USD - Capítulo Doze. Parte II

Assim que terminei de lavar as mãos no banheiro, Edward chamou-me outra vez.

- Bella?

- Sim? - Respondi pegando o aparelho.

- Que tipo de mulheres são essas? Tem certeza que me cadastrou no local certo?

- Claro, por quê?

- Escuta isso... - Pigarreou. - Gosto de andar na praia, ir ao cinema e principalmente viajar, mas agora não posso viajar porque estou na condicional. Não se preocupe, não sou perigosa. Só atirei, esfaqueei e queimei meu ex-namorado porque ele me traiu. Querido, preciso saber, você é do tipo fiel?

- Seria bizarro dizer que gostei dela? - Fui sincera.

- Você não vai me tirar do sério. - Desligou e eu ri alto.

Fui direto para a cozinha pegar o leitinho da Beyoncé. Invadi o cômodo assustando Emmett e Jazz, os quais me encararam de uma forma bem suspeita.

- Conheço essas caras... - Tratei de pressioná-los. - Vocês não estão aqui só pra forrar o bucho.

- O que é isso? - Meu irmão esbravejou tentado se impor. - Que discriminação é essa? Só porque estamos sozinhos não quer dizer que fizemos algo de errado. - Ele teve um surto de valentia. - JASPER ESTÁ ALTAMENTE OFENDIDO! - Bateu a mão na mesa com força e uma garrafa de 500ml caiu pela barra de sua calça. - E envergonhado. - Murmurou olhando para a tequila.

- O que significa isso? - Peguei a garrafa.

- Em nossa defesa, digo que... - Emmett refletiu, refletiu e refletiu. - Você não tem maturidade pra entender o que tá rolando aqui.

- Jasper? - O fitei emburrada.

- Estamos batizando o leite dos cachorros. - Ele admitiu de cabeça erguida. - A bicharada vai cair na manguaça. Pô, Bella ser garçom de cachorro é DUCA!

- Duca? - Franzi o cenho.

- Sim. Você sabe, du cara...

- Chega! - Interrompi o palavrão. - Não acredito nisso. - Balancei a cabeça cruzando os braços. - Porque ninguém me chama numa hora dessas? Deixa comigo que sou eu quem está tinindo de raiva. - Fui até a panela onde estava o leite e despejei toda a tequila. Até dei uns tapinhas no fundo da garrafa para garantir que tinha colocado até a última gota. - Vamos mostrar pra esse povo quem é serviçal.

(...)

Emmett, Jasper, Alice e Rosalie ficaram amontoados na porta da frente espiando a execução de nossa missão. Saí com uma bandeja cheia de vasilhas com o leite-quila, então olhei para trás e os vi prendendo o riso. Parecia que iam explodir a qualquer momento. Sortuda do jeito que eu era, lógico que ao tirarmos no palitinho me ferrei legal. Conformada, resolvi não choramingar e segui em frente.

Passei pelas mesas deixando as vasilhas e distribuí sorrisos de pura satisfação. Os donos dos bichos me ignoraram como se eu fosse um zé-ninguém, só que dessa vez não me senti humilhada. Sabia que logo teriam o que mereciam.

Fiz questão de servir a cadela Beyoncé por último.

- Senhora, aqui está o que pediu. - Coloquei o leite-quila na mesa e a ratazana depilada bebeu como se fosse água.

- Pode ir. - Sacudiu a mão como se eu fosse sua mucama.

- Claro. - Mostrei todos os meus dentes em um sorriso falso. - Mais alguma coisa, sua cachorra?!

- O quê? - Me olhou feio.

- Mais alguma coisa para a sua cachorra? - Fingi que ela é quem não tinha entendido.

- Não.

- Com licença. - Saí fazendo malabarismo com a bandeja vazia.

- Bella? - Ed falou pelo walkie-talkie.

- Tou na escuta. Adianta a parada.

- Fala a minha língua, ok?

- Algum e-mail interessante, Sr. temperamental? - Um bulldog feinho pra porra ficou me rodeando.

- Uma moça alta e forte me escreveu algo que realmente não entendi. Escuta: “não sou uma garota convencional, provavelmente não faço o seu tipo, mas se quiser queimo o meu pra você a noite inteira”. Bella, como assim “queimo o meu”?

- Alta e forte? - Na hora saquei. - A “menina” gosta de “queimar”? - Tive uma crise de riso e Edward teve que esperar eu me recuperar.

- Como você está? - Perguntou decepcionado com minha reação.

- Eu... eu... - Ofeguei. De repente, o bulldog agarrou minha panturrilha direita e castigou-me me confundindo com uma cadela no cio. - Saaaai! Droga! - Chacoalhei a perna, mas a merda do cachorro estava na seca. - Pra falar a verdade, Ed... me sinto meio violentada nesse momento. - Pulei num pé só e o cão aumentou a velocidade. - XISPA! - O tarado parecia uma máquina. - ME DEIXA! - Gritei chutando com força. O cachorro voou pra longe e eu quis amputar minha perna. NOJO!

- O que está acontecendo?

Tristonha, respondi:

- Estupraram a minha perna.

- Quê??

- Esquece. - Bufei. - Voltando ao assunto... Então, é simples. A menina que te escreveu na verdade não é menina.

- Como assim? - Espantou-se.

- Santa ingenuidade, hein, Ed? Fala sério! É um travesti. Um homossexual.

- Ah... - Ficou desconsertado. - Pela fotografia nunca que eu ia adivinhar que se tratava de um pederasta. - Jurava que ele estava olhando a foto do “queimador”.

- Pederasta? Que troço é esse?

- Santa ignorância, hein, Bella? Fala sério! É um travesti. Um homossexual. - O intelectualóide pagou na mesma moeda. É MOLE?

(...)

Eu e meus amigos ficamos escondidos, atrás da porta principal, espiando o jardim. Estávamos envoltos em um surto de risadas contagiosas. Tínhamos que nos apoiar uns nos outros para suportar as cenas inacreditáveis que presenciávamos.

A cachorrada ficou doida com o leite-quila. Estranhavam os próprios donos enquanto cambaleavam trocando as patinhas, totalmente sem direção. Não deu nem pra sentir pena dos bichos, pois só conseguimos rir deles vestidos como gente na maior gandaia. Os convidados tentaram contê-los, porém nem café forte daria jeito na bebedeira animal.

Foi super show ver a cadela Beyoncé se jogar na piscina em um ato de compreensivo suicídio, pois não devia ser fácil ter uma descerebrada como dona. Como se isso não bastasse, quase molhei as calças vendo a mulher que me destratou mergulhar pra salvar sua ratazana depilada. Só dentro da água foi que a jamanta lembrou que nem ela sabia nadar e o povo teve que resgatá-la.

Poxa, era até injusto sermos pagos, pois o que deveria ser uma noite de trabalho se transformou em um momento de pura diversão, o qual nos lembrou o porque de querermos tanto gerir um resort.

Eu queria ter explicado à Jully o motivo de nosso súbito bom humor, mas eu nem consegui falar. Infelizmente, isso a fez se sentir deslocada. Achávamos que as gargalhadas nunca iriam cessar, até que meu irmão alarmou:

- Caraca! - Apontou para a dona Bogdanov, a qual vinha em nossa direção trazendo sua bagagem.

O intenso humor se transformou em perplexidade e ninguém conseguiu falar nada. Afinal, ela ia morar com a gente?

- Tulin peatada. - Anunciou.

- Quê? - Perguntamos em coro.

- Ela veio para ficar. - Jully não ficou surpresa.

- Rápido, diga que Jazz é gay. - Me adiantei.

Jully encarou meu irmão, esperando seu aval.

- Jasper... - Ele fungou. - Temeu demais esse momento. - Entristeceu.

- Ta on ebamehelik. - Jully apontou para meu irmão.

A reação da cozinheira não foi exatamente a que esperávamos. Primeiro ela arregalou os olhos, depois foi atingida por um tremelique vindo não sei de onde e, por fim, desabou no chão, debatendo-se enquanto segurava o braço esquerdo.

- Entrou em curto? - Emmett ficou confuso.

- Pelo amor de Deus, ela está enfartando! - Jully gritou, tentando sozinha erguer a mulher.

Edward, que já estava vindo em nossa direção, se apressou para ajudar Jully. Só aí percebi que o negócio era mesmo grave.

- Ed, leva a velha pra sala que ela não pode desencarnar aqui. - Fiquei aflita.

Ele carregou a estoniana e a deitou no sofá. A coitada ofegava com falta de ar, por isso Alice e eu tratamos de abaná-la com revistas.

- O que fizeram? - O selvagem ficou aborrecido.

- Mandei dizer que o marido dela é gay. - Confessei.

- O que vamos fazer? - Emm colocou as mãos na cabeça. - Meu Deus do céu!

- Pra quê esse auê? - Jazz interrompeu. - Esse zum-zum-zum não tem cabimento. Deixa a mulher aí no sofá, vamos todos dar uma volta lá por fora. A estoniana não precisa ser socorrida.

Lice indignou-se.

- Ela pode estar morrendo!

- E é da sua conta? - Claro que Jazz queria que a velha se fodesse. - De quem é que ela é esposa? Jasper sabe o que é bom pra mulher dele. - Tomou as revistas de nossas mãos. - Deixa essa xibumga nas mãos de Deus.

- Vocês são todos insanos! - Edward viu que a mulher estava revirando os olhos e passou a lhe fazer uma massagem cardíaca. Sem poder fazer muita coisa, ficamos assistindo.

Meu irmão não se deu por vencido e, de mansinho, se aproximou do selvagem sussurrando com extremo interesse.

- T-zed, e aí? - Cutucou-o. - Sobrevive?

Ed não gostou da pergunta agourenta.

- Eu estou fazendo o possível aqui. Afaste-se! - O empurrou para longe.

- Não precisa se esforçar, viu? - Jazz continha a vibração. - Evite a fadiga. Ninguém aqui quer te ver cansado.

- Por favor, vamos levá-la logo pro hospital. - Pedi.

- Bella tem razão. - Uma luz pareceu acender dentro da cabeça de Jasper. - Vamos partir agora mesmo pra aquele hospital público Santas Dores do Socorro.

- Mas aquilo é um descaso só! - Lice falou alto.

- Por isso mesmo. Ela não morreu aqui, mas lá é garantido.

- Dá licença, dá licença! - Fui empurrando o pessoal, totalmente sem paciência. - Ela precisa beber alguma coisa. - Peguei uma taça de champanhe que estava esquecida na mesinha de centro e coloquei na boca da cozinheira. Com um certo esforço, ela bebeu tudo.

- Pronto, acabou de matar. - Jully revoltou-se, jogando as mãos para o alto.

- Tahad rohkem.

- O que ela disse? - Perguntei para minha prima.

- Quer mais? Mais bebida? - Ela respondeu aturdida. O espanto foi geral.

- Vamos fazer a vontade da velha. Rápido, alguém pega uma garrafa na cozinha. - A estoniana parecia estar se recuperando. Era possível que o açúcar do champanhe estivesse ajudando.

(...)

- E eu achei que já tinha visto de tudo nessa vida. - Falei observando a dona Bogdanov cantarolando cheia de vida pela sala.

- Não devíamos tê-la deixado ficar com a garrafa. - Lice coçou a cabeça.

- Ah, meu Pai... - Meu irmão suspirou tristonho. - A velha não morreu. Não foi dessa vez que Jasper alcançou essa graça.

- Que loucura. - Ed e Jully falaram ao mesmo tempo. Notei que trocaram um breve olhar, mas minha prima baixou a cabeça timidamente.

Fui até a cozinheira e tomei-lhe a garrafa de champanhe, pois começava a me perguntar se ela não tinha fingido tudo.

- Quase todos os convidados foram embora. Logo poderemos iniciar a limpeza. - Emmett anunciou voltando do jardim.

- Jasper ainda vai precisar fingir que é gay?

- Sim. Comece a praticar. - Alice respondeu com firmeza.

(...)

Não consegui dormir. Fiquei rolando na cama buscando pelo sono que nunca chegava. Era torturante, pois minha cabeça ficava cheia de pensamentos. Por mais que eu quisesse evitar, meus olhos sempre se voltavam para o celular em cima da mesinha de cabeceira. No visor mostrava quatro chamadas não atendidas de Brad. Então, a pergunta inevitável era: o que ele ainda queria de mim?

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde voltaria a vê-lo e o que mais me importava era estar preparada para esse momento. Eu não poderia gaguejar, soluçar ou fraquejar, pois com toda a convicção que meu ser pudesse reunir o mandaria embora da minha vida de uma vez por todas.

Logo chegaria o momento em que eu tomaria a postura da mulher que gostaria de ser, no entanto tinha receio de me precipitar e enfrentar uma batalha para a qual ainda não estava completamente preparada. O que me enchia de esperanças eram todos aqueles novos sentimentos me circundando, fortalecendo meu espírito a cada dia.

Minha nova visão apontou falhas que antes não percebia e uma delas era a inversão de sentimentos. Antes fingia odiar Brad, mas o amava. Fingia me amar, mas me odiava. Graças a Deus esse infeliz equívoco acabou e eu já conseguia ser honesta comigo mesma.

Agora era clara como o dia a razão que me levou a parar no tempo e não evoluir desde que ele me deixara. Eu fui feliz, fui muito feliz com Brad. A nossa história foi maravilhosa enquanto durou, só que eu simplesmente me neguei a aceitar o fim pondo toda a culpa nele. Tudo bem que McFadden me deixou depois de ter transado comigo, mas e daí? Talvez tenha sido o único erro dele, já que Brad nunca me prometeu coisa algum, nem usou as palavras “eu te amo” para me convencer de nada. McFadden não me amou como o amei e posso culpá-lo por isso?

Era duro admitir, mas a verdade é que fui eu, e não ele, quem causou toda a bagunça. Quando Brad veio se hospedar na mansão, ele quis relembrar os velhos tempos, mas ao invés de eu me impor e mostrar-lhe que o passado não seria revivido, fiz foi puxar todos pra dentro do furacão incontrolável que são meus sentimentos.

Sentimentos...

Que palavrinha mais complicada. Era impossível não me perguntar como seria o futuro. Algum dia amaria outra vez? Existia algo além do amor cego que conheci com Brad? Confesso que tenho medo de nunca vivenciar um amor que supere o passado. Não quero ser o tipo de pessoa que mantém uma relação com alguém e ao mesmo tempo tem parte do coração reservada eternamente para outro. A amargura desse pensamento fez-me fechar os olhos com força e prender a respiração. Aquilo era apenas o reflexo da vontade de lutar contra o fracasso. E eu lutei...

Abri os olhos e sentei-me na cama. Olhei para as mensagens que escrevi nas paredes e elas afastaram a sombra de tristeza e pessimismo que se abateu sobre mim.

“Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é pensar que tudo é um milagre.”

Liberei minha mente das dúvidas e permiti que um singelo sorriso surgisse em minha face, pois eu havia conseguido. Mais um dia, mais uma vitória, mais um milagre. A força que me fez pular do penhasco ainda estava fervorosa dentro de mim e eu voltei a me sentir bem. Sem razão aparente, eu ri com vontade. Aquela risada tão gostosa exorcizou as preocupações.

Com o coração mais leve, lembrei de Edward e do fato de não termos falado sobre suas pretendentes durante o jantar. Então, levantei da cama e peguei o walkie-talkie que estava sobre a cômoda.

- Edward? - Esperei ele responder. - Edward? Está acordado?

- Agora estou. - Murmurou e eu ri.

- Foi mal, só queria saber se tivemos progressos. Escolheu alguma garota?

- Respondi uma mensagem.

- Uma? - Fiquei chateada. - Te entreguei 28 e-mails.

- Fora as garotas estranhas e o pederasta, até que tinha umas moças simpáticas. O problema é que não tive vontade de responder nenhuma delas, exceto uma moça chamada Mellanie.

- Pela manhã pego sua mensagem e envio pra garota. - Suspirei decepcionada. - Uma? Nem vou discutir por isso.

- Acho bom. - Falou em tom de brincadeira, porém logo percebeu que não entrei no clima. - O que você tem?

- Nada. - Sentei-me na cama. - Só não consigo dormir.

- E por quê?

- É que...

- Espera. Não é da minha conta, desculpe.

- Tudo bem. - Dei um meio sorriso. - Volte a dormir, ok?

Ele ficou em silêncio por um curto tempo.

*Link seguro, abrirá no seu media player rapidinho*:

http://www.innocencemidis.com.br/m.i_dis/romanticas/david_archuleta/david_archuleta_-_you_can.mid

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*Link 4shared para quem não conseguir abrir no original*:

http://www.4shared.com/audio/FZsWMEKO/6_David_Archuleta_-_You_Can.htm

***

- Posso te ajudar a dormir... Se quiser.

- Como assim? - Involuntariamente ri.

- Esquece. Foi uma ideia idiota. - Ficou envergonhado.

- Não, agora quero saber o que ia fazer.

- Boa noite, Bella.

- Edward! - Não ia ficar na curiosidade. - Fala, por favor.

Ele gemeu cedendo.

- Deite-se.

- Deitar? - Franzi o cenho.

- Sim.

- Mas...

- Vou desistir. - Ameaçou.

- Tá bom. Não vou criar caso. - Prendi o riso e obedeci.

- Fechou os olhos?

- Vou fechar. - Assim o fiz.

- Deixe sua mente completamente vazia. Não se prenda a nenhum pensamento.

- Vou tentar.

- Shhh... Não fale. Apenas escute. Vou citar um soneto, por isso volte toda a sua atenção pra ele. Concentre-se em cada palavra, em cada pausa, permitindo que ele a deixe sonolenta.

Concentrada, fiquei esperando Edward começar. Pude ouvir sua respiração calma e isso me ajudou a relaxar.

- Fique bem quieta. - Murmurou antes de começar. - Exausto com o trabalho corro ao leito, repouso de meus membros tão cansados; Mas corre a mente agora o curso feito, estando o labor do corpo terminado. - A voz dele soou macia e envolvente, domando com facilidade meus pensamentos. - Lá de onde eu moro, agora, o pensamento parte qual peregrino a ti buscando, e mantém meu olhar alerta e atento pra escuridão que o cego vê, olhando; - A entonação aveludada de Edward somada ao efeito sutilmente melancólico de cada palavra, foram me puxando para a fronteira do inconsciente. - Em fantasia, minha alma cegada à vista sem visão teu vulto traz, que, gema em noite terrível mostrada, faz linda a noite e seu rosto refaz. - Senti-me sendo entregue às mãos do sono, mas ainda assim, de algum jeito, atada ao soneto. - E assim, ao dia o corpo, à noite a mente. Por ti e por mim mesmo paz não sente. - Ouve silêncio. - Soneto 27. Shakespeare.

Perdi-me num breu.

David Archuleta - You Can

Me leve para onde eu nunca estive

Me ajude a levantar novamente

Me mostre que coisas boas vem para aqueles que esperam

Me diga que eu não estou sozinho nessa

Me diga que eu não ficarei sozinho

Me diga que o que estou sentindo não é algum engano

Porque se alguém pode fazer eu me apaixonar,

você pode

Salve-me de mim mesmo, você pode

E é você, e ninguém mais

E se eu pudesse desejar o amanhã

esta noite nunca terminaria

Se você me pedisse, eu poderia compreender

Mas, por enquanto, vou apenas fingir

Porque se alguém pode me fazer apaixonar,

você pode

Querida, quando você olhar para mim, me diga o que você vê

São esses os olhos de alguém que você poderia amar?

Por que tudo o que me trouxe aqui

E agora tudo parece tão claro

Querida, você é a única com quem eu estive sonhando

Se alguém pode me fazer apaixonar,

Você pode

Apenas você consegue

"me fazer navegar" nos seus profundos olhos

Me levante e me faça chorar

E ninguém nunca fez isso

Tudo foi apenas uma mentira

e eu sei, sim, eu sei

Isto é onde tudo começa

Então me diga que nunca vai acabar

Eu posso me enganar, é você e ninguém mais

Se eu pudesse desejar o amanhã,

esta noite nunca terminaria

Se você me pedisse, eu compreenderia

Mas, por enquanto, eu apenas vou fingir

Se alguém pode me fazer apaixonar,

Você pode

Me mostre que coisas boas vem para aqueles que esperam

(…)

De repente, a voz alta de Rosalie fez-me recuperar a consciência. Não entendi o que dizia, mas seu tom chegava a ser preocupante. Um aperto no peito me fez sentir que algo de muito grave tinha acontecido.

- Tem algo errado. - Falei em voz alta.

Voei pelo corredor e disparei pelas escadas. Assim que avistei Jasper e Emmett entrando na mansão com vários ferimentos, me apavorei.

- Meu Deus, o que aconteceu? - Ajudei meu irmão a sentar no sofá. Sua camisa estava toda manchada com sangue que escorria de seu nariz.

- Nós levamos uma surra. Foi isso que aconteceu. - Emmett precisou se apoiar em Rosalie para consegui chegar até mim.

- Como assim? - A loira verificou os hematomas do rosto dele.

- O que aconteceu com vocês? - Edward finalmente chegou e os rapazes o encararam com um ódio que não compreendi. Como ele sabia o que estava acontecendo? Eu tinha dormido! Quem o avisou?

- Falem logo! - Exigi impaciente.

- Fomos tomar uma cerveja em um bar aqui próximo. Uns caras que assistiam um jogo lá começaram a zombar da aparência de Jasper. - Meu irmão cuspiu um pouco de sangue. - No início Jasper não ligou muito, afinal Jasper é que nem bola de futebol, todo mundo chuta. O problema é que depois...

- Depois o negócio ficou feio! - Emmett se alterou. - Jazz levantou para ir ao banheiro e, quando passou pelos idiotas, colocaram o pé na frente só pra ele tropeçar. O maluco caiu com a cara na quina de uma mesa e aconteceu essa desgraça aí. - Apontou pro nariz dele.

- Não me contem o resto. - Ed cruzou os braços. - Aceitaram as provocações e se envolveram em uma briga que sabiam que não podiam ganhar? As pessoas que fizeram isso com vocês já saíram de casa com a intenção de arrumar confusão, então, por favor, me falem por que não usaram a cabeça e foram embora quando podiam? - O cara da selva também se alterou.

- É, T-zed, não usamos a cabeça. Eles que as usaram como saco de pancada. - Abruptamente, Emm se desvencilhou de Rosalie e peitou Edward. - Um sujeito quase esfaqueou Jazz. O cara só escapou porque o dono do bar deu um tiro para o alto dispersando o pessoal. Você tem ideia de quem é a culpa? É sua!

- O quê? Não! - Ele se revoltou. - Não me culpe por serem imbecis o suficiente para se envolverem em brigas. Todas as coisas que tenho falado não serviram de nada?

O clima esquentou e eu não soube como intervir, pois ainda estava chocada.

- Foi exatamente as coisas que falou que nos fizeram enfrentar a situação. - Emmett esbravejou transtornado. - Toda aquela porra de discurso sobre honra, disciplina e coragem nos induziu a agüentar a barra e não sair correndo feito mulherzinhas. E quer saber? A gente se ferrou legal porque no final da contas o Sr. Rei da Floresta não nos ensinou porcaria nenhuma!

- Não fale assim comigo. - Cerrou o punho estreitando os olhos. Sua fisionomia tornou-se desconhecida e sombria a ponto de eu me questionar se de fato o conhecia.

- Falo sim! - Emm empurrou Edward com força. Aflita, precisei agir.

- Epa, epa, epa! - Coloquei-me entre eles e fui ignorada. - Por favor, vamos parar com isso. Temos é que ir pra uma delegacia prestar queixa.

- Qual o problema, T-zed? - Jasper se pronunciou ficando ao lado de Emmett. - Nós fizemos tudo o que mandou, mostramos que queríamos aprender. Nunca nem te questionamos, mas você também nem se empenhou em nos ensinar algo. Faltam poucas semanas para ir embora e nós continuamos nos exercitando toda manhã em troca de nada. Estamos acordando as 05:30, caramba! Era pra estarmos aproveitando nossas férias.

- Ele não se importa, Jazz. - Emm não conseguia esconder a mágoa. - O mané acha que somos medíocres demais pra aprender qualquer coisa com ele. Olha só, está escrito na cara dele. - O pior é que parecia mesmo isso.

- Não devia tê-los enchido de esperanças. - E foi Rosalie, e não eu, quem falou a verdade empurrando Emmett para longe.

- Encerrou o papo, galera. - Tinha quase certeza que Ed não era o guerreiro que os rapazes idealizaram.

- Nunca devíamos tê-lo considerado nosso amigo, seu idiota! - Emmett berrou subindo as escadas.

Me senti no meio de um fogo cruzado. Não sabia se culpava Ed, ou os rapazes por terem esperado demais dele.

- Vamos cuidar desse nariz. - Empurrei Jasper para a cozinha. Antes de sair do cômodo, olhei para trás e falei: - Para o bem de todos, é melhor ficar longe dos rapazes... Por favor.

Edward, repentinamente, voltou a ser o esquisitão mudo que conhecemos no inicio do mês. Isso me incomodou demais.

(...)

Acordei cedo para saber como meus amigos estavam. Vasculhei a casa atrás deles e fiquei muito surpresa quando os encontrei no jardim, correndo em volta da piscina, como faziam todas as manhãs. Eles estavam arrebentados, mas se exercitavam com uma raça que eu não sabia de onde vinha.

- Deviam estar descansando. - Me aproximei e pararam pra falar comigo. - Achei que tinham desistido.

- Até pensamos nisso, mas é tarde demais, pois a primeira lição de T-zed já está gravada em nossa mente. - Disse Emm.

- Que lição? - Indaguei.

- Nunca desistir. - Respondeu Jasper.

- E aí vem ele. - Emmett indicou com a cabeça.

Assim como os rapazes, Ed também não desistiu. Analisou bem meus amigos, os quais permaneceram calados e de cabeça erguida.

- Vocês estão preparados para seguir em frente. Lamento ter demorado pra perceber isso. - Disse com um misto de respeito e arrependimento. - Por termos personalidades tão diferentes, errei em confundir isso com falta de interesse e falta de seriedade. Eu devia ter dado um voto de confiança a vocês e não o fiz. Os persuadi a serem corajosos, mas não os preparei para as conseqüências. Falhei como instrutor.

Emm suspirou, visivelmente arrependido de ter discutido com o selvagem. Então, colocou uma mão no ombro dele e disse:

- Fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão.

Edward, cabisbaixo, sorriu como se aquilo fosse algo que tivesse ensinado a eles. Com esforço, compreendi os significados ocultos por trás da frase. Eles se arrependiam de ter perdido a cabeça, ou seja, a razão. Porém, não desistiriam de fazer a coisa certa, e a coisa certa naquele momento era continuar amigos e persistir no treinamento.

- T-zed, vamos começar logo com isso. - Meu irmão se empolgou.

- Tudo bem. - Distanciou-se um pouco da piscina e levou os caras consigo.

Sentei-me em uma espreguiçadeira há poucos metros deles. Estava muito interessada em saber como o cara da selva estava influenciando meu irmão e amigo.

- A Bella vai ficar aqui? - Jazz se incomodou.

- Cala a boca ou vai achar minha mão bem desagradável. - Ameacei na maior.

- Por favor, vamos começar. - Ed tratou de se impor. - Muito bem... - Passou as mãos pelos cabelos. - Krav Magá é um sistema de defesa pessoal. Foi desenvolvido em meados de 1940 por Imi Lichtenfeld e é adotado principalmente pelo Exército Israelense. Executado corretamente, pode livrá-los principalmente de ataques individuais. - Edward me surpreendeu com sua desenvoltura. - O Krav Magá é baseado na força da mente e do intelecto, por isso não precisam de um monte de músculos para praticá-lo. Entendam que todos os movimentos são muito simples, o que facilita a ativação de uma reação quase instantânea em situação de perigo e surpresa. Vou demonstrar. - Virou as costas para os rapazes. - Emmett, tente me estrangular.

- Tem certeza? - Coçou a cabeça.

- Sim, pode usar toda a sua força. - Falou com muita segurança.

- Demorou!

Emm levou a sério e avançou no pescoço do selvagem. Edward imediatamente arrancou as mãos de Emmett de seu pescoço, fazendo-o gemer. Em um movimento rápido, girou o corpo ficando de frente para ele enquanto torcia o braço do infeliz a partir da mão. Edward deu um chute na genitália do meu amigo e até eu fiquei aliviada de ver que não chegou a realmente atingi-lo. Por fim, com o antebraço, golpeou Emmett na garganta e o coitado desabou no chão.

Jasper vibrou, Emmett gemeu e eu fiquei na dúvida sobre o que pensar.

- Você está bem? - O selvagem ajudou meu amigo a levantar.

- Véi, como conseguiu tirar minhas mãos do seu pescoço? Doeu pacas! - Indagou já de pé.

- Os golpes visam atingir os pontos sensíveis do corpo, o que iguala qualquer adversário, independente de sua força física, e torna a defesa muito mais objetiva. Ao invés de afastar suas palmas, afastei seus dedões, que são os pontos fracos. Quando virei, torci o seu braço para imobilizá-lo, mas o chute na genitália é que causa maior impacto e impede o adversário de raciocinar. Atingir a garganta é essencial, pois com o agressor no chão podem ter tempo suficiente para fugir. - Edward me olhou e eu notei que a dica final era pra mim. Não resisti e levantei o braço, louca pra perguntar. - Sim?

- Chute na genitália não é meio... covarde? - Ed não cansava de me espantar. - Isso é certo?

- Certo é não entrar em uma briga, mas se for inevitável é melhor golpear o adversário de forma que ele desista. Façam o possível para não prolongar o conflito. Vocês têm que entender uma coisa... - Virou-se para os rapazes. - Os movimentos são curtos e, por conseqüência, rápidos. Não há regras, pois não é uma arte marcial. O objetivo é mesmo se defender. Vamos simular outro tipo de tentativa de agressão. - Puxou um canivete do bolso da bermuda e o jogou para meu irmão. - Jasper, tente me machucar.

- Como Jasper deve fazer?

- Do jeito que quiser.

Jazz abriu o canivete e se preparou para o ataque.

- Cuidado, hein?! - Pedi sem querer ver ninguém sangrando.

Meu irmão partiu pra cima do selvagem numa tentativa de esfaqueá-lo na barriga. Ed defendeu-se chocando violentamente seu antebraço contra o dele. Em um movimento ágil, torceu com as duas mãos o pulso armado que lhe ameaçava. Jasper perdeu o equilíbrio e Edward aproveitou a oportunidade para simular socos incrivelmente rápidos no rosto dele. Jasper acabou soltando o canivete e, com a arma fora do lance, o selvagem segurou a cabeça de Jazz, pressionando seus olhos com os polegares. Enquanto fazia isso, empurrava a cabeça dele para baixo. A queda foi inevitável e rápida.

- Jasper ainda está no mundo dos vivos? - Resmungou estatelado no chão.

Edward o ajudou a levantar dizendo:

- Evitem que a arma chegue até vocês golpeando o adversário com o antebraço e protegendo a barriga curvando-se. É necessário fazer o agressor perder a força da mão em que se encontra a arma, pressionando e torcendo o pulso dele. As articulações são os pontos fracos. Os segundos que o agressor está incapaz de reagir por causa da dor são valiosíssimos, por isso a rapidez com que contra-atacam socando o rosto dele é essencial. É preciso praticar e desenvolver a capacidade de golpear seguindo instintos e reflexos. Alguma pergunta?

Nós três erguemos a mão.

(...)

Até que foi divertido passar a manhã intera assistindo os rapazes treinando. Parecia que muito ainda tinha que ser feito antes que os movimentos deles se tornassem tão ágeis quanto os de Edward, mas os carinhas estavam motivados e concentrados. Nunca os vi assim e minha constante expressão de perplexidade denunciava isso. Por bastante tempo questionei as habilidades do selvagem. Na verdade, duvidei que soubesse se defender. Eu não podia estar mais enganada...

Os golpes de Krav Magá eram executados por ele com naturalidade e intensidade, e isso era algo que eu não estava acostumada a ver. Em alguns momentos quase morri de vontade de perguntar quando e onde aprendera aquilo, mas eu não queria ser chata e desconcentrar o pessoal.

Nos últimos dias eu tinha começado a julgar Edward de uma forma bem diferente do que tinha julgado no início do mês. Cheguei a achá-lo inofensivo, reservado e bastante ingênuo, porém, em alguns momentos, era como se existissem faíscas em seus olhos. Já tínhamos visto as melhores e piores facetas de Edward? Algo me dizia que não. Parecia que aquele homem tinha sido criado para sobreviver em um mundo que eu nem conseguia enxergar.

(...)

Logo após o almoço, me recolhi no escritório de Charlie para digitar a mensagem de Edward. Coloquei o papel sobre a mesa, mas ainda não o tinha lido. Antes, queria matar minha curiosidade e saber quantas mensagens novas tinha no eutouquerendo.com. Logo que abri a página, me deparei com 20 e-mails. Claro que fiquei surpresa, afinal não considerava o selvagem um partido tão bom assim.

Ia começar a mexer no site quando um aviso enorme na tela me chamou a atenção. Cliquei e li todas as informações. Descobri que o site junto com uma rede de televisão estavam procurando voluntários para participar de um novo programa de TV chamado “ME AZARE!”.

A ideia era colocar um grupo de solteiros em frente às câmeras e entrevistá-los. Os telespectadores poderiam telefonar e enviar e-mails para, literalmente, azara-los. Os solteiros teriam a chance de selecionar os telespectadores que mais lhes agradassem e, assim, conhecê-los pessoalmente no ar.

Abri a página de inscrição para o programa. Eu só tinha que digitar o endereço do perfil de Edward e colocar um número de telefone, mas não consegui ir adiante, pois ia ser maldade jogar o selvagem em rede nacional.

Na maior dúvida, comecei a roer as unhas com os olhos fixos no monitor. Desconsiderando o lado da maldade, se Edward fosse um dos escolhidos meu serviço já estaria feito. Não teria mais que sair por aí vestida de homem para lhe arranjar mulheres.

E agora?

- Não! Não! Não! - Levantei-me. Era capaz de Ed querer me matar por tentar expô-lo. Por outro lado, era possível que nem fosse escolhido. - Sim! Sim! Sim! - Me sentei já digitando o endereço do perfil e o telefone. - Droga! - Esmurrei a mesa. Não tinha jeito de ele querer aparecer na televisão. Como iria convencê-lo? - Esquece, Bella. - Me levantei e fui até a porta. Antes de sair, olhei para trás e me senti incrivelmente tentada. Então um sorriso cintilou em meu rosto. Em um impulso, corri até a mesa e me joguei sobre ela alcançando o teclado.

“ENTER”

Bastou apertar essa tecla para a sorte de Edward ser lançada.

(Continua...)

***

Diário de Bordo - Edward Cullen

Orlando, EUA.

Hoje, depois que voltamos do farol, dormi pouco. Tive um sonho que me deixou inquieto. Sonhei que estava na minha ilha, porém a floresta que me rodeava era totalmente desconhecida. Sentia como se tivesse andado quilômetros, mas continuava perdido. Eu já não conseguia achar o caminho de volta para casa.

O mundo que acreditei conhecer está mudando diante dos meus olhos. Como fui tolo a ponto de achar que em pouco tempo entenderia as mulheres? As personalidades são tão diversificadas que, em alguns momentos, me senti completamente perdido no Bucaneiro. Ouvi coisas que não entendi, e entendi coisas que preferia não ouvir.

A presença de Bella ajudou em certos momentos, mas a maior parte do tempo ela se atrapalhou e me arrastou para suas peripécias. É impossível não rir quando lembro de alguns momentos. Quando acredito que ela já fez todas as loucuras que um ser humano pode inventar, a pequena mulher surpreende-me a ponto de todos questionarem sua sanidade mental.

Falando em sanidade mental... Bella devia estar totalmente fora de si quando me puxou para dançar. Inicialmente relutei, ficando bastante constrangido. Mesmo assim, a garota continuou a passar a mão em mim como se eu fosse uma mercadoria em exposição. Não a detive porque não resisti à curiosidade. Precisava saber até onde ela iria só para conseguir provar que podia me ajudar.

Como um bobo, entrei em seu jogo, mesmo sabendo que era só para chamar a atenção das mulheres à nossa volta. Ainda assim, não deixou de ser perturbador. Parecia que alguém tinha congelado o meu estômago e mergulhado o resto do meu corpo em água fervente. Conforme repassávamos tudo que aprendemos com o livro de auto-ajuda, mais complicado se tornava distinguir o que era permitido entre amigos e o que não era. Eu nunca tive uma amiga. Quais são as regras? Que tópicos abrangem? Beijar na boca é socialmente aceito? Por que Bella continua a beijar-me?

O primeiro beijo foi quase um acidente. O segundo um erro e o terceiro incoerente. Eu não devia tê-la deixado me influenciar no segundo beijo, já que foi ele quem embaralhou minhas idéias.

Será que posso culpar meu grande defeito, a curiosidade? Queria sentir, provar e vivenciar a experiência, mesmo não sendo com a pessoa certa. Não é típico de mim ser tão inconsequente, só que ambos fomos impelidos pelas circunstâncias nada convencionais.

Tinha me preparado mentalmente para esse tempo e essa terra, mas não me preparei para deitar-me junto de uma mulher nua. Não fazia parte dos meus planos tocar-lhe e muito menos beijá-la. Foi um choque pra mim corresponder o beijo com tanta... tanta... Não encontro uma palavra que se encaixe nessa frase.

Acreditava que meu autocontrole era forte como uma rocha, mas em apenas uma noite essa garota da cidade mostrou-me do que sou feito. Ossos, sangue, e carne. Todos os meus instintos sexuais afloraram e, momentaneamente, perdi a razão. Se Bella não tivesse me interrompido, não tenho dúvidas de que teria atravessado todos os limites. Àquela noite não me reconheci. Em meu estado normal, nunca desejaria Bella tão intensamente. Confesso... Foi gostoso.

Droga! Parecemos duas peças de um quebra-cabeça que não foram feitas para se encaixar. É irônico eu estar escrevendo que desejei Bella, se a maior parte do tempo a acho extremamente boba. Mais que isso, em alguns momentos ela é simplesmente burra. É grosseiro eu me referir à garota assim, mas Bella não se ajuda. Fala coisas que chegam a doer de tão errado. Por que ela não pensa antes de abrir a boca? Por mais que ela tenha crescido em meu conceito, ainda continua sendo alguém difícil de se conviver. É preciso ter muita paciência, sorte que eu tenho.

Todos esses equívocos acabarão quando eu achar uma garota compatível comigo. Será mais fácil compreender o amor e seus derivados com alguém madura e confiável.

Mas minha consciência não me deixa ser injusto com Bella. Existem coisas que admiro nela. Sua atitude no farol e a forma como me convenceu a pular foram excelentes. Tentei persuadi-la a optar por sua segurança, no entanto, ao falar que estava cansada de ter medo, me fez lembrar de uma frase dita por Mandela: "Não é valente o que não tem medo, mas sim o que sabe dominá-lo". E Bella fez isso muito bem. Como eu podia negar que pelo menos uma vez pensamos igual? Foi um dos poucos momentos em que as diferenças de nossas culturas não pesaram. Não importava de onde vínhamos. Só importava para onde íamos.

Pular do penhasco foi incrível. Já tinha feito coisas semelhantes antes, mas o fato de não conhecer o local, e nem saber se acabaríamos nos chocando contra as rochas fez minha adrenalina chegar ao ápice. Sempre vou me lembrar daquele amanhecer.

Até fiquei inspirado. Me deu vontade de desenhar. Farei isso agora mesmo, enquanto as imagens ainda estão vivas em minha mente.

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