Eu, o Noivo e a Loja de Conveniência.

Por: Lunah

* Censura: 16 anos *

Sinopse:


Essa é a história de dois completos estranhos, presos em uma loja de conveniência por uma noite inteira. Isabella é uma operadora de caixa frustrada e Edward um jovem prestes a se casar. Dois universos diferentes, dois cursos de vida fadados a nunca mais se encontrarem. Eles partilham uma madrugada de risos, confissões, experiências e muito mais. Porém, quando o dia amanhecer, retornarão a suas rotinas e obrigações. “Só duas linhas de vidas distintas, que se cruzaram em um único e raro momento no tempo. As decisões tomadas durante aquele tempo determinarão seus futuros.” O que você faria se a única chance de mudar seu futuro fosse justamente escolher o que parece absurdo?



***



EU, O NOIVO E A LOJA DE COVENIÊNCIA.
  
Narração Bella: 


“Odeio a minha vida! Realmente odeio!”, resmunguei, batendo a cabeça no balcão de madeira.

Sei que parece exagero, mas não é. Experimenta ficar no meu lugar! Trabalho na CHINA 24h, a loja de conveniência ligada ao posto de gasolina self service do Sr. Chang. Meu expediente vai das08:00h às 18:00h, em troca de um salário que faria os mineradores explorados do Camboja parecerem executivos. O ambicioso Sr. Chang trabalhava todas as madrugadas desde que imigrou para os EUA, ou seja, há uns vinte anos. Durante todo esse tempo, nunca se ausentou de sua loja, porém, o Tio Patinhas chinês foi atropelado essa manhã. Sei que é feio dizer “bem feito”, mas: BEM FEITO! Meu patrão estava no hospital e, como sou a única funcionária, ou se preferir, escrava branca, fiquei encarregada de substituí-lo. Mesmo trabalhando dobrado, não reclamei. Aliás, nunca reclamo. Sou sempre muito tranquila e não esquento a cabeça com quase nada. Quando acontece algo ruim comigo, paro, conto de uma até dez, respiro fundo e sigo em frente.

Levantei-me para checar se todas as sessões estavam devidamente organizadas. A loja não era grande. Três estantes dividiam o espaço central, enquanto as prateleiras nas paredes permaneciam quase intocadas. As geladeiras com bebidas alcoólicas e não alcoólicas ficavam no fim da loja, em um local bem iluminado. Tínhamos os mais diversificados tipos de produtos, no entanto, quase nenhum cliente. Eles estavam entrando para a lista de animais em extinção, pois o velhote pão duro se recusava a baixar os preços.

Entediada, fitei o relógio de parede, indo me sentar atrás do caixa. Atirei-me na cadeira giratória e joguei os pés sobre o balcão. Incrível, eram 19:30h na cidade de São Francisco, Califórnia e aCHINA 24h permanecia vazia. Nem mosca chegava perto. Por que eu continuo trabalhando nesse cemitério de salgadinhos e refrigerantes? Bem, essa é exatamente a pergunta que me faço todas as manhãs. Sabe aquele tipo de garota de 19 anos que tem tudo que sempre sonhou na vida, um futuro brilhante, simpatia e beleza invejáveis? Bem... Essa não sou eu! Nunca fui e a tendência é, talvez, nunca ser. Se te serve de consolo, sou Isabella Swan, a operadora de caixa. Só isso! E não é pouca coisa não, hein?! Até tenho meu nome bordadinho no horripilante uniforme azul e laranja. Argh!  A quem estou tentando enganar? Sou uma fracassada de pai e mãe! Se procurar a palavra “fracasso” no dicionário, é provável que tenha uma foto minha ao lado.

Não estava chateada só porque ia passar a madrugada trabalhando sozinha, mas, também, pelo fato de ser 20 DE FEVEREIRO. Até a pronúncia mental da data me causava arrepios. Para todo mundo, pode ser só mais um dia normal, no entanto, para mim, era o dia fatídico da minha maldição. Sou amaldiçoada! Não entendeu ainda? A-M-A-L-D-I-Ç-O-A-D-A! Ok...ok...Soletrar não vai explicar. Imagine que você já teve vários namorados e, inconscientemente, todos eles escolheram a mesma data pra te dar um pé na bunda: 20 DE FEVEREIRO! Como se sentiria? Respondo pra você: amaldiçoada!

Não é exagero. Só eu sei por quantos rompimentos passei e o como foram dolorosos. O namoro estava indo às mil maravilhas, mas, ao chegar ao dia amaldiçoado, eu ouvia:

# 2005 #

Mike : “Bella, não vai dar certo. Você é muito madura!” 

# 2006 #

Frank : “Isa, não vai dar certo. Você é muito imatura!” 

# 2007 #

David: “Bel, não vai dar certo. Você é muito... você!”

# 2008 #

Claud : “B, não vai dar certo. Você é muito mulher... eca!”

Parece até que consigo ouvi-los, falando juntos: “Não serve pra mim!”

Depois do último rompimento, fujo de relacionamentos. É cansativo perder tempo tentando fazer um namoro dar certo se eu sei que ele vai acabar da forma mais trágica possível. Uma quantidade anormal de ressentimento e mágoas fez-me desistir daquela palavrinha de quatro letras, que nem ouso pronunciar... Você sabe... argh! A que começa com A e termina com R.

Agora, estou bem. - estiquei os braços, me espreguiçando. - Não procuro soluções, sou bem conformada e adaptada com minha vida previsível e tediosa. Estou determinada a nunca, nunca mais me interessar por um homem. É a espécie mais perigosa e traiçoeira que o mundo já viu. Caçam, matam e comem... Não necessariamente nesta ordem. Se me permite dar um conselho: desista você também! A raça inferior só procura quatro coisas na vida: dinheiro, status, mulher e mais mulher.

Peguei uma das revistas no balcão, bocejei e comecei a folhear. Obviamente, passando, sem pestanejar, os anúncios relacionados à romance. Um artigo sobre assassinos em série chamou-me a atenção. Se os homens fossem banidos do universo, aquele tipo de atrocidade não existiria. Ou existiria justamente pela falta deles.  Fiquei totalmente entretida.

“VOU TE MATAR!”, sobressaltei assustada, deixando a revista cair no chão. “JÁ DISSE PRA PARAR DE ME LIGAR! NÃO VOU ESQUECER!”, esbravejou ao celular, o homem que acabara de entrar na loja. Ofeguei, enjoada. Aquilo me irritou, mas contei de um a dez, pegando de volta, a revista. “ESTAREI AÍ LOGO, A NOIVA AINDA NEM CHEGOU! SEI O QUE ESTOU FAZENDO!”, o sujeito metido dentro de um clássico fraque, típico de noivos de revista especializada, foi para o final da sessão de bebidas, desligando o telefone. Pareceu-me irritado.

Retirei os pés do balcão e me aproximei do caixa, à espera de que o cara passasse logo por ali. O que me chamou a atenção, no entanto, não foi vê-lo pegar a garrafa de whisky mais cara que tínhamos, e sim a estátua na qual se transformou. Parou completamente, no meio do corredor, hipnotizado pelo teto. Inclinei-me um pouco para frente, na tentativa de ver o mesmo que ele. Nada! O teto estava branco e limpo como sempre foi. O homem estava lá, congelado há mais de dois minutos, o que era muito, muito estranho! Juro que passei parte do corpo por cima do balcão, para analisar o posto de gasolina através da porta de vidro. Procurava o carro de alguma emissora de televisão, para comprovar que eu estava no meio de uma pegadinha. Infelizmente, nada avistei. E o manequim de boutique granfina, continuava imóvel. Alto, alvo, atlético, cabelos impecavelmente penteados com gel e todo engomadinho. Se homens ficavam parecendo pingüins com trajes formais, aquele, com certeza, era um pingüim classudo.

Esperei mais um pouco, mas o classudo já estava me dando arrepios. Então, sutilmente, falei rápido, misturando a voz com um falso espirro:

“Maluco!”, sorri, ao ver que o anormal descongelara.

O homem caminhou em minha direção, como se nada tivesse acontecido. Colocou a garrafa de whisky no balcão e puxou a carteira. Registrei o valor no caixa, aliviada por ele estar prestes a se mandar, até que...

“PARADOS, MÃOS PARA CIMA!”, Gritou o encapuzado que atravessou a porta, abruptamente. Fui incapaz de reagir. “ANDA LOGO! QUER MORRER? MÃOS PARA CIMA!”, apontou a pistola para o noivo, que o obedeceu, contrariado. “VOCÊ!”, a mira, agora, estava voltada para mim. “ESVAZIA O CAIXA! RÁPIDO!”, abri o caixa e coloquei a merrequinha em um saco plástico. “SÓ TEM ISSO? TEM QUE TER MAIS!”, revoltou-se, batendo o pé esquerdo, freneticamente, no chão.

“Meu senhor...”, suspirei paciente. “... só tem 38 dólares e algumas moedinhas. Assaltar essa loja nem é crime, e sim judiação. Faça uma caridade, colabore com a vaquinha da funcionária.”, peguei o pote, onde só havia 50 centavos, e chacoalhei em direção a ele. Esperei, vendo-o rosnar.

“Onde está o cofre?”, aproximou a arma do meu rosto.

“Não faça isso!”, interveio o classudo. “Ela não sabe!”

“Pra falar a verdade, eu até sei...”, o sujeito de fraque me fuzilou com o olhar. “... está com o dono da loja, no hospital. Provavelmente, acorrentado à maca dele. O Sr. Chang não confia nem na esposa!”

“Engraçadinha! Está me deixando sem paciência!”, reclamou o assaltante, nervoso. “VOCÊ!”, girou o pulso, encarando o pingüim. “Carteira, celular, relógio... tudo o que tiver! Anda, cara! Anda, rápido!”, finalmente, o ladrão pareceu perceber duas coisas óbvias. Primeiro, estava demorando tempo demais. Segundo, depenar o classudo era mais lucrativo que levar a loja inteira.

“Olha, vamos negociar...”, ainda com as mãos para cima, o homem tentou.

“Não! Passa tudo, vai, vai!”, o ladrão ficou batendo o pé no chão, de um jeitinho irritante. Ótimo, outro maluco! Agora, eu tinha certeza: haviam deixado a porta do manicômio aberta.

O homem desistiu, entregando seus pertences. Aproveitei a distração do assaltante e tentei alcançar o telefone no balcão, preparando-me para discar 911. Antes que eu tivesse chance de concluir meu plano, ele percebeu e puxou o aparelho para si, desconectando o fio da parede.

“Quietos!”, ordenou, enfiando os objetos furtados nos bolsos do moletom. “Me passa as chaves da loja!”, as coloquei próximo a ele, sem pensar duas vezes.

Encarando-nos, o ladrão foi se distanciando, lentamente. Arregalei os olhos no momento em que o vi passar pela porta e trancá-la, usando as chaves.

“ESPERE!”, o noivo gritou antes de mim. “NÃO ME DEIXE AQUI, PRECISO CASAR, POR FAVOR, VAMOS CONVERSAR!”, correu até a entrada.

“MERDA! MERDA! MERDA!”, saltei por cima do balcão, finalmente, apavorada. “Não nos tranque! Não vamos chamar a polícia, eu prometo! Prometo!”, berrei inutilmente, colocando as mãos na cabeça ao vê-lo baixando a porta de ferro. Tanto eu como o esquisito, encolhemos os ombros com o som produzido.

Ao que parecia, só trancar a porta de vidro não era suficiente, pois estava também fechando a de ferro com cadeado, nos privando da visão da rua e nos impossibilitando de gesticular por socorro. O classudo teve um acesso de fúria, chutando e socando a porta, ferozmente. Dei um passo atrás e me conformei, como fazia sempre. O homem bateu a cabeça, com força, na porta, antes de exclamar:

“Ele não levou seu celular!”

“Que celular?”, ergui uma sobrancelha.

“Não tem um celular?”

“Não!”

“Como não? Todo mundo tem!”, fez careta, enraivecido.

“Mesmo?”, não gostando do tom que usou comigo, puxei, do bolso traseiro, todo o dinheiro que tinha. “Compra um pra mim com isso.”, respondi, exibindo na palma os 4 dólares e 70 centavos.

O prepotente girou, encostando as costas na porta e deslizou até sentar-se no chão, derrotado.

“E agora, Edward, como é que você casa?”, murmurou para si, cabisbaixo.

Se ferrou! Tentei não rir da desgraça alheia, mas ele fazia uma cara tão engraçada! Contorcia os músculos do rosto.

“Por favor, me diga que existe uma porta nos fundos.”, pediu, esperançoso.

“Existe...”, se levantou num pulo. “... quero dizer... existia. Mas, o Sr. Chang mandou erguer uma parede semana passada, sabe, para evitar assaltos.”, novamente, fui fuzilada com seu o olhar, como se o tivesse dado falsas esperanças, de propósito.

“O que vamos fazer?”, indagou.

“Não sei você, mas eu vou me sentar atrás do balcão e esperar, pacientemente, a Sra. Chang voltar para me substituir. Ela vai ver que a loja está fechada, notará que há algo de errado e chamará a polícia.”

“Ótimo!”, arrumou sério o paletó. “Que horas ela chega?”

“Hmmm...”, olhei pro relógio de parede que marcava 20:05h “...antes de amanhecer.”

“O QUE?”, a voz dele ecoou alto. “Esfregou o rosto, impaciente, antes de...” SOCORROOOOO! ALGUÉM ESTÁ ME OUVINDO? ESTAMOS TRANCADOS!”, berrou, se desesperando.

“Não é querendo te desanimar... mas, já desanimando, ninguém vai ouvi-lo. As paredes são grossas, o som não vai atravessar o vidro e os preços do posto repelem qualquer ser vivo.”, esclareci indo me sentar onde estava antes do alvoroço.

Ainda eram 20:45h e lá estava eu, sentada atrás do caixa com as pernas pro ar e mascando chiclete. Espiei através da revista, o noivo andar de um lado para outro, perto das prateleiras, há alguns metros de mim. O que ele pretendia? Fazer um buraco no chão? Ergui a revista quando ele virou o rosto para mim. Tentei me concentrar na leitura, mas o som da sola do sapato no piso era irritante, como uma torneira pingando incessantemente. Baixei um pouquinho a revista para dar outra espiadinha. Agora, já estava no final das sessões. Escondi o rosto atrás da revista, com uma pontada de medo. E se o sujeito fosse um daqueles assassinos que li no artigo? Um arrepio percorreu minha espinha e foi inevitável querer dar outra olhadinha.

“AAAAAAAAAHHHHHHHH!”, gritei de susto. A cara brava dele estava bem perto da minha. Como o cretino se materializou ali? Tentei levantar-me rápido e a cadeira virou para trás comigo.

O estalo do aço no chão abafou meu gemido.

“Está tudo bem?”, perguntou.

“Não!”, sussurrei, rolando para o lado, zonza.

Percebi que ele ia passar por cima do balcão e, em reflexo, levantei-me depressa, para evitar.

“Você!”, apontei para o indivíduo, severamente. “Nem pense nisso!”

“Pensar em que?”, já estava sobre o balcão.

“Se me matar, seu maluco, juro que vou te assombrar pelo resto dos seus dias!”

O noivo revirou os olhos, afastando-se. Tirei o chiclete da boca e colei na capa da revista, estreitando os olhos ameaçadoramente.

“Tive uma idéia para nos tirar daqui.”, ergueu o queixo.

Ajeitei meu uniforme cafona e tirei o cabelo do rosto, dizendo:

“E me matar de susto ajudará?”, disse-lhe, rude.

“Não vou matá-la!”, irritou-se. “Você é paranóica!”

Não era a primeira vez que ouvia aquilo.

“Ok...”, pulei por cima do balcão. “...Qual o plano?”

“Vou arrombar a porta”, explicou concentrado, esfregando as mãos.

Fitei a porta de vidro e, além dela, a porta de aço. Depois, voltei meu olhar para o classudo, soltando uma gargalhada daquelas de roncar feito porco.

“Clark Kent! É você? Há quanto tempo, camarada!”, zombei.

“Vou arrombar só a de vidro, depois tratamos da de aço.”

Assenti, me distanciando dele e da porta.

“O que está fazendo?”, indagou, curioso.

“Vamos fazer juntos, não vai conseguir sozinho!”

O cara entendeu e, assim como eu, se distanciou o máximo que pôde da porta. Estávamos quase encostados na parede. Do nosso lado direito, ficava o balcão e o caixa; do lado esquerdo, o restante da loja e, à nossa frente, o obstáculo, há uns dez metros de distância. A porta de vidro, dali, de onde estávamos, parecia incrivelmente quebrável. Tão frágil quanto uma taça. O plano do classudo não me pareceu tão ruim. Era bom o Sr. Chang ter um seguro.

“Ok, vamos no três!”, ordenou ele.

Assenti. Respirei fundo, preparando-me.

“1...2...”

“Espera, espera, espera!”, pedi, quando ele já ia começar a correr.

“O que?”, olhou-me, ranzinza.

“A contagem é tipo: 1, 2, 3 e já? Ou 1,2 e 3 já indo?”

O classudo bufou alto.

“1,2 e 3 já indo!”, respondeu, voltando a se posicionar para o nosso grande desafio.

Sacudi os braços e pernas, tentando relaxar ao máximo. Então, cerrei os punhos, preparando-me para correr. O homem voltou a contar...

“1...2...”

“Espera, espera, espera!”, dessa vez, ele ficou bem carrancudo. “Preferia se fôssemos no 1,2,3 e já!..É melhor desse jeito!”, sorri amarelo.

“Ok!”, quase gritou, enraivecido.

Lá estávamos nós, prontos para pormos a porta abaixo. Trocamos um olhar, sincronizando o momento certo para corrermos. Engoli seco e esperei que ele voltasse a contar.

“1...2...3 e já!”

Ambos disparamos. No meio do caminho, fechei os olhos, sabendo que o impacto iria machucar. Achei que minhas pernas travariam. Felizmente, isso não aconteceu. Prendi a respiração, aumentando a velocidade. Então, meu corpo chocou-se contra o vidro sólido e desabou no chão, em um baque audível.

Abri os olhos, meio tonta. A parte direita do meu corpo latejava de dor.

“Vidro chinês...”, murmurei lentamente.

“Um dos mais resistentes do mundo.”, completou o noivo, deitado ao meu lado, igualmente afetado.

“Mais alguma idéia genial, Clark Kent?”

“Hmmm...”, gemeu o maluco, contorcendo-se de dor.

Para o nosso azar, o vidro não sofreu um arranhão. Ri e aquilo me surpreendeu. Eu não era o tipo de pessoa que ria com facilidade. Minhas risadas provocaram as do classudo. Por cerca de um minuto, aquilo era a única coisa que se podia ouvir na loja inteira.

“Me desculpe se fui rude, não é típico de mim...é que estou tendo um dia de cão.”, pediu ele, com a voz branda.

Suspirei.

“Tudo bem, sei como é, estou tendo uma década de cão.”, falei, encarando o teto.

“Sou Edward.”, apresentou-se, deitando de lado e estendendo a mão.

“Isabella.”, levantei o braço para apertar-lhe a palma.

Um simples e comum aperto de mão produziu uma espécie de descarga elétrica, semelhante a um pequeno choque. Aquilo me perturbou de tal maneira, que petrifiquei. Edward reagiu, soltou minha mão e soprou sua palma. Teria também sentido o choque? Deitou-se, em silêncio. Empurrei todas aquelas estranhas sensações para longe e me obriguei a dialogar.

“Lamento por seu casamento.”, não soou sincero.

“Vai ser complicado explicar tudo isso.”

Contei de 1 até 10, respirei fundo e retomei a linha de pensamento que seguia antes da tentativa frustrada de escapar.

“Você escapou de um divórcio bem caro, isso sim.”

“Por que diz isso?”, mostrou-se confuso.

“Não sou eu que digo e sim as estatísticas. 75% dos casamentos na América terminam em divórcio!”

“Humpf! Não estarei incluído nessa porcentagem.”

“Como sabe disso?”, questionei, rolando para o lado dele e apoiando minha cabeça no braço.

“Não sou do tipo que desiste fácil das coisas.”, abriu um largo sorriso. “Quando enfio algo na cabeça, é dureza tirar.”

“Fala sério!”, revirei os olhos. “Você conhece algum casamento com mais de 7 anos em que o casal não esteja se matando ou traindo um ao outro?”

“Conheço!”, respondeu de imediato.

“Sério? Quem?”, duvidei acidamente.

“Hmmm...espera um minuto, estou pensando!”

(...)

Sentada no balcão, olhei para o relógio de parede e constatei que já passavam das 21:20h. Dá para acreditar que o tal Edward ainda estava deitado no chão, pensando na resposta que me daria? O cara teimoso não estava mesmo querendo dar o braço a torcer. Ele, provavelmente, ficaria ali a madrugada inteira, pois eu estava completamente certa. Porém, para minha surpresa, levantou-se rapidamente e veio em minha direção.

“Muito bem, não me lembro... mas... isso não vale, porque eu nunca lembro nada!”
“Ficou todo esse tempo lá só pra chegar a essa conclusão? Você é um anormal!”

“Sabe...”, ele torceu a boca, coçando o queixo. “... sempre desconfiei disso!”

Sorri vitoriosa.

“É anti-casamento só porque deve ser filha de pais desquitados.”, cruzou os braços, com um ar de quem sempre sabia de tudo.

“Rá! Errou!”, informei-lhe, satisfeita. “Na verdade, passou longe. Não tenho pai. Sou uma excelente produção independente.”

“Sua mãe não sabe quem é seu pai?”, Perguntou, com um tom de reprovação.

Bufei.

“Lógico que ela sabe.”, desviei o olhar. “É que é uma história complicada.”

“Tenho a madrugada inteira.”, me incentivou a continuar.

Após um longo e perturbador suspiro, deixei as palavras fluírem.

“Minha mãe tinha a minha idade quando encontrou o seu viajante. Era sua última noite como garçonete em um desses restaurantes de beira de estrada, nas proximidades de Forks. Renné estava de malas prontas pra se mudar e cursar a faculdade em NY. Então, um homem chamado Charlie apareceu no restaurante. Minha tola mãe ficou encantada por ele, passaram horas e horas conversando. Segundo ela, o tal Charlie era a pessoa mais encantadora, apaixonante e interessante que já conhecera. Ela gosta de idealizar aquela noite. Diz que foi um momento único em sua vida, que eles tinham uma conexão, que vai além das regras habituais entre homens e mulheres.”, ri sem humor. “Renné acredita que as pessoas são como planetas em órbita, sendo obrigadas a percorrerem um trajeto em volta de suas escolhas, sejam elas boas ou ruins. Mas, que, em algum momento, sob influência de uma força maior, saem de órbita e têm a chance de refazer algumas escolhas. Mas, a chance passa rápido, pois a força gravitacional sempre irá puxar o planeta de volta ao seu curso natural.”, balancei a cabeça, demonstrando não acreditar naquilo. “Segundo minha sonhadora mãe, ela e Charlie passaram uma madrugada inesquecível. Sabiam que aquela ligação nunca mais se repetiria. Entregaram-se mais do que deveriam. Quando o dia amanheceu, Renné não teve coragem de partir com seu viajante por causa da faculdade. Nove meses depois, eu nasci e dei cabo de seu futuro promissor em NY”, sorri fraco. “Ela jura que sou a melhor coisa que já lhe aconteceu. Diz que sou mágica por ter sido concebida em um momento mágico. Não sei quanto tempo ela ficou tentando romantizar o caso rápido que teve, só para me fazer sentir melhor por ter um pai desconhecido.”

“Hmm...é como uma encruzilhada na vida deles?”, Edward piscou os olhos, refletindo. “Já pensou quantas coisas poderiam ser diferentes pra você hoje, se ela tivesse partido com seu pai?”

“Por favor, não me diga que acreditou em toda essa baboseira!”, saltei do balcão. “Independente do delírio romântico da minha mãe, se eles tivessem ficado juntos, assim como qualquer outro casal, logo perceberiam que não eram tão perfeitos um para o outro como imaginavam. Se separariam. Renné ainda teria estragado seu futuro e eu ainda estaria aqui, sendo a escrava branca do Sr. Chang! Ficar pensando em escolhas e destino é perda de tempo. As coisas sempre são do jeito que devem ser!”, afirmei secamente.

Dei-lhe as costas, indo para uma prateleira furtar batatinhas. Edward gargalhou alto.

“O que foi?”, arregalei os olhos.

“Tem uma coisa...”, colocou as mãos no rosto, rindo ainda mais. “... na sua bunda!”

“Hein?!”, esquivei a cabeça, procurando e acabei girando várias vezes, como cachorro caçando o rabo.

“Fica quieta!”, Edward veio até mim e puxou algo da minha bunda, enquanto eu corava terrivelmente. Meu queixo despencou ao perceber que se tratava da revista que joguei no balcão. Ela grudara em mim por causa do chiclete na capa.

“Me empresta um papel?”, pediu.

Vasculhei os bolsos e achei um bloco de notas. Fiquei aliviada no momento em que percebi que ele não iria usar o papel para nada relacionado à minha bunda. O noivo retirou de seu paletó uma caneta prateada e começou a rabiscar.

“O que está fazendo?”, indaguei, tentando ler o rascunho.

“Tomando nota dos motivos para processar esse estabelecimento.”

“Ah, tá...,” ironizei. “Vai me dizer que é advogado?”

O classudo parou e me fitou, surpreso.

“Sou. Por que o descaso?”

“Humpf! É muito jovem para ser um advogado. Quantos anos têm? 19, 20?”

“24”, afirmou sério.

“Minha família tem o escritório de advocacia mais antigo da cidade.”, suspirou antes de continuar. “É meio que tradição todos os Cullen exercerem esse ofício.”

Ele disse Cullen? De repente, me toquei de que era verdade. Já ouvira falar desse escritório algumas vezes, principalmente nos noticiários. Senti-me idiota por ter uma boca grande. Como qualquer otária, mudei de assunto.

“Processar o Sr. Chang?”, ri. Até imaginei a cara que o velhote iria fazer, contorcendo a boca, raivoso.

“Sim, a falta de segurança nessa loja é um ultraje. Sem câmeras de vigilância, sem alarmes...”, continuou rabiscando e tentei dar mais uma espiada. “Preciso anotar tudo.”, bagunçou o cabelo, deixando-o engraçado. “Geralmente, tenho tanta coisa na cabeça que acabo por esquecer. As pessoas falam comigo hoje, amanhã já nem me lembro.”, riu. “Não imagina o quanto isso irrita minha noiva. Ela vai achar que esqueci do casamento. Todos acharão!”

“Quantos problemas vocês ricos têm! Coitadinho!”, resmunguei, fazendo pouco caso. Edward lançou-me um olhar do tipo: qual a sua? Ignorei e continuei zombeteira. “Oh! Minha Ferrari está quebrada e não consigo guiar o meu jatinho! Droga, vou ter que ir à Paris em um vôo qualquer de primeira classe! Eca!”

Para minha surpresa, ele gargalhou.

“Não sou assim.”, defendeu-se. “Já você, me parece do tipo que nunca reclama, mas, mentalmente, esperneia feito criança pequena.”

Opa! Quem tinha falado de mim para ele?

“Eu, sim, tenho problemas e eu, sim, merecia esquecer das coisas.”, pus as mãos na cintura.

“Qual é?! Sua vida não é tão ruim assim, só tem que registrar algumas coisas no caixa.”, guardou o bloco de notas.

“O QUE?”, berrei ofendida. Não acreditei que ele teve coragem de falar aquilo. “Vamos ver o que você acha de ser eu.”, o empurrei em direção ao balcão. Em seguida, joguei o avental, que o Sr. Chang me obrigava a usar, em seu rosto.

“Certo.”, puxou o avental do rosto e amarrou na cintura. “Vou provar que é possível trabalhar aqui sem resmungar e ainda ser simpático com os clientes.”

“Veremos...”

(...)

22:10h e eu estava perambulando entre as estantes, remexendo as prateleiras com uma cestinha na mão. Edward permanecia atrás do caixa, tamborilando os dedos no balcão e me observando abrir um pacote de biscoito, mordiscar e pôr de volta na sessão. Fiz todas as coisas mais irritantes que um cliente pode fazer. Deixei produtos caírem no chão; abri a porta de uma das geladeiras, peguei uma latinha de refrigerante e deixei a geladeira aberta; furtei uns docinhos,... Então, finalmente, fui ao caixa, com apenas um saco de pão e uma coca já aberta.

Ele sorriu, tentando ser simpático.

“Boa noite.”, me cumprimentou.

Como qualquer cliente, apenas assenti, friamente. Coloquei as compras no balcão e esperei que ele registrasse. O noivo se atrapalhou um pouco nessa parte, mas logo se voltou para mim e disse o valor.

“Senhora, são 13 dólares e 85 centavos.”, sorriu.

“Como?”, arregalei os olhos. “Foi só um saco de pão e uma coca. Como isso pode dar mais de 13 dólares? Registrou essa porcaria direito?”

“Não se altere, senhora. Foram 3,50 pelo pão, 2,00 pela coca, 3,20 pelo pacote de biscoito que abriu; 4,90 pelo desodorante que deixou cair no chão e 0,25 centavos pela energia gasta ao deixar a geladeira aberta.”, mostrou seus dentes cintilantes, através do largo sorriso perfeito e satisfeito.

“Olha aqui, rapazinho, não vou pagar por isso. É um absurdo!”, joguei as mãos para o ar, em puro drama. “Isso é literalmente um assalto. Vou pagar apenas pelo pão e a coca! E se dê por satisfeito!”, lembrei dos 4,70 que tinha no bolso e os atirei no balcão.

“Nesse caso, não posso deixar a senhora levar nada.”, Edward falou, altivo.

“Lógico que vou, sou cliente e clientes sempre tem razão!”, rebati, carrancuda.

Tentei pegar o pão, mas ele o afastou de mim. Então, como uma cliente revoltada, peguei a latinha e atirei o liquido na cara dele. O classudo petrificou, de olhos fechados, enquanto a coca escorria por seu cabelo desgrenhado. Coloquei a mão na boca, prendendo a risada. Sem dúvida, eu tinha exagerado.

“Não vai colocar isso na sua lista de processos, vai?”, fiz uma tímida careta.

Edward passou a língua nos lábios sujos, abriu os olhos, pegou a lata de coca das minhas mãos e despejou o restante sobre minha cabeça. O fluido gelado escorreu pelo meu rosto.

“Não acredito que fez isso!”, esbravejei incrédula. Ele apenas deu de ombros. “ESTÁ DEMITIDO!”, apontei, severamente, para a porta.

“O que? Não pode me demitir!”, O noivo realmente se importou.

“Posso!”, cruzei os braços.

“Fiz tudo certo, além disso, tenho 8 filhos para alimentar! O que vou fazer? Mandá-los vender balas no sinal?”, bufou, tirando o avental. “Tudo bem... tudo bem... prefiro ir com dignidade. Afinal, sempre existe outra saída... a prostituição.”

Gargalhei, enquanto ele saltava por cima do balcão.

“O que acha da minha vida agora?”, perguntei, enxugando o rosto com o avental que ele acabara de me dar.

“Posso me acostumar, desde que tenha uns antidepressivos e uma garrafa de tequila.”, pôs a mão no meu ombro. “Por que trabalha aqui? Estamos na Califórnia e existem milhares de outros empregos.”

O toque de Edward era confortante e consolador.

“Não para uma pessoa tão limitada quanto eu.”, respondi, cabisbaixa.

“Estou ouvindo.”, pressionou-me a continuar. Era muito fácil falar sobre mim com ele. Agora, entendia porque era advogado.

“Nem havia terminado o colégio quando fugi de Forks. Não suportava mais morar naquela cidadezinha de pessoas medíocres. Renné era uma jovem e linda mãe solteira, os boatos estavam em todos os lugares. Diziam que ela tinha casos com quase todos os homens da cidade, principalmente com os casados. O que era uma grande mentira.”, a recordação provocou pequenas pontadas em meu coração. “Era irritante ser tratada como a filha da promíscua. As pessoas falavam que, um dia, eu teria o mesmo destino.”, ri sem humor. “Quisera eu ser como Renné! Ela é tão forte, independente, enfrentou as adversidades da vida, de cabeça erguida.”, a entoação da minha voz refletia o orgulho que sentia por minha mãe. “Ela se desdobrava para que eu não sentisse falta de um pai. Mesmo que eu sentisse, não me permitia demonstrar, pois sabia o quanto ela se esforçava. Com o tempo, passei a não sentir falta de nada relacionado ao sexo masculino. Era perfeito daquele jeito, só eu e ela. Como disse antes, o irritante eram as fofocas.”, fiz uma pequena pausa e Edward esperou paciente. “Quando a garota do interior chegou à grande São Francisco, ficou maravilhada com tudo. Tentei ser atriz...”, escondi o rosto nas mãos, rindo constrangida. “... óbvio que eu não tinha nenhum talento. Por indicação, vim parar na CHINA 24h. Mesmo sendo explorada, é o único lugar nessa cidade onde me sinto um pouco segura. Talvez seja porque é pouco movimentado.”

“Segura?”, o noivo embasbacou. “Hoje, colocaram uma arma na sua cabeça!”

“Eu sei, eu sei... é a primeira vez que pego esse turno. Ninguém nunca teve coragem de assaltar a loja. Desde que cheguei, corre um boato pela vizinhança que o Sr. Chang, com sua espada samurai, cortou o pintinho de um assaltante. Óbvio que é só um boato espalhado pelo próprio. Mesmo assim, isso mantém os mal intencionados longe. E já que meu patrão está no hospital,...”.

“Assaltaram!”, completou Edward, rindo.

Assenti.

“Sabe...”, retirou a mão do meu ombro. “Minha vida também não é tão perfeita como imagina.”

“Duvido!”, zombei.

“Não me entenda mal. Gosto de ser advogado e amo minha família, só que...”, cerrou os lábios, desarrumando, outra vez, o cabelo. “... às vezes, acho que vou enlouquecer. Passo a maior parte do meu dia trancado no escritório ou tribunal, defendendo as causas mais egoístas e ridículas que possa imaginar. Não consigo me orgulhar de nenhum caso que tenha defendido, pois nenhum teve uma importância realmente significativa. Mas, continuo fazendo isso porque é o que todos esperam de mim, contam comigo. Aliás, contam comigo para tudo...”, as palavras que antes eram ditas com calma, e quase indiferença, passaram a ser mais altas, ásperas e revoltadas. “O Edward tem que assumir a presidência aos 30”; Tenho que convencer meu próprio pai a não processar minha mãe por ter atirado no pé dele, quando soube que o Sr. Cullen se casaria com a secretária Esme; Edward tem de processar o ex-namorado de sua irmã, por publicar fotos dela pelada na internet. Hoje, um cano estourou e meu apartamento está inundado; esqueci de pegar meus sogros no aeroporto e entrei para a lista negra deles; meu carro foi roubado; meu dia está uma droga e, agora, isso...”, expirou, finalmente. “... deixei minha noiva e uns 500 convidados esperando na igreja. É tudo sempre tão maçante! É como se carregasse meio mundo nas costas, até já tenho rugas! Minha cabeça está sempre cheia. Tenho bilhetes espalhados por todo o meu apartamento e escritório, lembretes para que eu não esqueça coisas básicas como tomar banho ou comer! Minha família e amigos dizem que sou o melhor em tudo, só que eu não quero ser o melhor! Quero ser normal, poder faltar ao trabalho, não pentear o cabelo, xingar um pouco, sair sem ter hora para voltar ou, simplesmente, ficar de pernas pro ar, sem fazer nada.”, parou ofegando. Fiquei exausta só de ouvi-lo falar.

“Colega...”, dei-lhe um tapinha nas costas. “Você venceu! Sua vida é um saco!”, ri.

Edward sorriu torto. Olhei à nossa volta e me toquei da ironia.

“Classudo...”, dei um passo atrás. “Parece que conseguiu o que queria.”, abri os braços, apresentando-lhe a loja de conveniência. “É meia-noite e você tem uma madrugada inteira sem fazer, absolutamente, nada. Sem parentes, sem pressão e sem contato com o mundo exterior.”

Os olhos do noivo percorreram a CHINA 24h. Depois, pousaram em mim.

“É, parece que tem razão.”, concordou, com uma expressão relaxada.

“Talvez, se esquecer que tem um milhão de coisas te esperando lá fora, possa tirar algumas horas de férias e renovar suas forças.”, estava surpresa com minha atitude, mas era tão fácil ser gentil com ele que não me incomodava.

(...)

Passava de 01:00h e Edward e eu estávamos sentados no chão. Havia uns dois metros de distância à frente entre nós. Tentávamos, infantilmente, jogar M&M’s na boca um do outro. O divertido nem era acertar, e sim tentar. À minha volta, estavam vários M&M’s, por tentativas frustradas de alcançá-los no ar com a boca. Enquanto isso, nos concentrávamos no ping-pong de perguntas e respostas sobre nossas preferências e hábitos. Confesso! Estava me divertindo!

“Filme favorito?”, indaguei, atirando-lhe um dos pequenos chocolates.

“Indiana Jones.”, apanhou o doce no ar. “E você?”

“Qualquer um do Jean-Claude Van Damme.”, ri.

“Fala sério!”, jogou-me um M&M.

“Ok, ok.”, mostrei-lhe a língua, cedendo. “Jerry Maguire! Cantor ou banda favorita?”

“Goo Goo Dolls. E você?”

“Elvis Presley.”, respondi, orgulhosa e ele apenas assentiu, aprovando.

“Cor?”

“Preto!”, respondi de imediato. Edward fez careta.

“Ninguém gosta de preto.”

“Eu gosto. Porque ele não se importa com o que as outras cores acham dele e, mesmo assim, consegue se destacar.”, mastiguei o chocolate, enquanto o noivo ria, balançando a cabeça sem acreditar na minha reposta.

“Gosto de branco.”, piscou olho para mim. “Porque branco combina com tudo, até mesmo com o preto.”

Ok, confesso. Perdi o raciocínio por alguns segundos.

“Pior lembrança?”, continuei o jogo com algum esforço.

“Flagrar meus avós transando.”, rimos alto. “E você?”

“Todos os 20’s de fevereiro. Sempre levo um pé na bunda de algum homem.”

“Por quê?”, o classudo franziu a testa.

“Sou amaldiçoada. É sério!”, não adiantou falar com firmeza. Ele me olhou como todas as outras pessoas, achando que eu estava exagerando.

Preparava-me para explicar e passar um tempo infinito tentando convencê-lo, mas, para a minha total perplexidade, ele disse:

“Acredito!”

“Como?”, agora, quem não acreditava era eu.

“Acredito em você, existem muitos mistérios por aí. Quem sou eu para duvidar?”, esperei um pouco para ver se estava me zoando. Por fim, notei que falava sério. “Qual o seu sonho?”

“Sonho adulto ou sonho infantil?”, indaguei, jogando-lhe um M&M, que passou longe de seu rosto. O noivo ficou confuso e, por isso, tratei de lhe explicar. “Sonho adulto são coisas possíveis, como comprar uma casa, entrar na universidade ou ver seu time do peito ganhar o campeonato. Sonho infantil é aquele que você sabe que nunca irá se realizar, tão impossível que só uma criança seria capaz de sonhar.”

“Ah...”, ele fitou o chão, compreendendo. “Fale-me dos dois, então.”

“Meu sonho adulto é simples.”, ri. “Queria que o Sr. Chang, mudasse a cor desse meu uniforme. É tão brega!”, remexi a blusa horripilante.

“E o sonho infantil?”, Edward deslizou pelo piso, aproximando-se.

Suspirei alto e isso o deixou ainda mais curioso.

“Não sei... é meio tolo...”, mordi o lábio inferior. Como o noivo não tirou os olhos de mim, tive que continuar.  “Quando era criança, meu avô, todos os domingos, ia me buscar para passear em seu Cadillac vermelho conversível. Ficávamos andando nas estradas próximas à Forks. Me lembro muito bem de sentir o vento nos cabelos e a sensação de liberdade, enquanto, no rádio, tocavam as músicas do Elvis. Às vezes, fechava os olhos e me imaginava atravessando o país naquele carro, sem destino certo, sem me preocupar com nada. Apenas rodando e rodando por aí.”, sorri, me transportando para aquele momento no tempo. Por um segundo, visualizei a cena, como num filme antigo em preto e branco. Eu, meu falecido avô e a estrada vazia à nossa frente. As árvores passando como vultos tranquilos e meus cabelos dançando ao vento. Voltei ao tempo presente com os olhos úmidos. “Ou... talvez...”, sussurrei. “... só recomeçar.”, engoli seco e procurei não deixar transparecer nenhuma melancolia. Fitei meus dedos, tentando lembrar o que estávamos conversando antes. Por um segundo, tive a estranha impressão de sentir a mão de Edward perto da minha cabeça, mas eu, com certeza, devia estar imaginando coisas. Assim que minha linha de raciocínio voltou, falei. “E você, classudo? Quais seus sonhos?”

Pigarreou antes de responder.

“Meu sonho adulto é não ser tão distraído e esquecido.”, afrouxou o nó da grava e retirou o paletó. “É bem irritante. Quando me visto pela manhã, leio os lembretes e fico pensando em todas as coisas que tenho de fazer. Sempre acabo errando em algo no visual. Outro dia, saí de casa sem calças!”

“Mentira!”, gargalhei incrédula.

“Verdade! Pergunte aos meus vizinhos. Eles nunca vão esquecer o espetáculo.”, riu de si mesmo. “Agora, por exemplo, tenho quase certeza de que esqueci de pôr as meias certas e devo estar usando umas coloridas com renas que ganhei no natal passado.”

“Vamos descobrir.”, sem pedir permissão, levantei a barra de sua calça. Já, Edward, preferiu encarar o teto, como se temesse estar certo. “Tenho boas notícias.”, informei-lhe, animada. “Nada de renas coloridas”, suspirou aliviado. “Mas...”, soltei uma risadinha. “Está usando uma meia preta e outra branca.”

 O cara olhou os tornozelos. Pasmo, deu um tapa na própria testa, dizendo:

“Poxa!”



“Podia ser pior.”, garanti.

“Pior? Será que consigo essa proeza?”

“Podia não estar usando cueca.”, dei de ombros e, assim que fechei a boca, me arrependi da asneira dita.

“Hmmm...”, ele ficou pensativo por alguns segundos. “Tenho certeza de que estou usando e de que é branca! Mas isso é normal, a maioria das pessoas não se lembra mesmo da roupa íntima que coloca.”.

“Você está brincando, né? Esse tipo de coisa ninguém esquece!”

“Vai me dizer que tem 100% de certeza da cor da calcinha que está usando?”, duvidou irônico.

“Tenho sim!”, fechei a cara.

Seus olhos estreitaram-se e disse:

“Vamos verificar!”

Ruborizei.

“Calma, Isabella, não vou baixar as calças!”, garantiu-me. Por que será que eu quase fiz um biquinho, tristonha? Edward abriu o cinto e o botão da calça e deu uma espiadinha. Lógico que, eu também.

“Rá!”, apontei. “É preta! Você é tão maluco quanto imaginei que fosse!”, sorri, cheia de razão.

“Definitivamente, me superei! Agora é a sua vez!”

“O que?”, juro que não entendi de imediato.

“Sua vez de mostrar a calcinha.”

“Não vou mostrar nada!”, cruzei os braços.

“Mas eu mostrei minha cueca pra você!”, reclamou, chateado.

“Mostrou porque é um enxerido, não pedi pra ver!”, revirei os olhos, tentando não rir.

“Covarde.”, sussurrou, provocando-me.

Bufei, já desabotoando a calça. Deixei aparecer a peça só um pouco e, sem nem mesmo olhar, falei:

“É preta. Satisfeito agora?”

“Sim...”, sorriu torto, sem tirar os olhos do local. “Você está tão doida quanto eu. É branca!”, apontou.

Meu queixo desabou no momento em que baixei a cabeça para checar e constatei que ele estava certo.

Rimos por um tempo, como amigos que se conhecem há décadas.

“Não me falou seu sonho infantil.”, lembrei-lhe, interessada.

“Sonho infantil é sonho impossível, certo? Então, posso te confessar que queria abrir meu próprio escritório, sem nenhuma interferência dos Cullens. Defender apenas as causas que valem a pena, trabalhar para pessoas que necessitam, verdadeiramente, de ajuda, tentar mudar a vida de alguém para melhor. Isso soa típico de um idealista, mas é o que sinto. Admiro muito meu pai. Ele é brilhante! Por isso mesmo, não queria decepcioná-lo saindo da rota que estabeleceu para mim desde que nasci. Dou valor a todas as oportunidades que me ofereceu, me transformando em um homem preparado... mas... custou-me caro. Praticamente, não vivi. Sabe todas essas coisas que os jovens costumam fazer? Bem, eu nunca fiz. Às vezes, sinto como se houvesse dois de mim. O sonhador, confiante, decidido, animado e o outro...”, enxugou a testa, mesmo sem estar suada. “... o que deveria já estar casado neste momento.”

O casamento! Era desagradável lembrar daquilo.

“Acho que isso explica a cena bizarra de você como uma estátua na loja, antes do assalto.”

“Estava tentando lembrar onde coloquei meu bloco de notas.... e... também pensei algumas outras coisas.”

“Por que não usa uma agenda eletrônica, ou coisa parecida?”

“Porque, simplesmente, esqueço de checar a agenda. Os bilhetes ficam visíveis, então não esqueço. Vamos continuar o jogo?”, sugeriu, dobrando as mangas da camisa.

“Ok!”

A personalidade de Edward me impressionava. A facilidade com que mantínhamos diálogos sinceros e diretos, era quase assustadora. Cada palavra trocada, sorriso despertado e segundo consumado, nos proporcionavam um prazer imensurável. Era, simplesmente, gostoso desfrutar de sua companhia. Mesmo ele tendo uma beleza hipnotizante, olhar intenso e voz musical, não eram essas coisas que me mantinham cativa de cada minúsculo detalhe em suas palavras e atos. E sim a conexão partilhada, a troca de energia. Era uma estranha sensação de que a gravidade não existia. Flutuávamos no cosmo, um momento dentro de outro momento, os quais tornavam as horas mais longas, como se o próprio tempo desistisse de nós.

(...)

Edward e eu nos separamos, sentamos no chão entre as sessões e cada um ficou de um lado da estante, criando uma barreira visual. Batizamos aquele local de “o confessionário”. Foi uma forma boba, mas muito eficaz de confessarmos coisas que, geralmente, não tínhamos coragem de contar a ninguém, como minha mania de aceitar desaforos, dormir com a TV ligada pra não me sentir muito solitária e o fato de me conformar com a vida medíocre que levo. O classudo também confessou coisas bem íntimas, como quase não manter relações sexuais com a noiva, porque até isso precisava ser agendado com antecedência e que odiava ser chamado pelo sobrenome. Contei-lhe detalhes de minha “maldição”, meus dias estressantes na loja e como isso me afetava intimamente. Tínhamos algumas coisas em comum, outras não, e o engraçado é que as coisas que não tínhamos em comum não influenciavam em nada a conexão perfeita. Muito pelo contrário, nos deixava ainda mais fascinados pelas características um do outro.

“Qual sua data de aniversário?”, perguntou.

“20 de Novembro. E o seu?”

“20 de Fevereiro.”

“Ah, tá. Qual a sua...”, interrompi a frase, embasbacando. “Você disse 20 de Fevereiro?”, chequei, prendendo a respiração.

“Sim.”

“Seu aniversário é hoje?”, levantei em um pulo.

“Sim”, disse calmamente, enquanto erguia-se também. A estante ficou entre nós, mas eu podia ver seu rosto, perfeitamente.

“Ia casar no dia do seu aniversário?”, ergui as sobrancelhas. O classudo apenas deu de ombros. “Por que não me contou antes?”

“Você falou que suas piores lembranças são dessa data, então eu...”

“Não, senhor!”, intervi. “Não podemos deixá-lo sem aniversário! Já não bastam todas as coisas ruins que lhe aconteceram hoje? Tive uma idéia.”, sorri, arquitetando meus próximos passos.

(...)

“Isabella, posso sair agora?”, questionou Edward, praticamente de castigo no pequeno banheiro no fundo da loja, enquanto eu terminava de organizar sua surpresa.

“Só mais um minuto!”

Estava sendo impulsiva e romântica. Não era típico de mim, porém, era delicioso sentir-me daquele jeito. Logo que o noivo contou-me que era seu aniversário, me lembrei do aniversário da Sra. Chang, há duas semanas atrás. Comemoramos na China 24h porque eles não tinham parentes nos EUA. A vela rosa usada e alguns chapéus de festa haviam ficado guardados em uma das gavetas do balcão, junto com um saco de confetes. Até parecia sorte... Se eu fosse excessivamente romântica, diria destino, só que essa palavra é exagerada e fantasiosa. Puxei um banquinho para o local mais espaçoso da loja, próximo à entrada. Lá, depositei um dos bolos simples que vendíamos. Cacei o micro system da Sra. Chang, onde a esquisitona só ouvia as músicas da Tina Turner. Mesmo assim, o deixei pronto, em cima do balcão. Acendi a vela, posta carinhosamente em cima do bolo e corri para desligar a luzes, deixando apenas a última lâmpada no fundo, acesa. Voltei para perto do bolo, sem me importar com o chapeuzinho de festa ridículo. Puxei o saco de confetes do bolso e gritei:

“Venha, aniversariante!”, ele obedeceu. Assim que o avistei, berrei: “SURPRESA!”, jogando confete no ar. Meu Deus! Eu tinha enlouquecido!

Edward realmente ficou surpreso, a expressão em seu rosto denunciava isso. Vi que valeu a pena toda a maluquice.

“Isabella...”, encolheu os ombros, balançando a cabeça “... eu nem sei o que dizer!”, foi gratificante ver aquele brilho nos olhos dele.

“Vamos cantar parabéns!”, Disse-lhe, já batendo palmas.

Cantamos juntos. Edward não ficou acanhado como imaginei a princípio e sim, bem empolgado.

“Não esqueça de fazer um pedido.”, falei, vendo-o aproximar o rosto da vela. Ele hesitou por um segundo. Depois, fechou os olhos e soprou suave. Joguei muitos confetes em sua cabeça e o noivo se esfregou, fingindo tomar banho. Afastei-me só um pouco para apertar o play do aparelho de som, sem me importar com o CD que lá havia. Uma música pop bem agitada começou a tocar.

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***

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***


“Vamos comer o bolo.”, pediu, já provando o recheio.

“Antes, o chapeuzinho do aniversariante!”, coloquei o acessório em sua cabeça, me divertindo com a expressão engraçada que o maluco fazia.

Como não tínhamos nem talheres, nem pratos, comemos com guardanapos nas mãos. E foi justo nesse momento, que me engasguei com o bolo. Tudo por causa da letra da música. Temi que Edward pensasse que a escolhi intencionalmente.

Diga-me, advogado, o que fazer?
Acho que estou me apaixonando por você
Defenda-me do jeito como me sinto
Você não me dará algum conselho
Sobre como lidar com minha vida privada?
Estou certa de que podemos fazer um acordo
Eu confesso que sou boba por um homem
Com uma mente inteligente
Mas sua inteligência não é nenhum adversário
Para este meu coração

Continuei tossindo, provavelmente, já mudando de cor. O aniversariante me deu um tapinha nas minhas costas, soltando uma risadinha que me constrangeu. Parecia prestar mais atenção na canção do que eu desejava. Tive vontade de cavar um buraco e me enterrar viva, de tanta vergonha.

Refrão:
Tudo que eu quero é um pouco de reação
Apenas o bastante para equilibrar a situação
Estou apenas usando minha atração feminina
Em um homem típico, em um homem típico

Preciso admitir que a letra continha trechos de meus desejos íntimos, os quais não queria que o noivo soubesse. Era bizarro! Queria gritar por socorro!

Seu senso de justiça eu abraçarei
Mas sua defesa não ajuda meu caso
Estou afundada em problemas com a lei
Alguma coisa sobre autoridade
Parece trazer à tona o mal em mim
Ei, advogado, você precisa me segurar quando eu cair
Eles dizem que sua inteligência se compara às melhores
Mas sei que quando me aproximo,
Você simplesmente é igual ao resto

“Está tão corada, Isabella.”, comentou, roçando o polegar na minha bochecha.

Pronto, morri! Dá para acreditar que ainda tentei negar, sacudindo a cabeça?

“Vamos dançar!”, disse, puxando-me para o meio da loja. Cambaleei, nervosa.

Ficamos de frente um para o outro, minhas mãos suaram e não soube o que fazer. O classudo, muito à vontade, passou o braço em volta da minha cintura, colando nossos corpos. Ficávamos numa posição clássica, achei até que dançaríamos uma valsa. Mas, não foi isso que aconteceu. Apenas nos mexemos de um lado para o outro, no ritmo da música, descontraídos, divertidos, sem nos importar com as regras de dança. A torturante declaração não intencional dos meus sentimentos continuou a soar através da música pop e dançante da Tina Turner.

Refrão:
Tudo que eu quero é um pouco de reação
Apenas o bastante para equilibrar a situação
Estou apenas usando minha atração feminina
Em um homem típico, em um homem típico

Então, coloque seus livros de lado
Tire o paletó e a gravata
Abra bem o seu coração e me deixe entrar
Abra bem o seu coração e me deixe entrar

VOU MORRER! VOU MORRER! VOU MORRER! Isso era a única coisa que pensava. Tinha certeza de que iria morrer de vergonha a qualquer momento. Quando a música, finalmente, chegou ao fim, corri para me livrar do CD, antes que tocasse mais alguma coisa comprometedora. Edward pôs as mãos nos bolsos, encarando-me com um sorriso de orelha a orelha.

“Depois, me empresta esse CD? Gostei da música!”, provocou.

Dei-lhe as costas, para que o mesmo não visse o grito silencioso que soltei, fazendo uma tremenda careta. Podia pagar um mico maior do que aquele? Antes que ele fizesse alguma piadinha, sintonizei o som em uma rádio qualquer. Coisa que a anta aqui deveria ter feito há muito tempo!

“Ei! E minha dança?”, Edward abriu os braços, piscando o olho. Minhas pernas vacilaram por um breve momento. Respirei fundo e fui até ele, como se nada tivesse acontecido. Torcia para que tocasse, na rádio, um rock bem louco. O radialista tagarelou. Só quando o aniversariante voltou a me puxar, uma música romântica começou a tocar.

Ambos encaramos o som, meio bobos. Mesmo assim, mantivemos a compostura, nos esforçando para não fazer piada daquilo. Nossos olhos se encontraram, quis fitar qualquer outro ponto da loja, mas não consegui. Edward suspirou antes de iniciar a dança, guiando-me, agora, com mais elegância e suavidade. Conforme as notas musicais iam preenchendo o ambiente, fui relaxando, entregando-me lentamente ao momento. O engraçado é que os músculos, antes rijos, dos braços e mãos do noivo, também relaxaram. Giramos pela pista improvisada. O nervosismo e o constrangimento se dissiparam, dando lugar a sensações familiares e confortáveis. O classudo segurou minha mão direita e me girou; em seguida, me puxou para si. Minha cabeça pendeu em seu ombro, sua palma, pressionou minhas costas, aconchegando-me ali. Os movimentos largos tornaram-se sutis, quase não nos mexíamos. Fechei os olhos e mergulhei na mais irresistível paz. Não sei quanto tempo ficamos abraçados. 5 minutos? 30? Horas? Não importava.

“Isabella?”, chamou-me, em um fio de voz.

“Sim?”, ergui a cabeça.

“Tenho direito a um presente?”

“Não vou mostrar minha calcinha de novo!”, brinquei.

“Na verdade, é mais um pedido...”, afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. “Me promete que vai parar de ser mais uma conformada. Reaja!”

“Não posso prometer o que não sei se posso cumprir.”

“Por quê?”, questionou, segurando meus ombros e dando um passo atrás. “Não entendo, juro que não! Se habituou a ser uma rejeitada. Não acredito completamente que seja amaldiçoada, só que...”, torceu a boca durante a pequena pausa. “... parece não deixar os outros verem como realmente é. Tentou me explicar os detalhes de sua suposta maldição e seu dia-dia como balconista, mas, não vejo essa Isabella que descreveu.”

“Eu sei, estou agindo de forma estranha desde que apertamos as mãos, ao nos apresentarmos. Tudo que te falei é verdade, é a minha realidade. Não sei explicar... estou sendo tão espontânea...”, ri sem humor. “... até te enfrentei, quando discutimos por causa dos preços que me cobrou e quando queria ver minha calcinha. Nunca faço isso! Evito conflitos, é mais fácil tentar contorná-los. Em alguns momentos, não me reconheci totalmente, embora tenha gostado.”, cocei a cabeça, aturdida.

“Confesso que, no nosso primeiro contato, vi reflexos dessa pessoa que diz ser, mas foi por pouco tempo. Não demorei a perceber que é especial.”

“Sei...”, destilei sarcasmo.

“Estou falando sério, queria que pudesse se ver com meus olhos, agora. É honesta, comunicativa, engraçada, gentil, linda, atenciosa... tem algo que prende a atenção, como uma luz própria. É difícil parar de te olhar. Fez-me sentir totalmente à vontade. Não é possível que só eu veja isso. Quando vai colocar na sua cabeça que é absolutamente encantadora?”, segurou meu rosto entre as mãos. “Tem tanto potencial, não o desperdice, por favor. Não se conforme com menos do que merece!”

Ninguém havia falado comigo daquela forma, antes. As palavras eram tão firmes e convincentes! Cheguei a lacrimejar. Foi a primeira vez que me senti alguém.

“Isabella, não importa o que te disseram durantes todos esses anos. Eu sei que pode ser o que quiser. Só tem que se permitir acreditar na verdade, não é uma fracassada!”, falou severamente. “Venha!”, me puxou para perto do balcão. “Suba!”, me ergueu para que eu subisse. Fiquei de pé lá em cima, trêmula. “Quero que diga, com convicção, que não vai mais se conformar com a vida que leva!”

“C-como?”, gaguejei.

“É o que ouviu! Não vamos sair dessa loja enquanto não vencer essa sua barreira interior. Ande, declare: não vou me conformar! Não sou uma fracassada! Vai, Isabella!”

Procurei por ar e não encontrei. Cerrei os punhos e murmurei:

“Não vou me conformar.”

“Pode fazer melhor!”, incentivou Edward.

“Não vou me conformar!”, falei um pouco mais alto.

“Humpf! Não está se esforçando! Pense em todas as rejeições que sofreu, em todas as portas que te fecharam, nos foras, vai aceitar isso para sempre? Vai aceitar calada?”, falou alto, me passando confiança.

E eu visualizei, exatamente, o que ele queria. Ofegava, enquanto as lembranças lampejavam na minha mente, flashs de momentos dolorosos e frustrantes. Todas as coisas com as quais sonhei e temi lutar por elas, por medo do fracasso. Planos abandonados, casos mal resolvidos, uma existência inteira de receios e limitações. Senti as lágrimas escorrendo pela minha face, contidas há tanto tempo. Não queria, um dia, acordar aos 60 anos e descobrir que deixei minha vida ser sugada por meus fantasmas interiores. Canalizei todas as sensações e pensamentos e os coloquei para fora, através de um brado que brotou de dentro do peito.

“NÃO VOU ME CONFORMAR! NÃO SOU UMA FRACASSADA!”, meus olhos permaneciam fechados, enquanto absorvia, com todas as forças, aquela declaração. Senti como se estivesse submergindo, respirando depois de um longo tempo sem ar.

Abri os olhos lentamente, revigorada. Lá estava o noivo, me observando, admirado. Minhas risadas misturaram-se com o choro. Enxuguei, debilmente, as lágrimas e, ainda assim, não me senti constrangida. Eu o queria ali, partilhando o momento comigo.

“Se saiu muito melhor do que eu imaginava.”, elogiou Edward, esticando os braços para me ajudar a descer do balcão.

Atirei-me em seus braços sem cerimônias, envolvendo-o em um abraço grato e muito apertado.

“Obrigada.”, sussurrei em seu ouvido.

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***

“Disponha!”, afagou meus cabelos. Senti seus lábios roçarem na minha orelha e, suavemente, foram deslizando até minha bochecha. Meu coração disparou. Eu só precisava virar um pouquinho o rosto e nossas bocas se encontrariam. Ele esperou e, em plena consciência de que o queria, movi a cabeça.

Nossos lábios mantiveram-se colados e totalmente imóveis por um momento. Não havia incertezas, não parecia errado ou imprudente. Estávamos prontos, como se já tivéssemos esperado aquilo por muito tempo. Movemos as bocas ao mesmo tempo, o desejo explodiu. Perdi-me nas milhares de sensações: a língua acariciando a minha, o hálito adocicado, sua mão em minha nuca, os batimentos cardíacos descompassados...

Passei muito tempo da minha vida sentindo-me deslocada. Senti a nítida impressão de que estava exatamente onde deveria estar. Gemi involuntariamente, extasiada, enfeitiçada e entregue ao melhor beijo que alguém poderia partilhar. Edward pressionava-me contra si, mostrando que todo o contato não era suficiente. Uma das minhas mãos deslizou por seu braço e notei seus pelos eriçados. Gostei de saber que não era a única a sentir a maré de arrepios. Gemidos guturais brotavam dele. Por mais que me faltasse o ar, não estava disposta a deixar de sugar aqueles lábios macios. Era humanamente impossível me fazer desistir daquilo. Pois, ali, naquele minuto, nos tornamos o centro do universo. Foi um beijo perfeito, nunca imaginei que podia existir algo assim. Infelizmente, precisamos nos separar quando o ar exigiu seu lugar em nossos pulmões. A separação foi abrupta, pois estávamos tão envolvidos que, distanciar nossos corpos, exigiu um grande esforço de ambas as partes. Cambaleamos, arfando. Meio tonta, precisei me apoiar no balcão. Aos poucos, fui me recuperando e, pela primeira vez, soube exatamente o que dizer.

“Foi inevitável!”

“Eu sei!”, afirmou, vindo ao meu encontro e pressionando os lábios nos meus, depois, espalhando beijos por minha face. “Nunca me senti assim, sua mãe estava certa!”

Suas palavras me chamaram a atenção, porém, não consegui manter uma linha de raciocínio coerente, quando senti a boca quente dele em meu pescoço, causando uma nova e mais intensa maré de arrepios. Quanto mais nos tocávamos, mais a sensação de que estávamos fazendo a coisa certa crescia.

“Está sentindo isso?”, murmurou ofegando, contra o meu pescoço.

“Sim.”, sabia, exatamente, ao que ele se referia. Existia uma corrente fluindo entre nós, rompendo por entre nosso peito, circundando os corpos.

Não sei dizer se foi efeito da loja, transformando-se, para nós, numa cápsula, uma bolha totalmente alheia ao mundo exterior. Fazendo-nos acreditar que não existia nada mais importante do que eu e ele. Perdemos a noção do tempo, da realidade e tudo mais que, um dia, já teve importância. Era difícil lembrar a última vez que senti necessidade de verificar as horas. Por mais que fosse loucura, não parecia. Enxergávamos através de ópticas alteradas, apenas um homem e uma mulher, livres das amarras de seus cotidianos. Sentia-me, exatamente, a Isabella que Edward descrevera, confiante, determinada, capaz. Porém, isso não era nada diante da realidade alternativa que se abrira, onde pertencíamos um ao outro.

Para ser sincera, não sei quem tomou a iniciativa. Ambos, talvez. Mas, agora, estávamos totalmente despidos, deitados no chão frio. Prendíamos-nos nas íntimas carícias trocadas, envoltos na paixão incandescente que iluminava nossos olhos. Bocas ocupadas, mãos venerando as curvas, deixando rastros sobre a pele, gemidos abafados, sede insaciável. Pequenas descargas elétricas ondulavam durante as investidas de Edward contra mim. Tinha certeza que minhas unhas deixavam marcas em suas costas, mas ele não reclamou. Na verdade, retribuía com o vigor do seu desejo. Não existiam barreiras a serem estraçalhadas, éramos duas peças de quebra-cabeça se encaixando. Murmúrios e palavras desconexas brotavam de nossas gargantas, fazendo-me perder a noção de onde terminava o meu corpo e começava o dele. Quanto mais o tinha, mais o queria. Rolamos pelo piso, nos privilegiando com a possibilidade de desfrutarmos de todos os movimentos que nos impelissem a tornar inesquecível o que já era único.

Não faço idéia de por quanto tempo fizemos amor, ou quantas vezes atingimos o clímax. O que sei é que desejava ficar presa em nossa bolha para sempre. Estávamos aninhados, submersos no silêncio, enquanto Edward escrevia seu nome com o dedo indicador na minha coxa. Reconhecia cada letra invisível. O cheiro da camisa dele, que eu vestia, era muito agradável. Pensei em devolvê-la, porém, vê-lo só de calça, com o peito desnudo, era mais interessante. Ergui a cabeça, em busca de seus olhos. O classudo me presenteou com um sorriso largo e sincero. Em seguida, beijou-me a testa, com delicadeza.

“Isabella...”, chamou-me docemente.

“Sim?”, respondi com a voz preguiçosa.

“Fiquei refletindo sobre a história de seus pais. Você nasceu, exatamente, nove meses após a noite que eles passaram juntos, certo?”

“Sim, já te falei isso antes!”, confirmei, confusa. “Por que a pergunta?”

“Estou analisando as coincidências.”, pausou, pensativo. “Faça as contas. Se nasceu em 20 de novembro, a noite mágica que sua mãe descreveu, aconteceu no dia 20 de fevereiro de 1989.”

Sentei-me com a testa franzida, percebendo o que ele estava querendo dizer.

“Hoje completam 20 anos desde que tudo aconteceu...”, murmurei, pasma. “... e é seu aniversário. Poxa, que engraçado!”, sorri.

“E se não for coincidência?”, Edward se sentou também.

“Do que está falando?”

“A história que me contou, ficou na minha cabeça à noite toda. Falou-me que eles viveram um momento único em suas existências, que tinham uma conexão, a qual vai além das regras habituais entre homens e mulheres.”

“Aonde quer chegar?”, me interessei.

“Nunca me senti como me sinto agora. Nem consigo expressar, em palavras, o sentimento dentro de mim!”

“Sei como é!”, admiti. “Também sinto.”

“E se ela estiver certa? E se as pessoas forem como planetas em órbita, fadadas a seguir um trajeto em volta de suas escolhas...?”, parou, concentrando-se em algo que pareceu acabar de lhe ocorrer. “Isabella...”, arfou. “... faz sentido! É complicado, mas tenta seguir meu raciocínio. Segundo a teoria de sua mãe, sob influência de uma força maior, algumas pessoas saem de órbita e têm a chance de refazer suas escolhas, mas a chance passa rápido, pois a força gravitacional os puxa de volta ao curso natural de suas vidas.”

“Edward, isso são suposições tolas!”

Ele se levantou, me puxando consigo, para que o encarasse.

“Há mais, Isabella, muito mais! Não vê que todas as coisas estão ligadas? O que sentimos agora não é só empolgação ou atração sexual! Tudo começou no dia da sua concepção. Toda ação causa uma reação, certo? Quando sua mãe decidiu não partir com seu pai, ela fez uma escolha. Foi essa escolha que nos trouxe até aqui!”, as palavras dele fluíam rápidas, cheias de convicção e confusas pra mim. “Explico: Renné e Charlie estavam destinados a se encontrarem, sem rota a seguir. Só duas linhas de vidas distintas, que se cruzaram em um único e raro momento no tempo. As decisões tomadas durante aquele tempo, determinaram seus futuros. Como sua mãe não teve coragem de seguir o que sentia, eles decidiram entregar-se um ao outro, sabendo que nunca mais iriam se encontrar. Se Renné tivesse tomado a decisão certa, é possível que nem estivesse aqui. Sua concepção, naquele específico momento, criou um curso alternativo, independente dos deles, porque a chance deles passou. Era apenas uma. Já você, ficou presa ao dia 20 de fevereiro. Talvez, isso explique sua maldição. Arrisco dizer que ela te protegeu, para que não saísse da rota.”, sorriu, fascinado. Minha boca estava escancarada, enquanto eu me forçava a ver alguma racionalidade naquela teoria.

“Vamos supor que, a partir da virada do dia 19 para o dia 20, todo o universo conspirasse para que chegássemos a esse momento; um reflexo ou repetição do que aconteceu com seus pais, 20 anos atrás.”

“Se fosse assim, por que nosso momento fora de órbita não terminou à meia noite?”, questionei, erguendo a sobrancelha. Edward pôs a mão na testa, inquieto e pensativo.

“Talvez não esteja ligado a horários, pois é como se não sentíssemos o tempo passar, aqui dentro. Pode ser que esteja mais relacionado ao nascer do sol, à troca de opostos, como escuridão e luz, preto e branco. São coincidências demais para ignorar!”, de repente, a convicção voltou aos seus olhos. Gesticulava, frenético. “Poxa! Como não percebi isso antes? As coincidências! Elas se encaixam! Te contei que, essa manhã, um cano estourou no meu apartamento! Fiquei um tempão tentando salvar minhas coisas,  por isso, esqueci de pegar meus sogros no aeroporto. Só bem depois, meu irmão me ligou, avisando que eles ainda esperavam. Muito atrasado e estressado, fui, às pressas, buscá-los. Quando cheguei lá, estacionei no primeiro local que vi na rua e corri para dentro do aeroporto. Ao retornar, meu carro havia sumido. Na catedral, antes da cerimônia, estava confuso, pressionado, precisava de uma bebida. Se estivesse com meu carro, teria ido a um bar, mas como eu não queria que ninguém percebesse minha ausência, não peguei nenhum carro emprestado. Simplesmente, saí andando, desci a rua e logo dei de cara com essa loja de conveniência. Mal cheguei aqui, fomos assaltados e bang!”, socou sua palma esquerda, fazendo-me sobressaltar com o estalo. “Aqui estamos nós, literalmente presos nessa encruzilhada!”

“Desculpa, Edward, meu lado racional se recusa a acreditar no que disse. É muita viagem!”

“Não estou te pedindo para acreditar em fantasias como fadas, duendes ou vampiros. Só te peço para cogitar a possibilidade de que existe algo maior do que nós lá fora, ou mesmo aqui dentro. Uma força mantendo a engrenagem da vida funcionando. O universo está cheio de uma magia invisível. Por exemplo: se a Terra fosse um pouco mais distante do Sol, congelaríamos, ou se fosse um pouco mais perto, todos nós queimaríamos. A Terra é o único planeta conhecido que é provido de uma atmosfera com a mistura, na medida exata, de gases para sustentar vida humana. É absurdo acharmos que estamos largados ao acaso. Pode chamar do que quiser: destino, sina, vontade divina... não interessa, o que interessa é que existe! O que estamos vivendo agora, é real! Essa magia nos trouxe até aqui!”, abraçou-me.

Minha cabeça girou. Respirei com dificuldade e não pude deixar de me perguntar se Edward tinha razão. O que isso significava? Que iria perdê-lo em breve, como minha mãe perdeu Charlie?

“O que falou é impressionante, mas e eu? Essa conspiração do universo não deveria ter afetado meu dia também? Será que só não teve um dia azarado?”

“É a sua primeira vez nesse turno, certo? Para começo de conversa, nem deveria estar aqui. Foi você mesma quem disse que seu patrão foi atropelado e, por isso, o substituiu. E o assalto? Ninguém ousaria isso se ele estivesse de serviço.”

“Não estou certa de que o fato do Sr. Chang ter sido atropelado por um Volvo prata se encaixe em sua teoria.”

“Como?”, Edward piscou os olhos, aturdido. “Seu patrão foi atropelado por um Volvo prata?”

“Sim.”

“Uau!”, o classudo bestificou. “Isabella, o carro que me roubaram é um Volvo prata! Sendo assim, o cano estourado no meu apartamento desencadeou a seqüência de acontecimentos que nos trouxe até aqui! Uma espécie de efeito dominó!”

Engoli, com esforço, o nó em minha garganta. Nem eu, nem ele, conseguimos falar por um tempo. Foi aí que ouvimos um estrondo vindo da porta de aço. Meus músculos se retesaram. Fui atingida pela consciência de que o tempo havia passado, mesmo contra a nossa vontade. Tão tarde o encontrei e tão cedo iria vê-lo partir para sua vida, corrida e compromissada.

“Deve ser a Sr. Chang com a polícia, está amanhecendo. Nosso tempo está se esgotando!”, alertei, melancólica.

Edward cerrou os olhos, sua expressão era dolorosa. Partilhei a mesma dor. Então, sem que eu esperasse, me puxou para si e me abraçou forte. Expirei o aroma que exalava de seu peito.

“Isabella, nos restam alguns segundos. Ainda podemos fazer uma escolha.”

Distanciei-me.

“Que escolha?”, meus olhos ficaram, subitamente, úmidos. “Quando as portas se abrirem, você voltará para a sua vida corrida, sua família, sua noiva...”, baixei a cabeça. “... é provável que nenhuma de suas anotações o faça lembrar de mim.”

A fraca luz do sol subindo ao céu adentrou a loja quando os policiais ergueram a porta de aço. Meu coração quase parou de bater. Abrupto, Edward encostou-me contra a parede. Perturbado, falou em voz alta:

“Não temos mais tempo! Se não escolher agora, a chance será perdida. Não vamos repetir os erros dos seus pais!”

“Escolher?”, retruquei irritada. “Não o vejo escolhendo a mim, ao invés da sua noiva, não te vejo escolhendo decepcionar sua família e tudo que planejaram pra você! Me diga, Edward, que escolha quer que eu faça?”

Ambos olhamos para os homens mexendo na fechadura da porta de vidro.

“Não pense na minha realidade, nem na sua! Não importa o que iremos fazer ou falar quando abrirem aquela porta. É esse momento que vai contar! Quando a gravidade nos puxar de volta à órbita natural de nossas vidas, já estaremos no curso desenhado a partir daqui.”

Viramos os rostos e vimos um homem preparando-se para girar a maçaneta. Não podia perder Edward, mas não sabia o que escolher ou como. Talvez estivéssemos presos num delírio, duas pessoas que passaram tempo demais enclausuradas.

O homem que me proporcionou a noite mais incrível da minha vida fitou-me intensamente e, em um súbito, beijou-me com desespero.

A porta se abriu e a luz solar de um novo dia ofuscou-me.

(...)

Fomos parar todos na delegacia para depor. No caminho, Edward comunicou à família que estava bem e informou onde estava indo. Explicamos o acontecido às autoridades. Foi rápido. Poucos minutos depois, já estávamos dispensados. Fui a primeira a sair da sala do delegado e Edward me seguiu. A multidão de pessoas no corredor me assustou. Alguém me empurrou para longe e cercaram Edward. Tagarelavam alto e não demorei a perceber que se tratava da família dele. Distingui a maioria com facilidade. O homem de mais idade era o pai. Bem mais elegante do que eu imaginara, este lhe fazia perguntas. Ao lado do pai, sua nova esposa, os dois de mãos dadas. Já sua mãe, tinha a mesma tonalidade de cabelos acobreados do filho. Outros dois homens riam, zombando. Os irmãos, deduzi. Uma moça aflita retirava, com as mãos, sujeiras do fraque amarrotado. Havia também uma mulher que segurava uma pilha de pastas, e essa só podia ser uma secretária. Ela entregou um celular a Edward e ele já discutia, bem chateado, através do aparelho. Por fim, uma loira de beleza clássica mantinha um braço em volta da cintura do homem que tive por apenas uma noite. O enorme diamante cintilava, incrustado no anel. Aquela, para minha tristeza, era a noiva.

Dei um passo atrás, observando, mais uma vez, o quadro da vida de Edward. A vida cujo trajeto jamais teria cruzado o meu, se não fosse pela interferência de uma força suprema. Fixei o olhar em seu rosto e quase não o reconheci. Ainda era o noivo que conheci na loja de conveniência, só que sua fisionomia era semelhante à de um homem de 50 anos. Cansado, sério, preocupado e, como ele explicara antes, distraído.

Então, eu percebi que não me encaixava, de forma alguma, naquele quadro. Não havia espaço na vida de Edward para mim, nunca houvera. A não ser dentro da cápsula que partilhamos, em um 20 de fevereiro que jamais voltaria. Suspirei, admirei o rosto dele pela última vez e parti.

(...)

Mais de uma semana se passou, desde aquela fantástica madrugada. O Sr. Chang fechou a China 24hs por esse período, enquanto recuperava-se. Obviamente, temendo novos assaltos. Logo que melhorou, o velhote voltou à ativa, ainda mais resmungão. Durante aquele tempo, tive merecidas férias. Foi bom ficar em casa e refletir sobre minha vida. Já não era a mesma, pois fui afetada pelos acontecimentos daquele dia especial, de todas as formas possíveis. Decidida a nunca mais me sentir uma fracassada, comecei a fazer planos, como voltar a estudar, procurar um trabalho mais bem remunerado e até retornar à Forks para rever minha Renné e lhe dizer que, agora, verdadeiramente, a compreendia. De forma alguma consegui retomar minha rotina, até parecia que ela me rejeitava.

Infelizmente, não voltei a ver o noivo. Porém, isso não me impediu de relembrar, minuciosamente, cada detalhe daquele 20 de fevereiro, umas mil vezes. Não me considerava mais uma amaldiçoada, muito pelo contrário. Era abençoada, pois tive em uma noite mais emoção, felicidade, magia e paixão que a vida inteira de muitas pessoas. Não tinha do reclamar. Eu estava feliz. No entanto, se eu pudesse voltar no tempo, teria feito uma escolha definitiva quanto tive a oportunidade.

Eu sabia que tínhamos amado de verdade, ao menos naquele momento. Não houve falsas promessas de nenhuma das partes, estávamos cientes de que poderíamos nunca mais nos encontrar. Nem sempre pessoas que se amam ficam juntas, mas ter a chance de amar já é um grande presente. AMOR. Agora eu conseguia falar a palavra mais significativa que o homem já inventara. Isso tudo soa meio clichê, ainda mais se incluirmos palavras como destino, paixão, sonho, magia. São coisas para as quais muitas vezes torcemos o nariz quando ouvimos ou lemos, porque as pessoas já as usaram demais, até se tornarem chatas e piegas. Mas só quando se vive a essência do significado delas é que se percebe a importância que têm.


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***

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***


Caminhei alguns quarteirões, indo para a loja de conveniência. Passei em frente à Catedral Grace e desci a Rua Jones. O sol fraco do fim de tarde brilhava, enquanto eu olhava para meus pés movendo-se. Tentava imaginar a cara que o Sr. Chang faria quando lhe contasse que estava lá para me demitir. Usava meu velho e surrado uniforme, dessa vez, com carinho, para me despedir dele.

Parei na calçada e levantei a cabeça, espiando a loja através da porta. Era a primeira vez que eu voltava ali desde minha “experiência fora de órbita”. Girei a maçaneta pronta para entrar, só que a buzina de um carro qualquer no posto de gasolina quase me deixou surda. Me virei, irritada, e não consegui reagir.

Meus olhos enxergaram apenas ele, nada mais. Tudo em sua volta perdeu a importância, eram manchas desfocadas.

“E-e-dward?”, custou-me acreditar.

Não era o mesmo classudo de quem me recordava na delegacia. Sua expressão, ao contrário da outra, era divertida. Não estava usando o fraque que me fazia chamá-lo de noivo, e sim uma camiseta branca justa e, talvez, um jeans. Não tinha certeza, ele estava dentro de um carro.

Encolhi-me, quando Edward atirou-me um objeto preto. Peguei-o num reflexo. Obriguei-me a respirar e olhar o que tinha nas mãos. Era um tecido. O estendi diante de mim. Perplexa, constatei que se tratava de uma blusa semelhante a do meu uniforme, só que em preto e branco! Até tinha meu nome bordado. Sorri, ao lembrar que tinha lhe contado que aquilo era meu sonho adulto. Baixei os braços, tirando o tecido do meu campo de visão e foi aí que, finalmente, vi o que a presença de Edward tinha desfocado. Minhas pernas vacilaram e precisei me apoiar na porta. O Cadillac vermelho que cintilava sob o Sol era idêntico ao do meu avô. O advogado buzinou, me tirando do transe. O encarei, com a boca entreaberta.

“Vamos?”, perguntou, indicando com a cabeça o banco de passageiros.

Gargalhei, ainda não acreditando.

“Não posso...”, expirei e ele entristeceu. Tratei de completar a frase, antes que me entendesse errado. “Não posso ainda. Espera um segundo!”

Abri a porta da loja. O Sr. Chang, atrás do caixa, se assustou com meu ato.

“EU... ME... DEMITO!”, berrei pausadamente, saboreando a sensação.

Bati com força a porta e, para a minha surpresa, o vidro estalou, trincando. Rachou de uma extremidade a outra! Olhei para Edward e ele também observava, pasmo. Depois de tudo aquilo, parecia até piada!

Corri, dando a volta no carro. Pulei para dentro do conversível. Meu classudo recepcionou-me com um beijo revigorante, devorando meus lábios.

“Desculpa.”, suspirou, se afastando.  “É que estava com saudade!”, nem tive tempo de dizer que sentia o mesmo, foi logo jogando um mapa sobre as minhas coxas. “Por onde começamos?”

A ficha caiu.

“Vai... quer dizer... vamos...?”, não consegui completar a frase. Minha expressão devia ser hilária.

“Quem disse que dois adultos não podem realizar um sonho infantil?”, ergueu o queixo, sorrindo todo orgulhoso. “Achei que seria uma boa idéia conhecermos o país primeiro, antes de escolher um lugar para recomeçarmos.”

Respirei fundo, maravilhada com as surpresas da vida que, um dia, ousei odiar.

Após outro beijo cheio de saudade, meu classudo deu a partida e nos distanciamos da China 24h.

Não quis levar nenhum pertence que estivesse ligado à minha vinda anterior e, a ausência da bagagem de Edward, provava que ele pensava igual.

Na avenida, eu estava feliz demais para ficar quieta. Por isso, mexia em tudo no carro. Até que me virei para o motorista e disse:

“Edward, eu não escolhi naquele amanhecer. Queria. Porém não sabia como, mal entendia por quê. Não imagina quantas vezes me arrependi de não ter tentado. Mesmo assim, aqui estamos! Suas teorias estavam erradas?”

Ele parou no sinal e me encarou.

“Isabella, eu fiz a escolha ao te beijar, achando que seria nosso último momento. Mesmo não sabendo como, ou se realmente você me queria, decidi que ficaríamos juntos. Quando saí da loja, senti a influência em tudo. Já não era mais o mesmo, foi simplesmente impossível viver como antes! Parecia estar vivendo a vida de outra pessoa! Meu novo trajeto foi se alinhando, durante esses dias que ficamos longe. Resolvi as pendências que me prendiam, de forma muito simples. Até pensei que elas haviam desistido de mim. A convicção de que estaria ao seu lado só cresceu. Não te esqueci, lembro de cada mínimo detalhe de você e da nossa noite.” afagou meu rosto. “Só não entrei em contato antes, porque não queria te oferecer nada pela metade. Não sou um homem de promessas, e sim de ações.”

“Parece que minhas decisões também influenciaram. É fácil alguém gritar que não será mais uma fracassada, mas, pôr isso em prática e lutar por tal, é outra história. A vida que eu tinha antes também não se encaixou comigo. Simplesmente não conseguia me conformar. No entanto, o mais impressionante é que fiquei triste na delegacia, porém, fora dela, me senti totalmente feliz. Acho que, no fundo, sabia que nos reencontraríamos. Tentei ignorar a sensação e tudo que consegui foi ter muita paciência, como se soubesse que tinha de esperar.”, gargalhei. “Juro que não sei de onde surgiu essa Isabella tão confiante.”

Edward me deu um selinho, ignorando os carros atrás de nós, que buzinavam impacientes.

“Onde está seu bloco de notas?”, perguntei, assim que me deixou respirar. “Vai precisar dele durante a viagem. Não quero que esqueça nada.”, voltamos a andar, pegando a rodovia.

“Eu até tenho um.”, o tirou do porta-luvas. “Mas é para você. Para anotar os lugares que deseja visitar.”, lançou-me um olhar de puro contentamento. “Não esqueço nada há dias, minha mente está limpa, livre e em paz.”

“Nossa! Como isso é possível?”

“Como vou saber? É você que é a garota mágica aqui!”, piscou o olho para mim.

Minutos depois, já estávamos saindo dos limites da cidade.

“Tenho mais uma teoria.”, informou.

“Mais?”, arregalei os olhos. “Você adora se sentir inteligente, montando esses quebra-cabeças, não é?”, ele assentiu, divertindo-se.

“Nós alteramos nossas rotas de vida, ou seja, mudamos o futuro. Essa ação pode ter causado uma reação na linha que te trouxe até mim. É possível que o passado tenha sido afetado.”

“O passado?”, assustei-me.

“Não literalmente o passado, mas as pessoas diretamente ligadas ao seu destino.”

“Meus pais...”, murmurei, refletindo.

“Pode ser que eles acabem se reencontrando... Uma nova seqüência de acontecimentos. Não me chame de o louco das teorias. Mas, se pensarmos bem, tudo que nos aconteceu pode ter sido o universo, tentando ajustar o que não deu certo no encontro deles, colocando todas as peças em seu devido lugar.”

Minha cabeça pendeu no encosto, enquanto Can't Help Falling in Love with You do Elvis tocava no som, uma das únicas coisas modernas no Cadillac. Com os olhos fixos no céu, imaginei como seria maravilhoso se Edward estivesse certo. Então, pensei: por que duvidar? Afinal, tudo pode acontecer. A existência do universo já é um milagre tão grande que nos faz cogitar a possibilidade de que existam outros pequenos milagres acontecendo por aí, todos os dias, em todos os lugares, modificando o curso da minha vida e da sua, nos levando a caminhos inimagináveis.

Virei a cabeça e observei um deles em forma de um homem completo, dirigindo o meu sonho infantil e me levando a viver uma nova história. Ele me encarou, feliz, e não pude deixar de pensar:

Eu AMO a minha vida!

3 comentários :

AI que historia linda *-*
adorei .... bem que podia ter continuação ne ???

7 de dezembro de 2010 15:08 comment-delete

Ameei, awwn simplesmente perfeita *---*

Anônimo
29 de setembro de 2013 03:47 comment-delete

Ameei, awwn simplesmente perfeita *---*

Anônimo
29 de setembro de 2013 23:00 comment-delete

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