ED - Capítulo 9


Capítulo 9.



Sozinha. Como sempre deveria ser. Eu não devia ter o direito de me interessar por alguém, muito menos de tomar o tempo de outra pessoa. Eu estava morta! E de uma vez por todas, eu tinha que entender isso. Era tudo tão mais simples, mais fácil, quando eu simplesmente me escondia debaixo das roupas...

- Prima?

Estava tão distraída em meus pensamentos que não vi Kiara entrar em meu quarto. Ela tinha aquele seu sorriso no rosto, de quem estava querendo aprontar.


- Oi.
- O que você faz acordada?
- Ué... Nós temos aula, não temos?

Nós temos? Só então que eu percebi que já tinha amanhecido. OMG, quanto tempo eu fiquei pensando em Edward? Pulei rápido da cama para tomar um banho e nem me importei que ela ficasse por lá. Não estava com paciência para brigar com Kiara.

- Então, eu estava bêbada, mas eu me lembro de algumas coisas...

Ela falou enquanto eu ligava o chuveiro. Torci para que não fosse nenhuma lembrança de Alec, pois senão eu teria que inventar alguma baboseira.

- Mesmo? Do que você lembra?
- Eu lembro perfeitamente do Edward se agarrando com uma loira azeda na festa e lembro que você viu! Ah! E lembro também de escutar vozes ontem de noite...
- Como você acha que lembra de alguma coisa? Você estava tão bêbada que deve ter imaginado coisas, Kiara.

Ela continuou resmungando enquanto eu tomava meu banho e depois que saí do banheiro, a minha adorável prima felizmente tinha se calado. Eu sabia muito bem que a pulga tinha ficado atrás da orelha dela, mas não incentivaria desconfiança nenhuma. Até porque, eu realmente não queria que ela soubesse da visita de Edward de noite.

- Prima, você bateu com a cabeça ontem?

Kiara me perguntou quando eu terminei de me arrumar. Olhei-me no espelho e não vi nada além da Bella de antes. A Bella que não sofria nem tinha os sentimentos destroçados.

- Não, eu estou ótima.
- Jura? Por que você está usando aquelas... coisas...
- Roupas.
- Sim, mas... Achei que não fosse mais usá-las.

Dei de ombros e passei o capuz do casaco pela cabeça. Estava satisfeita por não ter jogado nada disso fora.
- Então Edward não estava com uma loira ontem?

Ela voltou a insistir no assunto quando já estávamos no carro a caminho do colégio. Suspirei e aumentei o volume do som.

- Não que eu lembre. Se estava, eu não vi.
- Estranho... foi tudo tão real.

Bota real nisso! Eu me lembrava perfeitamente da sensação horrível que senti ao vê-lo beijando a garota. Foi fúria com uma enorme vontade de chorar. Engoli em seco e continuei calada até chegarmos e finalmente nos separarmos. Olhei em volta antes de trancar o carro, pois não queria encontrar com Edward. Estava com vergonha de encará-lo depois do que contei a ele, principalmente pela sua reação.

Eu tinha me arrependido profundamente de ter dado carona para minha irmã Alice. Eu e meus irmãos não éramos exatamente o tipo de família tão unida, mas Alice era daquelas que se intrometia em qualquer assunto que fosse do seu interesse. No caminho até o colégio, ela me fez praticamente um interrogatório.
- Essa é ótima! Eu nem tive a oportunidade de conhecer melhor a sua namorada e você já levou um pé na bunda!
- Ela não era bem minha namorada, Alice. Eu apenas estava tentando...
- Certo, mas por que você não faz exatamente o contrário do que fez? Porque aí pode ser que dê certo.
- Não é um caso simples, só isso.

Quando estacionei, vi que ela já tinha chegado, pois a picape estava lá estacionada. Alice saiu antes de mim, mas preferi ficar um tempo dentro do carro, pensando nos últimos acontecimentos. Eu não me lembrava da última vez que tinha sofrido tanto por causa de uma garota. E eu tinha passado praticamente a noite toda acordado pensando em nós dois. Pensando no que ela me contou e na forma como eu reagi.
Tão ruim quanto os olhares surpresos das pessoas quando me viram arrumada, era agora os mesmos olhares surpresos ao me verem novamente dentro do casulo. Não que eu me importasse, por mim todos ali podiam engasgar espontaneamente e caírem duros no chão. Seria algo até que interessante, pois aí as aulas precisariam ser suspendidas por um tempo, já que os alunos estariam mortos.

Eu estava quieta, sentada calada na minha carteira, tentando prestar atenção no que o professor falava, quando meus olhos foram atraídos na direção da porta. Edward estava lá, com a cara quase colada no quadrado de vidro, me olhando e fazendo algum tipo de sinalização para mim.

- Ei! Estranha! Acho que o Cullen está falando contigo.

Uma garota que era tão ou até mais estranha do que eu estava abrindo a boca para falar comigo e eu quase quebrei todos os dentes daquela sua arcada dentária tenebrosa. Foi preciso respirar fundo e olhar fixamente para meu livro até que meu estado de espírito maligno fosse embora. Em seguida eu olhei novamente para a porta e felizmente Edward tinha desaparecido. O que ele queria comigo afinal? Me insultar? Debochar?

- O que o Cullen viu em você hein?

OMG! O abuso tinha ultrapassado todos os limites. Quebrei o lápis que estava em minha mão, mas disfarcei para que mais ninguém visse. Olhei então para a infeliz ao meu lado e constatei que pela sua expressão, ela não deveria ter espelho em casa. Sério, assustava até o pior dos vampiros.

- Por que você não experimenta ficar calada e evita sua uma morte prematura?

Sorri malignamente para a garota, que tremeu dos pés à cabeça e virou a cara para o outro lado. Era tão bom sentir o cheiro do medo que exalava das pessoas... Eu me sentia viva! As minhas primeiras aulas do dia passaram rapidamente e logo chegou a hora do intervalo. Eu pensei em entrar no banheiro e ficar enfurnada lá até o horário da próxima aula, mas quando entrei no recinto vi que estava cheio de patricinhas insuportáveis que conversavam sobre o mais recente lançamento de uma marca de tinta de cabelo. Realmente aquilo não era para mim.

- Prima!

Estaquei no corredor ao ouvir a voz de Kiara e por um momento desejei que fosse ilusão minha, mas não era. Ela logo apareceu na minha frente, sorrindo daquele seu jeito estranho.

- Kiara, posso te pedir um imenso favor? Só por hoje?
- Claro! O que você quiser!
- Me deixe sozinha.

Não era bem o que ela estava esperando, pois seu sorriso sumiu, dando lugar a um beiço de criança carente. Suspirei e fingi não ligar para aquele teatrinho dela.

- O que você tem? Eu te ajudo a superar...
- Eu só quero ficar sozinha, Kiara. Estará me ajudando se aceitar a minha súplica.

Toquei o ombro dela, pois sabia que esse lance de contato corporal era muito apreciado pela maluca. Kiara então saiu do meu caminho e ficou me olhando calada enquanto eu me retirava em direção ao pátio externo. Sentei embaixo da minha árvore de sempre e encostei minha cabeça no tronco antigo dela, observando a agitação do lugar.

Depois de ter sido ignorado propositalmente por Bella na porta da sala dela, tinha resolvido que pudesse ser melhor dar um tempo para que ela pensasse nas coisas e esquecesse o que eu fiz. Porém, quando cheguei no pátio na hora do intervalo e a vi sozinha lá na árvore, daquele jeito horrível que ela costumava se vestir, meu coração apertou. Eu não conseguia vê-la tão triste.


Ele podia não fazer a menor idéia, mas eu senti seu cheiro assim que chegou no pátio. Edward estava vindo na minha direção, mas eu não olhei para ele. Claro que não seria estúpida a ponto de levantar e sair correndo, afinal eu era crescidinha o suficiente para enfrentar qualquer coisa que ele tenha para me dizer. O máximo que poderia acontecer era ele me irritar um pouco e levar um soco ou um chute.

- Posso falar com você?

Sua voz era baixa e tranqüila e eu podia sentir ele me olhando fixamente. Levantei a cabeça até encontrar seus olhos parados nos meus e indiquei o gramado para que ele sentasse. Edward ficou bem próximo de mim e curvou-se um pouco para frente quando se sentou.

- Queria te pedir desculpas pelo meu comportamento na sua casa.
- Está tudo bem, eu não me importo.

Tentei demonstrar segurança e desdenho, mas tudo que sentia era mágoa e tristeza. Isso, porém ele não saberia. Edward esticou a mão e quando notei que o que ele queria era puxar meu capuz, recuei um pouco, fazendo-o desistir da idéia.

- Bella, eu estava um pouco assustado. Você até pode achar que é coisa de menininha ficar com medo e tudo mais, só que eu realmente fiquei assustado com o que você me contou.
- Certo.
- Coloque-se no meu lugar e imagine eu te contando algo do tipo.
- Edward, não estou te julgando. Talvez você não tenha reparado, mas eu nem te procurei. Eu não corri atrás de você, não implorei para que falasse comigo, não fiz absolutamente nada. Não estou pedindo pela sua compreensão. Você pode fingir que nada aconteceu e voltar para sua vida.

Eu percebi ele estremecer e seus olhos ganharam um brilho diferente. Um brilho... de lágrimas que pareciam querer sair. Não tenho certeza, mas acho que Edward Cullen estava querendo chorar. De qualquer forma, fiquei quieta quanto a este meu pensamento e continuei encarando-o. Ele me surpreendeu ao segurar meu rosto firmemente e engrossar a voz.

- Presta atenção e pelo menos uma vez na vida, deixa de ser teimosa. Eu vim falar contigo porque estou arrependido, ok? Durante a noite eu fiquei pensando nas coisas e cheguei a conclusão de que não me importo com o que você seja. Eu gosto de você desse jeito louco que você é!

Fiquei parada olhando para ele, até que terminou seu discurso. Edward queria dizer o que com aquilo? Que não ligava para o fato de estar com uma vampira? Uma garota morta?

- Você pouco me conhece, Cullen.
- E daí? Pare de ser cabeça dura e nos dê uma chance.

Ele praticamente me agarrou e beijou minha boca sem que eu pudesse evitar. Seus lábios pressionavam com força os meus enquanto sua língua me invadia em público. Meus ouvidos captaram reações diversas das pessoas que viam a cena. Se eu pudesse corar, com certeza estaria vermelha como um pimentão. Empurrei-o de leve apenas para parar o beijo e ele me olhou com seu sorriso convencido.

- Só preciso saber se você tem problemas com alho... Adoro macarronada ao alho e óleo, sabe?
- Eu vou fingir que não escutei isso.
- Por quê?
- Alho? Sério? Isso é história para colocar medo em criança, Edward! Além do mais, eu não te dei nenhuma resposta.

Estava confusa e não esperava aquela atitude dele. Tinha me preparado para algum tipo de humilhação, não... aquilo. Levantei-me às pressas, mas Edward não me deixou andar. Ele foi rápido também e me encostou na árvore, grudando o corpo no meu e beijando minha orelha.

- Nós estamos no colégio...

Eu não sentia vontade de evitá-lo e por isso deixei que fizesse o que quisesse, não me importando muito com quem estivesse vendo.

- Você não me deu nenhuma resposta, mas eu tenho certeza que dará agora, não é?

- Você não tem medo de mim?

Perguntei aproveitando que ainda me restava uma pontinha de lógica. Ele apenas balançou negativamente a cabeça e me olhou.

- Não. Digo, até ontem eu nem sabia que vampiros existiam. Olha que legal!

Edward Cullen não regulava muito bem. Fato. Desde quando isso era legal? Segurei seu rosto para que ele parasse por um segundo de roçar os lábios no meu pescoço. Aquilo estava me enlouquecendo.

- Edward, aquele cara que você viu na sua casa... Ele é que nem eu. E é perigoso.
- E?
- E que eu não quero que se envolva nos meus problemas. Alec vai se aproximar de qualquer pessoa que tenha vínculo comigo. Ele já fez isso com a Kiara. A diferença é que com você ele não vai ser exatamente simpático... E esse é o meu medo.

Ele revirou os olhos não levando muito a sério o meu aviso. Essas coisas que os homens faziam, tipo machismo me davam nos nervos! Sua mão grudou na minha e ele beijou meus dedos, mordiscando-os de leve enquanto sorria.

- Eu não me importo.

Homens sempre se achavam bons demais para qualquer situação! Impressionante! Era bem provável que mesmo se eu tivesse dito que Alec era um tiranossauro-rex (N/A: lembrei do Boy, fato rsrs) ele ainda assim ia se fazer de valentão.

- Mas eu me importo. Edward, eu estou falando sério mesmo. Você não faz idéia da força que nós temos.
- Lindinha, eu sou homem, você é mulher... Ele até pode ter mais força do que eu, mas não você.

Meu deus, ele não lembrava de nada? Eu tinha que fazer Edward acreditar em mim do pior jeito possível? Pensei em fazê-lo voar até a outra árvore, mas tínhamos testemunhas por ali.

- Eu não posso com isso agora, Edward. Tem muita coisa acontecendo para ainda ter que aturar você dando uma de herói. Eu vou para a sala.

Tentei passar por ele, mas fui bloqueada. Não quis usar minha força, então apenas deixei. Sua mão entrou pelo meu capuz e apertou minha nuca, puxando-me para beijá-lo. Nossas bocas se encontraram rapidamente e eu vi como era difícil simplesmente parar aquilo. Meu corpo não correspondia. Então quando ele me soltou, passando a língua pelos lábios como se saboreasse meu gosto que ficara em sua boca, eu suspirei.

- Preciso ir, Edward.
- Eu vou até sua casa depois da aula.
- Não vai não.
- Vou e já é assunto encerrado, Bella. Boa aula.

Quem deveria ter ido e fechado com chave de ouro era eu, mas no entanto, foi Edward quem me deu as costas.

Enquanto eu andava pelos corredores até minha sala, percebia que estava sendo seguida por Kiara. Ela ficava alguns passos atrás de mim, achando que eu não era capaz de notá-la. Bem, eu realmente não seria se fosse humana.

- Posso saber o que você está fazendo?

Perguntei e virei para trás, encontrando-a com uma cara de sonsa, olhando para o teto. Deus! Ela era ruim demais! Sorte não ter tido vontade de ser atriz.

- Kiara!
- Oi?

Ah claro. Minha prima me olhou como se tivesse acabado de me ver ali. Cruzei meus braços e levantei uma sobrancelha, esperando que ela falasse.

- Está me seguindo, prima?

Ela não me perguntou mesmo isso. Perguntou?

- Calma, não responde! Já sei! Você está querendo conversar, certo? Caramba prima, era só pedir! Não precisava me seguir... Conte-me tudo e não esconda nada, o que você tem?
- Eu tenho um excesso de raiva que está crescendo dentro de mim. Ele provavelmente será descontado na pessoa que estiver mais próxima... Adivinha quem é?

Ela mostrou os dentes naquele sorriso único e voltou a olhar para o teto, passando por mim sem dar mais nenhuma palavra.

Quando minhas aulas terminaram, eu saí rápido do colégio antes que Edward me encontrasse. Ele tinha dito que iria até minha casa, mas eu ainda tinha esperanças de que fosse apenas blefe. Colocar a vida dele em risco ainda não era a coisa mais agradável que passava pela minha mente.

- Kiara, vamos.

Chamei minha prima quando a encontrei no estacionamento, encostada no carro de um dos jogadores de basquete do colégio.

- Eu vou depois, de carona com Ralph.
- Com quem?
- Comigo.

Um cara que eu nunca vi na vida levantou a mão. Acho que me enganei quando disse que ele era jogador. OMG, Kiara não tinha uma queda por Jacob? O que ela estava fazendo com outro cara? E o pior, ele era mesmo estudante?

- Você estuda aqui?

Minha pergunta não parecia ter sido levada a sério, o que significava que meu pulso estava prestes a tocar o rosto de Ralph, caso ele continuasse me ignorando.

- Então?
- Ahn... prima... O Ralph é da sua turma de Literatura.

Ele é? Olhei mais uma vez para o garoto, que me deu um sorriso entediado. Não, eu com certeza nunca tinha visto aquele rosto na minha frente. De repente eu me dei conta de que talvez, se Kiara não estivesse perto de mim, Alec não se interessaria realmente por ela. Qual era o perigo que ela correria? Ele não poderia tomar conta de duas pessoas em lugares diferentes.

- Bem, não volte tarde para casa, ouviu? E se chegar depois de meu pai, terá que se explicar com ele.
- Ok. Eu vou embora daqui a pouco!
- Certo.

Me afastei do casalzinho, tentando repetir mentalmente que Kiara não corria perigo algum. Talvez quanto mais eu repetisse, como um mantra, mais eu acreditaria naquilo. Assim que cheguei em casa, fui tomar um banho e trocar de roupa. O tempo exato para minha campainha começar a tocar. Era Edward. Só podia ser Edward. E eu não o atenderia. Seria melhor assim, se fosse embora.

Enquanto penteava meus cabelos úmidos, a campainha continuava tocando. Edward não parecia que ia desistir, mas eu também poderia ficar ali ouvindo aquele barulho irritante por horas, até que finalmente... parou.

- Ficou surda?

Eu era uma vampira e isso me fazia ser destemida, lógico. Mas quando você está quieta no seu quarto, achando que ninguém é capaz de afetá-la, as coisas são diferentes. Então logicamente, meu grito assustado tinha muita coerência. Edward Cullen estava com metado do corpo pendurado para dentro da janela do meu quarto.

- Vai ficar me olhando ou me ajudar aqui?

Minha mente voltou a trabalhar rapidamente e eu o puxei para dentro do quarto antes que o imbecil caísse estabacado lá embaixo.

- Você é louco? Isso é invasão, sabia?
- Não tive muitas escolhas, já que você resolveu não me atender. Ou acha que o carro parado na frente da casa é invisível?
- Eu podia ter saído a pé.
- Claro.

Percebi então que Edward carregava uma mochila e a jogou no chão quando entrou definitivamente em meu quarto. Ele logo sentou na cama e puxou a mochila.

- Trouxe umas coisas que podem ser úteis.
- Que tipo de coisas?

Quando ele abriu a mochila e começou a tirar as coisas de dentro dela, eu entendi. Ele não era louco, ele só era... retardado.

- O que você acha que eu vou fazer com alho e terços?
- Se defender do tal vampiro.
- Você percebe que eu também sou uma vampira, certo?

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