USD - Capítulo Dez. Parte II

(...)

Eu acordei.

Uma lágrima escorreu pelo canto do meu olho conforme minha consciência se estabelecia.

Deus, o que eu fiz?

Eu estava deitada com Brad no banco de trás do mustang. Podia sentir sua respiração em minha nuca e seu braço em volta da minha cintura. Inclinei a cabeça e vi que, em seu relógio, marcavam 04:03h da manhã.

Desvencilhei-me e levantei rapidamente. Minha cabeça bateu na capota, deixando-me ainda mais atordoada. Solucei alto, mas McFadden não percebeu minha agitação e continuou dormindo. Curvada e tremendo muito, arrumei meu vestido, o qual tinha uma das alças rompida.

Busquei por meus sapatos, mas meus olhos focaram apenas a garrafa de vinho vazia e a embalagem de um preservativo. Imediatamente, saí do carro, deixando Brad sozinho com seus sonhos.

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Desorientada, fitei o estacionamento vazio e tive vontade de gritar, gritar até que ficasse sem voz, só que não fui capaz de abrir a boca.

A sensação de impotência e culpa me atingiram. Sentia-me como uma alcoólatra na sarjeta admirando sua pior recaída, ou como um drogado que injetara em si seu amado veneno e agora não podia conter o fogo em suas veias. Retardei as lágrimas o máximo que pude, mas diante dos fatos, não havia mais como contê-las. Então, elas escorreram por minha face envergonhada.

Não tive coragem de olhar para trás e, descalça, fugi. A dor no meu tornozelo se tornou insignificante diante da dor em meu peito e, por mais rápido que eu corresse, não parecia ser o suficiente.

Pelas ruas escuras e quase desertas do meu bairro, corri desesperada para deixar todas as lembranças para trás. O pior é que eu sabia que não adiantava, pois não estava fugindo de Brad, e sim de mim mesma.

Eu havia passado mais de um ano evitando recordar os momentos que tive com meu ex. Por muitas vezes, fui torturada pela vontade de lhe telefonar e não o fiz. Lutei cada maldito dia desde que ele se fora para superá-lo. Disse milhares de vezes a todos que eu estava bem, que Brad era uma página virada e, agora, o que me restava? A vergonha de aceitar que falhei comigo mesma?

Não foi apenas sexo. Eu lancei meu orgulho e amor próprio aos pés de um homem que adorava me manipular. McFadden arrancou-me o resto de respeito que eu tinha por mim mesma, mostrando-me o quanto eu era fraca e dependente dele. Nada, nada no mundo poderia me causar mais dor que isso, pois trair a si mesma é definitivamente o pior tipo de traição.

Continuei correndo. Rua após rua, esquina após esquina, lágrima após lágrima. Ao chegar à mansão, disparei ainda mais rápido pelo jardim e invadi meu quarto, buscando alívio. Fechei a porta e, exausta, caí de joelhos.

Coloquei as mãos na cabeça e o choro explodiu misturado a soluços. Eu não só tinha vergonha do que fiz como também tinha vergonha de mim. Isso é o que tornava tudo pior. Se aquilo houvesse acontecido com outra pessoa, eu seria a primeira a discriminá-la e lhe dizer: como você é idiota! Não se valoriza? Gosta de ficar sofrendo por um homem que nem te ama?

Gemi sabendo que era exatamente isso que eu ouviria dos meus amigos e irmão, mas somente eu sabia o quanto era difícil conviver com uma paixão doentia. Nada do que eles falassem podia me magoar mais do que as lembranças do que aconteceu no carro.

Soquei o chão com força, sentindo o cheiro de Brad em minha pele, vendo sua expressão de satisfação ao me ter e ouvindo seus gemidos ecoarem em minha cabeça. Parecia que eu ainda podia sentir as mãos dele em meu corpo, sua respiração contra meu rosto e isso pilhou a sanidade que ainda me restava.

Levantei-me revoltada e derrubei tudo que havia sobre a cômoda. Desarrumei a cama, desejando destruir qualquer coisa que não fosse a mim mesma, mas foi diante do espelho que meu coração pareceu sangrar.

Olhando o meu rosto borrado, molhado e torturado, pude ouvir aquilo que Brad mais falou durante a madrugada...

Você é minha. Só minha.

O ódio explodiu dentro de mim e eu avancei no espelho. Em prantos, o soquei com toda a força, gritando:

- EU NÃO SOU SUA! EU NÃO SOU SUA! - O espelho estilhaçou em vários pedaços e, mesmo sentindo o ardor do corte em minha mão, não fui capaz de parar. - EU NÃO SOU SUA! NÃO SOU... NÃO SOU!

- Bella. - A voz que soou atrás de mim era de Edward. Fechei os olhos e contive o choro. - O que aconteceu? - Larguei o espelho e virei-me para encará-lo. Edward me fitou preocupado e confuso, porém não tive coragem de lhe contar o que fiz. - O que aconteceu? - Repetiu ainda mais preocupado.

- Nunca realmente acaba. - Murmurei.

Imediatamente, ele entendeu o motivo de minha aflição. Edward analisou meu estado deplorável e, sem dizer uma palavra, fez com que eu me sentisse a mais tola das mulheres. Preferia mil vezes que tivesse me chamado de burra, pois qualquer ofensa seria melhor do que enfrentar aquela repreensão em seus olhos. Ele internamente me julgava e, por outro lado, parecia sentir pena da pessoa descontrolada que eu era.

Não mais suportei e o empurrei para fora do quarto.

- Bella. - Tentou resistir.

- Me deixa em paz! - Gritei, batendo a porta em sua cara.

Eu não podia lidar com o meu julgamento e o dele. Era difícil ouvir sermões de alguém que entendia de relacionamentos só na teoria. Edward nunca ia compreender totalmente o que é amar aquilo que não lhe serve.

O tremor em minhas pernas me fez sentar no chão, encolhi-me desejando que o gosto de Brad sumisse da minha boca. Só que havia vestígios dele em tudo, e eu não tinha dúvidas de que aquele era o seu objetivo.

Tendo dificuldades para respirar, olhei para minha mão e vi o sangue escorrer por meus dedos. Observei algumas gotas tocarem o solo e foi nesse momento que me dei conta de que havia chegado ao fundo do poço. Primeiro meu tornozelo, depois a mão... O que viria a seguir? Eu não estava destruindo só o meu interior, estava subjugando meu corpo e alma àquela maldita paixão.

- Isso não é jeito de viver. - Falei com a voz embargada. - Não é jeito de viver, Isabella. - Fechei os olhos e respirei fundo. - Basta!

Em um impulso, levantei rápido e peguei uma caixa embaixo da cama. Nela, havia recordações da época que namorei com Brad. Objetos dos quais, antes, não conseguia abrir mão. E não parei por aí, decidi me livrar de tudo que me ligasse ao nosso passado. No armário, peguei as roupas que ele mais gostava de ver em mim. Da estante, arranquei os CDs que me lembravam o idiota e carreguei tudo para o quintal.

Larguei a caixa perto da lata de lixo e corri até a cozinha. Lá, peguei álcool etílico e uma caixa de fósforos. Totalmente decidida, voltei para o quintal e joguei na lata tudo que alimentava meu sentimento mórbido por McFadden. Primeiro foram as fotos, depois os bilhetinhos, ingressos de shows, poesias, roupas e, por último, os CDs.

Derramei quase todo o álcool em cima das coisas e ascendi o fósforo. Suspirei olhando para os objetos antes de deixar cair sobre eles o fogo. Não me afastei quando as labaredas subiram. Não desviei o olhar, eu precisava assistir cada segundo daquilo. Transferi todas as minhas amarguras para o fogo e deixei que ardessem, para que, assim, eu pudesse ressurgir das cinzas.

E foram as chamas que me fizeram enxergar que o grande problema não era necessariamente Brad, e sim eu, pois no momento que passei a amá-lo mais do que a mim mesma, condenei-me. Quanto tempo passei fugindo dessa conclusão...

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Como uma pessoa ferida, por muitas vezes repudiei o amor, mas era exatamente dele que eu precisava. Encontraria uma forma de resgatar meu amor próprio, acharia um meio de conviver comigo mesma em paz.

Foi um erro tolo e inconseqüente fingir que namorava Edward para mostrar a McFadden que eu estava feliz. Eu nunca deveria tê-lo colocado como o centro dos meus planos ou de minha vida, porque o centro de tudo era eu mesma. Tarde demais descobri que fazê-lo sofrer ou humilhá-lo não me salvaria.

E o que me salvaria? A resposta sempre esteve diante de meus olhos, mas me enganei sem sentir.

Aquele começo de manhã era o momento de recolher todos os pequenos pedaços de mim e recomeçar. Não apenas existir ou resistir, mas viver. Eu não precisava de um homem para me completar, eu necessitava era de ousadia e coragem para me fazer feliz.

Quando as chamas consumiram todas as banalidades a que dei demasiada importância, apaguei o fogo e voltei para o quarto. O local refletia meu interior: bagunçado, triste, sujo e por isso limpei o quarto com todo o carinho. Coloquei cada coisa em seu devido lugar, juntei o vidro quebrado, tirei o pó, varri e perfumei.

Aquela simples tarefa me trouxe de volta o juízo e a razão que há tanto tempo havia perdido. E, pela primeira vez, eu realmente sabia o que fazer. Tinha consciência de que as mudanças de minhas atitudes e hábitos não ocorreriam do dia para a noite. Era necessário tempo, trabalho e vontade. Precisava passar a cuidar de mim como ninguém fizera e respeitar os meus limites.

Para fortalecer meus novos ideais e não me deixar perder o rumo, peguei uma caneta piloto e comecei a escrever mensagens para mim mesma nas paredes. Algumas delas eram trechos de músicas, outras eram poesias e algumas das frases surgiram de minha mente regenerada.

“Cortei todas as minhas ervas daninhas, mas mantive as flores.”

“A vida, acredita, não é um sonho tão negro quanto os sábios dizem ser. Frequentemente uma manhã cinzenta prenuncia uma tarde agradável.”

"É possível mudar nossas vidas e a atitude daqueles que nos cercam simplesmente mudando a nós mesmos."

“A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe.”

“Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre.”

“Meu coração é como uma estrada aberta.”

“Que eu tenha forças para mudar o que posso e humildade para aceitar o que não posso.”

“Acorde, reaja e lute. Não há um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.”

Ao terminar de escrever, fiquei de pé no meio do quarto e girei lentamente olhando para as mensagens nas paredes. A dor em meu peito dissipou-se e já não me importava com meu erro da noite passada. Não existia mais culpa, pois consegui perdoar a mim mesma. Não fazia sentido prender-me ao arrependimento e carregá-lo comigo dificultando minha caminhada. Eu estava determinada a não deixar aquilo me afundar. Era um novo dia e eu precisava fazer com que fosse também um novo começo.

- Bella, você nunca mais irá se preocupar em esquecer Brad. - Suspirei, deliciando-me com o momento. - Seu objetivo agora é ser a heroína da sua própria história.

Então, um sorriso honesto, esperado e libertador cintilou em meu rosto. Agora eu podia ser o tipo de pessoa que diz: dentro do meu pior momento foi que tive minha maior vitória.

Ri alto, uma risada tão gostosa que fez-me sentir uma garotinha e, ao mesmo tempo, uma mulher poderosa.

Fui para o banheiro e tomei um banho demorado. Não fiquei desesperada esfregando meu corpo para me livrar do cheiro de McFadden. Apenas aproveitei a água, o cheirinho bom do sabonete e cantalorei minha música favorita. Depois, fiquei em frente ao espelho do banheiro, onde sequei o cabelo com o secador e o deixei bem bonito.

Passei uma maquiagem leve. Um pouco de base, blush e um batom rosado. Coloquei meus brincos favoritos e fiz algumas caras sexys na frente do espelho.

Fui para o quarto e procurei no armário um jeans bacana. Também peguei uma regatinha branca e calcei meus tênis. O visual descontraído e despojado refletiu meu estado de espírito. Resgatei uma antiga bolsa traspassada e coloquei nela tudo o que eu achei que poderia precisar.

Quando já estava saindo do quarto, me lembrei de pegar um caderno e uma caneta. Sentindo-me incrivelmente animada, fui para o jardim. Já passavam das 8:00h e o sol brilhava no céu limpo da minha querida Flórida.

Fiquei surpresa em ver Emmett e Jasper fazendo flexões no gramado. Eles estavam mesmo levando a sério o tal treinamento. Rapidinho, fui até eles e joguei-me no chão.

- 45! - Emm contou subindo e descendo.

- 46! - Jasper revirou os olhos, sem forças.

- 47! - Falei me juntando a eles. - Vamos lá, pessoal. Força! - Com esforço, fiz a flexão.

- 48! Não vem zoar, Bella. - Meu amigo ofegou.

- 49! Não estou. Eu sei que vocês serão os próximos Chuk Norris. - Ri.

- 50! - Jazz se jogou no chão, mortinho nas calças.

- Emm, preciso do seu jipe. - Sorri.

- Onde vai? - Estranhou, tirando as chaves do bolso da bermuda.

- Curtir o meu dia, baby. - Tomei as chaves de sua mão e levantei-me. - Malhando, malhando, vão ficar gostosos. - Cantarolei batendo palmas. Meu irmão, sem conseguir tirar a cara do gramado, mostrou-me o dedo do meio.

Deixei os malucos se exercitando e quase corri para a casa da árvore. Precisava me desculpar com Edward. Fui estupidamente grosseira com ele na noite passada. O cara estava preocupado comigo e eu só conseguia pensar nos possíveis julgamentos que fazia ao meu respeito. Como eu podia saber o que ele realmente estava pensando? Respondo, não podia. Me precipitei. E era por isso que precisava reverter o quadro.

Diante da casa, assobiei alto. Depois, gritei:

- Edwaaaaard! - Novamente assobiei. - Edward!

Ele colocou a cabeça na pequena janela e me fitou confuso. Rapidamente, rabisquei no caderno e, com as duas mãos, o ergui acima da minha cabeça. Ansiosa, esperei que lesse o“DESCULPA?”.

O selvagem bufou e eu temi que seu rancor prevalecesse. Então ele se afastou da janela e eu baixei as mãos. Parecia que eu tinha perdido aquela parada.

Me preparei para ir embora, mas Edward retornou exibindo uma folha de papel, na qual estava escrito: “SIM!”. Ele sorriu revirando os olhos e não consegui conter minha gargalhada. Havia um início de desenho na folha dele, apenas um rabisco, só que não consegui entender o que era.

Explorei seu bom humor e em outra folha escrevi: “Quer tomar café comigo?”

Edward escondeu o rosto atrás do “SIM!”. Intimamente vibrei por ter conseguido acertar os ponteiros com ele. O cara era legal e era de pessoas assim que eu devia ficar rodeada.

(...)

Levei Edward ao Loch Haven Park, era uma boa manhã para caminhar lá. Algumas pessoas faziam cooper, outras passeavam com os cachorros. Nós ficamos sentados perto do laguinho apreciando nosso modesto café da manhã. Com meus últimos trocados comprei dois cafés e um croissant.

- Quer falar sobre ontem? - Ed perguntou olhando para a água.

- Pode ser.

- Como se sente?

- Ótima.

Ele me encarou confuso.

- Ótima?

- Sim. Como já sabe..., dormi com Brad. - Dei de ombros. - Fui idiota e pretensiosa aponto de achar que conseguiria dominar minhas fraquezas tão facilmente. Típico! - Bufei. - Quando me dei conta do que fiz fiquei arrasada e chocada. Realmente era a pior coisa que podia me acontecer. Anulei o meu orgulho e agi como a marionete que McFadden adora comandar. Chegar a esse nível me fez perceber que o problema era comigo. Não estava me dando o devido valor. Eu não sou uma pessoa perceptiva, demoro a enxergar a verdade e, por isso, acabo tendo que passar por situações horríveis para finalmente aprender. Durante a madrugada percebi que estava perdendo um tempo precioso da minha vida pensando em como esquecer Brad, ou tentando mantê-lo fora da minha mente. De um jeito ou de outro, o centro das minhas preocupações era sempre ele. Isso não é jeito de viver, Edward. Eu quero mais. Muito mais. - Fiz uma pausa para respirar fundo. - Hoje decidi radicalizar e iniciar uma busca pela garota que um dia fui. - Sorri. - Ou achar um atalho para chegar à mulher que um dia serei. Em fim, cansei de autopiedade e principalmente cansei de Brad. Sei que minha obsessão por ele não sumirá da noite para o dia, mas não estou preocupada com isso e nem me importo se daqui pra frente eu cometer alguns erros, desde que sejam pelos propósitos certos. Tudo que eu quero é ter um dia maravilhoso e extrair dele toda a felicidade possível. Ta bom? Esclarecido? Vamos esquecer esse assunto.

Edward baixou a cabeça e riu.

- O que foi?

- Nada. - Continuou rindo baixinho.

Achei que ele me daria um tapinha nas costas ou diria que eu estava no caminho certo, mas não esperava vê-lo tão sorridente. Ed até tentava disfarçar evitando me olhar, porém era visível sua... alegria?

- Ah meu Deus... - Gargalhei. - Você está surpreso comigo, não é? Confesse. - Ele se esforçou para ficar sério. - Não... - O estudei, estreitando os olhos. - Está... orgulhoso? - O cara gemeu, mas não negou e isso confirmou minha suspeita. - Está orgulhoso de mim? - Ri embasbacada. Edward deitou-se no gramado cobrindo o rosto com as mãos. - Nossa, você está muito, muito orgulhoso de mim. - Provoquei cutucando-o. Deitei-me ao seu lado e banquei a metida. - A vida é assim, meu caro amigo, num dia somos uma bruxa estabanada, no outro somos o orgulho da nação. - Minha declaração fez com que o selvagem desse uma alta e contagiante gargalhada.

(...)

Estávamos caminhando perto da fonte quando me lembrei do diamante. O peguei em minha bolsa e o estendi para meu amigo.

- Por que está me devolvendo? - Franziu o cenho.

- Não quero correr o risco de perder ou vender. Essa pedra passou a ser importante para mim. Por favor, preciso que fique com ela.

Edward a pegou e, com cuidado, estudou-a.

- Tem certeza?

- Sim. Ela me fez passar por coisas inacreditáveis, não suportaria perdê-la novamente. - Era difícil abrir mão de algo tão valioso. - Se ficar com você, sinto que estará segura.

- Essa pedra me traz boas recordações.

- Mesmo? - O incentivei a falar. O cara era muito introspectivo.

Ed olhou para o parque, possivelmente refletindo se devia se abrir comigo. Ascendeu-se em mim uma pequena chama de esperança. Torci para que ele tomasse a decisão certa.

- Quando eu tinha 6 anos, meus pais se separaram. - Assim que ele começou a falar, vibrei intimamente. - Meu pai tinha o sonho de morar na ilha Malaita, ele estava cheio de projetos e se recusava a desperdiçar sua vida lecionando em uma universidade. Só que minha mãe não partilhava do mesmo sonho. Era inconcebível para ela morar em um lugar tão longínquo e inexplorado. Sarah queria uma vida agitada e glamorosa. Não culpo meu pai por ter ido embora, eles brigavam muito e ambos eram infelizes. Hoje, mesmo não entendendo muito sobre relacionamentos, acredito que pessoas com ideais diferentes não conseguem conviver. - Suspirou. - Bem, meu pai seguiu seus instintos e achou seu lar na ilha. Continuei com Sarah, mas ao completar 8 anos ela precisou me levar para a ilha.

- Por quê? - Fiquei intrigada.

- Sarah era atriz de teatro, estava sempre viajando e me levava junto. Não tínhamos casa nem raízes. Éramos como andarilhos. Eu nem mesmo estudava. Então, como eu disse antes, aos 8 anos fui para a ilha. - Havia um misto de melancolia e saudade escondido atrás de sua face serena. - A primeira semana foi muito difícil. Eu odiava aquele lugar e sentia-me abandonado. Passei vários dias sem falar e meu pai começou a ficar preocupado. Acho que se sentia um pouco culpado. Então, um dia ele fez um acordo comigo. Me levaria para explorar a ilha por dois dias e se eu achasse algo que me interessasse ou gostasse, ficaria em Malaita por mais um mês. Meu pai acreditava que era o tempo necessário para eu me adaptar. Do contrário, ambos voltaríamos para os EUA. Eu concordei e vagamos pela ilha por um dia e meio. Eu era só um garoto, realmente fiquei impressionado com o lugar, mas foi essa pedra que mudou tudo. - A jogou para o alto e esperou que caísse em sua palma. - Eu a encontrei perto do vulcão que os nativos chamam de Makimera. Fiquei tão empolgado por achar um diamante. - Riu. - Pensava que havia encontrado parte de um tesouro. - Ri também, tentando visualizar a cena. - Como eu tinha achado algo de que gostasse, tive que cumprir minha parte do acordo. Não precisei de um mês inteiro para ficar encantado pela ilha, em pouco tempo, me apaixonei pelo lugar. Malaita é coberta por bosques quase impenetráveis, enquanto nos planaltos do norte estendem-se os pastos, e as costas estão cheias de arrecifes de coral. Eu vivi inúmeras aventuras lá, coisas das quais a maioria das crianças nem sonham. Era como se a ilha fosse um mundo esquecido onde eu pudesse ser o que eu quisesse, e de fato sou. Com o decorrer dos anos, passei a ser um membro ativo da tribo Waibirir, sirvo de guia para um grupo de biólogos, ajudo Carlisle com suas pesquisas e cuido do meu animal favorito.

- Que animal? - Eu estava fascina pela descrição de sua vida.

- Eu tenho um puma. - Confessou olhando-me rapidamente.

- Sério? - Embasbaquei. - Como assim?

- Não existe esse tipo de felino na Ilha. Quando eu tinha 18 anos, um biólogo trouxe o filhote da Patagônia e me presenteou. Era uma forma de agradecer por meus serviços, já que não cobro para ser guia. Indah é uma fêmea com 65 centímetros de altura e tem um pouco mais de 80 quilos. É uma excelente caçadora. Aprendi muito sobre felinos por causa dela.

- Indah? - Fiquei curiosa quanto ao nome.

- Sim. - Sorriu orgulhoso. - Em indonésio significa... - Encarou-me e seu sorriso desapareceu. Podia jurar que acabara de descobrir algo.

- Significa? - Insisti.

- Acho que agora entende porque consigo lidar com o puma do zoológico. - Mudou de assunto.

- O que falou explica muita coisa. Só que tem algo que não entendo. Por que me deu o diamante? - Parei e esperei pela resposta enquanto ele relutava.

- Não quero falar sobre isso.

- Precisa me contar, pois estou muito confusa. O diamante é importante pra você e me deu como se não tivesse valor algum. - Mantive meus olhos fixos nos dele, mostrando que insistiria se fosse necessário.

- Primeiro, para mim o diamante não tem valor monetário. Vivo longe do consumismo desenfreado dos continentes. Eu podia ter te dado qualquer tipo de mineral que ia significar a mesma coisa. Segundo... - Fez uma pausa que me deixou impaciente. - Faz parte do meu rito de passagem. Não posso ser apegado a coisas materiais. Não é fácil abrir mão de certas coisas, mas tento me lembrar que o materialismo corrompe o homem. E... os anciãos da tribo me deram uma única chance, não posso falhar. Quando você me entregou aquela muda de roupa, vi que estava tentando estabelecer uma linha de convívio pacifica. Como eu precisava disso para continuar vivendo em sua casa, decidi retribuir sua generosidade. Eu não trouxe muitas coisas da ilha, por isso lhe dei o diamante. Confesso que cheguei a pensar que não deveria, mas lembrei que talvez algo de bom acontecesse com você como aconteceu comigo.

- Você nem gostava de mim. - O lembrei.

- Tem razão, mas precisava mostrar que eu não era um Pé Grande. Francamente, achavam que eu ia literalmente devorá-los.

- Ah. - Baixei a cabeça morrendo vergonha. - Não chegamos a acreditar realmente que era um canibal.

- Sei. - Óbvio que não caiu na minha.

- Ao contrário do que imagina, só coisas ruins aconteceram comigo. Seu diamante não me trouxe sorte.

- Mas cuidou bem dele, certo?

- Hã... Claro. - Desviei o olhar. Se ele soubesse...

- Bella, quero que fique com o diamante.

- Não, não. Já tive minha cota de azar Malaita.

- Não acredite em superstições bobas. - Colocou o diamante em minha mão. - Fique com ele, assim poderá se lembrar de mim quando eu for embora.

Pedindo daquele jeito como eu ia dizer “não”?

- Ok. - Suspirei antes de colocar o precioso de volta na bolsa. - Então, qual a parada do rito de passagem? Não consigo entender direito. - Voltei a caminhar.

- Hum. - Gemeu se fechando novamente.

Não desisti, tinha que mantê-lo falando.

- Para mim parece uma grande bobagem.

Edward encarou-me, levemente ofendido.

- Não é mesmo. - Mordeu a isca. - Esse rito tem várias etapas e uma das mais importantes é explorar o desconhecido. Isso exige força e coragem, qualidades essenciais no caráter de qualquer pessoa. Eu queria ir para o Nepal, mas meu pai me convenceu de que nada era mais desconhecido para mim do que este lugar. - Olhou em volta. - A vida aqui é tão estranha. As motivações e atitudes também, mas eu não reclamo. Respeito sua cultura.

Esforcei-me para entendê-lo.

- Você está aqui para aprender e se inserir em nosso estilo de vida?

- Sim.

- Como isso pode te ajudar?

Edward refletiu.

- Vou te dar um exemplo. Digamos que você tivesse que ir a um lugar muito distante e diferente do que esta acostumada. Precisaria interagir com os nativos e entender melhor seu linguajar e cultura e, assim, conseguir sobreviver, mas junto com tudo isso vem a experiência. Os princípios que usou para sobreviver naquele lugar servirão para te orientar em qualquer outra parte do mundo, pois já saberá como agir em situações extremas e desorientadoras. Tudo que eu sei sobre os continentes é teórico, seria hipocrisia dizer que sei como viver se existem coisas pelas quais nunca passei. - Franziu o cenho buscando lembrar de algo. - É como Ivan Teorilang escreveu: qualquer aprendizado se tornará mais efetivo com as experiências do que muitas teorias e conselhos massificados em vão, haja vista que até uma experiência nova concluída muitas vezes acaba derrubando velhas teorias.

Eu estava ficando louca, ou a presença do selvagem em Orlando começava a fazer sentindo?

- Sinceramente, eu acho que morar na casa da árvore e pousar para fotos junto ao puma não é o que precisa. Existem milhões de coisas pelas quais deveria passar. Você está longe de entender o que é viver nessa sociedade.

- Sério? - Indagou meio decepcionado.

- Com certeza. - Ri.

De repente, um sujeito passou por nós disparado. Precisei me encolher para não ser atropelada.

- Minha pasta! Minha pasta! - Olhei apara trás e vi uma jovem senhora berrando e correndo em nossa direção.

- Não se preocu... - Olhei para o lado e nem sinal de Edward. Contra vontade, olhei para frente e gemi ao vê-lo correndo atrás do ladrão. - Fala sério! - Gritei antes de disparar atrás dele. O maluco podia levar um tiro! - EDWAAAARD! - Forcei meu tornozelo e aumentei a velocidade. - EDWAAAAAAARD! - Se ele me ouviu, ignorou. Puta merda! Já não bastava o que eu tinha corrido durante a madrugada? O selvagem continuou na cola do ladrão, mas eu estava ficando para trás. Não podia parar, me sentia responsável por ele. - EDWARD, ACHO BOM VOCÊ NÃO MORRER PORQUE EU VOU TE MATAR! - Fiquei uma fera. Quem ele pensava que era? Um cachorro cruzou o meu caminho e precisei pular por cima dele para não perder os caras de vista. Ao passar por uma família que fazia piquenique, roubei das mãos de uma adolescente uma maçã e a joguei com força na direção de Ed, mas, infelizmente, a fruta passou longe. Então eles entraram numa fileira de arbustos e eu precisei colocar os braços na frente do rosto para não sair de lá ferida. - Eu até gosto de correr, mas realmente odeio a natureza! - Resmunguei tentando desviar dos galhos. - EDWAAAARD! - Ao me livrar dos arbustos, dou de cara com o quê? Um muro de pedra. - Qualé?! - O ladrão e o sabe-tudo-da-selva pularam com facilidade, mas, obviamente, me estrepei toda. Lentamente subi no muro, me agarrei nele e deslizei feito uma velha caquética para o outro lado.

Na calçada, respirei fundo, e avistei os manés do outro lado da movimentada avenida. Em um impulso, tentei atravessar correndo e um carro freou em cima de mim.

- Quer morrer, sua louca? - O motorista berrou colocando a cabeça para fora do veículo.

Bati no capô e gritei irada.

- Da licença, estou tentando ser heróica aqui! - Fui para a calçada e continuei perseguindo o selvagem. O problema é que com as pessoas indo e vindo mal consegui sair do local, então tive que desistir. Olhei por cima das cabeças das pessoas e nem sinal de Edward. - Isso não é bom. - Lamentei. - Deus, por favor, não me faça perder esse homem novamente. - Bufei. De repente, ouvi gritos atrás de mim. Olhei na direção do tumulto e bestifiquei ao ver o ladrão espantando as pessoas para passar. Como eles tinham dado a volta? Conforme o sujeito se aproximava a galera ia abrindo espaço e, assustada, corri. Como o cara estava chegando cada vez mais perto, aumentei o ritmo e demorei para cair na real: peraí, por que estou correndo? Imediatamente parei. Vi que o ladrão estava distraído com Edward e me posicionei no meio fio. - Me empresta? - Arranquei a bengala de um senhor. Logo que o ladrão se aproximou, lhe dei uma bengalada no estômago. Ele automaticamente desabou. A pancada foi tão segura que quase pude sentir sua dor. Ed nos alcançou e imobilizou o mané deitando-o de bruços na calçada. Devolvi a bengala e algumas pessoas aplaudiram, e eu, que não era besta, peguei a pasta do chão e acenei de um lado para outro me sentido. Nunca havia sido aplaudida antes.

Em questão de segundos, a dona da pasta e dois guardas do parque se aproximaram. Edward deixou que os homens levassem o ladrão, mas a executiva ficou para agradecer. Entreguei-lhe seus pertences e ela agarrou minha mão.

- Muito, muito obrigada. - A mulher tremia um pouco. - Vocês praticamente salvaram a minha vida. Nessa pasta tem contratos importantíssimos da empresa onde trabalho e, se eu os perdesse, minha carreira estaria arruinada. Como posso recompensá-los?

Dei de ombros e Ed respondeu:

- Não precisa.

A executiva abriu a pasta e pegou sua carteira.

- Por favor, faço questão.

- Não precisa mesmo. - O selvagem insistiu.

Fuzilei Edward com os olhos. Precisava sim! Eu corri metade do parque, enfrentei a fúria da natureza, pulei um muro e quase fui atropelada por nada?

- Obrigada. - Estendi a mão. A mulher me deu 300 pratas e eu fiquei mega feliz, afinal não tinha um tostão. Ela agradeceu mais algumas vezes e se foi. Precisei suportar os olhares de repreensão de Ed. - O que foi? Vou dividir com você. - Ele revirou os olhos e saiu. O segui tagarelando. - A gente se deu bem, hein? - Ri sentindo um cheirinho de sorte no ar. - Podíamos formar uma dupla, sente só o peso: Edward e Bella contra o crime. - Minha idéia o fez recuperar o bom humor.

- Edward e Bella contra o crime? - Gargalhou.

- Pode crer! Você tem idéia melhor?

- Não devia ter aceitado o dinheiro daquela mulher.

- Fala sério! Eu preciso mais que ela e, convenhamos, merecemos. Se você não precisa de dinheiro para viver, eu preciso. Quer saber? Deveria se juntar a Jasper e fundar uma comunidade hippie.

- Consumista. - Acusou em tom de brincadeira.

- Comunista. - Retruquei. - Ei, então, me deixa te comprar uma coisa?

- O quê? - Ficou curioso.

(...)

- Hum... não sei. Ficou parecendo um mafioso. - Prendi o riso olhando para Edward de óculos escuros. Nós estávamos em uma seção de uma loja de departamento. - Tenta esses. - Me livrei dos óculos feios e lhe entreguei outros. - Eu estava aqui pensando com os meus botões... O que de nossa sociedade te deixa mais intrigado? Sabe, aquilo que você acha que nunca vai entender. - O selvagem colocou os óculos e torceu a boca. Percebi que havia algo que não queria partilhar comigo. - Pode confiar em mim.

- Promete que não vai debochar?

- Prometo!

- Er... - Baixou a cabeça. - Não entendo as mulheres.

Foi impossível não gargalhar. Ed fitou-me chateado.

- Desculpa. - Coloquei a mão na boca para conter o riso. Nunca que eu ia imaginar que o selvagem se preocupava com aquilo. - Então é isso? Você quer entender o sexo feminino?

- Hã... - Fez uma careta cômica, não sabendo como responder.

- Há quanto tempo pensa sobre essa questão?

- Bem, só nos últimos... - Coçou a nuca. - Dez anos.

- Espera. - Dei-lhe as costas, tapei a boca com as mãos e tive uma crise de riso daquelas. Não conseguia parar de pensar como a adolescência do “rei da floresta” devia ter sido difícil, afinal, tinha hormônios pipocando e nenhuma garota pra lhe ajudar a matar as vontades. Assim que a crise passou, respirei fundo e o encarei com uma forçada seriedade. - Se quiser posso te explicar algumas coisas.

- Antes ou depois de você morrer de rir?

- Desculpa. - Ri novamente. - Tudo bem. Eu não vou mais rir, é sério. - Tirei da minha bolsa um bloco de notas e caneta. - Toma, anote tudo que eu lhe disser. - Edward, receoso, pegou o bloco. - Pronto pra dar adeus a suas dúvidas?

- Sim.

- Ok. A pergunta que todos os homens fazem é: o que as mulheres querem? - Peguei os óculos de Ed e os coloquei em meu rosto. - A resposta é simples: tudo!

- Tudo? - Franziu o cenho.

- Tudo! - Confirmei. - Não me entenda mal, eu sou do time das mulheres, mas preciso dizer que somos piradas. Nós queremos tantas coisas ao mesmo tempo que acabamos nos perdendo e não conseguindo decidir o que realmente precisamos. Exemplo, se um cara fala que vai ligar, ficamos no pé do telefone e o xingamos por não ligar, mas se ele liga antes do que esperávamos já o descartamos por achar que está desesperado demais. Ninguém quer um homem excessivamente carente. Quase todas dizem que não namoram por interesse, mas sempre sonhamos em encontrar um cara cheio da grana. As românticas dizem que o amor é cego, só que ninguém pega o feinho da festa. Está anotando?

- Ah, claro. - Aturdido, passou a rabiscar.

- Mulheres não têm melhores amigas, têm cúmplices. Elas é que apontam os defeitos dos nossos partidos, mas como somos metade masoquistas, gostamos dos caras assim mesmo. Eu chamo isso de síndrome do garanhão. Muitas mulheres se interessam pelos mulherengos achando que vão conseguir dobrá-los e fazê-los comer na palma de suas mãos, só que demoram a perceber que são só mais uma na lista extensa de conquistas. Depois, obviamente, culpamos o cretino e nunca a nós mesmas.

- Não faz sentido. - Edward comentou.

- É, meu amigo, nunca faz. Existe também o tipo de garota que procura o homem certinho, sabe, o tipo que dá pra casar. O problema é que esses... xi... Demoram a ter atitude, o que deixa qualquer uma impaciente. O que ele vira? Mais um número nas estatísticas de traição, pois sempre vai aparecer um cara com lábia pra fazer o serviço completo. Advinha quem vamos culpar?

- O certinho? - Ficou na dúvida.

- Exato! Agora, existe uma coisa que você realmente precisa aprender.

- O quê?

- Todas as mulheres sempre estão em busca do homem ideal. As qualidades desse homem ideal variam de pessoa para pessoa, cada um tem o seu gosto. Algumas não sabem, mas é o nosso ponto fraco. Visto que uma vez que um partido toma conhecimento das características dessa fantasia, pode forjá-la e facilmente nos iludir. Às vezes ficamos tão presas a esse ideal que nenhum homem parece bom o suficiente. Algumas garotas até fingem que não sonham com o cara perfeito, mas ele está impregnado na cultura feminina. Quando somos crianças, nos empurram histórias de príncipes encantados que nunca vão existir. O engraçado é que depois todo mundo finge que não sabe por que as mulheres são as que mais sofrem.

- Uau... - Pelo visto deixei Edward ainda mais confuso. - Como as pessoas conseguem manter um relacionamento com tanto... conflito interior?

- Alguns relacionamentos até dão certo. Digamos que alguns sortudos conseguem encontrar as tampas de suas panelas. É um número bem pequeno, pois a grande maioria finge. Fingem que não se irritam com os defeitos do parceiro, o que gera futuras brigas. Fingem que estão felizes para convencer a si mesmos. Fingem que o marido não está dormindo com a vizinha. Fingem que vai durar algo que nasceu fadado ao fracasso... Fingem, fingem e fingem.

- Que triste. - Constatou fechando o bloco.

- Edward, é triste dizer, mas não existem romances épicos como nos livros. - Coloquei uma mão em seu ombro apoiando-o. - Isso que muitos chamam de “amor” é um bichinho perigoso. - Ele permaneceu calado, refletindo. Me arrependi de tê-lo bombardeado com a realidade. - Quer saber, é como você disse, a experiência supera a teoria. Ed, está na hora de você se relacionar com uma garota. Arranje uma bem legal, aí quem sabe poderá tirar suas próprias conclusões.

Ele ficou surpreso com meu conselho. Me afastei e tirei os óculos.

- Bella?

- Sim?

- Me ajuda a arranjar uma garota legal?

- O quê? - Fiz cara de otária.

- Por favor? - Ele devia estar fazendo sua expressão mais persuasiva, pois fui incapaz de dizer “não”.

- Eu... eu... -Engoli em seco, em seguida, cedi. - Tudo bem. Depois que fingiu que era meu namorado, te devo uma.

Edward deu um largo sorriso.

(Continua...)


Diário de Bordo - Edward Cullen

Orlando, EUA.

Minutos atrás estive no quarto de Bella. A vi passar correndo pelo jardim e precisei ir lá ver se estava tudo bem. No início não entendi por que estava chegando aquele horário da madrugada, mas logo percebi que algo grave tinha acontecido. Quando olhei dentro dos olhos da garota, percebi o que ela tinha feito e a causa.

Bella continua sofrendo por causa daquele homem sem escrúpulos... Até o nome dele me deixa enjoado, pois vejo nele o tipo de pessoa que eu nunca quero ser.

Não entendo como Bella consegue se manter ligada a um homem que lhe faz sofrer, não existe lógica nisso. À primeira vista ela me pareceu uma garota simplória e desinteressante, mas com o decorrer do tempo percebi que havia mais nela. Quando acho que vai agir de um jeito, contraria minhas expectativas e age de outro. Não existe um padrão, e isso mantém minha mente ligada a suas atitudes, buscando explicações para a existência de uma personalidade tão caótica. Será que maior parte das mulheres são assim? Espero um dia saber essa resposta.

Respostas... Continuo em busca delas. Até agora não me arrependi de ter vindo para os EUA. Ver com meus próprios olhos como é a vida na cidade só me fez sentir gratidão por ter crescido em uma ilha. Provavelmente, nunca vou esquecer de como as pessoas me julgaram quando cheguei a Orlando. Os olhares tortos começaram no aeroporto e se estenderam até a residência do Sr. Swan.

Eu erroneamente achei que estava preparado para qualquer recepção ruim, no entanto a reação de Bella quando fui cumprimentá-la me deixou desconfortável. Naquela época, se eu pudesse teria lhe falado algo cortês, mas como estava preso ao meu voto de silêncio fiz o melhor que pude e lhe cumprimentei como fazem em minha tribo.

Ela me olhou como se eu fosse um bicho e isso me ofendeu. Passei a ficar na defensiva e tentei ignorar os cochichos dela com os amigos. Eles tiveram uma primeira impressão ruim de mim, mas eu também tive uma primeira impressão ruim deles. O que me revoltou foi eles pensarem que só porque eu não falava era idiota. Não sei como conseguiram chegar a essa conclusão. Quando tentaram entrar em contato comigo eu tive que rir, pois não conseguia compreender como quatro adultos podiam choramingar, gritar e chegar ao cúmulo de pensar que eu os comeria. Até hoje tenho vontade de rir quando lembro de Emmett querendo me presentear com um spray para mal hálito e Jasper se esforçando para me cumprimentar conforme a tradição dos Waibirir. Esses dois rapazes são tolos e covardes, mas são boas pessoas. Eu realmente gosto deles e espero ajudá-los.

De todas as bobagens que pensaram a meu respeito, somente uma me serviu. O fato de acharem que eu era surdo e mudo me ajudou a manter meu voto de silêncio, embora algumas vezes tive vontade de falar ao invés de escrever. Fico feliz de ter conseguido alcançar meu objetivo e passar por uma das etapas do meu rito de passagem. As dificuldades que enfrentei me fizeram valorizar o poder das palavras. Hoje procuro não usá-las desnecessariamente.

Falando em palavras... Queria ter digo algo a Bella, mas certamente só seriam coisas que ela já sabe. Estou meio curioso para saber o que fará agora que se rendeu a Brad. Não consigo prever qual será o seu próximo passo, isso me incomoda e intriga.

Bella, quando quer, consegue ser bem agradável. Por vezes, acho sua companhia bastante divertida, porém muitas, muitas vezes simplesmente não gosto dela por causa das suas falhas de caráter. É bastante conflituoso, nunca passei por nada parecido e estou estudando a situação com muita calma.

De tanto “estudar a situação”, algumas vezes viro a noite refletindo sobre as experiências que tive até agora. E foram muitas. Por causa dos erros cometidos, agora fico me policiando para não ser dominado por meus hormônios. Não quero ter outras reações instintivas como aconteceu na noite que Bella me beijou.

Droga, esse não é um bom momento para ficar pensando sobre isso. Preciso manter minha mente limpa para treinar os rapazes assim que o dia amanhecer. Em outra hora colocarei tudo em uma balança e buscarei assimilar melhor essa relação incomum que tenho com Bella. Gostaria que meu pai estivesse aqui para me orientar... Mas não, eu preciso achar sozinho o caminho para as respostas.

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