter.

- MEU PAI! - Quase gritei, cutucando Lice.

- MEU PAI! - Ela embasbacou.

A dona Bogdanov vinha em nossa direção, vestida de noiva. Estava acompanhada por um velhinho em um manto cerimonial colorido, agarrado à um livro.

- MEEEEEEU PAI! - De longe, Emmett viu o mesmo que nós.

- Minu armastus! - A mulher falou animada.

- Aqui não! Aqui não! - Alice ficou aflita vendo que alguns pais nos observavam. - Levem eles para a cozinha.

Jasper tentou fugir e eu o impedi. De forma alguma, eu ia ficar naquela furada sozinha.

Dando falsos sorrisos, empurramos os bizarros para a cozinha. Assim que adentramos o cômodo, meu irmão se desesperou.

- Acabe com essa loucura! Acabe com isso! - Agarrou o velhinho pelo manto.

- Precisa assinar aqui. - Ele respondeu, abrindo o livro.

- Olha, se for para mandar essa doida embora, eu assino, ele assina, todos assinamos. - Tomei a frente, peguei a caneta e rabisquei meu nome. - Assina logo! - Cutuquei meu irmão. Sua mão tremia muito.

- Vão embora! - Jasper tentou se manter longe da estoniana, mas ela grudou nele.

- Precisa dizer a ela: Võtsin vastu nagu mu naine.

- Isso vai convencer a cozinheira a nos deixar em paz? - Indaguei e o velhinho assentiu. - Fala logo, Jasper.

- Vot-Vot...sin... - Ele gaguejou . - Vastu....o quê mais? -

- Nagu mu naine. - O homem completou.

- Nagu mu naine. - Meu irmão mordeu o punho fechado.

Não esperávamos que a cozinheira fosse responder:

- Ma aktsepteerida minu abikaasa.

- Ma nüüd hääldada te mees ja naine. - O velho falou fechando o livro.

- O quê? - Jasper e eu perguntamos juntos.

- Eu os declaro marido e mulher. - Traduziu.

- AAAAAAAAHHHHHHHH! - Meu irmão berrou com as mãos na cabeça. A dona Bogdanov o agarrou e lhe lascou um beijão de desentupir pia.

Assisti tudo de olhos arregalados.

- Que fique bem claro que eu só tentei ajudar. - Murmurei dando um passo atrás. - Desculpa. - Choraminguei, sabendo que tinha ajudado a matar Jazz.

O velho se mandou e Jasper conseguiu empurrar a louca para longe.

- AAAAAAAAAAHHHHHHHHH! - Ele ia gritar pelo resto do ano. O hippie esfregou as mãos na boca com força, isso só fez com que o vermelho do batom de sua esposa se espalhasse por seu rosto.

A cozinheira girou feliz e ao fazer isso, um dos enfeites do seu arranjo de cabelo caiu no chão.

Meus olhos quase saltaram para fora.

- MINHA PEDRA! - Apontei bestificada.

Nos baixamos ao mesmo tempo, mas a cozinheira pegou o diamante antes de mim.

- Solta! Solta! - Tentei arrancar a pedra de sua mão. Usei toda a minha força, só que a estoniana era a mulher biônica. - SOOOOLTAAAAAAA! - Não estava disposta a perder nossa salvação novamente.

- JASPER NÃO PODE ESTAR CASADO COM ESSA VÉIA CHEIA DE TEIA DE ARANHA! JASPER PRECISA FUGIR! - Meu irmão saiu correndo, totalmente surtado.

- Não! - Soltei a Bogdanov e corri a trás dele, porém, assim que saí da cozinha, desisti. Eu não tinha condições de iniciar uma caçada com o tornozelo ainda machucado. Rapidinho, voltei para a cozinha a fim de lutar pelo meu diamante. Encontrei a cozinheira fechando a porta do freezer. - Onde você escondeu minha pedra? - Furiosa, empurrei a velha para longe e abri o freezer. Olhei para as várias garrafas de refrigerante, champanhe, tigelas enormes de sorvete e não soube por onde começar a procurar.

- Com licença. - Alguém tocou meu ombro. Olhei para trás e fiquei sem ação diante do garçom.

- Por favor, nos deixe fazer nosso serviço. - O outro garçom tomou a frente e eu tive que me afastar.

Eles pegaram as tigelas de soverte, colocaram em bandejas e caminharam em direção a saída. Olhei para a dona Bogdanov e notei que seus olhos acompanhavam as tigelas.

- Você não fez isso. - Choraminguei tremendo.

- Ma ei teinud midagi.

Irada, puxei a grinalda dela, joguei no chão e pisei em cima. Feito uma retardada, corri atrás dos garçons.

- Oi, deixa que eu levo o sorvete. - Sorri para um dos homens, fingindo-me de prestativa.

- Está tudo bem. - Respondeu indiferente.

- Eu preciso desse sorvete. - Falei com seriedade.

- Eu já disse... Está tudo bem. - Não gostou da minha insistência.

Os garçons colocaram as tigelas do tamanho de bacias em cima de uma mesa e os monstrinhos exigentes, começaram a se servir. As crianças se espremeram junto à mesa, colocando bolas de soverte em casquinhas. Quase chorei com medo de perder meu diamante novamente. Assim que os garçons se afastaram, me meti entre a meninada, derrubando suas casquinhas no chão. Pisei em algumas, na esperança de sentir a pedra. Alguns pestinhas choraram, outros puxaram o meu vestido, mas não liguei. Eu precisava recuperar o carro de Charlie.

- Sai, sai, sai. - Gritando feito uma verdadeira bruxa, consegui chegar à mesa e, sem pesar duas vezes, enfiei minhas mãos dentro de uma das tigelas. Busquei desesperadamente o diamante, só que minhas palmas logo começaram a doer. - Ai. - Chacoalhei-as no ar.

- Você é má! É uma bruxa muito má. - Uma garotinha mostrou a língua.

- Eu preciso disso mais do que vocês, tá bom? Não enche!

A garota chutou meu tornozelo machucado. Reprimi um grito e fiz cara feia, tentando assustá-las.

- Sua bruxa feia. - Um garoto me beliscou.

- Aiiiiiiii! - Esfreguei meu braço. - Feia é a sua avó! - Peguei a outra tigela - Se afastem!

- Ela vai roubar o sorvete! - A aniversariante apontou para mim como se eu fosse um monstro.

- Shhhh! Eu já devolvo, criancinhas lindas do meu coração. - Tentei ser persuasiva, mas não adiantou.

- PEGUEM ELA! - Um menino maiorzinho me condenou.

- Não, não, não. - Dei alguns passos para atrás. - Nada de pegar a bruxa, eu sou boazinha. - Não larguei o sorvete.

- Ela está fugindo! - A aniversariante loirinha alertou. - Mãããiiiêêêê!

- Cala a boca, sua nazista. - Joguei um pouco de sorvete neles, achando que se afastariam.

- SEGUREM ELA! - O gordinho da meleca tentou me segurar com suas mãos imundas.

- Droga! - Xinguei antes de sair correndo com a tigela.

Ao ver aquele batalhão de crianças barulhentas, sedentas por sorvete e sangue de bruxa, realmente temi por minha segurança. De repente, o jardim pareceu-me pequeno demais para uma fuga tão desastrosa.

Passei perto do banco onde Edward e Jully estavam e não consegui deixar de notar a expressão de espanto deles. Resolvi dar a volta na casa e tentar despistar os monstrinhos, porém, isso só tornou a perseguição mais interessante para eles.

- ALICEEEEEEE! - Berrei, na dúvida se salvava a minha pele ou o diamante.

(Continua...)

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