USD: Capítulo Doze. Parte I

Capítulo 12 - Desafiando a Gravidade

Bella – Narração:

Edward e eu praticamente fugimos da boate. Perto da entrada do Bucaneiro, pegamos um táxi e seguimos rumo ao Oceano Atlântico. O tempo passou como o vento pelas janelas abertas. Menos de uma hora depois, já estávamos em uma praia perto de Titusville. Uma estrada nos levou ao antigo farol Hudson, localizado em cima de um penhasco rochoso com mais de vinte metros de altura. Era um ponto turístico bastante visitado, mas àquela hora do dia, só havíamos nós, subindo as largas escadas que levavam ao farol.

Ao chegarmos no topo, a paisagem simplesmente nos deslumbrou. A luz do farol ainda iluminava o céu púrpura e laranja enquanto o sol emergia lentamente do mar. Caminhamos pela grama orvalhada ao encontro do farol, e por mais que eu quisesse expressar minha admiração, não conseguia. Era uma daquelas horas em que o silêncio faz parte da beleza do momento. Meu amigo devia estar na mesma sintonia que eu, pois também permaneceu calado. A única coisa que podíamos ouvir era o vago soar das ondas batendo nas rochas.

Rodeamos o farol explorando o local, mas era o horizonte que mais me atraía. Me aproximei da ponta do penhasco e senti Edward logo atrás de mim.

- Bella...

- O que estamos fazendo aqui? - Completei sorrindo. Eu bem sabia que era isso que há tempos ele queria perguntar. Dei mais cinco passos à frente sentindo a brisa do novo dia tocar minha face. - Aqui é mais bonito do que eu imaginava.

- Nunca esteve aqui? - Se colocou ao meu lado.

- Não, mas meu pai sempre falou muito desse lugar. - Inclinei-me um pouco para frente e olhei pra baixo. Ao ter maior consciência da altura, me enchi de medo e recuei. - Ele sempre comentava que quando se formou na universidade, ele e os amigos comemoraram aqui. Edward espreguiçou-se, observando o Sol.

Desde que saí do Bucaneiro, já tinha em mente o que iria fazer. Mesmo com medo, segui em frente com meu plano e tirei as botas.

- O que está fazendo? - Ed ficou confuso e eu apenas sorri. - Não, você não irá fazer isso. - Ele finalmente entendeu meu propósito.

- Eu preciso saltar. - Chacoalhei os braços para relaxar. - Viemos aqui para isso. Você está comigo?

Edward se inclinou um pouco, checando a altura.

- É loucura! São mais de 20 metros de queda livre!

Estremeci com o veredicto.

- E daí? - Me fingi de forte. - Achei que você era um destemido homem da selva. - Ironizei. - Nunca pulou de um lugar assim antes?

- É diferente. Não conheço o local, não tenho ideia da profundidade da água ou se correremos o risco de cair nas pedras.

- É confiável, meu pai já saltou uma vez. - Cresci com Charlie me contando como fora sua experiência e por muito tempo fui fascinada pela ideia de me arriscar pulando do penhasco, mas sempre fui medrosa demais para tentar. - Se você não quiser saltar, tudo bem, mas eu vou. - Fui em direção à beirada, só que Edward me deteve segurando-me pelo braço.

- Não é hora para brincadeira. - Se aborreceu.

- Eu quero muito fazer isso. - Me impus, desvencilhando-me.

- Por que? Você não tem medo?

- Sim, eu tenho, e é justamente por isso. - Suspirei olhando para o horizonte. - Estou cansada de ter medo. - O silêncio predominou por alguns segundos até que resolvi partilhar meus pensamentos. - Pode ser que eu esteja ficando louca porque faz mais de 48h que não durmo, mas estou cansada de viver sempre do mesmo jeito, entende? Passei tanto tempo me julgando e me punindo por amar Brad, que muito da minha vida passou e eu mal percebi. Edward, eu nunca mais vou recuperar aquele tempo, e agora nada me apavora mais do que desperdiçar um minuto que seja me prendendo a algo como o medo. Quero desafiá-lo, preciso aprender a não me deixar paralisar por ele. Olha... - Fiz uma breve pausa. - Minhas pernas tremem só de me imaginar pulando desse penhasco, mas prefiro isso a ter uma existência medíocre e sem emoção, em que a vida passe por meus olhos como um flash e eu só consiga me lamentar por não poder voltar atrás.

Meu amigo lutou para encontrar palavras que me persuadissem a desistir, mas vi em seus olhos uma concordância. Ele não conseguia esconder que pensava exatamente igual.

- Espero que saiba nadar. - Sorriu torto e meu peito se encheu de alegria. - Vamos correr para pegar impulso e cair o mais longe possível das pedras. - Tirou os tênis.

- Voaremos, se for necessário. - Brinquei abrindo os braços.

Entusiasmados, afastamos-nos cerca de cinco metros da beira do penhasco.

- Evite cair de barriga. - Avisou, balançando os braços e estalando o pescoço.

- Pode deixar. - Ri de nervoso.

Minhas mãos ficaram geladas e pareciam existir borboletas no meu estômago. Fiquei com medo das minhas pernas travarem e não saírem do lugar. Então, olhei para o lado e notei que, mesmo ansioso, Ed estava bastante empolgado. Era como se a adrenalina fosse vital para ele. O selvagem sorriu pra mim e sua segurança fortaleceu a minha.

- Está querendo desistir? - Indagou provocando.

- Nunca! - Respirei fundo.

*Link seguro, abrirá no seu media player rapidinho*:

http://www.lindmidis.net/midis/variadas/G/Glee_The_Music_-_Defying_Gravity_-Lea_Michelle_Solo_Version-Rachel.mid

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*Link 4shared para quem não conseguir abrir no original*:

http://www.4shared.com/audio/Ukvf1Z84/Glee_Cast_-_Defying_Gravity_Le.htm

***

Sem que eu esperasse, me obrigou a ficar de frente para ele e segurou as laterais do meu rosto alinhando nossas faces. A proximidade foi tamanha que logo fiquei constrangida. Meu fôlego oscilou no momento em que Edward aproximou ainda mais o rosto dizendo:

- É assim que desejamos boa sorte na minha tribo. - Com suavidade, encostou a testa na minha, fechando os olhos.

Me sentindo tola, fechei os olhos também. Finalmente notei que, para Edward, aquele gesto era natural, não havia outras intenções disfarçadas, pois até pude sentir um certo respeito embutido na tradição peculiar.

- Boa sorte. - Murmurei.

Edward afastou-se e encarou o horizonte preparando-se para correr. Eu também me preparei e procurei não pensar na altura.

- Está pronta? - Perguntou esfregando as mãos.

Trocamos mais um rápido olhar e lhe falei com segurança:

- Finalmente estou.

Minha declaração liberou minhas pernas e coração. Então, no momento em que Ed disse “AGORA!”, corri o mais rápido que pude acompanhando o ritmo do homem ao meu lado. Tudo ficou para trás, não existia nada além do meu corpo em direção ao precipício.

Fui até o fim e meus pés se perderam no vazio enquanto desafiavam a gravidade. Foi impossível não gritar diante da sensação de liberdade e medo. Por um breve momento, tive a nítida impressão de voar acima das águas. Isso foi seguido pelo inevitável sentimento de que não adianta lutar contra a vida. Independente de nossas escolhas, as forças que movem a existência são como um vento forte guiando uma pluma a lugares inimagináveis e a momentos imprevisíveis. Naquele instante eu soube que, ao me revoltar contra o sofrimento, iniciei uma jornada com um final incerto. Até onde eu chegaria?

A queda foi mais longa do que eu imaginei, me fazendo ter uma vaga consciência da altura absurda. Assim que atingi a água, senti-a explodir à minha volta. Submersa, perdi momentaneamente meus sentidos, foi algo apavorante e maravilhoso. A sensação durou pouco, pois fui obrigada a emergir. Logo que o ar adentrou meus pulmões, gritei impulsionada pela adrenalina abrasadora. Nunca senti nada semelhante, era como injetar uma dose cavalar e quase mortal de vida em minhas veias.

Demorei para notar Edward vindo em minha direção, por isso nadei ao seu encontro.

- Incrível! - Ele falou ofegante. - Foi o máximo.

- Eu sei. - Movimentei os braços e pernas ondulando junto com as calmas ondas. - Me sinto tão... viva.

Ambos olhamos para cima e o penhasco pareceu ainda mais grandioso. Em seguida, encaramo-nos e, sem querer, explodimos em uma gargalhada quase que sincronizada.

Defying Gravity - Desafiando a Gravidade

Algo mudou dentro de mim

Algo não é o mesmo

Estou jogando pelas regras

Do jogo de outra pessoa

Tarde demais para repensar

Tarde demais para voltar a dormir

É hora de confiar nos meus instintos

Fechar meus olhos e saltar

É hora de tentar

Desafiar a gravidade

Acho que vou tentar

Desafiar a gravidade

Me dê um beijo de adeus

Estou desafiando a gravidade

E você não me deixará pra baixo

Estou aceitando limites

Porque alguém diz que eles são assim

Algumas coisas eu não posso mudar

Mas até eu tentar, nunca vou saber

Tanto tempo estive com medo de

Perder o amor que achei que tinha perdido

Bem, se isso é amor

Ele vem por um preço muito alto

Pretendo comprar

O desafio à gravidade

Me dê um beijo de adeus

Estou desafiando a gravidade

Acho que vou tentar

Desafiar a gravidade

E você não me deixará pra baixo

Pretendo comprar

O desafio à gravidade

Me dê um beijo de adeus

Estou desafiando a gravidade

Acho que vou tentar

Desafiar a gravidade

E você não vai me deixar pra baixo

Deixar pra baixo

Oooooooooooh!

(...)

Eu não sei exatamente quantas horas dormi, mas quando acordei estava me sentindo muito descansada, tão bem comigo mesma que não tive coragem de levantar da cama. Fiquei observando a brisa que entrava pela janela, brincando com as cortinas.

Ouvi as batidas na porta e sem perder a paz, ordenei que a pessoa entrasse.

- Tá viva, mulher? - Reconheci a voz de Alice. Imediatamente, sentei-me e a fitei, exigindo explicações.

- Onde você estava?

- Eu é que pergunto.

Meu irmão, super animado, entrou no quarto falando:

- Adivinha só o que aconteceu, Bella.

Pensei rápido.

- Finalmente nasceu pelo no seu peito?

- Não... - Ficou cabisbaixo. - Nem todo mundo precisa disso. - Ele tinha trauma.

- Vamos trabalhar de garçons hoje. Vai rolar uma recepção de casamento aqui. - Emm chegou explicando.

- Mesmo? E só agora me falam?

- É porque a senhora agora só anda toda ocupada com o T-zed e esqueceu dos velhos amigos. Do contrário, saberia de tudo. - O bobo resmungou, enciumado.

- Blá, blá, blá... Vai catar sua loira-chave-de-cadeia. - Isso era hora de ele me encher?

- Eu trouxe os uniformes. - Lice exibiu uma sacola plástica.

- A grana vai ser suficiente pra resgatar o carro de Charlie?

- Ainda vai ficar faltando mil dólares. - Jazz esclareceu.

- Se bem que aquilo nem é um carro, é um “pelo menos”... pelo menos não ficamos a pé. - Me queixei.

- Não se preocupem, vamos conseguir. - Lice tentou ser otimista. - O pior é que os novos hóspedes chegam em dois dias... Bel, o que aconteceu com você? - Analisou-me. - Está diferente.

- É, eu também percebi. - Emmett se sentou na ponta da cama.

- Um tornado passou pela minha vida. - Balancei a cabeça sem saber por onde começar.

- Bota tudo pra fora! - Alice colocou as mãos na cintura.

Comecei falando sobre a minha recaída com Brad, o sofrimento pelo qual passei e a conquista de mudanças radicais na minha vida. Contei também minhas aventuras malucas com o selvagem e encerrei falando sobre o salto do penhasco. Meus amigos ficaram bestificados. Não os culpo, eu também mal conseguia acreditar que tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo.

- Uau... - Alice murmurou olhando para o vazio. - Brad? Como eu deixei isso acontecer?

- Brad. - Emm repetiu trincando os dentes. - Eu sabia que o danado ia acabar traçando alguém.

- Será que só vão se prender à esse detalhe? - Fiquei chateada.

- Minha Nossa! Comeram a irmã de Jasper. Acabou-se o respeito por aqui. - Ele cruzou os braços.

- Pessoal, eu estou bem. É sério! Quanto tempo temos antes da recepção? - Levantei-me.

- Ainda são 17:00h, então ainda temos umas duas horas. Não tenha pressa, ainda tem uma galera lá embaixo terminando de decorar o jardim. - Lice respondeu.

- Vou tomar um banho e daqui a pouco desço. - Fui para o banheiro.

(...)

Alice se arrumou em meu quarto e ficou na minha cola, querendo saber mais sobre a ideia de ajudar Edward. Assim que saí do banho, questionou:

- Como vai fazê-lo se apaixonar por uma garota qualquer?

- Eu não espero que ele se apaixone. Vou ajudá-lo a encontrar uma garota bacana e incentivá-lo a dar uns beijinhos... Se ele tiver sorte, quem sabe, não descola uma transa? Você sabe, nada demais. O cara tem 23 anos, por favor, né? O que ele precisa é só um pouquinho de experiência e diversão, pois em breve voltará para o fim de mundo de onde saiu. Eu no lugar dele ia querer aproveitar o máximo possível. Estou fazendo por Edward o que gostaria que fizessem por mim.

- Talvez esteja certa. - Refletiu. - Não seria mais fácil se ele melhorasse um pouco a aparência?

- Xi... Já falei isso pro Ed umas mil vezes. - Mudei de assunto. - Escuta, onde você se meteu ontem?

- Tive que dar um pulinho em Daytona.

- Por quê?

- É um assunto aí meu e do Emm.

- Desde quando tem segredos? Ainda mais envolvendo Emmett?

- Ouviu isso? - Se fingiu de assustada, tentando me enrolar. - Vou ver de onde vem esse som.

- Alice! - Gritei em vão e a louca se mandou.

(...)

Devidamente uniformizada, fui para o escritório de meu pai, já ouvindo os murmúrios dos convidados vindo do jardim. Liguei o computador e fui checar a página de Edward noeutouquerendo.com. Demorei para crer que haviam 28 e-mails em sua caixa de mensagens. As fotos dele com o peito molhado realmente deram resultado. Preocupada com a hora, imprimi as mensagens junto com os perfis das garotas. Organizei da melhor forma possível, grampeando os perfis com fotos às mensagens.

Antes de procurar meu amigo, passei no quarto de Jasper e peguei um par de walkie-talkies que às vezes ele e Emm usavam pra zoar. Saí pela lateral da casa, evitando a parte movimentada do jardim.

- Oi. - Sem cerimônias, entrei na casa da árvore.

- Olá. - Respondeu, guardando um tipo de agenda em sua mochila.

- Olha o que eu trouxe para você. - Exibi as folhas sentando-me no chão. - Temos aqui um monte de garotas bonitas. - Ele pegou a papelada, bastante curioso. - Já decidiu pra quem vai telefonar? Se quiser, podemos ligar para todas que conheceu ontem. - Sorri.

- Hã... - Baixou a cabeça, contendo o riso.

- O que foi?

- Os números sumiram quando mergulhamos no Oceano.

- O quê? - Para informação perturbadora só existe reação exagerada. - AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH! - Extravasei.

- Melhor explodir pra fora do que pra dentro. - O idiota ainda brincou.

- Edward, como pôde deixar isso acontecer? - Fiquei uma fera. - Droga! Tivemos tanto trabalho. Droga! Droga! Droga! Mil vezes droga!

- Desculpe. - Deu de ombros. - Não lembrei dos números quando saltamos pra água.

Rosnei cobrindo o rosto com as mãos.

- Tudo bem... - Respirei fundo me abanando com as mãos. - Não vou perder o controle.

- Podemos tentar conquistar novos números.

- Sem chance! Digo-te, é mais fácil uma agulha passar pelo buraco de um camelo do que eu fazer tudo aquilo novamente.

Por algum motivo, o selvagem fez careta. Até abriu a boca como se fosse me corrigir, mas acabou mudando de assunto.

- Isso tudo são mensagens para mim? - Folheou.

- Sim. Escuta, tenho que trabalhar. Fique aqui lendo tudo direitinho e preste bastante atenção nos perfis. Responda as mensagens que te interessarem em um papel, porque ainda hoje vou tentar digitar no computador e enviar pras garotas.

- Ok.

- Pode ser que tenham escrito gírias que você não entende, então pergunte pra mim através desse walkie-talkie que traduzo pra você. Qualquer dúvida é só me dar um “alô”.

- Entendi. - Pegou um dos walkie-talkies.

Levantei, tirando a poeira da calça preta.

- Ed.

- Sim?

- Não seja muito exigente. - Pisquei o olho.

(...)

Lá estávamos nós, meio perdidos na cozinha movimentada. Todo mundo entrou na “onda de garçom” pra poder descolar a grana do carro. Jully já estava sabendo de todas as nossas presepadas e se dispôs a trabalhar por mim e por Charlie. Já Rosalie..., bem, essa foi literalmente ameaçada de morte sangrenta pela meio-palmo-de-gente mais esquentadinha do pedaço, Alice.

Os funcionários do buffet nos entregaram bandejas. Algumas delas tinham taças de champanhe e outras tinham pequenos vasilhames contendo um líquido branco.

Enquanto passávamos pela sala a caminho do jardim, Lice falou bastante animada:

- Tomara que tenham muitos homens lindos. Faz um tempão que não me engraço com ninguém.

- Concordo. E eu aposto que tem aqueles pedaços de mau caminho vestidos em ternos caros. Ai ai... - Suspirei.

- Deus te ouça. Preciso arrumar um novo marido rico. - Rosalie resmungou. - Estou cheia dessa miséria. Vou ter que fingir que trabalhar é hobby. Nem morta perco a pose.

- Sinceramente... - A verdade era dura, mas precisava ser dita. - Não sei o que você viu no Emmett.

- Ela não viu, não. Eu mostrei foi depois. - Malicioso, deu um tapinha nas minhas costas.

- Vamos lá, pessoal. - Alice interrompeu as asneiras quando chegamos à porta. - Que venham os gatos!

Assim que colocamos os pés no gramado, paralisamos embasbacadas.

- Pela inevitável hora da morte. - Ofeguei.

- Nada de gatos. - Rosalie estremeceu.

- Só cachorros. - Lice choramingou.

E era bicho latindo pra todo lado.

Nós não estávamos preparados pra ver um monte de dondocas desequilibradas celebrando casamento de cachorro. Se não tivesse visto com meus próprios olhos, dificilmente acreditaria.

- Os clientes esperam! - A tia da Alice praticamente nos jogou nas teias da humilhação.

Sem alternativas, passamos a servir as peruas e seus respectivos bichos. Tentei levar na esportiva, mas sempre que olhava pra cadela com vestidinho de noiva e grinalda tinha vontade de tacá-la no rosto de alguém. Eu não tinha uma festa de aniversário decente há anos e a porra da cachorra podia ter um casamento super chiqui? Que mundo é esse?

Me desdobrei servindo as mesas e, quando voltei para a sala, ouvi a voz de Edward vindo do walkie-talkie no meu bolso traseiro.

- Bella?

Peguei o aparelho e respondi:

- Ferrada-da-cidade para Cara-da-selva. Na escuta, câmbio!

- Hã?

É, eu sabia que ele ia dizer isso.

- Se vamos falar pelo walkie-talkie, que seja da forma certa.

- Ah, meu Deus... - Podia jurar que estava revirando os olhos.

- Prossiga companheiro.

- Tem uma frase em uma das mensagens que não entendo. Parece que o significado não é literal.

- Fala aí. - Prestei bastante atenção.

- Uma moça chamada Betty está perguntando se eu não quero “brincar” com ela.

- Responde que sim, maluco! - Qual era a dificuldade? - “Brincar” é o mó barato.

- Bella! - Me repreendeu por enrolar.

- Tá bom... A mulher está a fim de fazer sexo com você.

- Assim, sem nem me conhecer? - Ficou chocado.

- É isso aí. - Tudo que consegui ouvir foi o som de papel sendo rasgado. - Pode ser sua chance, Ed. Cai dentro!

- Cai dentro? - Entendeu errado e não gostou do conselho.

- Juro que falei no bom sentido. - Que trocadilho infeliz!

- Vou continuar lendo as mensagens. - Bufou. - Sem a intenção de “cair dentro”. - Fez questão de deixar claro e eu tapei o rosto, envergonhada.

- Entendido Cara-da-selva. Câmbio, desligo.

- Serviçal? - Alguém cutucou meu ombro.

- Oi? - Me virei.

- Me traga um pouco de leite. - Uma das peruas pediu mexendo no celular. - Droga de Twitter! - Sacudiu o aparelho. Antes que eu saísse, me deteve pelo braço dizendo: - Espere, Beyoncé defecou.

- E isso já está na net? Caramba... Isso é que é globalização. - Embasbaquei.

- Beyoncé, minha cadela. - Apontou para o chão e só aí percebi a presença da criatura assustadora.

- Que raça é essa?

- É um filhote de Xoloitzquintle.

- Hã?

- É uma raça rara, minha querida. - Respondeu com prepotência.

- Ah... tá. - Traduzindo... Era uma ratazana depilada. Nunca tinha visto aquilo na vida, chegava a dar nojo.

- Não perca tempo. Limpe os detritos. - Tirou um pequeno saco plástico da bolsa.

Estreitei os olhos querendo esfregar a cara dela na merda.

- Claro. - Ergui uma sobrancelha me corroendo por dentro.

Tudo pela grana! Tudo pela grana! Tudo pela grana! Repeti mentalmente enquanto limpava a sebosidade.

(...)


Continua.

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