AI - Capitulo 2

Capítulo 2 – Cordas de raiva.


O som do farfalhar das canetas nos papéis era insistente. Parecia que a maioria dos olhares se concentrava em exatamente três coisas.

A primeira era o relógio que fazia o som típico tic-tac mais sombrio que todos os dias. A segunda era o movimento da cadeira de rodas do coronel McCarthy, e o barulho ensurdecedor das rodas contra o chão, tirando qualquer concentração que o novato ainda poderia ter.

E a terceira era a prova cheia de alternativas e escritas que tinham em sua frente.

"Tempo." McCarthy disse, fazendo sinal assim para um subordinado recolher todas as provas. "Espero que tenham ido bem, novatos." Disse com ironia enquanto movia sua cadeira até atrás da mesa e procurava por alguma coisa bem enjoativa para comer.

Bella terminou de escrever a última frase á tempo, e entregou com um sorriso vitorioso para o subordinado que recolhia as provas. Este simplesmente se limitou a balançar a cabeça e recolher a prova da pessoa ao lado.

Bella colocou a mochila em suas costas e seguiu junto com os outros novatos pelos corredores do quartel-general.

O quartel-general do NSA era simplesmente tão grande e gigantesco que ela não fazia idéia de onde começar e onde ficava o lugar que ela precisava encontrar.

"Claro." Ela pensou enquanto fincava os pés com firmeza no solo. "Com certeza do lado bem oposto aos alojamentos."

Bella não sabia do por que tinha que morar no lugar agora. Seria bem mais fácil manter contato com a máfia se não estivesse presa justamente no território inimigo. Mas Caius havia sido bem taciturno. Nada de comunicações. E também seria uma grande ironia. Sendo que o prédio do NSA servia diretamente para rastrear ligações, principalmente estrangeiras.

Felizmente Bella recebera uma educação logo depois que seus pais morreram que permitiu que resolvesse os testes da prova. Fácil, ela pensou.

Era lógico que sabia quem foram os dez últimos e dez primeiros presidentes EUA. E o que cada um fez? Lógico que sabe. É como se fosse ela mesma que tivesse feito tudo.

Mas ela sabia que o pior ainda estava por vir. O treinamento militar.

O NSA, não era um lugar cheio de soldados, ou mesmo o exército americano. Era um lugar de inteligência, que era responsável por captar todas as imagens, ondas radiotransmissoras, e todas, exatamente todas as ligações do mundo.

Mas a organização queria que os agentes antes de entrar tivessem experiências militares.

Americanos eram totalmente fadados ao 'perfeccionismo', onde existiam 'ursos' técnicos de informática, e cientistas nerds musculosos.

"Olá." Um rapaz totalmente sorridente veio em direção de Bella. Tinha um cabelo encaracolado e olhos cinzentos, e era somente um pouco mais alto que a garota.

"Oi." Ela se limitou a responder.

"Meu nome é Jasper... Prazer."

"Bella." Ele queria fazer algum tipo de amizade com ela? Era melhor não...

"Sabe eu estou feliz que finalmente eles me aceitaram! E olha esse lugar é um tremendo de um filho de um pai, é enorme e..."

"Legal. É. Mas agora eu tenho que ir." Bella desviou dele antes que o tal de Jasper continuasse tentando puxar algum assunto. Eles não estavam mais no colegial, será que era tão difícil das pessoas digerirem isso?

Ela passou por entre os corredores e analisou o lugar calmamente, absorvendo cada coluna, cada parede, entrada, saída, portas, salas e etc. Só que foi limitada somente as áreas que era permitida à entrada deles.

Ela sabia que teria que andar rápido. O primeiro de tudo era descobrir onde era a sala de controle marítimo. Pelo menos a ala do infeliz, ela pensou vendo pela primeira vez os contras daquela missão infiltradora.

"Senhorita..." Ela ouviu o farfalhar da cadeira de rodas de McCarthy antes que ele se pronunciasse. Ela se voltou e bateu continência para o general.

"Evans, general." Ela respondeu prontamente. O novo nome fora Aro que escolhera já que estava empolgadíssimo com a tarefa. Claire Evans fora a decisão final.

"Muito bem novata Evans. Posso saber o que faz nesses corredores?"

"É..." Ela coçou atrás da cabeça em um ato proposital. "Eu estava procurando o... Treino..." Ela brincou com a alça da mochila. "Aqui é grande, né?"

Emmet sorriu sem aparecer os dentes e virou sua cadeira de rodas. "Vou levá-la até lá, novata. E que não se repita."

Bella fechou as mãos em punho, e respirou fundo.

"Idiota, idiota." Seguiu calmamente o general McCarthy até as áreas externas.

Lá o sol despontava no céu, e ela queria tirar aquele chapéu de farda que agora tinha que usar. Está certo que ver pessoas andando de fardas em todos os lados eram no mínimo enjoativos demais.

"Claro..." Pensou com amargura. "Se eu fosse uma colegial, poderia estar achando isso o paraíso."

Para o alívio de Bella outros novatos estavam atrasados, então ela não teria que sofrer nenhuma espécie de humilhação ou bronca.

Porém ao sorrateiramente entrar em seu lugar na fila, viu a figura impotente e totalmente ereta do general Cullen, e apesar de seus olhos não a acompanharem, ela sabia que ele a observava.

"Ele é bom," Ela concluiu com amargura. "E isso só torna as coisas difíceis para mim."

Ela não podia deixar de se sentir desconfortável. Afinal, parecia que o general de alguma forma conseguia ler sua alma, e saber o que exatamente ela estava fazendo ali.

Ao lado de Bella, estava Jasper extremamente excitado com o que quer que ele fosse fazer dali em diante. Bella reprimiu a vontade de rolar os olhos, e colocou as mãos para trás, ao mesmo tempo em que a mantinhas as pernas espaçadas e o olhar fixo no general McCarthy.

"Bom, novatos..." Ele começou parando sua cadeira de rodas. "Vocês há dois dias ingressaram no treinamento. Hoje tiveram o teste escrito, que servirá para provar o quanto de nosso país vocês conhecem. Devo admitir... Que acho que muitos terão que ter reforços de História."

Houve um murmúrio de risadas nervosas, mas Bella continuou passiva.

"Mas... Como reforço dessa matéria vocês já deveriam ter tido, vocês tem consciência de que quem não conseguir a média estipulada pela NSA, irá para casa."

Silêncio total entre as pessoas. Bella pela visão periférica viu Jasper sorrir com o canto da boca, provavelmente pensando que foi o 'melhor da sala' e que levaria vantagens e a admiração dos generais para o resto da vida.

Bella tentou controlar a risada, mas acabou sorrindo ligeiramente. A idiotice de alguns a faziam rir.

Ao levantar os olhos de volta para o general McCarthy percebeu que o general Cullen a observava, e controlando as borboletas em seu estômago, encarou-o firmemente, e mais uma vez sentiu que ele sabia de tudo.

"Não... É exatamente isso o que ele faz com as pessoas. Não se deixe enganar Bella. Você não é mais nenhuma jovenzinha agora."

Sim. Ela tinha vinte e quatro anos. E graças á alguma política de 'não descarte de voluntários' ela fora aceita na organização. Sorte, porque isso pelo menos, os Volturi não tiveram que burlar. Apesar de poder mostrar entre vinte e vinte dois anos, achara melhor não mentir a idade.

O general McCarthy continuou falando e explicando em palavras severas os treinos que teriam que se submeter dali em diante.

"Quem se interessar. Temos nosso campeonato de boxe no final da estação. Homens e mulheres podem jogar contra sargentos. E devemos informar que o general Cullen é o vencedor notório em quatro anos consecutivos em sua categoria."

Houve uma série de assovios de admiração, e para total desafogo de Bella, o general Cullen continuou com a mesma expressão dura e inflexível de sempre. Nem um sorriso, nem um aceno, nem ao menos um gesto de que tinha ouvido o que eles estavam falando e sobre quem.

Mas Bella sabia que ele era o mais atento de todos.

"Por Deus," Ela pensou assombrada. "Ele será um grande problema aqui dentro."

Bella se submeteu a uma série de treinamentos regulares. Como pular intermináveis cordas, atravessar um caminho de pneus, outro somente com o apoio dos braços, se arrastar no chão, pular sobre um rio, nadar quinhentos metros, e tudo isso sobre a vistoria de subordinados que controlavam o tempo e anotavam o desempenho.

Os dois generais, Cullen e McCarthy estavam afastados tomando um café e observando o desempenho dos novatos.

"Em quem você aposta esse ano, Cullen?" McCarthy perguntou descascando uma banana e comendo.

Edward ficou pensativo por um longo tempo, até responder: "Na novata Evans."

"Oh, bom chute." McCarthy completou pegando ela com o olhar. "Se bem que ela está com um bom desempenho. Até melhor do que alguns dos novatos."

Edward nada respondeu. McCarthy suspirou.

"Eu apostaria no novato Newton, mas infelizmente você já o despachou."

"Acho que eu também terei que arranjar outra aposta, McCarthy." Edward respondeu taciturno enquanto pegava o bastão preto que sempre carregava consigo e se levantava. "Acho que Evans não passa nem na prova escrita."

Colocou óculos escuros para proteger os olhos do sol, e caminhou a passos firmes até onde ocorriam os treinos.

Os iniciantes tentavam dar o melhor de si no primeiro dia de treino, sendo que aquilo era somente o aquecimento. Acabariam exaustos, cansados e não agüentariam os primeiros dez minutos do dia do acampamento ou do treinamento na selva.

Bella não pôde deixar de sentir as borboletas se revirarem em seu estômago mais uma vez, ao ver que o general Cullen se aproximava.

Talvez fosse para desmascará-la, expulsá-la, humilhá-la ou prendê-la. Ela não tinha idéia do que faria, e se sentia uma ridícula estando ali totalmente a mercê do inimigo.

Ela se apressou á diminuir o tempo entre uma passada de corda e outra. O suor já se formava ao redor de sua nuca, e um subordinado ao seu lado contava quantos pulos ela conseguia dar por minuto.

O general Cullen se prostrou em frente á ela com a sempre mesma expressão e ela se perguntou mais uma vez se alguma vez na vida ele sorrira.

"Está devagar." Foi o que falou. Bella não pôde deixar de esconder a indignação perante á fala do general. Ela estava mais rápida do que qualquer outro ali presente, e Deus, ou o subordinado sabia quantos pulos ela já tinha dado.

Bella de repente sentiu ódio do homem alto e impotente que com as pernas espaçadas e os braços cruzados de encontro ao peito, a encarava como se ela fosse... Lixo.

"Sim, general." Ela retrucou tentando não manter a voz ofegante. Aumentou o ritmo da corda e logo sentiu a região da batata da perna apontar um pouco.

"É assim que pretende defender o nosso país? Você continuaria nesse ritmo se fosse para defender sua vida?" O general ponderou com a voz severa.

Bella somente o olhou, e com determinação, aumentou ainda mais o ritmo.

"Pelo que eu vejo sua vida não vale muita coisa para você." Ele continuou.

Bella aumentou mais ainda o ritmo, o suor escorria por sua face, e as pernas já começavam a protestar arduamente. Ela não podia mostrar fraqueza diante daquele homem. Ela sabia que era exatamente o que pretendia, e logo depois a expulsaria do treinamento e indiretamente da missão.

Bella se encontrava rezando internamente para que o general saísse dali e ela pudesse parar o treino sem sua visão. Ela estava usando todo o resto de suas forças para permanecer no ritmo alucinante em que se encontrava, e apesar de seu preparo físico, até aquilo era demais.

"Talvez você seja velha demais para isso. Talvez seja hora de deixar pessoas que realmente querem e consigam entrar, entrarem."

Os dentes de Bella trincaram em raiva e ela praticamente forçou as pernas a continuarem pulando e as mãos a continuaram girando a corda ao seu redor.

Mas parecia que seu próprio corpo não estava ao seu lado, e estava a desobedecendo. "Não... Não..." Ela tentou até aumentar o ritmo, mas quando ela se deu por si, estava no chão de quatro, com a corda do lado e o suor escorrendo de sua face.

Ela só via os sapatos do general, e sabia que nesse momento ele deveria estar vitorioso com sua vitória sobre ela. Mas ela não deixaria barato... Se tudo iria se perder, tudo bem, mas ela não ficaria naquela humilhação e nem mesmo com esse nível tão baixo de dignidade.

Virou seu olhar para encarar o general, esperando encontrar um sorriso malicioso e uma expressão vitoriosa, mas tudo que encontrou, foi à mesma maldita expressão severa de sempre.

Ele nem ao mesmo pareceu surpreso com seu olhar determinador.

"Se sou tão velha, general, e não tenho tanta força física, posso saber o segredo para alguém mais velho do que eu conseguir um bom desempenho?" Ela provocou. Ela sabia que o general estava beirando os trinta anos.

Ela pensou ter visto uma fagulha de ira iluminar os olhos do general, mas logo ele respondeu com a mesma voz severa.

"Não sou de demonstrações, sou de ações, novato." Bella sentiu o sangue borbulhar nas veias. Por que ele tinha que ser tão sério o tempo todo? Por que diabos ele não poderia dar nem um sorriso vitorioso? Ou mostrar QUALQUER outra expressão? Qualquer outra?

A vontade que Bella tinha era de aborrecê-lo. Fazê-lo perder os limites da razão, fazer algo incoerente, algo que não estivesse incluído em alguma maldita regra ou um maldito modo de comportamento.

Era o que Bella mais desejava no momento.

"Acho que devemos ter alguma inspiração, aliás, como conseguiremos ultrapassar nossos limites, se não sabemos até onde eles vão?"

Ela pensou que finalmente tinha conseguido. Que finalmente ele gritaria com ela, iria expulsá-la da NSA. Mas tudo o que ele fez foi observá-la como se visse sua alma, daquele modo que a deixava tão vulnerável e que odiava.

"Duzentos abdominais, novata." Ele disse simplesmente antes de girar os pés e sair caminhando em direção ao general McCarthy.

"É com abdominais que chegamos ao nosso limite?" Ela gritou extasiada e totalmente frustrada atrás dele.

Ele não se virou, somente disse:

"Agora são quinhentos."

Bella observou a figura impotente do general se afastar, e com um largo suspiro deitou na grama e começou os abdominais, ignorando a dor que estava vindo de seus braços e pernas.

Ela não podia mostrar mais fraqueza. Não. Nunca mais.

O general Cullen a estava fazendo se desviar de sua missão, desviar do que ela deveria fazer, e ela não queria isso.

Mas por outro lado, ela queria provocá-lo, brigar com ele, tirar pelo menos outra expressão que não fosse à dura, severa e patriótica que existia no rosto daquele homem.

Nem que fosse um grito de ira, ela tiraria alguma coisa do general Edward Cullen. Nem que fossem aquelas malditas três estrelas do peito.

"Céus!" Ela pensou enquanto mordia os lábios para não gritar, na qüinquagésima contração.

Ela odiava o general Cullen.

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